ALAN MOORE     Senhor do Caos  /   Lord of Chaos
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Entrevistas  /  Interviews


Professor de Literatura e Encenador Teatral ALEXANDRE FIDELIS

                                                                                                                              por Jose Carlos Neves

“ ...ultimamente tenho chegado a conclusões cada vez mais simples acerca da minha natureza e do mundo, que por cada vez que se tornam mais diáfanas em sua estrutura de causas e efeitos, mais avassaladoras tornam-se.
Faço teatro há uns doze anos, mas tenho uma real e pequena compreensão do que é a arte há muito menos tempo. Infelizmente, nossa fase de depuração leva o tempo que as células possuem para procriar. Sou um tanto marginal perante a classe teatral de minha cidade por não concordar e ignorar a imposição de suas afetações e impostas “regras artísticas” muito proclamadas e sem nenhum fundamento. Foi por dar regras a Deus que formamos essa quimera que chamamos mundo.
Estou me formando em Letras, e procurando no momento uma escola para lecionar, enquanto escrevo até em papel de bala com a unha quando a idéia surge em quermesses.
As pessoas me “conhecem” e aparentam apreciar meu trabalho. Estou cuidando agora de um grupo de teatro, com atores amadores e profissionais de diversas idades, e não acredito que idade ou certificados pagos tornem alguém um artista.
Sempre tive a idéia de levar os quadrinhos ao teatro, pois se o teatro abraça todas as artes, why not? E dois anos atrás, finalmente, consegui realizar um projeto durante um festival de cenas que me permitiu experimentar esse antigo sonho. E foi ótimo. Foram quatro cenas ao longo do festival com textos de Goethe, Platão, Neil Gaiman e Alan Moore. 
Acho que nem preciso dizer qual foi a que eu e todos que assistiram mais 
gostaram...
Quanto a The Birth Caul,  estava passando num sebo de HQs aqui em Santos e descobri esta pérola amniótica transmutada em papiro e fiquei fascinado, como por tudo que eu li de Moore até hoje!!Tanto, que criei coragem e pretendo divulgar mais a obra de Moore em nosso país. Consegui despertar o interesse de uma editora de porte considerável e de quebra a possibilidade de uma montagem teatral baseado no texto ( que estou traduzindo). O patrocínio para teatro seria fácil graças ao sucesso de uma adaptação de um trecho de V de Vingança que realizei por aqui em um festival...tomara que ninguém por aqui tenha os direitos... A pessoa que está interessada em publicar abriu recentemente uma livrariaaqui ... e eles estão inaugurando um novo selo editorial. Acho que dá pra fazer um barulhinho...
Acredito muito neste projeto, e tenho certeza que num futuro próximo estaremos todosnuma mesa falando de entropia e bebendo algo estranhamente parecido com cerveja.
Para certas coisas mais de uma voz se faz preciso, principalmente para soçobrar os pilares da ignorância.

Slaint, my friend!!
Alexandre Fidélis

Ps.: Ainda não li Big Numbers. Não posso morrer ainda.”

Este foi o e-mail que me entusiasmou a entrevistar esse entusiasta da Cultura Pop, (autor do artigo sobre Quadrinhos que ja´publicamos) que pretende adaptar para o Teatro o seminal e mais autobiográfico trabalho de Alan Moore, “The Birth Caul”. Tarefa hercúlea, mas não impossível. Aliás, vários trechos de “V”, “The Mirror of Love” e outros já foram aos palcos mundo afora...

- Alex, idade, onde nasceu e cresceu, estado civil, filhos?
Eu tenho 25 solstícios vivenciados nem sempre com a mesma ênfase, vistos com os mesmos olhos e jamais sob o mesmo olhar... e nasci e cresci na cidade de Santos, onde, como eu costumo dizer, nem todos o são. Estou solteiro, mas namoro há 6 anos com a mesma mulher. Acho que conseguimos suportar um ao outro ao longo de todos estes anos com amor pela característica, intrínseca em ambos, de evoluir apesar dos contras e contradições impostos pela existência. E filhos, espero tê-los quando encontrar uma vazão aos livros, textos, poesias e milhares de personagens em minha cabeça, que já dão trabalho suficiente.

