ALAN MOORE     Senhor do Caos  /   Lord of Chaos
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Entrevistas  /  Interviews


 ROTEIRISTA (GLOBO) E ESCRITOR  MAX MALLMANN

                                                                                                       por José Carlos Neves

 

Considerado um dos nossos críticos mais cáusticos e elitizados — um verdadeiro Diogo Mainardi do gênero — é inequívoco igualmente que Max Mallmann é um dos nossos escritores mais eruditos. Já no seu 4º livro, um deles com edição francesa, o escritor  trabalha como roteirista da TV Globo – são dele a novela "Coração de estudante" (2002) e episódios da soap opera adolescente  "Malhação" (2001/2002). Minha primeira intenção ao entrevistá-lo, confesso, realmente foi a de tentar absorver um pouco do seu conhecimento.

Caro amigo José Carlos, tem certeza de que você enviou a entrevista pra pessoa certa? É que não me considero cáustico, nem elitizado e muito menos um clone do Diogo Mainardi (cruz credo!). Sobretudo, e isso é mais importante, não sou e nunca tentei ser crítico literário — e nem ensaísta. Sou um ficcionista mesmo, com predileção especial pela narrativa longa. Quase nunca escrevo resenhas literárias. A mais recente, ao que me lembro, foi sobre o livro "O médico e o monstro", publicada no site da Intempol (em http://www.intempol.com.br/NewsView.aspx?id=29).

 

— Teve uma sobre um conto do Carlos Orsi Martinho, que achei  bastante apropriada. Caro Max, sua idade, estado civil, filhos e atuação  profissional, por favor?

Tenho 35 anos, sou casado há 12 com a escritora Adriana Lunardi e não tenho filhos. Trabalho há cinco anos como roteirista de televisão na TV Globo. Nasci em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, e vivo no Rio de Janeiro desde 1999. Moro na Lagoa Rodrigo de Freitas e meu apartamento tem vista para o Parque da Catacumba. Posso ver, da janela do meu quarto, macaquinhos saltitando entre as árvores. Espero que os macaquinhos estejam lá mesmo. De qualquer modo, ainda que seja alucinação, a paisagem é agradável.

 

— O quê e quando iniciou seu interesse pela Literatura, FC, Quadrinhos e Cultura Pop em geral? Na infância você lia muito, tanto HQ quanto Literatura mainstream? Pode citar autores e obras que o influenciaram?

Sempre li muito, e de tudo, desde pequeno. Acho que o primeiro autor que me influenciou foi o Carl Barks, dos quadrinhos da Disney do Pato Donald e do Tio Patinhas. O segundo foi o Monteiro Lobato, que li aí pelos 9, 10 anos. Depois vieram Alexandre Dumas, Conan Doyle, Isaac Asimov, Ray Bradbury e muitos outros, até que, aos quinze anos, descobri "Ficções", do Jorge Luiz Borges, que determinou os rumos de toda a minha vida dali em diante.

 

— Como se iniciou profissionalmente no gênero e qual foi sua primeira atividade?

Na literatura, minha estréia profissional foi em 1989, quando publiquei meu primeiro romance, "Confissão do minotauro", através de um concurso do Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul. Depois, em 1996, lancei "Mundo bizarro", pela Mercado Aberto, de Porto Alegre. Em 2000, "Síndrome de quimera", meu terceiro livro, foi lançado pela Editora Rocco, do Rio de Janeiro. E este ano de 2003 tem sido bastante agitado. Em outubro, "Síndrome de quimera" foi lançado na França, pela Éditions Joelle Losfeld, um selo da Éditions Gallimard. E, no comecinho de novembro, saiu, também pela Rocco, meu livro mais recente, o romance "Zigurate — uma fábula babélica".

                                                                                                                 Jorge Luis Borges

— Sua ficção é permeada de “símiles”. Quais são os seus métodos criativos para escrever?

Meu método básico é tentativa e erro. Tenho uma idéia, faço anotações, pesquiso, começo a escrever... Daí podem acontecer duas coisas: ou eu desisto, porque a idéia não me seduz mais, ou vou em frente, faço gráficos e diagramas, monto toda a história na cabeça e vou até o final. O mais comum, naturalmente, é que eu desista. Mas acho bom assim. E a experiência tem me ensinado a perder menos tempo com idéias que não vão dar certo. Aprendi a não confiar muito nos meus entusiasmos passageiros.

 

— De onde tira suas idéias?

Das minhas neuroses, da minha hipocondria, das minhas obsessões, da observação do dia a dia... De algum lado, a idéia vem. E ter idéias não é difícil. Brabo, mesmo, é transformar a idéia num trabalho que tenha um mínimo de qualidade literária.

 

— Você acha que sua ficção tem uma ética? Qual? Ou isto não é um fator a considerar?

Meu senso moral é meio esquisito porque não tenho ética. Tenho estética: existem coisas que eu não faço porque são feias. E é assim que me guio pela literatura e pela vida.

 

— Fale-nos sobre seu livro “Síndrome de Quimera” (leia resenha abaixo) qual foi a sua repercussão e feedback prático, digamos assim (para deixar de fora a vaidade e satisfação pessoal inerentes) de sua publicação?

A repercussão de "Síndrome de quimera" superou minhas expectativas. O livro vendeu bem, foi adotado por um programa governamental de livros didáticos e paradidáticos, foi publicado na França e recebeu resenhas elogiosas na grande imprensa, principalmente no Estadão e no Jornal do Brasil.

