ALAN MOORE     Senhor do Caos  /   Lord of Chaos
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Entrevistas  /  Interviews


     JOSÉ H. DE FREITAS ( Director da DEVIR/PORTUGAL)

                                                                          por Jose Carlos Neves

  Um dos sócios fundadores do empreendimento de importação e venda directa de RPGs que mais tarde se transformou na Devir, JOSÉ DE FREITAS é actualmente um dos homens-fortes da Banda Desenhada portuguesa, área comercial da Devir Livraria que herdou em 2000. Em apenas dois anos, e sem qualquer história  antecedente neste mercado, a editora é hoje uma das mais bem  sucedidas entidades no sector da Nona arte em Portugal, cujo  apoio à edição e divulgação se multiplica de forma galopante.

Tomando crédito por dar a conhecer aos leitores portugueses o humor brasileiro, em toda a sua dimensão e glória, bem como por fornecer comics de qualidade aos fanboys nacionais,a editora não descansa sob os louros colhidos e tem mais  projectos na manga para este ano.

(introdução “pirateada” do excelente site lusitano www.centralcomics.com.

  - Freitas, para iniciar faça-nos sua apresentação: Idade, onde nasceu e cresceu, estado civil, filhos, formação acadêmica e profissional

  Sou português apesar de ter nascido na Dinamarca e de mãe dinamarquesa, em 1964. Mas sempre vivi em Portugal. De formação sou historiador, mas fiz um mestrado em Antropologia, e tenho uma Pós-graduação em História política e Filosófica. desde há mais de dez anos (desde 1989, para dizer a verdade) que trabalho na área de jogos de personagem e estratégia (rpg), e desde 1996 sou um dos responsáveis da devir em Portugal.

  -O quê e quando iniciou seu interesse pela Banda Desenhada (BD)? Na infância você lia muito, tanto BD quanto Literatura mainstream? Pode citar autores e obras que o influenciaram?

Toda a minha infância foi cursada no Liceu Francês de Lisboa, e como sabe, os franceses são MUITO leitores de BD! Praticamente aprendi a ler com Asterix e Lucky Luke. Logo depois, entre os meus dez e quinze anos, lia quase tudo o que era BD europeia, como Alix, Blueberry e Bernard Prince (dois dos meus preferidos), Yoko Tsuno, Tanguy e Laverdure, Michel Vaillant, e todos os outros clássicos franco-belgas. Nessa altura, tornei-me também grande fã da Marvel, porque descobri com alguns meus amigos coleccionadores as revistas grandes a preto e branco da EBAL, importadas para Portugal! E o material era excepcional! Ditko, Romita Sr., Kirby... os meus preferidos eram o Homem-Aranha e o Demolidor, e numa certa altura a fase “mítica” do Thor, passada no Valhalla. Depois de acabar o Liceu praticamente deixei de ler BD, porque me apaixonei por outras leituras e porque me envolvi muito com o Teatro (fiz parte durante mais de seis anos de um grupo que chegou a ser bem conhecido - e onde começaram muitos actores conhecidos em Portugal: Maria e Inês de Medeiros, etc...).

Foi só depois de saír da Universidade que voltei a ler Bd, a partir de 1986 ou 1987, e aqui praticamente só comics americanos.

-Como se iniciou profissionalmente no gênero e qual foi sua primeira atividade? Atualmente o que tem feito na BD?

Em 1998 surgiu a oportunidade da Devir em Portugal editar os títulos da Marvel, que acabaram por ser lançados em 1999. Inicialmente o nosso trabalho era muito focado só em revistas para bancas, mas a partir de 2001 começaram a ser editados álbuns. Nessa altura sentimos a necessidade de ter uma pessoa mais responsável exclusivamente pelo nosso sector editorial, e eu fui quem assumiu esse cargo.

O meu trabalho é muito diverso, desde o controlo comercial e financeiro dos títulos a editar, contacto com os grandes clientes, até definição estratégica dos títulos a editar e dos respectivos formatos, e mesmo ocasionalmente tradução e revisão.