-O quê e quando iniciou seu interesse pela Literatura, Quadrinhos, Teatro e Cultura Pop em geral?
Acho que o fascínio por aprender sempre me acompanhou. Eu lembro de ser um garoto que queria fazer o que os personagens da antiga “sessão da tarde” faziam: Sinbad, Fúria de Titãs e outros filmes eram incríveis, aquelas criaturas e realidades tão mais palpáveis que esta que aos poucos revelava-se...Lembro meu padrinho contando repetidamente sobre as sete maravilhas do mundo antigo. Se fechar os olhos agora posso ainda ver o 
Colosso de Rhodes, se movendo e inquirindo os barcos em minha imaginação tal qual um Adamastor de bronze. Houve também uma enciclopédia antiga chamada Tesouro da Juventude que devorei (todos os dezoito tomos) várias vezes. 
Após deixar a miscelânea da infância, comecei a desenvolver aquelas típicas questões existenciais, exacerbadas por algumas experiências particulares e, com o tempo, passei a fazer Teatro e ler mais, num frenesi causado por essa angústia que transborda todo artista.

-Na infância você lia muito, tanto HQ quanto Literatura mainstream? Pode citar autores e obras que o influenciaram?
É engraçado, pois, eu tive uma criação muito católica. Para falar a verdade, nos meus piores dias eu vejo minha infância como um tanto patética e a adolescência como desmiolada. Em termos de HQ é interessante notar certas reações: me trouxeram uma vez uma revista do Homem-Aranha da RGE, justamente da primeira aparição do clone dele, que depois gerou muita controvérsia. Mas eu era muito novo e aquelas histórias me chocaram pois já não eram “para crianças”. Todo aquele embate psicológico para o Aranha acreditar que ele não era o clone foi algo que me chamou atenção à narrativa. Agora, o engraçado é ver aqui no seu site uma entrevista com o Calazans, e ele citar o zine “Barata”... me lembro que comprei aquilo e tinha uma história onde os deuses se confrontavam em arenas... e vi o Deus hebreu (logo o Deus católico) tendo que trespassar Tupã com uma espada! 
Hoje eu dou risada com a reação, o estranhamento dogmático que aquilo causou, mas não deixa de ser curioso. Não posso deixar de citar também , dessa fase na qual eu nem sonhava em ser um colecionador de HQs, uma história do Super-Homem que me fez admirar a natureza apática, soturna e diferente daquela criatura feita de musgo que curou o homem de aço de uma infecção. 
Mal sabia que aquele era o primeiro contato com uma obra do sr. Moore.
Quanto à Literatura, tive a benção de ter muito Ziraldo e lido e me envolvido com “O Meu Pé de Laranja Lima”, que me ensinou algumas coisas com relação à perdas, principalmente de entes queridos.

-Como se iniciou profissionalmente no gênero e qual foi sua primeira atividade?
A primeira peça foi um apanhado de poesias de vários autores pautadas por três monólogos, um espetáculo chamado “Brotar Poesia”, da Filação Filantrópica, um grupo que começou na Escola Técnica Federal de Cubatão com a iniciativa de um cara muito cabeça, e muito coração, chamado Victor Lomnitzer. Considero meu verdadeiro aprendizado no Teatro a partir daí. 
Eu fazia um dos três monólogos, e o Marcelo Ariel, que fez a seleção dos textos, selecionou muitas coisas oníricas, o que permitiu brincar com a temporalidade nula da poesia. O Victor tem uma visão muito boa do processo de criação e da função social do ator, e chama atenção aos processos psicológicos que ocorrem no nosso cotidiano, quando “interpretamos”, desfilando vários “eus” para cada situação. Maiêutica para os conflitos e nulificação do ego para compor o ator-atuante como representante máximo do homem compromissado com algo além de si mesmo. Se ele ler isso aqui vai dizer que eu só complico, mas é isso aí.

-Quando foi seu primeiro contato com o trabalho de Alan Moore e qual obra lhe causou algum impacto especial?
O meu primeiro contato eu já contei. Mas o impacto inicial foi com “V de Vingança”. O negócio com o Alan Moore é que a maioria dos seus trabalhos são realmente inprevisíveis, pois ele reinventa a si mesmo através de cada nova proposta. Assim é o verdadeiro artista. Li o “V” na adolescência, numa tarde regada à Metallica, quando era bom, e muito vinho “Sangue de boi”. 
Óbvio que li mais vezes. Já percebeu como “The Unforgiven” se encaixa com “V”?