 

— O que tem feito atualmente e quais seus novos projetos?

Tenho feito pouca coisa. Ainda me sinto muito envolvido com o universo ficcional de "Zigurate", o que me trava um pouco para pensar em novos projetos. Faço anotações, penso... E, bom, na verdade, tenho me dedicado ultimamente a um pequeno site sobre o "Zigurate". O site está em construção ainda, mas dois personagens do livro já tem blogs. Os leitores podem até se corresponder com esses personagens. A URL do site é www.zigurate.com

Na TV Globo, por enquanto, não estou envolvido diretamente em nenhum programa que esteja no ar. Trabalho no "Catálogo de Histórias", que é uma espécie de central de idéias da emissora. No Catálogo, leio e analiso roteiros, sinopses e livros que podem ser adaptados como minisséries.

 

— Você considera que a sua conhecida e respeitada erudição se deve a uma formação acadêmica, ou é possível chegar-se a ela apenas pelo autodidatismo? De que forma?

Olha, Neves, obrigado pelos elogios, mas não me considero tão erudito assim. E minha formação acadêmica tem pouco a ver com minhas atividades profissionais. Sou formado em Direito, tenho a carteirinha da Ordem dos Advogados e tudo, mas nunca exerci a profissão. Então, pode-se dizer que sou autodidata. O pouco que sei, aprendi batendo cabeça sozinho nas paredes da vida. Algumas dessas paredes eu até consegui derrubar, o que prova que ter cabeça dura às vezes é uma virtude.

 

— Pelo menos um outro ponto em comum: também sou graduado em Direito,com a carteirinha da OAB e tudo mais...Mas nunca exerci.Como vê e rebate as críticas de que a sua erudição é elitizada, que valoriza mais o estilo em detrimento do conteúdo?

Existem essas críticas? Sinceramente, nunca ninguém me disse isso. Aliás, meus medos sempre apontaram pro lado oposto: eu tinha receio de que me achassem "pop" demais, rocambolesco demais, e de que ninguém iria me considerar um escritor sério. De 2000 pra cá, no entanto, mais e mais gente demonstra respeitar meu trabalho, embora eu mesmo faça questão de jamais me levar muito a sério, pra não ficar sisudo.

Quanto a valorizar o estilo em detrimento do conteúdo, o caminho não é bem por aí. Valorizo as histórias bem contadas. Só que, pra contar bem uma história, é preciso ter um domínio razoável de certas noções tais como caracterização de personagens, foco narrativo, construção de frases, ritmo... Afinal de contas, se for só a idéia pela idéia, o filme "Cidadão Kane", do Orson Welles, pode ser contado numa frase: "pouco antes de morrer, milionário se lembra do trenó que tinha quando era um menino pobre". E o filme é bem mais do que isso, não é?

 

— Quais os seus comentários (e, por favor, pode falar a vontade) sob a ótica da critica literária a obras seminais, mas que muita gente cita sem nunca ter lido — ou abandonou-as sem compreendê-las — como: Ulisses e Finnegan's Wake, de Joyce; Em Busca do Tempo Perdido, de Proust; Tristam Shandy, de Laurence Sterne; A Montanha Mágica, de Thomas Mann e algumas outras de Virginia Wolf, E.L. Doctorow, Faulkner?

"Ulisses" é um monumento literário. E, como vários outros monumentos, pode se tornar terrivelmente enfadonho se visitado num domingo de sol.

Também é possível comparar "Ulisses" com a Grande Pirâmide de Gizé: uma maravilha do engenho humano, mas é caro, difícil e perigoso visitá-la.

Li "Ulisses" turbinado pela coragem e pelo entusiasmo da adolescência. Ficou a impressão de que ainda falta idade para fruir devidamente das qualidades do livro. Já "Finnegan's Wake", eu passo. Demais pra minha cabeça. O "Finnegan's" é intraduzível em qualquer língua. Inclusive o inglês.

Dos outros, vou lendo na medida em que permitem o tempo e os neurônios. Mas Adriana Lunardi, minha mulher, diz que simplesmente "tudo" está em Proust. Logo, posso falar com sinceridade que ainda falta muito para que eu possa saber tudo.

 

— E dos autores brasileiros, quais — de qualquer época - se comparariam aos mencionados?

A santíssima trindade, claro: Machado de Assis, Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Acredito, inclusive, que a genealogia de toda a literatura brasileira pode ser mapeada a partir desses três escritores. Há os filhos de Machado, os filhos de Rosa e os filhos de Clarice.

 

— Cara, minha filha, que estuda Letras (depois de “trancar” Jornalismo) e´alucinada pela Clarice (veja o site dela www.olharliterario.hpg.ig.com.br) mas eu ainda fico com Virginia Wolf. Acha que as chamadas artes populares e de entretenimento, como o Cinema e os Quadrinhos, tem também esta capacidade de, através de seu experimentalismo formal, metalinguagem e outros recursos estilísticos, mas sobretudo de conteúdo humano, que realmente nos enleve, nos atingir em cheio como as obras literárias mencionadas?

Sim, claro. O cinema tem vários momentos de "grande arte", assim como os quadrinhos. Do cinema, podemos falar em Einseinstein, Chaplin, Hitchcock, Sergio Leone, Kubrick ou Copolla. Dos quadrinhos, basta lembrar de Will Eisner ou Nel Gaiman.

 

  O que faz o estilo? A capacidade de engendrar metáforas eficientes ou o uso quase mágico da palavra?

