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Entrevistas / Interviews
JOSÉ H. DE FREITAS ( Director da DEVIR/PORTUGAL)
por Jose Carlos Neves
actualmente um dos homens-fortes da Banda Desenhada portuguesa, área comercial
da Devir Livraria que herdou em 2000. Em apenas dois anos, e sem qualquer história
antecedente neste mercado, a editora é hoje uma das mais bem
sucedidas entidades no sector da Nona arte em Portugal, cujo
apoio à edição e divulgação se multiplica de forma galopante.
Tomando crédito por dar a conhecer aos leitores
portugueses o humor brasileiro, em toda a sua dimensão e glória, bem como por
fornecer comics de qualidade aos fanboys nacionais,a editora não descansa sob
os louros colhidos e tem mais projectos
na manga para este ano.
(introdução
“pirateada” do excelente site lusitano www.centralcomics.com.
Toda a minha infância foi cursada no Liceu Francês
de Lisboa, e como sabe, os franceses são MUITO leitores de BD! Praticamente
aprendi a ler com Asterix e Lucky Luke. Logo depois, entre os meus dez e quinze
anos, lia quase tudo o que era BD europeia, como Alix, Blueberry e Bernard
Prince (dois dos meus preferidos), Yoko Tsuno, Tanguy e Laverdure, Michel
Vaillant, e todos os outros clássicos franco-belgas. Nessa altura, tornei-me
também grande fã da Marvel, porque descobri com alguns meus amigos
coleccionadores as revistas
grandes a preto e branco da EBAL, importadas para Portugal! E o material era
excepcional! Ditko, Romita Sr., Kirby...
os meus preferidos eram o Homem-Aranha e o Demolidor, e numa certa altura a fase
“mítica” do Thor, passada no Valhalla. Depois de acabar o Liceu
praticamente deixei de ler BD, porque me apaixonei por outras leituras e porque
me envolvi muito com o Teatro (fiz parte durante mais de seis anos de um grupo
que chegou a ser bem conhecido - e onde começaram muitos actores conhecidos em
Portugal: Maria e Inês de Medeiros, etc...).
Foi só depois de saír da Universidade que voltei
a ler Bd, a partir de 1986 ou 1987, e aqui praticamente só comics americanos.
-Como
se iniciou profissionalmente no gênero e qual foi sua primeira atividade?
Em 1998 surgiu a oportunidade da Devir em Portugal
editar os títulos da Marvel, que acabaram por ser lançados em 1999. Inicialmente
o nosso trabalho era muito focado só em revistas para bancas, mas a partir de
2001 começaram a ser editados álbuns. Nessa altura sentimos a necessidade de
ter uma pessoa mais responsável exclusivamente pelo nosso sector editorial, e
eu fui quem assumiu esse cargo.
O meu trabalho é muito diverso, desde o controlo
comercial e financeiro dos títulos a editar, contacto com os grandes clientes,
até definição estratégica dos títulos a editar e dos respectivos formatos,
e mesmo ocasionalmente tradução e revisão.
-Quando
foi seu primeiro contato com o trabalho de Alan Moore e
qual deles te causou um impacto maior e especial?
Watchmen!! A primeira coisa eu eu li dele (e nunca
tinha ouvido falar do Sr. Moore antes) foi Watchmen, mas só no início dos anos
90, se não me engano, quando saiu a edição colectada. Um amigo meu já andava
a falar-me disso há mais de um ano, e faltavam-lhe alguns números. E
curiosamente, na altura eu trabalhava na distribuição de rpg, e a Mayfair
Games tinha lançado um suplemento para o seu RPG de super-heróis baseado no
Watchmen, e feito à volta do diário do Rorschach! Aquilo intrigou-me... E
quando li, fiquei
estupefacto. foi o primeiro dos livros “deconstruccionistas” sobre super-heróis
que li, e impressionou-me muito.
No entanto... confesso que aquilo que eu mais gosto
de ler do Moore tem sido Top 10, que me parece ser
uma série da sua maturidade total, em que ele consegue fazer qualquer coisa
mais maluca e improvável, e mantê-lo legível, divertido, sério, cheio de
humor, com acção...
É uma pergunta muito difícil de responder.
Existem os livros que nós intelectualmente sentimos que são superiores,
aqueles de que gostamos particularmente por motivos estéticos (porque o
trabalho do artista é excepcional) ou aqueles que nós pessoalmente gostamos
mais de ler... Curiosamente, não acho que seja o From Hell, embora admire o
trabalho muitíssimo. Não sei, oscilo entre o Piada Mortal, o Top 10 e o Swamp
Thing... E
claro, Watchmen.
-Ao
seu ver, quais foram as inovações mais importantes do autor? -Especificamente
sobre Watchmen e sua instigante forma
narrativa – já apelidada
de O Cidadaõ Kane da BD – o que tem a nos dizer?