-Qual trabalho do mago bardo de Northampton que você considera sua obra-prima e porquê?
Acho que ele tem várias coisas em diferentes filões para destacar. Nos quadrinhos de heróis não há como dizer nada além de Watchmen, no quadrinho pop/underground (pelo menos para os brasileiros) o From Hell. Mas a existência de The Birth Caul e Snakes and Ladders mostra que não dá para examiná-lo só com as HQs.

-Ao seu ver, quais foram as inovações mais importantes do autor?Especificamente sobre Watchmen e sua instigante forma narrativa – já apelidada de O Cidadaõ Kane da Nona Arte – o que tem a nos dizer?
Muito já foi dito sobre Watchmen, e o próprio Moore já manifestou sua indignação por ninguém o ter superado até então. Que a obra trouxe aos quadrinhos de super-heróis um novo paradigma é fato consumado e irreversível. Mas ali mesmo jazem os segredos de Moore que a indústria talvez não queira copiar com medo do gênero acabar, sei lá. Essa coisa do super-humano, dos poderes, acho que sempre vai haver, pois faz parte da projeção que o ser humano faz de si mesmo, ao desejar ser especial e sobrepujar e manipular o meio em que vive. São, literalmente, “novos deuses”. As inovações que Moore fez apenas obedecem o que é feito na ciência e na arte, como na Literatura: foi tecida uma trama que em muito acompanha a evolução narrativa que os romances herdaram de Dostoiévski, Kafka, 
Joyce,etc. Tudo isso aliado à tridimensionalidade, que foi, em termos filosóficos, científicos e literários, a maior contribuição de Watchmen ao gênero, exatamente como o marco de uma nova escola ou período artístico. 

Para provar a existência desse “Moorismo”, podemos compará-lo com um movimento que representou um retrocesso, ao meu ver, da narrativa quadrinística; eu chamaria esse movimento de “Imagismo”, que trouxe à baila uma coisa importante que é o quadrinho de autor, mas logo apelou para roteiristas como o próprio Moore, ao perceber que a “imagem não é tudo”.                                                          (abaixo: interpretaçao de O Mar Muda, de Neil Gaiman)

-Voce acha que ainda existe espaço para seres musculosos e com super-poderes, metidos em colantes, na verdadeira Cultura Pop, mais madura? Pergunto porque muitos fãs dos super-heróis, ao mesmo tempo que admiram Alan Moore, o detestam por considerar que ele praticamente destruiu o gênero com Watchmen. E você?
Como já disse, não acho que houve uma destruição, e sim, uma reconstrução, calcada na aproximação com o gênero humano. Os colantes estão relacionados a iconicidade e midiaticidade e perdurarão enquanto isso for significativo para a identificação e mercantilização destes personagens. E não podemos esquecer a relação do pop com o kitsch; há a necessidade de “possuir” de certa forma aquilo que é pop, tanto quanto esta necessidade cria a tênue linha entre o cult e o pop. Uma questão de valores. O que aconteceu, sem dúvida, foi que Watchmen sacralizou, mais que qualquer obra até então, os quadrinhos, enfatizando o gênero super-herói sem no entanto limitar-se a ele, com o status de arte propriamente dita. Já trabalhei em livraria, e lembro que olhava aquele amontoado de títulos pensando em como a maioria ali não chegava nem perto do que Moore e Gibbons passaram em termos de sinergia artística. E esse é outro dado importante do quadrinho, quando ele funciona sem ser feito por um só artista. E olha que acompanhei dois anos de lançamentos no mercado editorial brasileiro, trabalhando na seção de literatura. Falta gente compromissada com a arte para fazer quadrinhos. 
Tem que parar de querer ser outro Moore ou Gaiman, é hora de dar um próximo passo, beber na fonte que esses caras beberam, oferecer uma nova estética, etc, se quisermos que a nona arte sobreviva. Afinal, conhecemos o cotidiano de nossos ancestrais graças aos quadrinhos nas cavernas...