As duas coisas e algo mais. Estilo é quando o autor se transforma em palavras, ou transforma as palavras nele mesmo. O estilo não é repetição de truques nem de fórmulas. É a impressão, a fogo, do próprio DNA nas páginas escritas. Lógico que quem estiver lendo essa entrevista vai dizer agora: "Dãã, parece discurso do Gilberto Gil". É, parece mesmo. Mas se eu conseguisse, científica e objetivamente, definir o que é estilo literário, não iria liberar esse conhecimento de graça. Não mesmo. Iria vendê-lo bem caro em alguma oficina literária.    Anthony Burguess

— Nesse sentido, leu o livro de estréia no mainstream de Alan Moore, “A Voz do Fogo” (Conrad, 2002) e o que achou?

Ainda não tive a oportunidade de ler.

 

  Aprecia também a literatura do recluso Thomas Pynchon e por quê?

Hmmm, Thomas Pynchon não é bem a minha praia, não.

 

— E John de Lillo?  O devastador William S. Burroughs?

John de Lillo também não é da minha tribo. Mas gosto de Burroughs, embora, como todos os beatniks, ele seja um pouco doidão demais pro meu gosto.

 

— Na literatura de gênero (para não usar o já desgastado e famigerado rotulo FC, como diz André Carneiro) há alguma obra que considera igualmente seminal?

"Admirável mundo novo", de Huxley, porque mostra que ficção científica não é só escapismo. E "Eu, robô", do Asimov, que é quase um manual do tipo "faça você mesmo". A gente lê o Asimov e pensa: ah, isso eu também consigo fazer. E faz...

 

— Parece-me que aprecia também outros gêneros, como a Espionagem. Estou lendo um livro fenomenal, que recebi de seu autor autografado e tudo, o Prof. judeu-americano Myron Aronoff, intitulado “The Spy Novels of John le Carré”. Você acha que Carré, assim como seu contemporâneo e compatriota, já falecido, Grahan Greene, conseguem fazer de um gênero eminentemente de entretenimento, um algo mais, sendo, alem de realistas ao extremo, igualmente eruditos?

John le Carré e Graham Greene, sem dúvida, são autores que superam os limites do gênero. Basta compará-los com similares mais recentes, como John Grishan, que são muito inferiores.

 

— Quais outros autores classificaria com esta capacidade? Já leu por ex., Eric van Lustbader e o recluso Trevanian?

Não. Mas li Anthony Burguess, que bota de cabeça para baixo qualquer gênero. E Ítalo Calvino. E mais um outro, pouco conhecido por aqui, John Barth, que também considero uma de minhas influências.

                                                                                                              John Le Carre

  Dostoyevski escreveu que na ficção, a consciência das personagens devem interagir e se debater até somente com as consciências das outras personagens, ficando o autor totalmente “de fora”. Como pensa que um conto ou romance deve ser, formalmente falando, para atingir esse objetivo?

A form

a deve servir à história. É a história que deve ditar qual é o foco narrativo, quais os personagens que devem ter voz, quais as descrições que devem ser feitas. No mais, para mim, o trabalho do autor é muito semelhante ao trabalho do ATOR. Assim como atores, devemos aprender a enxergar o mundo pelos olhos dos nossos personagens. Devemos pensar como nossos personagens. Devemos deixar de ser nós mesmos para nos transformar nos personagens, e não criar apenas bonecos unidimensionais que apenas repitam as nossas idéias.

 

— E fora do globalizado eixo EUA/Inglaterra, quem atualmente está fazendo a diferença?

Em matéria de literatura, é sempre bom olhar para os lados da Argentina. Aqueles castelhanos sempre têm alguma carta na manga. Há uma geração bem vigorosa de autores argentinos, já beirando os quarenta anos, que têm livros muito impressionantes. Entre esses autores, posso citar Leopoldo Brizuela, Pablo de Santis e Gustavo Nielsen. Brizuela (autor de "Inglaterra, uma fábula") e de Santis (autor de "O calígrafo de Voltaire") já foram publicados em português.

 

— Sei que você também é um colecionador inveterado, fuçador de sebo mesmo. Pode nos contar algum fato pitoresco que já lhe aconteceu nesta garimpagem obsessiva em meio ao cheiro de papel velho e mofo (e falo de carteirinha)?

Bom, pra começo de conversa, tenho rinite alérgica. Sou muito alérgico a pó e mofo. Isso, por si só, faz com que qualquer incursão a um sebo seja uma aventura quase suicida. Ainda assim, eu vou. Minha última boa aquisição foi num sebo de Porto Alegre, onde comprei por quase nada os três exemplares da "Revista de Ficção Científica" da Revista do Globo S.A., publicados nos anos 60.

Gustavo Nielsen

— E´ mais um ponto em comum – mas este não vale,certamente,pois 11 em cada 10 amantes dos livros sofrem desse mal.Agora mesmo você esteve na maior feira aberta de livro da América Latina, em Porto Alegre. Como foi? Achou alguma preciosidade?

Adoro a Feira do Livro de Porto Alegre. Vou para lá todo ano. Mas, ao contrário do que pode parecer óbvio, não acho que a Feira seja um lugar ideal para garimpar livros. Há muitos estandes para olhar, muita gente e muito barulho. Para portoalegrenses nativos como eu, a Feira serve mesmo para reencontrar os amigos e tomar cerveja. Por isso, acabo comprando justamente os livros dos amigos — e todo ano tenho vários amigos lançando livros. Entre outras coisas, comprei "A margem imóvel do rio", do Luiz Antônio de Assis Brasil, que é um romancista muito interessante, pouco conhecido fora do Rio Grande do Sul. Também comprei "Caixa de sapatos", o mais recente livro de poesias do Fabrício Carpinejar, um ótimo poeta da nova geração, filho do também poeta Carlos Nejar.

