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Entrevistas / Interviews
QUADRINISTA E.C.NICKEL
por José Carlos Neves
preconceito
quanto a autores nacionais na literatura de entretenimento mais popular (daí as
centenas de títulos de bolsilivros publicados pela Editora Monterrey e outras,
cujos autores, como o prolífico Elias do Soveral,
se escondiam por trás de pseudônimos xeno-sonoros
como K. O. Durban, Lou Corrigan, Marcial Lafuente Estefania...) Também nos
Quadrinhos, me lembro bem que,
quando comecei a lê-los e aprecia-los, não pude evitar a “colonização “
. Então, nomes brasileiros nos créditos já eram suficientes para eu não me
interessar muito. Os roteiros eram fracos (quando existiam) e os desenhos, como
eu cheguei a comentar com o mano Cerito na época, por melhores que fossem, eram falhos tecnicamente
(luz-e-sombra, perspectiva e, principalmente, Anatomia, coisa que os gringos,
por piores que fossem, dominavam com maestria...na minha ótica de então,pelo
menos). Ai surgiu a revistinha ( o diminuitivo não e´ pejorativo, mas se
refere ao famigerado “formatinho”, que todos nos detestávamos...) SPEKTRO,
da editora Vecchi, sobre a batuta eficiente de Otacílio
D’Assunção, o Ota. Nos números iniciais, ainda predominavam os
gringos, John Byrne em seus primórdios, entre outros. E um tal de E.C.Nickel, num desenho bem
parecido com o de Barry Windsor-Smith (do Conan preto-e-branco da Roval Editora.
A anatomia, os enquadramentos, e, notadamente, os perfis e as bocas, era puro
quadrinho gringo, com certeza. Ai
apareceu um tal de Watson Portela, com seu desenho lindíssimo, perfeito, limpo
e aquele sim, era genuinamente nacional, nordestino
cabra-da-peste (como muitos outros que se seguiram, Emir “Velta “ Ribeiro, “Mike”
Deodato, para ficar nos mais falados...Bem, isto e´ outra historia.
Voltando ao Nickel, qual
não foi minha surpresa ao descobrir tempos depois, que ele era brasileiro, sim.
Cheguei a entrevista-lo para o nosso fanzine Hiperespaço, mas agora o
redescubro para esse papo virtual em nosso site, destacando que ele esta com um
álbum prestes a ser publicado pela Opera Graphica, com uma série de HQs de um
super-herói que criou e esta´ trabalhando em um outro, de FC, “com roteiro
de um cara que ainda vai dar o que falar nas HQs nacionais: Alexandre Lobão
“, informa, não escondendo o
entusiasmo.
Eloir
Carlos Nickel – 49 anos – São José dos Pinhais-PR – A origem do
sobrenome é alemã e significa mesmo o metal, níquel. Sou formado em Ciência
Contábeis pela UFPR, embora tenha exercido a profissão por pouquíssimo tempo.
Fui empregado da Petrobrás Distribuidora durante 26 anos. Sou casado e tenho três
filhos.
influenciaram?
Sou apaixonado pelos quadrinhos desde que me entendo
por gente. No início, Bolinha, Pato Donald, etc. Depois HQs de desenho mais
realista: Batman, Superman, os saudosos Águia Negra, Cavaleiro Negro, Flecha
Ligeira, Capitão Marvel, etc. da Rio Gráfica. Depois chegaram os Super-Heróis
Marvel e eu pirei de vez!... Jack Birby, Gene Colan, John Romita e John
Buscema, só para citar alguns, me marcaram profundamente com a sua arte
genial. Seguindo a concorrente, a DC revitalizou seus personagens e começou a
mostrar trabalhos de artistas magníficos como Neal Adams e Nick Cardy. E eu não
perdia nada do que a saudosa Ebal publicava na época. Ao mesmo tempo, descobri
a Ficção Científica e lia tudo em que conseguisse por as mãos. Meus autores
favoritos no gênero são Robert A. Heinlein, Clifford D. Simak, Philip Jose
Farmer, Philip K. Dick e Jack Vance.
-Sobre a evidente
influencia de Barry Windsor-Smith, o que tem a nos
dizer? O que, especificamente, o atraiu na arte do genial artista inglês?