-E From Hell, você acha que Moore conseguiu atingir plenamente seu intento de forjar em uma HQ o caldeirão que nos preparou o Século XX, com toda sua paranóia, conspirações, contradições, horror e beleza?
Eu considero as anotações de pesquisa ao final de cada volume a coisa mais divertida de From Hell. Digo isto porque aquilo é um testemunho tanto para o aficcionado quanto o desavisado do valor dessa arte, que não é “mera arte”, mas sim suor e dedicação. Acredito que Moore foi além de seus intentos e que Campbell foi perfeito. Tem muita coisa ali. É um tratado arquitetônico. As fundações da alma e da moral levadas a um extremo tão inacreditável que faz do corpo, da carne, o alfa e o ômega de nossa existência. Não que seja ignorada uma existência espiritual, mas denuncia toda a fixação por símbolos e aparências que o último século destrinchou em maneiras de criar utopias científicas e terrores sem precedentes. Há um momento simples, no qual William Gull abre os braços triunfante, que ficou gravado em minha memória. Toda vez que penso em algum personagem tendo prazer no mal, é aquela figura que imagino. Um velho de braços erguidos, olhos arregalados, dentes cerrados em um sorriso e uma cartola. É um arquétipo da transcendência. A mesma coisa que um pastor evangélico “exorcizando” um depressivo, um fanático explodindo num ônibus, ou uma oração acompanhada de um desejo. O mal é do homem para o homem e toma sua silhueta forjada no barro do Éden para perpetrar-se. O momento zen do mal.

-E a versão para o cinema agradou? Porque? O que espera da de Liga dos Cavalheiros Extraordinários?
Não agradou, não. Você sai do cinema dizendo que o quadrinho é infinitamente melhor que o filme e as pessoas te olham estranho por acreditar que nada supera o toque de Midas de Hollywood. Com certeza teria gostado mais se não tivesse lido, por isso não os culpo. Gostaria que respeitassem mais o original, não por ser fã, mas é que a obra original destas produções tem o seu diferencial na estrutura narrativa. Ora, a mudança de foco para dar ênfase ao personagem interpretado por um ator famoso é algo que está longe da minha aceitação. A Liga está indo pelo mesmo caminho e tremo quando ouço sobre espremer Watchmen em qualquer coisa que tenha menos que cinco horas de duração.

-O que pensa da Magia?
Há uma definição que o Neil Gaiman usa em Livros da Magia que eu acho muito interessante: “Ciência é uma maneira de explicar o universo com palavras, e Magia é falar ao universo com palavras que ele não pode negar.” E eu acho que é um bom princípio, que engloba de maneira simples até o cruzamento entre o racional com o lúdico, abstrato. Acho que muito do que se chama Magia trata-se apenas de terra incognita às nossas percepções conscientes; um conhecimento que está intimamente ligado com a nossa relação consigo mesmos e com o “real”, e também a negação de ambos.

-Sobre a Teoria do Caos e seus enigmáticos Fractais, como você os vê?
Acredito que é uma espécie de matemática orgânica, alcançando a perfeição sem torná-la padrão absoluto fazendo das incertezas portas para a construção das referências da realidade em eterna construção, estes fractais recebendo fatores de transformação sutis a cada segundo. Parece uma máscara, se pensarmos que a imagem fractal assemelha-se quando analisada em suas menores partes com o plano maior, para no instante seguinte reconfigurar-se no inédito que embora seja parecido com o primeiro sistema, já é outro.                                      (Garcia Lorca) 
Tenho um irmão fazendo pós-graduação em Matemática na Unicamp, e este é o único quesito que me faz ficar à vontade para falar com ele sobre equações. 
É engraçado como a matemática quanto mais longe fica do que é aprendido na escola mais alberga paralelos e dialoga com a própria vida. Deviam explicar equações não lineares no segundo grau, assim como filosofia desde o início do aprendizado...Estou desenvolvendo uma teoria que relaciona a geometria com a evolução narrativa, para a área de Teoria da Literatura, e curiosamente, a geometria caótica emerge em paralelo (estruturalmente e dinamicamente) com a literatura inaugurada por Joyce e representada em nossa terra por autores como Guimarães Rosa.


