ALAN MOORE     Senhor do Caos  /   Lord of Chaos
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Entrevistas  /  Interviews


    O "Michelangelo" das HQBs: MOZART COUTO 

                                   (the ""Michelangelo" of Brazilian Comics!)

                                                                                          por Jose Carlos Neves

-Prezado Mozart,   para iniciar faça-nos  sua apresentação: Idade, onde nasceu ,cresceu e vive atualmente, estado civil, filhos, formação acadêmica e profissional

Tenho 46 anos incompletos. Nasci em Juiz de Fora e nunca saí daqui pra morar em outro lugar. Sou casado e tenho duas filhas, uma com 17 e outra com 19 anos. Sou autodidata.

-O quê e quando iniciou seu interesse pelos Quadrinhos?

Não me lembro bem, mas acho que foram revistas que meus pais compravam pra eu ler – eles sempre gostaram de quadrinhos- e isso influenciou-me.

-Pode citar autores e obras que o influenciaram?

Muitos autores, mais desenhistas do que escritores. Eu sou ligado mesmo é em imagem. Hoje cada vez mais. Penso que fui influenciado por muita gente, desde ilustradores de livros infantis que via na infância, a autores de quadrinhos americanos da época de Hal Foster, e Alex Raymond, passando por todos que brilharam nos anos setenta, e também muitas coisas feitas na Europa nos anos oitenta, assim como quadrinhos brasileiros em geral e até mangás.

-Quando foi seu primeiro contato com o trabalho de Alan Moore e  qual obra lhe causou algum impacto especial?

Eu li alguma coisa do Monstro do Pântano e senti que tinha algo muito diferente aparecendo ali.

-Qual trabalho voce considera a obra-prima dele e porquê?

Penso que Watchmen foi um marco nos quadrinhos publicados nos EUA, e fico imaginando como ficou a cabeça dos caras acostumados com “comics” depois de ver heróis estuprando uns aos outros e tudo aquilo. A narrativa, a densidade dos textos, e muitos outros pontos fazem essa obra  muito interessante, embora esse não seja o tipo de quadrinhos que eu tenha paciência de ler...aliás, eu não gosto de ler quadrinhos, eu gosto de VER quadrinhos.

-Eu sei que você é um cara místico.O que você pensa da Magia?                                       Miraleman por Mike Deodato & Mozart Couto

Faz algum tempo que tomei uma postura de viver o que está acontecendo procurando dar conta da minha vida com ética e ir seguindo, aberto às coisas.

Houve um tempo em que era mais envolvido com coisas como “o oculto”, e foi através desse meu envolvimento que descobri o caminho que sigo hoje. Penso que magia pode ser a crença ou realmente a aptidão de lidar com energias pouco conhecidas pelo conhecimento e pensamento racionalista.

Mas  Magia não é Mágica, ilusionismo, prestidigitação, truque, como a insidiosa habilidade de fundamentalistas cristãos disfarçados querem fazer com que pessoas -principalmente jovens- acreditem hoje em dia, através de várias formas de entretenimento que consumem e através dos quais formam opinião, entretenimento esses que são muito bem manipulados por esses fundamentalistas.

-Como voce considera o Tempo (como a quata dimensao do espaço, como teorizou Einstein, ou tem uma visao pessoal?

Como eu já coloquei antes, eu adotei um modo de viver e vivenciar as coisas que é: viver minuto a minuto com a melhor atenção possível, percebendo e experienciando as 
coisas, mas sem prender-me a elas ou tentar conceituá-las pois teorizações, conceitos abstratos complexos, conhecimento advindo da experiência sensorial- minha ou de outrem-,isso tudo pode acabar complicando a vida e aprendi que é melhor deixar a vida 
fluir. O conhecimento teórico e a repetição que advém dele pode nos levar a uma crença restritiva por isso não me interessa muito se o tempo pode ser como Einstein deduziu ou como qualquer outro tenha colocado, ou se o tempo é alguma outra coisa. Pra mim eu procuro viver os acontecimentos. Só isso. 

-E o que acha que e´ a consciencia?

Não sei.Eu percebo coisas, elaboro pensamentos, sinto coisas, faço coisas. procuro fazer com que essas coisas não sejam causadoras de sofrimento nem pra mim nem para outros. Só isso importa. Se Há uma consciência atuando,parte de uma consciência primordial, ou qualquer outra coisa aí envolvida, não me importa muito.

