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Introdução / Introduction
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Não importa o dicionário que pesquisemos, não nos será possível encontrar uma palavra insular para definir o escritor inglês Alan Moore, seja como pessoa, seja o que ele significa para o mundo da Oitava Arte.
Desde seu tratamento pos-moderno para o velho super-heroi Marvelman nas paginas da extinta revista inglesa Warrior, Alan Moore iniciou de forma inquestionável, o renascimento dos Quadrinhos, uma verdadeira revolução do gênero, valendo-se unicamente de seu privilegiado cérebro e de suas mãos.
Desde sua verdadeira re-invenção de O Monstro do Pântano em 1983 – então, também no ostracismo –e dos emblemáticos Batman e Super-Homem, passando pela magnus-opus Watchmen, até o sombrio e perturbador From Hell,ele nos permitiu, como leitores e fãs, usufruir do gênero levado ao apogeu de seus potenciais.
Embora muitas vezes um tanto altivo ao falar de sua obra, todos os jornalistas e autores – e são centenas ! – que já o entrevistaram pessoalmente ou mesmo em longas chamadas internacionais, são unânimes em salientar ser o gigante barbudo de Northampton, além de um roteirista excepcional, uma pessoa amável, atento, divertido e sumamente inteligente.
Se ele fala sempre com grande segurança de sua obra, o faz embasado em sua experiência de mais de vinte anos nos quais praticamente desconstruiu, modificou e reconstruiu o gênero. E é visível também em seu papo uma certa ironia e um tom relaxado, transmitindo `as vezes uma impressão de que não leva a sério nem a si próprio.Só impressão...
Instado sobre a filmagem de suas obras, Moore faz questão de declarar-se à parte de qualquer projeto neste sentido, tratando-as peremptoriamente como "suas" e os prováveis filmes delas resultantes como "dos seus produtores", ciente que é das peculiaridades e qualidades únicas dos Quadrinhos que, por obrigar ao leitor usar seus dois hemisférios cerebrais para unir texto à imagem no processo de leitura, se revelou também o veículo mais eficiente para fins didáticos - conforme pesquisas do Pentágono sobre a melhor forma de ministrar ensinamentos militares aos seus comandados.
Em seu longo ensaio "Sobre Escrever para os Quadrinhos" (na revista americana The Comics Journal), Alan Moore reforçou esta qualidade: "Ao invés de comparármos sempre os Quadrinhos ao Cinema ou à Literatura, com o intuito de que a respeitabilidade destes conceda àqueles mais legitimidade, não seria muito mais produtivo concentrar a nossa atenção justamente nos aspectos e nas técnicas em que os Quadrinhos são únicos e especiais? Em vez de insistirmos nas técnicas cinematográficas que os Quadrinhos podem duplicar, não seria mais profíquo considerarmos mais as técnicas destes que o cinema não pode imitar? ".
E ele não ficou só na teoria. Um explícito exemplo do que ele propôs é sua HQ "Como as Coisas Acontecem", em parceria com Rich Veitch (de O Monstro do Pântano), na revista portuguesa Comix nº 4 (Devir Livraria). Nela, temos uma estória passada num edifício de 4 andares, em que cada pagina tem 4 tiras, cada uma representando um dos andares, ou seja, a tira de baixo é o térreo; a de cima, o primeiro andar, etc....Mas temos ainda mais um complicador: cada tira, na mesma ordem precedente, também representa um tempo distinto, ou seja, no térreo a estória se inicia em 1939, com o prédio ainda novo e introduzindo-nos os personagens; no primeiro andar já estamos em 1959, as personagens 20 anos mais velhas e o prédio idem; até o quarto andar, em 1999, com os personagens (pelo menos os que "sobreviveram") e seus descendentes concluindo a trama.. Uma grande mostra de metalinguagem, lembrando bons momentos do papa Will Eisner e, com certeza, outra das epifanias do hippie gigante de Northampton.
Emfim, caro fã, em que pese a lamentável estanqueidade do gênero e o desprezo da chamada cultura erudita, Alan Moore, que já deu mostras inequívocas de seu potencial mesmo para a literatura mainstream com"A Voz do Fogo"(Conrad Editores-2002), recusa a abandoná-lo, fazendo ouvidos de mercador ao canto da sereia hollywoodiana e mantendo ferrenhamente a sua integridade.
E é movido por esta mesma paixão pelas HQ que, depois de muitos contatos e compilação de uma vasta documentação, resolvi iniciar o projeto maluco de escrever o que será talvez o primeiro livro em português – quiçá da América Latina – sobre sua obra revolucionária e, para amenizar o doloroso caminho que se faz de joelhos entre o esboço e o trabalho final, criei este site em sua homenagem; Espero ter uma participação ativa de todos os seus fãs que, como eu, se sentem gratificados e com certeza, acrescentados de alguma coisa após ler quaisquer de suas obras.
E que este site contribua de alguma forma para uma maior divulgação das mesmas, incentivo à sua leitura e estudo e, muito importante, motivem as editoras brasileiras a continuar a nos brindar com a sua publicação – e é sabido que temos muito ainda a conhecer, como os místicos The Birth Caul e Snakes and Ladders; a própria continuidade de Miracleman/Marvelman; a brilhante A Small Killing; a polêmica Brought to Light; os recém-lançados The Courtyard e Urban Romance; The Mirror of Love; Lost Girls...e muita coisa mais (ainda mais se sabendo que ele está escrevendo outro romance, com o título provisório de A Grammar (também uma psicogeografia de Northampton); uma graphic-novel em 7 volumes sobre a história da Magia; uma homenagem a H.P.Lovecraft, entitulada The Hulgott Cultures).
Ele é o melhor. Simplesmente o melhor.
O site é uma obra aberta, portanto, e convoco a todos a participarem, enviando opiniões próprias em forma de artigos e ensaios que serão devidamente apreciados .Heil to the Mighty Moore!.
José Carlos Neves
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Carlos Neves
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