-Ainda nesta direção metafísica, qual é a sua concepção do Tempo? Considera-o a Quarta Dimensão do Espaço, como teorizou Einstein, ou tem uma visão pessoal?
Tenho uma visão pessoal que me indispõe com muitos físicos e filósofos, mas paciência... Vejo as coisas com um prisma que leva em conta, na medida do possível, o pensamento ocidental e o oriental. Não vejo o tempo como uma realidade , e sim uma abstração paradigmática, pois dizemos que o tempo passa devido à fatores acima de tudo referenciais. O próprio conceito de dimensão é algo que deveria ser encarado mais com relação ao tamanho e a vibração. Animais diminutos como as formigas tem a percepção de tempo diferente da nossa. Não vivemos sequer um átimo da luz das estrelas. 
Quanto mais elaboramos, ou percebemos sistemas como a Teoria do Caos e o rumo das artes nos últimos tempos, mais nos damos conta que a diferença entre passado, presente e futuro é puro arranjo espacial. O agora é, o antes e o depois não são, mais do que um foi ou o outro será. Em torno do que há, só existe o vazio. Por isso, um meditante zen alcança compreensão do todo quando o ignora e se anula, deixando de ser, tornando-se capaz de ver sem os olhos aquilo que seria o antes e o depois verdadeiros, alfa e ômega, que tem muitos nomes, popularmente Deus.

-Como você imagina um ser ou objeto (como o Tesserato) da Quarta Dimensão? (se pudesse aparecer-nos, pobres materializações tridimensionais que somos ?)
Já considerei muito que tais entidades seriam interpretadas por nós como qualquer coisa que coubesse nas nossas definições, portanto distantes de uma verdadeira concepção. Uma concepção que quiçá fizesse jus à natureza destas entidades/objetos. Talvez aparecesse como uma mistura dessas limitações humanas e sua vontade, variando de acordo com a natureza do espectador...

-Já leu as obras do matemático-filósofo soviético P.D. Ouspenski? Ou do seu mentor, Gurdjief?
Não li as obras propriamente ditas, mas já li muitos ensaios e ouvi muitas opiniões à respeito. Esse quarto caminho proposto é interessante, mas há muitas linhas esotéricas que alardeiam equívocos, principalmente com relação à Kundalini e demais forças ígneas relacionadas ao princípio sexual e seu manejo. Mas como tudo uma vez exposto está sujeito à interpretações, é preciso manter a mente aberta para certas coisas e conhecer suas consequências, quando possível.


arte por Jose Carlos Neves/art  by Jose Carlos Neves


-Voltando aos seus escritos e trabalhos, o que você fez que considera o melhor até agora?
Olha, sou crítico demais com meu trabalho. Por isso, pode até parecer engraçado, dificilmente aceito uma crítica, a menos que ela venha de duas maneiras: embasada em uma tonelada de argumentos teóricos mais significativa do que tudo que estudei para realizar minha arte, ou simplesmente um “não gostei” sincero e profundamente pessoal. Por isso eu começo a reler ou rever minhas coisas e percebo que aquilo já ficou para trás, apesar de ter meu carinho. Acho que eu escolheria o Valerie (elenco abaixo) onde eu consegui fazer tudo certo, adaptar pro palco um texto do Moore mais através do trabalho da verdade cênica do que qualquer outro detalhe. Consegui dirigir minha namorada durante uma crise no relacionamento e o texto comoveu o elenco todo. Parecíamos soldados numa guerra e aquela cena nosso “último centímetro”.

-Por ter se interessado por Historias em Quadrinhos em nível profissional e acadêmico, você sofreu – ou sofre ate´ hoje – alguma espécie de preconceito ou discriminação? Como lida com isto?
O artista sofre quando não é visto como Homo Midiaticus. Digo que sofre essencialmente pelo espectro das fomes. Uma fome que o leva a refrear sua arte para fazer qualquer coisa que garanta seu pão e a outra , maior , que o consome e aumenta cada vez que é saciada, a fome de vomitar a entropia interna, de criar. È o preço por sobreviver e/ou viver. Por isso, até mesmo a intelligentsia acadêmica tupiniquim vê as HQs de maneira infantil. 
Não cresceram intelectualmente de maneira sadia, uma vez que hipertrofia unidirecional é desequilibrante. Mas eu tenho alguns professores ecléticos até um certo ponto. Preconceito? Para a maioria da população quem pinta, esculpe e atua ainda é “bicha”, quem escreve é “chato”, e quadrinho depois dos quinze é coisa de “nerd”, de retardado, quando pior.
Antigamente eu lidava com isso com o dedo do meio em riste. Hoje, eu ignoro e procuro educar, informar e criar como resposta, guardando os gestos impuros para os momentos de eloquência silenciosa.