 

— Continua acompanhando os fanzines? Acha que a nossa Literatura de gênero tem evoluído? Quais autores - tanto de ficção quanto de fato, ensaístas, críticos, etc. -  você considera dignos de nota?

Acompanho os fanzines, sim, e me parece que a nossa literatura de gênero, como você diz, tem evoluído sensivelmente. Temos bons escritores com trabalhos bem consistentes, como o Fábio Fernandes, o Gerson Lodi-Ribeiro, o Lúcio Manfredi, o Octavio Aragão, o Carlos Martinho, o Roberto Causo e vários outros.

 

— O que você acha que dificulta para o escritor brasileiro sobreviver de sua arte? Falta de talento ou de mercado?

Falta de mercado, pois vivemos num país em que só uma pequena parcela da população lê e compra livros. Falta de profissionalismo e de ousadia de algumas editoras. E talvez um pouco de falta de ambição dos jovens autores. Há pouco tempo, um garoto de vinte e poucos anos que escreveu uma novela tolkeniana me disse: "ah, eu sei que não tá perfeito, mas só quero contar uma boa história". Isso me soa conformista demais. Preferia que o carinha dissesse: "quero ser melhor do que o Tolkien! Quero reinventar a literatura fantástica! Quero ser o porta-voz da minha geração! Mas sei que o que eu fiz tá uma droga e tenho vontade de cortar os pulsos por causa disso". Esse negócio de se contentar com pouco é normalzinho demais. Um bom escritor deve se manter sempre a um passo da loucura e a dois do suicídio.

 

— A julgar pelo que tem saído nos fanzines, prozines e algumas revistas e minguados livros, quais autores tupiniquins julga que tem talento de fôlego para produzir uma obra regular?

Os que eu citei numa resposta anterior, o Fábio, o Gerson, o Lúcio, o Martinho e o Octavio já possuem uma obra regular. O que eles ainda não tem é visibilidade no mercado, mas isso é só questão de tempo.

 

— E nas Artes Plásticas em geral, qual dos  trabalhos que tem visto — HQs, ilustrações, esculturas, maquetes, etc. -  julga o melhor ou pelo menos promissor? Acha que temos um mercado para esta delimitada  forma de Arte?

O mercado de quadrinhos é ainda menor que o mercado da literatura. É uma selva antidarwiniana: nem mesmo os mais aptos sobrevivem. Nesse panorama, acredito que um nome a destacar é o do meu amigo Patati, sempre combativo e atuante.

 

— Já pensou em criar um Site para expor uma parcela de sua obra?

Pensei e estou fazendo. O site é o www.zigurate.com  . Há informações sobre meu livro mais recente, "Zigurate — uma fábula babélica" e links para os blogs de dois dos personagens centrais.

 

— Você sabe que neste site, quase tudo praticamente gira em torno do cultuado autor e roteirista inglês Alan Moore. Que ele foi o criador da obra  From Hell para os Quadrinhos, depois desperdiçada  por Hollywood. E que ele, "para vencer a crise existencial dos 40 anos”, resolveu se tornar um mago. Estudou muito Aleister Crowley, Austin Osman Spare, participou de experiências e acontecimentos no mínimo “fora-do-script”, como ele gosta de descrevê-los. Você acredita na Magia, na Cabala e outros desdobramentos, ou tenta também - como o James Randi tupiniquim, Padre Oscar Quevedo - "explicar tudo à luz da Parapsicologia"?

Não. Sou pior do que o Padre Quevedo, porque não acredito nem mesmo na parapsicologia. Aliás, também não acredito em vida depois da morte. Nem em Deus. Nem em abduções por extraterrestres. Também não acredito que o Elvis esteja vivo, não acredito na virgindade da Virgem Maria e não acredito que gatos pretos dêem azar. Só acredito numa coisa: a vida não faz sentido. Paradoxalmente, essa certeza me soa reconfortante.

 

— Já leu as obras do matemático-filósofo soviético P.D. Ouspenski, do qual sou estudioso? Qual o seu entendimento para as teorias dele sobre o Tempo e a 4ª Dimensão — ver final do meu artigo Holismo e Caos em Big Numbers — em suas obras — ao meu ver — mais expressivas, Tertium Organum e Um Novo Modelo de Universo (Editora Pensamento)?

Uh... desculpa. Mim não falar seu língua. Eh, eh. Olha, Neves, cá entre nós, matemáticos-filósofos, pra mim, são criaturas de outra dimensão.

 

— E a teoria de Ouspenski de que a reencarnação seria na verdade um circulo vicioso, como a serpente mordendo a cauda — ou seja, que na verdade nos sempre nos reencarnaríamos em nos próprios, vivendo a mesma vida eternamente e somente pequeninas modificações é que, aos poucos, iria nos libertando desta vida material compulsória? (em Tertium Organum).

Essa idéia parece interessante como mote para algum texto literário ou mesmo para um filme. Aliás... alguém JÁ FEZ um filme sobre isso. É "O feitiço do tempo" ("Groundhog Day"), de 1993, com Bill Murray e Andie Macdowell. Roteiro de Danny Rubin e Harold Ramis (baseado em história de Danny Rubin) com direção de Harold Ramis. Ótimo filme.