Os leitores focam-se muitas vezes no facto de Moore
ter criado as primeiras histórias mais negras de super-heróis, ou de ter sido
o primeiro a lembrar-se que eles também têm de escolher a côr das peúgas ou
decidir se querem sumo de laranja ou de tomate... as coisas que ninguém via
porque não eram parte do “espectáculo” da acção. Mas acho que a inovação
dele vai mais longe. É um livro que prova que a história de super-heróis não
é possível (isto é, se nos pusermos a pensar muito no assunto: “quem guarda
os guardiões?” contém uma regressão ao infinito!), e nesse sentido é muito
mais violentamente desconstruccionista do que se pensa. A dimensão
introspectiva sobre a história de super-heróis é muito apoiada por toda a
parte de prosa do livro, que também foi uma inovação total na altura! Além
disso, de uma certa maneira, é uma poderosa obra pós-moderna, que opera com máscaras
dentro de máscaras, e realidades dentro de realidades. Por exemplo, a história
do pirata que vai sendo contada dentro da própria história. E tal como em
Citizen Kane, chegamos sempre à ambiguidade entre aquilo que as personagens
pretendem (ou pretendiam ao iniciar a sua carreira) e o resultado final, que é
sempre mais
dramático,
triste e humano, e que desafia muitas vezes a moralidade convencional, não se
deixando encaixar em categorias “fáceis”.
-Sobre
a BD em Portugal, o que você considera que a distingue das Histórias
em Quadrinhos
brasileiras, se conheces estas?
Infelizmente pouco conheço da BD brasileira, com a
excepção dos autores que são editados pela Devir (Mutarelli,
Angeli, Laerte, etc...) e não sei se são
representativos. A BD em Portugal vive desde os anos 80 numa espécie ed ghetto,
ao qual eu chamaria o ghetto “intelectualizante”. Esta minha opinião é
algo radical, mas explico-a assim: não existe possibilidade de viver da BD em
Portugal, portanto qualquer trabalho apresentado é sempre apresentado por
autores que vivem de outra coisa e fazem BD como hobby. Como tal, não abrem
qualquer possibilidade de modificação, ou de crítica
anterior do seu trabalho. Muitos deles são excelentes! Podem rivalizar com o
melhor que existe lá fora. Infelizmente, não rivalizam com o razoável, ou com
o muito divertido ou entusiasmante, embora comercial. A culpa não é do autor.
É do mercado. Porque motivo deverá ele transigir e fazer uma obra mais fácil,
ou deverá fazer o esforço de criar um livro mais acessível ou que seja
simultaneamente divertido e complexo, se não vai ganhar mais por isso?
-Sobre
a Exposição-Homenagem a Alan Moore,
Argumentos, realizada em
Amadora, você acha que o evento atingiu plenamente os objetivos dos seus
realizadores? E atendeu às expectativas do público?
Infelizmente, não totalmente. Em parte, o corpo
geral da exposição estava longe do festival (não fisicamente, mas não era no
mesmo edifício, e muito poucos visitantes do festival foram ao Centro de BD da
Amadora ver a exposição, que era excelente! Acho que os organizadores devem
estar de parabéns, mas que um esforço maior deveria ter sido feito para
divulgar a existência. Em aparte, tentámos colmatar essa deficiencia com a edição,
e sobretudo com a distribuição do catálogo da Exposição.
-E
o aclamado Catálogo da Exposição
“Argumentos”publicado pela Devir, qual foi a tiragem e a repercussão?
Porque a Devir/Brasil não disponibilizou este Catálogo e a revista Comix para
os leitores brasileiros?
Neste momento, tenho a confirmação 100% segura de
que o Catálogo está disponível no mercado brasileiro, o que acontece é que
os transportes são meio lentos, não só porque mandamos de barco, mas por
causa das... especificidades... das alfandegas brasileiras!
quantidades muito pequenas, inferiores a 100, para venda em eventos, já que não
temos os direitos de venda no vosso país. Muitas das histórias têm direitos
noutras editoras brasileiras.
-
Como é o fandom Português da BD? Se reúnem, existem Convenções? E os fãs
em particular de Alan Moore, existem muitos? Eles se manifestam?
É igual ao dos outros países, mas são menos! As
convenções são poucas, e não existe nenhuma especificamente para BD
americana. O Festival da Amadora, em Outubro, o recentemente criado BD Fórum
(em Maio, de que a Devir é um dos co-organizadores). Mas há bastantes fãs de
BD americana. Os do Alan Moore estão a surgir, à medida que a Devir edita títulos
dele. Posso dizer que a Liga de Cavalheiros Extraordinários foi um dos nossos
best-sellers em 2002, e que outros livros contribuirão aos poucos para um
maior reconhecimento de Moore em Portugal. Falando de fãs... nunca nos devemos
esquecer de citar o David Soares, super-fã número
1 do Moore, e que tem feito bastante para divulgar o trabalho dele.
-Como
está o mercado da BD atualmente em Portugal e, por extensão, no resto da
Europa? (Alan Moo...ops,David Soares)
Os mercados europeus são muito diferentes uns dos
outros. Portugal está numa fase
-Voce
acabou de chegar da famosa Convenção mundial dos comics, em San Diego, nos EUA
(entrevista concedida em junho de 2003), alguma novidade para nos?
Novidades? O Alan Moore aceitou fazer uma teceira série de "League...", o Kevin O'Neill ganhou o Eisner de melhor desenhador e a "League" de melhor série limitada. Falei com muitos artistas que trabalham com o Moore, achei o material da Avatar um pouco fraco no geral.
Obrigado,
Freitas! Tao logo voce envie as respostas aquelas ultimas perguntas, eu atualizo
sua Entrevista, que esta´excelente.