-E atualmente, o que tem escrito?
Com certeza já enlouqueci, e percebo estar gostando. Estou escrevendo dois romances, um em português e outro em inglês, além de duas peças de teatro e revisitando um projeto de quadrinhos que pretendo levar até as últimas conseqüências. Some isso aos contos e poemas e você terá um quadro clínico interessante. Estive pensando em usar camisetas dizendo “Ei, você é adubo para meu cérebro”.

- Você acha que a “sede” do nosso “espírito” – ou essência, ou anima, o nome que se dê - se encontra na mente? Ou tudo não passa de um aperfeiçoamento fantástico de uma verdadeira “máquina orgânica” com seus ilimitados neurônios e suas ligações sinápticas?
Acho que estas ligações se estendem, à exemplo da teoria do campo mórfico do Sheldrake, em constante rearranjo. Considere da seguinte forma: no caso de sua existência, nossos espíritos seriam de uma natureza ainda alienígena à percepção dos sentidos “ordenados” ou da ciência cética da “escola de Jó”. 
Que ele situa-se de alguma forma em conexão intrínseca com nossos corpos tridimensionais é um fato que temos por princípio. O que acredito que ocorra é que os espíritos são fragmentos fractais de um mesmo “material” que à exemplo dos fenômenos quânticos estão sujeitos a essas pequenas variáveis oriundas do meio. Ou seja, tudo que é invisível materialmente, atrelado ao plano das idéias como os conceitos, exerce uma inegável influência em nossa mente, principalmente quando em seus pólos, na inconsciência e na supraconsciência.
(interpretando o texto D.Rosita, de Garcia Lorca))

-O que você acha que e´ a consciência em si?
A consciência, essa percepção parcial do universo que cada um acredita ser a sua a mais próxima da justiça e perfeição? Às vezes eu a penso como o universo tomando ciência de si através de olhos recém-nascidos, fitando o horizonte em busca de respostas. E um espelho gigantesco colado na ponta de seu nariz.

-O autor austriaco Fritjof Capra em seus excelentes livros, sempre tentou a “união” entre o misticismo – principalmente budista – e a Física – principalmente a quântica. Como você vê esta intenção dele, acha que ele atingiu seu objetivo? Sei e´que cientistas e físicos têm realmente – acho ate´que compulsoriamente – aceitado, digamos assim, os conceitos de expansão da consciência, mente universal (Deus?), “poderes ESP”, pluralidade de dimensões, como pode ser deduzido da leitura de obrascomo “A Gnose de Princeton” (Editora Pensamento). Concordas?
É por aí que eu estou tentando chegar... o pensamento ocidental e o oriental e aquilo que há de melhor em ambos. Todo mundo fala das mesmas coisas e todo mundo tem sua margem de erro, e este erro não devia ser algo substancialmente ruim, porque ele vem com o ponto de vista único quando o indivíduo reflete ou medita nestas questões. A Verdade não pertence ao Papa ou ao ateu; ela é a coisa mais hermética, o ponto inefável das realidades. 
Seu absoluto não pode ser parte de alguém antes que alguém seja composto por ela e nela esteja inserido, e não o contrário. Para que pensamentos como os de Capra e de muitos outros possam nos trazer tudo que podem oferecer à nosso avanço e compreensão é preciso antes haver uma ética calcada em algo simples: atitude direcionada ( lúdico ativo, magia) e respeito multilateral ( estudo sincero e uma ciência consciente que é constantemente revisitada e revista).


-E a Inteligência Artificial, que tem tantos apologistas, como você acha que um córtex artificialmente criado – ainda que orgânico – pode desenvolver uma “consciência”, digamos assim, como querem muitos autores de ficção?
Talvez alguma coisa como estas que temos na ficção possa vir a ocorrer. 
Muito mais provavelmente graças à um fator aleatório do que induzido, porém o Ser define sua existência e percepções calcado em sua gênese e seria possível que outro dado que reverbera na ficção e na mitologia aconteça: criador e criatura opõe-se, como Saturno e Júpiter.