 

— Alan Moore é adepto fervoroso da Cabala — inclusive toda a serie Promethea gira em torno dessa “escola”. Como você encara a Cabala? Vê utilização prática de seus conceitos?

Não sei nada sobre a Cabala, mas textos místicos ou religiosos costumam ser boas inspirações para a criação literária. Em "Zigurate", por exemplo, parti do Poema de Gilgamesh, que é o texto literário mais antigo já descoberto, e do Gênesis, primeiro livro da Bíblia.

Ultimamente, comecei a estudar profetas e homens santos, mas não encontrei ainda algo que me inspirasse. Pessoas como o Conde de Saint Germain, por exemplo, ou Edgar Cayce ou Nostradamus, me intrigavam. Seriam psicóticos ou picaretas? Acabei concluindo que eles bem poderiam ser as duas coisas: homens que se aproveitavam da própria psicose pra fazer picaretagens. Nostradamus, especialmente, foi uma decepção. No momento em que me deparei com a versão original das Centúrias, em francês truncado, descobri que: 1) Nostradamus tinha sérios problemas com a ortografia; 2) ele até que era um poeta mediano, mas longe de ser brilhante; 3) ele pode ser considerado um precursor da escrita automática, uma espécie de bisavô dos surrealistas.

 

— Falemos sobre o Tempo e outras dimensões. Qual é a sua concepção do tempo? Apenas a 4ª dimensão espacial, como teorizou Einstein, ou algo mais?

Todo tipo de "algo mais" me incomoda. O tempo, para mim, é acompanhar o crescimento do ninhozinho de cabelos brancos que me nasceu recentemente nas têmporas.

 

— Como você imagina um ser ou objeto da 4ª dimensão, se pudessem ser visualizados em nosso mundo tridimensional, ou pelos nossos sentidos tridimensionais?

Não imagino e jamais seria capaz de imaginar. Mas, se me derem algumas semanas, poderia bolar duas ou três boas metáforas para descrevê-lo.

 

— Você acha que nossa incapacidade de “enxergar dimensões mais elevadas” é um problema relacionado unicamente a nossa condição humana ou também envolveria algum aspecto espiritual — na falta de um termo mais “neutro”?

Talvez sejamos irremediavelmente cegos para dimensões mais elevadas. Ou talvez as dimensões mais elevadas não existam. E enquanto eu não presenciar nenhum fenômeno que seja definitivamente sobrenatural, fico com a segunda opção.

 

— Você acha que as nossa limitações cognitivas atualmente são tecnológicas, filosóficas ou epistemológicas?

Talvez um pouco de cada, mas fundamentalmente tecnológicas. Acredito que, pela proximidade que sempre tive com a ficção científica, sou otimista no que se refere à evolução tecnológica. Sonho com a cura dos problemas de colesterol (está próxima), com o fim da fome (graças aos transgênicos), com a comercialização de computadores que possuam interface direta com o cérebro humano e com a invenção de algum meio de transporte mais funcional que o automóvel. Odeio automóveis.

 

— Você também curte Quadrinhos? Quando foi seu primeiro contato com o trabalho de Alan Moore e  qual obra lhe causou algum impacto especial?

Gosto de quadrinhos, mas não sou leitor assíduo. Meu primeiro contato com a obra de Alan Moore foi "Watchmen".

 

— Qual trabalho do mago bardo de Northampton que você considera sua obra-prima e por quê?

Watchmen, claro. Os quadrinhos de super-herói podem ser divididos em "antes de Watchmen" e "depois de Watchmen".

 

— Ao seu ver, quais foram as inovações mais importantes do autor?

Acho que o Moore usa muito bem a intercessão de linguagens e modos narrativos, conjugando os quadrinhos "clássicos" com a literatura, o cinema e o jornalismo de tablóide.

 

— Especificamente sobre Watchmen e sua instigante forma narrativa — já apelidada de O Cidadão Kane da Nona Arte  — o que tem a nos dizer?

Li "Watchmen" quando garoto e jamais me esqueci. Os super-heróis nunca mais foram os mesmos depois de Watchmen.

 

— E From Hell, você acha que Moore conseguiu atingir plenamente seu intento de forjar em uma HQ o caldeirão que nos preparou o Século XX, com toda sua paranóia, conspirações, contradições, horror e beleza?

Infelizmente, ainda não li "From Hell".

 

— Lamentavel,amigo, pois e´ uma obra imperdivel. E a versão para o cinema agradou? Por quê? O que espera da de Liga dos Cavalheiros Extraordinários?

A versão para cinema de "From Hell" não despertou minha curiosidade. Também não fui ver "A liga dos cavalheiros extraordinários", mas me disseram que é um filme-pipoca razoável.

 

— Você acha que ainda existe espaço para seres musculosos e com superpoderes, metidos em colantes, na verdadeira Cultura Pop, mais madura? Pergunto porque muitos fãs dos super-heróis, ao mesmo tempo que admiram Alan Moore, o detestam por considerar que ele praticamente destruiu o gênero com Watchmen. E você?

Bom, a idéia de um sujeito musculoso que veste a cueca por cima de uma malha colante, amarra uma capinha no pescoço e sai por aí esmurrando batedores de carteira é fundamentalmente ridícula. Não há como escapar disso. Daí, me parece que os super-heróis, principalmente depois de "Watchmen", ficam mais digeríveis se abordados como mitologia urbana, sem pretensões de realismo, ou como paródia mesmo.