-Sobre o atual estágio dos Comics no mundo, qual o futuro que voce antevê para a Nona Arte?

Parece que os quadrinhos não terão mais a força que tiveram, a não ser para uns poucos apaixonados. Terão que se adequar a um mundo onde o entretenimento eletrônico tomou a frente. E parece que estão se adaptando bem, embora numa fase ainda difícil, ao que tudo indica, continuarão a sobreviver.

-E no Brasil?

Não sei. Isso aqui é inexplicável.

-O quê voce acha que pode explicar o atraso brasileiro em relação, não digo aos EUA, mas à Europa, por exemplo, no que concerne a álbuns de qualidade (salvo raras exceções, é claro, como os de Mutarelli, Mestre Shima, Mozart Couto e uns poucos outros abnegados)?

Falta de cultura, falta de dinheiro, falta de auto-estima, cara de pau de ser consumidor passivo de coisas que não têm a ver conosco. Eu sei que muitos dirão que o mundo hoje é globalizado, que não se pode ficar separando mais as coisas, mas isso pra mim é um discurso da globalização burra que está idiotizando cada vez mais as pessoas. Penso que temos certas coisas muito características e que devem ser valorizadas. Precisávamos gostar mais do Brasil e descobrir nossa cultura, aceitá-la e valorizá-la através também dos quadrinhos.

-O quê, ao seu ver, poderia ser feito para mudar para melhor este quadro?

Cuidar da nossa auto-estima. Aprender que estamos sendo manipulados e buscar nossos caminhos com dignidade.

  -Mas falemos agora do teu reconhecido trabalho. Como você se interessou por desenho?

Não me lembro bem... Desde muito pequeno eu passava um bom tempo desenhando. E já fazia os desenhos em seqüência. Colocava balões perto dos personagens e pedia a meu pai que escrevesse neles as falas que eu inventava.

-Frequentou alguma escola ? Quais suas maiores influências?

Não, sou autodidata. Meu pai me ensinou muitas coisas, inclusive a disciplina pra estudar e praticar com afinco. Tenho muitas influências fortes, seria difícil coloca-las aqui. Acho que já citei algumas acima.

  -O que recomenda para desenhistas novatos em termos de aprendizagem, principalmente desenho da figura (anatomia), luz-e-sombra, perspectiva e composição artística?

O ideal mesmo é estudar com alguém que saiba, e pesquisar em livros bons, bem elaborados, praticar muito, mas muito mesmo. Desenvolver a capacidade de ver muito bem tudo o que nos cerca, em detalhes, entendendo a estrutura das coisas, inclusive a estrutura psicológica das pessoas e animais e aprender a captar bem o que surge na imaginação.

  -Quais dos seus trabalhos voce julga mais importantes e porque?

Não sei. Eu gosto de ver meu trabalho como um todo. Valorizo meu esforço e minha coragem de continuar diante de tantas dificuldades que enfrentei e que ainda encontro.  

Recente Capa de Star Wars para a Dark Horse         -Voce publicou no Exterior? O quê, quando e onde?

Sim. Publiquei no final dos anos oitenta até meados dos anos noventa na Europa, na Bélgica e na Alemanha. Alguma coisa foi pra França também. Desenhei histórias no estilo Franco-Belga, e consegui publicar histórias minhas mesmo. Depois desenhei pra editoras americanas como Marvel, Dc Comics, Dark Horse.

  -Foi através do Artecomix , outro agente, ou direto com as editoras?

Nos Eua, sim. Depois cheguei a produzir alguma coisa pra uma outra editora americana, sendo intermediado por um outro agente brasileiro e, recentemente, fiz duas capas para revistas da Dark Horse onde a negociação foi feita através de um agente americano.

  -Como é o relacionamento seu com os editores estrangeiros? O pessoal paga corretamente?

O que é tratado foi pago, mas já tomei canos, e já tive muita recusa, porque “meu traço não se enquadra ao mercado americano”.

-Parece ate´ piada.E aqui no Brasil?

Já tomei canos também. Mas sobrevivi muitos anos só de quadrinhos. Era uma loucura. Faz quase seis anos que faço várias coisas, não só quadrinhos. È impossível viver de quadrinhos no Brasil.