-Quando foi seu primeiro contato com o trabalho de Alan Moore e  qual deles te causou um impacto maior e especial?

Watchmen!! A primeira coisa eu eu li dele (e nunca tinha ouvido falar do Sr. Moore antes) foi Watchmen, mas só no início dos anos 90, se não me engano, quando saiu a edição colectada. Um amigo meu já andava a falar-me disso há mais de um ano, e faltavam-lhe alguns números. E curiosamente, na altura eu trabalhava na distribuição de rpg, e a Mayfair Games tinha lançado um suplemento para o seu RPG de super-heróis baseado no Watchmen, e feito à volta do diário do Rorschach! Aquilo intrigou-me... E quando li, fiquei estupefacto. foi o primeiro dos livros “deconstruccionistas” sobre super-heróis que li, e impressionou-me muito.

No entanto... confesso que aquilo que eu mais gosto de ler do Moore tem sido Top 10, que me parece ser uma série da sua maturidade total, em que ele consegue fazer qualquer coisa mais maluca e improvável, e mantê-lo legível, divertido, sério, cheio de humor, com acção...

  -Qual trabalho  você considera ser a obra-prima dele e  porquê?

É uma pergunta muito difícil de responder. Existem os livros que nós intelectualmente sentimos que são superiores, aqueles de que gostamos particularmente por motivos estéticos (porque o trabalho do artista é excepcional) ou aqueles que nós pessoalmente gostamos mais de ler... Curiosamente, não acho que seja o From Hell, embora admire o trabalho muitíssimo. Não sei, oscilo entre o Piada Mortal, o Top 10 e o Swamp Thing... E claro, Watchmen.

-Ao seu ver, quais foram as inovações mais importantes do autor? -Especificamente sobre Watchmen e sua instigante forma narrativa – já apelidada de O Cidadaõ Kane da BD – o que tem a nos dizer?

Os leitores focam-se muitas vezes no facto de Moore ter criado as primeiras histórias mais negras de super-heróis, ou de ter sido o primeiro a lembrar-se que eles também têm de escolher a côr das peúgas ou decidir se querem sumo de laranja ou de tomate... as coisas que ninguém via porque não eram parte do “espectáculo” da acção. Mas acho que a inovação dele vai mais longe. É um livro que prova que a história de super-heróis não é possível (isto é, se nos pusermos a pensar muito no assunto: “quem guarda os guardiões?” contém uma regressão ao infinito!), e nesse sentido é muito mais violentamente desconstruccionista do que se pensa. A dimensão introspectiva sobre a história de super-heróis é muito apoiada por toda a parte de prosa do livro, que também foi uma inovação total na altura! Além disso, de uma certa maneira, é uma poderosa obra pós-moderna, que opera com máscaras dentro de máscaras, e realidades dentro de realidades. Por exemplo, a história do pirata que vai sendo contada dentro da própria história. E tal como em Citizen Kane, chegamos sempre à ambiguidade entre aquilo que as personagens pretendem (ou pretendiam ao iniciar a sua carreira) e o resultado final, que é sempre mais dramático, triste e humano, e que desafia muitas vezes a moralidade convencional, não se deixando encaixar em categorias “fáceis”.

-Sobre a BD em Portugal, o que você considera que a distingue das Histórias em Quadrinhos brasileiras, se conheces estas?