- Experiências até do Pentágono, comprovaram a eficácia expressiva dos Quadrinhos em transmitir qualquer idéia por atingir, através do somatório sinérgico de imagens com texto, os dois hemisférios cerebrais. Será isto talvez que explique o grande sucesso do gênero nos paises do Oriente (China,Japão,Coréia principalmente), já´ que seus alfabetos ideogramaticos (os caracteres representam imagens e não sons) têem o mesmo efeito? Conhece algum estudo abalizado sobre o assunto? – a propósito e exemplificando, vários manuais de utilização e manutenção de armamentos e equipamentos militares, e ate´ uma certa “cartilha de ação guerrilheira” em “republiquetas latino-americanas” da CIA (eu tenho um exemplar) são 
produzidos justamente em forma de Historias em Quadrinhos.
Sim. A linguagem, por exemplo, destes mangás , traz uma simbologia tão poderosa que massifica de certa forma seu público alvo tanto quanto o quadrinho americano, ou mais. Daí o cho

que, o estranhamento, das narrativas de revistas como Heavy Metal e demais que tenham quadrinho europeu ou de “autor”, normalmente mais abertas a conceitos não tão mastigados. Isso vem a corroborar com o fato do quadrinho ser considerado arte, ainda que possa ser veículo de ufanismos e distorções, mostra que possui um aparato complexo e lúdico em sua execução e absorção. Tem um livro que li faz um tempo que fala um pouco disso através do viés nipônico, o livro “Otaku: os filhos do virtual”, do qual inclusive escrevi há uns dois anos uma resenha para o jornal A Tribuna, de Santos.

-Conte-nos agora, com detalhes (e algumas imagens) como se originou esta performance teatral valendo-se de trechos de Quadrinhos e obras famosas da Literatura mainstream? Os objetivos? Motivações?
Na verdade, foi um projeto para um festival de cenas, o FESCETE, que a cada ano ganha mais importância na Baixada Santista (talvez mais importância do que possa ser saudável) no qual desenvolvemos quatro cenas que seriam apresentadas ao longo do festival. Essas cenas formariam uma discussão com pontos de vista diferentes sobre as luzes e as trevas na alma humana e o nome acabou sendo estupidamente previsível: Projeto Luz e Trevas. Na seqüência de apresentações foram Fausto de Goethe, O Mar Muda do Neil Gaiman, Valerie de Alan Moore e A Alegoria da Caverna do Platão.

-Pode nos enviar o texto do “plot”?
Vou fazer o possível, pois o que há no meu computador é a proposta de montagem de projeto.

-Quais as obras de Quadrinhos que foram aproveitadas?
Como já citei, dos quadrinhos propriamente ditos foi o capítulo Valerie, do “V de Vingança” (acima), e O Mar Muda que foi um conto do Gaiman publicado milênios atrás no Recado Devir, que teve tradução e publicação um ano depois da nossa apresentação. Fora isso, um trecho de Fausto e A Alegoria da Caverna de Platão, onde mixamos a entonação clássica com um visual e gestos pop-dark alternativos.

-Como conseguiu recrutar o pessoal? Eles tinham familiaridade com os Quadrinhos?
Os atores vieram do curso de teatro da Filação Filantrópica, oferecido na Escola Técnica Federal pelo já citado Victor Lomnitzer, popular ‘Vitão”. A familiaridade com os quadrinhos partiu de poucos; no elenco do Valerie contamos com minha namorada, Aline Werneck, que também dá aulas de teatro fazendo o papel central e lentamente sendo convertida para a leitura de HQs. Também nesta cena contamos com Juliano Zamonelli (adorador/devorador de Hellboy e um grande desenhista) e o próprio Victor, leitor de Asterix , Angeli, e todo quadrinho nacional do “tempo dele”. A voz do Victor em cena, é passível de suscitar lendas como a de Moore. Os demais atores conheciam quadrinhos por outras mídias.

-Qual foi a repercussão do evento?
O evento teve uma boa repercussão, valeu mesmo a pena realizar, mas ficou com gostinho de “quero mais”. A companhia passou por alguns problemas, mas estaremos retornando em breve, quem sabe até com este projeto. 
Infelizmente o teatro santista é ainda um movimento geocêntrico, ou egocêntrico, talvez umbigocêntrico. E a apresentação teve a intenção de mandar uma mensagem de postura à classe, dizendo pelas palavras de Moore que uma escolha pessoal não serve de desculpa para auto-idolatria e promiscuidade. Se alguém entendeu isto , não se manifestou. Até ganhei uns tapinhas nas costas e uns prêmios.