Lembro
da primeira vez que vi um trabalho de BWS: Foi o nº 1 da revista Conan,
publicada pela M&C. O roteiro de Roy Thomas era perfeito, o personagem era
impressionante mas a arte... me fez literalmente babar!... A forma como ele
representava aquele mundo bárbaro e seus habitantes era de uma criatividade e
beleza indescritíveis!... E a anatomia estilizada e personalíssima tinha um
contraste imenso com o meu artista favorito na época, o genial John Buscema o
qual, na minha opinião, não faria feio pintando o teto da Capela Sistina!...
É claro que a influência de Jack Kirby nos primeiros trabalhos de Smith é
evidente. Seu estilo mudou com o tempo mas, para mim, ele continua o melhor
desenhista de quadrinhos de todos os tempos.
Minha primeira HQ publicada foi numa revista da
Grafipar: Perícia. Chama-se “Enterrado Vivo”.
Quando
o Otacílio começou a publicar material nacional na revista, não perdi tempo:
Enviei várias HQs de terror e FC pelo correio e felizmente foram práticamente
todas aceitas. É pena que aquele período áureo tenha durado tão pouco. Muita
gente boa teve trabalhos publicados na Vecchi: Olendino
Mendes, Mozart Couto, Watson Portela, só
para citar meus favoritos. O que me orgulha mais naquelas HQs são, na
realidade, os roteiros. Sei que os meus desenhos deixavam muito a desejar. Creio
que evoluí muito nesta área nos últimos tempos mas, como não publico há
muito tempo, os leitores ainda não puderam avaliar isso e me dar o necessário
feed-back.
-E depois dela, onde
mais publicou? Me parece que você não participou da “geraçao-Grafipar”, não
foi? Porque?
Tive poucos trabalhos publicados na Grafipar. A linha
altamente erótica da editora nunca me atraiu. Nada contra quem faz, só que não
é minha praia, definitivamente. Tive HQs
publicadas pela Press, Maciota e ICEA, além de um roteiro meu, com desenhos de
Mozart Couto na revista Aventura e Ficção da Abril.
--Sabe dos “paradeiros” do Mano (Spektro),
Padrella, Seabra, Seto, Bonini, o grande Watson, o frazetiano
Rodval Matias, Jonas Schiafinno? Há tempos procuro (re) contatar esse pessoal.
Nunca tive contato com estes artistas que citou, exceto o Cláudio Seto e não sei como contatá-lo.
-Voce já publicou
no Exterior? (em caso afirmativo, como se deu? Foi respeitado em seus direitos,
recebeu direito os pagamentos?)
Não. Quem publicou foi enganado pelos gringos?...
A boa ficção científica é instigante, apaixonante
e nos liberta da mesmice do nosso dia-a-dia, com incríveis voos de imaginação.
Citei meus autores preferidos acima.
-E desenhistas, quais
foram os que mais admirou no inicio? E atualmente? Porque?
Já respondi esta. Dos desenhistas atuais, gosto muito
do John Romita Jr., Steve Rude e principalmente do Jose Ladronn: É puro Kirby
mas, paradoxalmente, não é cópia. A influência do mestre só vai até onde
ele permite. Coisa que só gênio é capaz de fazer.
-Quando foi seu primeiro contato com o trabalho de Alan Moore e qual obra lhe causou algum impacto especial?
O Monstro do Pântano. Depois Miracleman, Watchmen, V
de Vingança e Piada Mortal. Todas são obras-primas, clássicos dos quadrinhos.
O maior impacto foi com Piada Mortal, pela crueza e perversidade do vilão. Até
então, o Coringa não passava de um palhaço inofensivo...
-.Qual trabalho do mago bardo de Northampton que você considera sua obra-prima e porquê?
Não
conheço toda a obra do Moore. Gostei muito de Tom Strong e Liga Extraordinária.
A obra-prima continua sendo Watchmen, na minha opinião.
-Ao
seu ver, quais foram as inovações mais importantes do autor?Especificamente
sobre Watchmen e sua instigante forma
narrativa – já apelidada de O Cidadaõ Kane da Nona Arte –
o que tem a nos dizer?
Acho Alan Moore um verdadeiro gênio. Não é fácil
inovar completamente um gênero literário tão enraizado na cultura popular.
Stan Lee tentou transformar os super-heróis em seres humanos de carne e osso
mas só Alan Moore realmente conseguiu isso. Os super-heróis de Lee ainda estão
muito acima da humanidade, muitas virtudes e pouquíssimos defeitos. Moore
consegue equilibrar melhor isso.