 

— O que acha da imberbe Teoria do Caos, com seus fractais e o popular "efeito borboleta"?

Acho que fractais são bem legaizinhos, gosto deles. Mas não entendo lhufas da Teoria do Caos. Em termos de matemática, mal e mal sei como calcular porcentagens. Quer dizer, pra falar a verdade, mal sei usar uma calculadora.

 

— Como você imagina a Informática e a tecnologia digital em geral, daqui a dez anos?

Imagino que os computadores ficarão cada vez menos visíveis e mais integrados nas nossas casas, nas nossas roupas e até no nosso corpo. Teremos computadores de pulso, sistemas de reconhecimento de voz cada vez mais avançados, teclados "virtuais", que podem ser projetados em qualquer superfície e telas dobráveis capazes de exibir imagens em 3D sem a necessidade daqueles óculos coloridos. E, é claro, a nossa geração terá filhos, sobrinhos e afilhados chatos, que estarão up to date com todas as inovações tecnológicas e ficarão nos chamando de dinossauros.

 

  Bill Joy, um dos inventores da linguagem Java, escreveu certa vez que a robótica, genética e a nanotecnologia, que alimenta a industria globalizada e turbinada do capitalismo, contem também as sementes de nossa própria destruição  O que você pensa disto?

Bom, de certo modo, tudo o que fazemos contém a semente de nossa destruição. Ou, no mínimo, de nossa obsolescência. Em outras palavras, todo artista que se preze busca a perfeição. E a arte só existe porque a perfeição é inalcançável. Se um escritor produzisse um conto ou romance perfeito, a carreira literária dele estaria encerrada. Por outro lado, se esse mesmo escritor, convencido da inutilidade de buscar a perfeição, se conformar em repetir e parodiar a si mesmo, ele também estará morto enquanto artista.

Se, um dia, computadores, nanorrobôs ou animais geneticamente modificados tomarem o nosso lugar... fazer o quê? Será um direito deles. E, pessoalmente, acho que entregar o planeta a um robô é uma idéia mais simpática do que entregá-lo aos ratos e baratas.

 

— Na ficção estrangeira, nota-se que muitas cidades que servem de palco as estórias, se transformam quase em lugares míticos (New York de Paul Auster, New Orleans de Teenesse Willians, o Cairo de Naguib Mahfouz...). Na minha modesta ótica, no entanto, acho que nenhum autor brasileiro (do nosso gênero, digamos assim, uma vez que Rubem Fonseca e Lauro Trevisan, aproximam-se dessa corrente) conseguiu ainda esta proeza. E você, o que pensa disto?

Até onde posso lembrar, poucos autores americanos ou ingleses de ficção científica tem essa preocupação "geográfica", vamos dizer assim. Como exceção, dá para citar H. P. Lovecraft e a Nova Inglaterra. Ou, no gênero irmão da FC, o terror, Stephen King e o Maine.

Entre os autores brasileiros "do nosso gênero", acho que cabe destacar o Carlos Orsi Martinho, que costuma ambientar boa parte de suas histórias no interior de São Paulo. E, de certo modo, eu também tento fazer algo parecido, primeiro com Porto Alegre em "Síndrome de quimera" e agora com Paris, Edimburgo e o Rio de Janeiro, em &

quot;Zigurate".

 

— Voltando aos seus escritos, o que você fez que considera o melhor até agora?

O melhor é sempre o mais recente. Hoje, considero que meu melhor trabalho é o "Zigurate", que recém acabou de ser lançado pela Rocco.

 

— Quais foram os eventos mais importantes que já ocorreram em sua vida?

Eventos importantes? Ter conhecido Adriana Lunardi, ter virado roteirista profissional, ter começado a fazer psicanálise, ter sido traduzido para o francês e ter escrito "Zigurate".

 

— E atualmente, o que lhe é realmente imprescindível, seminal?

Sexo. Quer alguma coisa mais "seminal" que isso? Deixa ver se tem mais... Ah, sim. Escrever. Comer bem. Acordar sempre depois do meio-dia. Acho que é por aí.

 

— Sobre a subcultura, o underground, o alternativo, no que você acha que ela mudou dos emblemáticos Anos 60 para cá?

O que mudou é que não temos mais mocinhos e bandidos claramente definidos. Não há uma causa claramente identificável para combater. Não há ideologias que tenham sobrevivido intactas. Isso faz com que, volta e meia, algum artista underground de hoje seja vendido como "maldito". Daí a gente vai olhar de perto e o cara não tem nada de poeta maldito; no máximo é um poeta desgraçado.

Sabe por quê? É porque ninguém mais precisa ser underground hoje em dia. Nada mais é proibido e qualquer um pode dizer qualquer coisa. Tá certo que ninguém mais escuta, mas aí já é outro papo.

 

— Qual seria o “elo perdido” que realmente colocaria a pesquisa da I.  A . vis-a-vis com as da ficção cientifica?

Bom, em muitos campos, a pesquisa tecnológica de ponta já ultrapassou a ficção científica. Basta ver o que os malucos do Instituto de Tecnologia de Massachussets andam aprontando. Mas, especificamente na questão da inteligência artificial, a impressão que dá é que, hoje, estamos tão distantes de um computador como o HAL de 2001 quanto estávamos na década de cinqüenta do século passado. Acho que o mundo se tornaria mais divertido se fosse possível criar um computador dotado de autoconsciência. Mas talvez isso não aconteça nos próximos séculos.