Infelizmente pouco conheço da BD brasileira, com a excepção dos autores que são editados pela Devir (Mutarelli, Angeli, Laerte, etc...) e não sei se são representativos. A BD em Portugal vive desde os anos 80 numa espécie ed ghetto, ao qual eu chamaria o ghetto “intelectualizante”. Esta minha opinião é algo radical, mas explico-a assim: não existe possibilidade de viver da BD em Portugal, portanto qualquer trabalho apresentado é sempre apresentado por autores que vivem de outra coisa e fazem BD como hobby. Como tal, não abrem qualquer possibilidade de modificação, ou de crítica anterior do seu trabalho. Muitos deles são excelentes! Podem rivalizar com o melhor que existe lá fora. Infelizmente, não rivalizam com o razoável, ou com o muito divertido ou entusiasmante, embora comercial. A culpa não é do autor. É do mercado. Porque motivo deverá ele transigir e fazer uma obra mais fácil, ou deverá fazer o esforço de criar um livro mais acessível ou que seja simultaneamente divertido e complexo, se não vai ganhar mais por isso?

-Sobre a Exposição-Homenagem a Alan Moore,  Argumentos, realizada em Amadora, você acha que o evento atingiu plenamente os objetivos dos seus realizadores? E atendeu às expectativas do público?

Infelizmente, não totalmente. Em parte, o corpo geral da exposição estava longe do festival (não fisicamente, mas não era no mesmo edifício, e muito poucos visitantes do festival foram ao Centro de BD da Amadora ver a exposição, que era excelente! Acho que os organizadores devem estar de parabéns, mas que um esforço maior deveria ter sido feito para divulgar a existência. Em aparte, tentámos colmatar essa deficiencia com a edição, e sobretudo com a distribuição do catálogo da Exposição.

-E o aclamado Catálogo da Exposição “Argumentos”publicado pela Devir, qual foi a tiragem e a repercussão? Porque a Devir/Brasil não disponibilizou este Catálogo e a revista Comix para os leitores brasileiros?

Neste momento, tenho a confirmação 100% segura de que o Catálogo está disponível no mercado brasileiro, o que acontece é que os transportes são meio lentos, não só porque mandamos de barco, mas por causa das... especificidades... das alfandegas brasileiras!

  A tiragem foi pequena, pouco mais de 1000 exemplares, e o preço é relativamente caro. Mas é apesar disso, talvez o melhor livro sobre a obra do Moore publicado (excepção possível da homenagem recentemente editada, que ainda não vi). Quanto à Comix, de facto não está no Brasil, a não ser em quantidades muito pequenas, inferiores a 100, para venda em eventos, já que não temos os direitos de venda no vosso país. Muitas das histórias têm direitos noutras editoras brasileiras.

- Como é o fandom Português da BD? Se reúnem, existem Convenções? E os fãs em particular de Alan Moore, existem muitos? Eles se manifestam?

É igual ao dos outros países, mas são menos! As convenções são poucas, e não existe nenhuma especificamente para BD americana. O Festival da Amadora, em Outubro, o recentemente criado BD Fórum (em Maio, de que a Devir é um dos co-organizadores). Mas há bastantes fãs de BD americana. Os do Alan Moore estão a surgir, à medida que a Devir edita títulos dele. Posso dizer que a Liga de Cavalheiros Extraordinários foi um dos nossos best-sellers em 2002, e que outros livros contribuirão aos poucos para um maior reconhecimento de Moore em Portugal. Falando de fãs... nunca nos devemos esquecer de citar o David Soares, super-fã número 1 do Moore, e que tem feito bastante para divulgar o trabalho dele.

-Como está o mercado da BD atualmente em Portugal e, por extensão, no resto da Europa? (Alan Moo...ops,David Soares)

Os mercados europeus são muito diferentes uns dos outros. Portugal está numa fase

-Voce acabou de chegar da famosa Convenção mundial dos comics, em San Diego, nos EUA (entrevista concedida em junho de 2003), alguma novidade para nos?

Novidades? O Alan Moore aceitou fazer uma teceira série de "League...", o Kevin O'Neill ganhou o Eisner de melhor desenhador e a "League" de melhor série limitada. Falei  com muitos artistas que trabalham com o Moore, achei o  material da Avatar um pouco fraco no geral.

Obrigado, Freitas! Tao logo voce envie as respostas aquelas ultimas perguntas, eu atualizo sua Entrevista, que esta´excelente.


 

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