-Voce concorda que, depois de uma onda iniciada, ao meu ver, na Image, o desenho de super-herois tem optado por uma arte mais realista – em termos de visual e não de temática. Melhor explicando: seres de músculos anabolizados impossíveis não são realistas. Mas sua representação no papel,  quase sempre iluminados por no mínimo duas fontes de luz – uma mais forte e no lado oposto a esta, outra mais fraca, ou de luz rebatida, torna as figuras mais realistas, mais tridimensionais, se me entende – como faz Dale Keown e  principalmente o italiano Paolo “Druuna”Serpieri. Concorda que existe esta tendência?

Acho que nos quadrinhos americanos, sim. A figura humana é bem valorizada. Mas se você der uma geral nos quadrinhos, verá que há uma grande variedade ainda ( graças a Deus!!!)

- Bem,amigo, o que que queria era que voce elaborasse mais a resposta sobre a tridimensionalidade conseguida nos desenhos de Serpieri e Dale Keown, um representando uma arte mais realista, e o outro o desenho de super-herois, mas ambos abordando a tecnica de utilizar duas fontes de iluminaçao.Uma mais forte de um lado e outra mais fraca (ou luz rebatida, ou reflexo) do outro. Voce so´comentou a parte do exagero anatomico.Mas o mais importante era justo essa tecnica de luz e sombra.

Se olhamos somente a "casca", a parte técnica, vemos que eles utilizam muito bem duas ou mais luzes porque isso valoriza melhor as formas da figuras. Ambos direcionam essa técnica para os fins que desejam: Serpieri para valorizar, principalmente, a sensualidade nas formas, Keown para valorizar formas mas também para criar impacto, dramaticidade. Nesse aspecto, os pontos onde colocam seus focos de luz afetam o resultado final. Por exemplo, Keown muitas vezes utiliza uma luz acima da figura e outra vindo de baixo, ou debaixo à direita, ou debaixo à esquerda,aí você evoca a dramaticidade. Com luzes no alto à esquerda ou à direita, conjugada com outras laterais, ou ambas laterais, mas uma um pouco acima que outra, você consegue valorizar muito as formas femininas e o resultado disso a nível de erotismo é muito bom. Mas em Serpieri também temos ,e muito, o aspecto da dramaticidade, do suspense, do horror, só que diferente do trabalho de Keown. O grande diferencial aí acaba sendo mesmo o estilo pessoal e os gêneros de histórias que faz com que cada um embora utilizando recursos parecidos consiga resultados diferentes. Agora eu vejo um lado um pouco mais profundo, mais sociológico e psicológico que é esse que citei anteriormente, o do enfoque exacerbado sobre a figura humana seguindo uma ideologia de grupo no trabalho de um( em Keown) e uma catarse individual ( em Serpieri) no do outro.

-Sobre anatomia, desenho anatomico em si, voce poderia discorrer tambem? Qual a melhor forma de se aprender, modelos vivos, livros?

Penso que o melhor seria unir as duas formas de aprendizado. Desenhar modelos vivos tem inúmeras vantagens mas corre-se o risco de não saber o que está sendo desenhado por que não se conhece a estrutura anatômica das figuras. É preciso entender bem como os ossos são, desenhá-los com calma até decorar suas formas, o mesmo serve para os músculos. É importante adquirir livros que mostram não só os músculos e ossos bem desenhados, mas também que descreva a ação deles. É claro que não se aprende isso fácil, por isso penso que deve-se desenhar com seus livros preferidos de anatomia sempre perto para ir consultando.  (exemplo de "modelo vivo" - e que modelo! - com duas fontes de iluminaçao, incrementando a tridimensionalidade e ressaltando as formas femininas - e que formas! - "live-model" (what one!) iluminated by 2 opposite light sourcers, enhancing the tridimensionality and female forms...)

-Aquela dica que me deu uma vez de imitar o "mapeamento de superficie",ou wireframe, como se faz em 3D ART de computador, elabore sobre isto (tem um desenhista americano muito bom,chamado Vilpu, que ensina que devemos pensar que nosso lapis é uma formiguinha a percorrer toda a superficie do que desenhamos,sentir o volume,etç).