---E From Hell, você acha que Moore conseguiu atingir plenamente seu
intento de
Desculpe,
por incrivel que pareça, não li From Hell ainda.
Também não vi o filme, nem o da Liga. Versões de quadrinhos para o cinema não me atraem muito. Acho que já fiquei muito frustrado anteriormente.
Os
colantes têm a única finalidade de mostrar a musculatura dos heróis e as
curvas das
heroínas, que são muito legais de desenhar. Afinal, o corpo humano é a coisa
mais bonita criada por Deus. Super-poderes são sonhos e aspirações de todo
ser humano. Assim, não vejo nada de imaturo nisto. Continuo um fã ardoroso do
gênero, tanto que concluí recentemente várias HQs de super-herói que deverão
ser publicadas em formato de álbum pela Opera Graphica em 2004. Pelo menos esta
é a promessa do Franco de Rosa. Não acho que
Alan Moore tenha “destruído o gênero com Watchmen”. Pelo contrário, acho
que ele contribuiu muito em enriquecer a profundidade dos personagens e criar
novas mitologias.
Sou um materialista e agnóstico convicto, embora creia na existência de um ser ou seres tão superior(es) a nós que tenham criado o Universo em que existimos. Mas essas questões estão tão além de nossa compreensão que considero inútil e até prejudicial à nossa sanidade mental pensar muito nelas. Gosto da magia e do sobrenatural apenas como tema de obras de arte, quadrinhos inclusive.
Só sei que ele passa muito rápido...
--O físico
britânico Stephen Hawking também considera o tempo como um sólido, onde tudo
esta´se passando simultaneamente, portanto, se pudéssemos “se examinados”
por um ser “fora do tempo”, ele nos veria como uma gigantesca centopéia,
com milhares de pernas e braços e cabeças, se esticando desde de um bebe ate´
um velhinho, por todos os lugares – e tempos – por onde já
passamos – mais ou menos como Kubrik tentou visualizar no antológico
final de seu “2001”.--Como você imagina um ser ou objeto (como o Tesserato)
da Quarta Dimensão? (se pudesse aparecer a nos, pobres materializações
tridimensionais que somos ?
Esta
está além dos meus conhecimentos responder.
Talvez essas dimensões mais elevadas nem sequer
existam. Quem sou eu para dizer?...
-O que tem feito
atualmente e quais seus novos projetos?
Estou comercializando quadrinhos, livros e CDs pela Internet, para ajudar no orçamento e desenhando muito. Tenho uma parceria muito interessante com um roteirista de Brasília, Alexandre Lobão, que já rendeu algumas boas HQs. Atualmente estou trabalhando numa HQ de 46 páginas de ficção científica, com roteiro dele, que esperamos publicar em formato de álbum.
Infelizmente perdi contato com os fanzines já há um bom tempo. Sempre dei a maior força a esse pessoal entusiamado e batalhador, como você, por exemplo.
Já, mas ainda não tive tempo.
Bons: Ter nascido, lido muitos livros e quadrinhos ótimos, ter casado com uma mulher maravilhosa e tido três filhos saudáveis e inteligentes, Ter escrito e desenhado HQs de que me orgulho.
Mau:
A morte de meu pai.
A arte. Fazer alguma coisa realmente marcante.
Para mim é impossível responder isso. Os avanços são tão rápidos que até previsões para o próximo ano são arriscadas, mesmo feitas por experts.
Ah se eu pudesse responder isto ou sequer imaginar...
Não acho que o
ser humano esteja evoluindo como deveria neste aspecto. Leia ou assista um
noticioso e você verá que tudo é motivado por ganância, busca de poder
e corrupção. A mesquinhez do ser humano é cada vez mais evidente. A
redenção, a meu ver, está na arte e no amor, ainda presentes e tão pouco
explorados no interior de cada um de nós.
É tudo questão de estilo. Há gostos e, conseqüentemente,
mercado para as mais diversas formas de arte nos quadrinhos. A estética Image
nunca me agradou, pessoalmente, e alguns roteiros são verdadeiramente abomináveis,
confusos e sem criatividade. Também há
coisas muito boas produzidas por eles. Na verdade, isso serve para Marvel e DC
também. Serpieri é um artista de enorme talento. É outro departamento. Gosto
muito do desenho dele.
Não
conheço esta série. Como disse, para mim, magia é apenas um ótimo tema para
quadrinhos. Sou totalmente incrédulo a respeito.