O que pode acontecer em breve tem mais a ver com engenharia genética do que computadores. Já é possível criar espécies totalmente novas, como porcos com órgãos compatíveis para transplantes humanos ou frangos que já nasçam desossados. E se alguém, algum dia, resolver misturar alguns genes e criar, sei lá, um tigre capaz de pensar como um ser humano? Ele ainda será um animal?

 

— O que essa descoberta poderia alterar nosso conhecimento da Consciência?

Acho que a criação de inteligências artificiais ou de animais dotados de inteligência superior poderia sepultar de vez o conceito de que exista algo como uma alma separada do corpo. Poderíamos entender que, de certa forma, também não passamos de máquinas. Bom, mas estou sendo otimista. Provavelmente, ocorreria o contrário: os computadores acabariam sendo tão falhos quanto nós e reivindicariam uma alma para si. Aliás, até já escrevi sobre isso, nos longínquos anos 80, no meu primeiro livro, "Confissão do minotauro".

 

— O que você pensa que  acontece com a consciência após a morte?

Ah, essa é fácil. A consciência morre com a gente. Termina. Acaba. Desliga. Consciência e corpo são indissociáveis, porque a consciência é o corpo. Nossa experiência consciente é apenas uma tímida e fútil busca de sentido no meio do caos.

 

— Qual poderá ser o desenvolvimento de nossa consciência nos próximos 10 e 100 anos, apenas para especularmos?

Nos próximos dez anos, continuaremos iguais. Eu, pelo menos, mudei pouco dos últimos dez anos pra cá. Mas, daqui a cem anos, talvez as inovações tecnológicas nos levem a enfrentar dilemas bem difíceis. E, sinceramente, gostaria de ainda estar vivo pra ver isso, nem que eu precise ser "downloadeado" para o HD de algum computador.

 

— Você acha que a “sede” do nosso “espírito” — ou essência, ou anima, o nome que se dê - se encontra na mente? Ou tudo não passa de um aperfeiçoamento fantástico de uma verdadeira “máquina orgânica” com seus ilimitados neurônios e suas ligações sinápticas?

Como bom ateu, acho que não passamos de máquinas orgânicas, sim. Os conceitos de "espírito", "alma" ou "mente" são apenas eufemismos que nos impedem de pensar o tempo todo que somos apenas um punhado de células que nasceu um dia e vai morrer daqui a pouco.

 

— O que você acha que é a consciência em si?

Para mim, a consciência são milhões de neurônios trabalhando sem parar.

 

— E as drogas, o  que você pensa do assunto? Acha que alucinógenos tem realmente o poder de abrir a nossa consciência a outras dimensões, universos paralelos, ou tudo não passa realmente de uma desarrumação que causa nos nossos neurônios? Vê alguma utilização pratica das mesmas no processo criativo em si?

Acho que, pra muita gente, é bom desarrumar os neurônios de vez em quando, mas nunca fui muito longe nesse tipo de experiência. Enquanto escrevo, tomo café com adoçante ou coca-cola light, pra dar uma ligada, ou, no máximo, duas ou três latinhas de cerveja, pra relaxar o texto e amaciar o superego.

 

— Qual foi a experiência mais louca que você já experimentou na vida?

Responder a essa entrevista (brincadeirinha...). Minha vida sempre foi bem careta. A coisa mais doida que já fiz foi ter vindo morar no Rio.

 

— Qual foi o sonho mais louco que você já teve?

Uma vez, quando criança, sonhei que era o Anticristo. Como, além desse sonho, nunca mais tive nenhum sinal, nenhuma prova, nenhum indício de que eu tivesse uma possível origem demoníaca, acho que era só uma fantasia infantil de onipotência, mesmo.

 

— Tem alguma questão que você sempre quis expor seu pensamento a respeito e que eu deixei de fora? Qual (quais)?

Queria falar mais sobre meus livros, mas não sou muito bom nisso. Então, se possível, eu gostaria de reproduzir aqui o texto da orelha de "Zigurate":

"Zigurate" — texto de apresentação:

Símbolo do casamento entre o céu e a terra, o zigurate era uma construção em forma de torre piramidal, encimada por um pequeno templo ou altar. Os zigurates, numerosos na antiga Suméria, inspiraram a lenda bíblica da Torre de Babel.

Zigurate — uma fábula babélica é uma releitura ousada e contemporânea do mito de Gilgamesh, lendário rei sumério que percorreu o mundo em busca da imortalidade.

Na França de hoje, Sophie Brasier é portadora de uma doença letal. Seus últimos dias são dedicados a escrever uma tese sobre os mitos mesopotâmicos no Velho Testamento. Em meio ao estudo de alfarrábios e à ingestão pílulas que a mantêm viva, Sophie encontra uma perturbadora referência a um homem e uma mulher feitos de ouro, que teriam sido criados por Deus pouco antes do frágil Adão de barro. A pesquisa de Sophie muda de rumo e, motivada pela mesma angústia sentida por Gilgamesh há cinco mil anos, ela sai em busca do casal de imortais.

A fábula babélica de Max Mallmann se passa em três belas cidades: Paris, Edimburgo e Rio de Janeiro, numa aventura repleta de ação e enigmas, rica como a epopéia de Gilgamesh.