Sim! A idéia é muito boa, sem dúvida. Eu sempre estimulo meus alunos a passarem os dedos suavemente sobre as formas dos objetos que irão desenhar durante um bom 
tempo, acompanhando as formas desse objeto, e depois, imaginarem que a ponta do lápis está fazendo o mesmo que os dedos quando estiverem desenhando. è claro que antes disso estimulo a pessoa a pensar que a folha de papel não é algo plano, mas sim um espaço vazio onde tudo o que vai ser desenhado é tridimensional. E´ fundamental 
que a mente seja educada nesse sentido.Treinar desenhar como wireframe também é muito bom com a vantagem de poder fazer seu wireframe bem perfeito, arredondado onde deve ser e levemente anguloso onde precisa ser. Há muitas formas de geometrizar as figuras para sentir a base das formas, e depois ir detalhando até chegar na forma o mais próximo do que ela é.
Desenhar é entender bem as formas e os efeitos da luz. É preciso saber olhar com calma, sem deixar que a emoção tome conta da situação. Há esse lado "pensado", estudado da arte, e há também o lado da emoção. Talvez o segredo do grande artista seja saber utilizar ambos cada um no momento adequado
.

  -Seria este novo jeito de desenhar mais elaborado uma forma de concorrer mais à altura com a computação gráfica, na qual as figuras, eu costumo dizer, sã0 mais reais do que o real?

Não sei... eu já reparei é que essa preocupação exagerada com um ícone de poder e força, essa atenção exagerada sobre a figura humana sempre esteve presente nas artes de civilizações e culturas de povos belicosos, dominadores.  

Desenho a lapis-de-cor meu, melhorado photoshopicamente pelo mestre Mozart/ A color-pencil drwaing by myself, "photoshopically enhanced "by master Mozart)

-Voce também já trabalha com Arte Digital? Somente “aperfeiçoando”o que desenhou antes no papel, ou já cria totalmente no PC? Qual programa considera o melhor para isto e porque?

Sim, dependendo do estilo que uso o computador vem complementar um desenho feito previamente no papel. Acho que assim fica melhor. Mas utilizando um “Tablet” sensível à pressão, é possível construir muitas coisas diretamente no computador. Os Programas que utilizo mais são o Photoshop e o meu preferido: Corel Painter.  

"Geometrizaçao" de planos superficiais e wireframe, passo-a-passo/Geometrical surface rendering and wireframing step-by-step

-Dos artistas nacionais, quais os que você mais aprecia e porquê? E os gringos?

Eu gosto de muitos mesmo. Cada um tem seu recado a dar. Gosto do pessoal mais antigo, que eram meu estímulo ( Colin, Shimamoto, Seto, e outros), gosto do pessoal que começou na época que comecei ( Rodval Matias, Watson, Deodato, E por aí vai) e gosto dos mais atuais, como Marcelo Campos, Roger Cruz, Lelis, E outros, muitos outros. É uma lista enorme, não daria pra colocar aqui. Dos estrangeiros, Hal Foster; Jack Kirby; Eugene Colan; Frank Frazetta; John Buscema; Marc Silvestri; Katsuhiro Otomo; Hayao Miazaki; Moebius; Mezières; Uderzo; Hiroaki Samura (" blade of the imortal)"; Michel Blanc Dumont; e muitos mais...

  -Sobre os fanzines, onde , parece, quase todos nós brasileiros começamos, você acha que eles ainda têm espaço neste novo mundo de Internet?

Acho que sim. Tudo que se fazia antes deve continuar, mas aliado ao eletrônico.

-Finalizando,amigo, forneça-nos o URL do seu Site e teça suas considerações sobre o nosso.

No momento estou sem site, mas breve estarei colocando um novo na web. Aguardem.

Esse seu site está muito bom mesmo. Você está de parabéns, Neves. Pra mim, tornou-se uma visita obrigatória. As entrevistas são o que mais me atrai.

Obrigado, Amigo.  

Eu que agradeço.

"Profeta" em argila, para estudos de luz-e-sombra esculpido por Mozart Couto

Mozart´s terracota Prophet done for studing light-and-shade effects in drawing.

Leia mais sobre a Arte de Mozart Couto, no Artigo sobre Desenho Automatico.

  e em www.mozartcouto.com