Em cinema: Alien, o Oitavo Passageiro e Blade Runner
me atingiram em cheio e foram obras inovadoras, principalmente no lado estético.
Nos
quadrinhos, a estranheza e melancolia da obra de Enki
Bilal, a luz que irradia dos desenhos de Moebius e o vigor e elegância
dos traços de Barry Windsor-Smith.
Nunca, de forma alguma.
-Voce sempre batalhou arduamente por um autêntico Quadrinho nacional. Ele existe?
Minha
única batalha foi tentando superar minhas próprias limitações. O quadrinho
nacional existe sim. Provas vivas são Mozart Couto e Watson Portela e suas
respectivas obras.
-O que você acha que dificulta para o quadrinista brasileiro sobreviver de sua arte? Falta de talento ou de mercado?
Mercado, sem dúvida. Não somos competitivos em
termos de produção com os estrangeiros. Nosso mercado é limitado pela própria
condição econômica e cultural do Brasil. Assim, os enlatados tomam conta
dessa pequena fatia de mercado. Se ele fosse mais amplo, haveria mais espaço
para os nossos criadores desenvolverem seu talento.
-Voce
também acha que o nosso artista
“se vende” quando passa a publicar no Exterior, nos EUA principalmente,
adequando-se ao estilo e mudando até mesmo de nome?
Claro
que sim!... E daí?!... É muito prazeiroso criar belos desenhos. Mas não tem
graça deixá-los engavetados. O ideal é que eles sejam vendidos e admirados
pelo maior número de pessoas possível. Atualmente, a vitrine mais adequada são
os comics americanos. Aplaudo e vibro muito com o sucesso de nossos artistas lá
fora. Se conseguiram isso, foi únicamente graças ao próprio talento e esforço.
(Rei Conan no lapis de Barry Windor-Smith)
Atualmente, só em sebos. Espero que isso mude a
partir de 2004.
--O prolífico estudioso americano dos comics, Scott McCloud (“Entendendo os Quadrinhos”) tem procurado apontar novos caminhos que esta arte maravilhosa podera´ seguir. E você, qual futuro antevê para a nona Arte? Sairá do papel e existirá só digitalmente, incorporando técnicas do cinema e se metamorfoseando quase num desenho animado, ou são únicos, universais e eternos como sempre foram?
Andei estudando e pesquisando muito quadrinhos em
formato digital nos últimos tempos. Scott McCloud dá verdadeiras aulas no seu
site e mostra alguns ótimos trabalhos. Estava tão entusiamado com a idéia que
até criei, em Visual Basic, e registrei um programa para visualização de
quadrinhos na tela do computador, chamado “Quadroid”. Quando o mostrei para
o Franco de Rosa o veredito foi claro e retumbante: “Quadrinho em CD-Rom não
vende.” No início discordei e fiquei muito desapontado mas tive que me render
à sabedoria do meu experiente amigo Franco. A verdade é que ler quadrinhos num
monitor não é tão agradável quanto no papel e isto é inquestionável. A
portabilidade do gibi e o prazer atávico do toque manual são insubstituíveis,
além do gibi ser um ítem colecionável, o que não se pode dizer de um CD-Rom,
por enquanto. A própria facilidade de reprodução é uma desvantagem, neste
caso. Andei fazendo também algumas animações com o Flash, um ótimo software,
com resultados bastante animadores. Pretendo desenvolver mais isso, no futuro.
Mas aí já não será quadrinho e sim animação pura.
Não me arrisco a previsões, mas creio que vai
demorar muito tempo ainda para os quadrinhos migrarem do papel para o formato
digital, de forma definitiva, pelo menos.
-Quais sites da web você visita com freqüência?
Navego muito pouco. Pura falta de tempo. Uso a
Internet mais para minhas vendas.
-Qual foi a experiência mais louca que você já experimentou na vida?
Na maior parte
do tempo, sou um cara extremamente conservador e racional, não muito dado a
loucuras.
-Qual foi o sonho mais louco que você já teve?
Impublicável!...
- Militando há tanto tempo “no ramo” você pode dizer que valeu – ou vale – a pena?
Tudo vale a pena, se for feito com dedicação e
prazer. Sou muito feliz com minhas pequenas vitórias, as palavras de incentivo
de quem aprecia meu trabalho e a esperança de criar uma obra realmente marcante
no futuro.