Cada capítulo deste arrebatador romance é pontuado por uma mescla de eventos históricos, desde as antigas civilizações da Mesopotâmia, passando pela expedição de Napoleão Bonaparte ao Egito e pelas guerras do violento século vinte, para chegar ao contemporâneo mundo dos traficantes de drogas no Rio de Janeiro. Fatos, datas, ruas e alguns bares citados ao longo das páginas são perturbadoramente reais. As referências, contudo, chegam envelopadas em deliciosa narrativa, construída com o engenho do grande fabulista que Mallmann provou ser em Síndrome de Quimera, seu livro anterior.

A imaginação sem limites de Mallmann e seu texto enxuto, mas carregado de ironia e suspense, convertem o leitor em detetive e cúmplice até a última página. Durante a leitura de Zigurate, muitas vezes somos levados a perguntar, como fez Sophie Brasier: “E se... ?”.

O autor imbuiu-se de tal forma de seu universo criativo que chegou a se dedicar ao estudo do idioma sumério e da escrita cuneiforme. Não se espante o leitor, portanto, com os símbolos no início de cada capítulo. São algarismos sumérios. Além disso, numa ponte entre o passado imemorial e o presente instantâneo, dois dos personagens centrais do livro possuem endereços eletrônicos. Experimente escrever um e-mail a eles. É quase certo que você receba uma resposta.

 

— Curioso: a personagem de Alan Moore de maior sucesso no momento e´ a "Promethea", que vive tambem uma jornada em busca da Cabala, para isto vivendo " na carne" tudo o que se conhece sobre magia, no reino da "immateria", criado pelo autor. E o nome dela e´ Sophie Bangs...Deve ser a tal "sincronicidade" de Jung.Militando há tanto tempo “no ramo” você pode dizer que valeu — ou vale — a pena?

Conviver com a comunidade da ficção científica tem sido muito gratificante. Aprendi muito e fiz amigos para a vida toda. Quanto ao fazer literário propriamente dito, eu simplesmente escrevo porque não posso ficar sem escrever. Faz parte de mim.

 

— O CLFC, se não me engano, esta na eminência de atingir a sua maioridade. E pergunto, e aí?

Se o CLFC não existisse, muitos escritores talentosos da nossa geração continuariam inéditos, muitos fanzines jamais teriam sido criados e, sobretudo, muitas sólidas amizades jamais teriam surgido. Parece-me que o saldo é bastante positivo.

 

— Como surgiu o trabalho de escrever duas novelas para a toda-poderosa-vênus-platinada?

Sempre quis viver do que eu escrevia, e isso só foi possível quando me profissionalizei como roteirista de tevê. Fui contratado pela TV Globo em 1998, depois de fazer uma oficina de teledramaturgia em São Paulo.

Escrever para um programa diário, como O "Malhação" ou uma novela é uma experiência enlouquecedora, sem dúvida. Basta ver a quantidade de pontes de safena de alguns dos meus colegas. Mas, ainda assim, é gratificante. Até divertido. E, na maior parte do tempo, é um trabalho que me permite manter o meu estilo de vida, que a maioria das pessoas que não é roteirista acha um pouco excêntrico: trabalho em casa, gosto de trabalhar à noite, acordo tarde e, a menos que tenha algum compromisso sério, só saio à rua quando o sol já está se pondo.

 

— E só para finalizar, amigo, o que pensa de nosso site e que sugestões apresentaria para o aperfeiçoarmos?

O site é muito interessante e informativo. Minha sugestão seria que você, futuramente, poderia pensar em publicar um livro com todas as entrevistas que já fez...

-Good idea, my friend!


Síndrome de Quimera

  Max Mallmann

  Romance   112 páginas   ISBN: 8532511708

As personagens de Síndrome de quimera, a novela de Max Mallmann, são absolutamente normais, dessas que o leitor encontra na rua, no ponto de ônibus, no cinema, nas festas, no estádio de futebol, no trabalho. Mas também são um pouco diferentes, "quase nada". O narrador Viktor sofre de um mal particular: enrodilhada ao seu coração, há uma serpente, com um guizo na ponta da cauda, que lhe causa apertos e angústias. Já seu melhor amigo Bruno - com o qual Viktor resolve abrir um café-livraria chamado A Quimera - costuma desenroscar a tampa  da cabeça, retirar o cérebro e o colocar numa bacia para descansar. Depois bebe cerveja (metade bebe, metade derrama em cima do cérebro) e assim alivia a tensão do dia-a-dia. Entre livros de Stevenson, Borges, Kafka e Mário Quintana, eles vão levando a vida numa Porto Alegre contemporânea e fantástica.Entram em contato com pessoas tão "normais" quanto eles, mas que possuem pequenas manias e anomalias: o freguês que precisa recarregar a bateria pondo o dedo no soquete de luz; a moça feia cuja pele é de fibra de celulose e por isso se alimenta de livros; o amigo que se transformara numa esponja humana cheia de água salgada e algas; e a linda mulher cujos olhos brilhavam no escuro como um casal de vagalumes… Tudo corre bem até que Viktor é seqüestrado por asseclas do Senhor das Inclemências e descobre um terrível segredo sobre seu passado.

Um dos expoentes da nova geração de escritores gaúchos, Max Mallmann conseguiu uma química rara em Síndrome de quimera: misturou realismo mágico com o melhor do suspense, amarrados em diálogos cortantes. Além disso, em cada página do livro, escrito em deliciosa linguagem coloquial e metafórica (com rasgos de erudição), perpassa um humor fino, muito sutil. O autor nos convida a rir de nós mesmos, dos nossos medos e desejos e a perceber que não existe apenas uma única realidade.