-Sobre a sua intenção de fazer algo mais grandioso com a inigualável “The Birth Caul”, pode nos adiantar algum detalhe? (inclusive eu já estou traduzindo este verdadeiro mapa cósmico e tenho interesse em colaborar no que for necessário para torna-la acessível a todos os interessados...)
Como já conversamos , sua ajuda será preciosa e apreciada, assim como a de qualquer um que esteja interessado na divulgação do trabalho de Alan Moore e cultura ativa, transformadora. Até agora, estamos averiguando a questão autoral, e o que posso adiantar é que a montagem deve ser próxima da proposta do próprio Moore, com música experimental, imagens somadas à força das palavras e mais alguns elementos que são surpresa. A intenção é realmente criar uma viagem através dos sentidos. Será o mesmo que encher a platéia de alucinógenos, sem o recurso dos mesmos...

-Quase não temos falado em nosso site sobre o Teatro, também um constituinte importante da Cultura Pop. Como militante do gênero, o que pode nos contar a respeito? O Brasil sempre teve uma grande tradição nessa arte. Quais os autores e peças que são suas preferidas?
O brasil tem uma grande tradição no teatro. Nosso povo é, quando devidamente provocado, inteligente e excepcionalmente criativo. O Brasil tem a capacidade de ser a jóia da humanidade na Arte, no Esporte e nas Ciências, sejam elas quais forem. O problema é continuar sendo um eterno “talvez”. De autores e peças, a lista é muito grande além dos carimbados como o Guarnieri, e o Chico Buarque, que é muito bom, e foi uma pena que parou. Acho que devemos resgatar vários nomes inauditos e valorizar nossos autores, como fizeram a pouco tempo com o Qorpo Santo, além de ficar de olho na geração que é contemporânea. Acredito que destes, a Adriana Falcão, que tive o prazer de conhecer, vai ficar pra história.

-E do teatro mundial?
Outra lista enorme. Não dá pra fugir de certos nomes: Shakespeare, Moliére, Beckett, Lorca, Pirandello, Ionesco... e mais perto o Weiss, Camus e o verdadeiramente necessário Heiner-Müller. Se for listar as peças, levaria outra entrevista. Coisa para vários artigos ou meia dúzia de livros...

-Sobre Plínio Marcos, você apreciava suas peças? Qual considera a mais incisiva, digamos assim, e porque?
A peça mais incisiva do Plínio foi o próprio. Pude vê-lo discursando umas duas vezes e senti que ele realmente se importava com a arte, num plano ideário e ativo. Ele disse coisas que mexeram bastante e viveu uma vida fora dos padrões, como todo grande gênio. Me lembro dele dizendo coisas muito essenciais sobre a postura da classe teatral, e depois, durante um festival em sua homenagem aqui em Santos, arrasaram com pedantismo artificial um trabalho experimental que meu grupo vinha desenvolvendo. Falaram muita asneira no debate que precedeu nossa apresentação e quando eu disse “  Lembram que semana passada o Plínio falou tal coisa?” começaram a desconversar... O mal é esse bando de sangue-sugas de aplausos. Entendo bem o Alan Moore e seu isolamento. Eu não quero gente que diga amém, mas alguém que opine com propriedade. E o Plínio não dizia amém, ele cuspia no final da oração. Das obras dele cito O Abajur Lilás, na qual já me aventurei, e o Dois Perdidos Numa Noite Suja, que tem tudo para ser uma peça milenar, universal.

-Conhece o trabalho polêmico e também “navalha na carne” de Antonin Artaud?
O Artaud é outra peça rara, e perfeitamente compreensível. Afinal dizem que é preciso um louco para reconhecer o outro... A proposta visceral dele talvez não tenha tanto a ver com o que dizem por aí. Você ouve “Artaud? 
O cara gostava de sangue e tripas!!!” entre outros comentários por todos os lugares, de pessoas que não leram , mas “conhecem”. Na verdade, Antonin Artaud possuía sensibilidade e ousadia transbordantes, e não deve ser visto de forma tão unilateral. Como muita gente do seu tempo, estava em plena descoberta do oriente místico, da busca de uma leitura dos símbolos onde estes símbolos possuíam uma forma além da nossa imposição cognitiva. 
Quem quiser saber de Artaud, procure uma pérola da análise literária que ainda tem muito a brilhar chamada Jucimara Tarricone, que é apaixonada pelo sujeito. Deve haver dois ou mais cultos onde sacrificam ovelhas virgens de lã alva para ele, assim como ouvi dizer que fazem para Alan Moore.

Obrigado, Amigo.
Eu é que agradeço o convite. Parabéns pelo site.