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ALAN MOORE Senhor do Caos /
Lord of Chaos
Entrevistas /
Interviews
O filósofo das HQs, Arquiteto Edgar Franco
Prolífico colaborador de fanzines
e alternativos, Edgar Franco é o artista de quadrinhos herméticos, prenhos de
reflexoes filosóficas, numa linguagem poética bem particular, mas que
se destaca também por desenhos bem caracteristicos, humanóides de ambos os
sexos e/ou hermafroditas, seres mitológicos, paisagens oníricas biomecanóides,
que lembram a arte de Moebius, Caza, Bilal, Giger e outros mais.
-
Idade, onde nasceu e cresceu, estado civil, filhos,
formação acadêmica e profissional.
Estou atualmente com 31 anos, nasci
na cidade de Ituiutaba no Triângulo Mineiro (sou extremamente telúrico, tenho
que ir para minha cidade natal pelo menos duas vezes ao ano para repor minha
energias...), sou casado com Rose já há 4 anos e estamos juntos a 12 (ela é
minha conterrânea-alma gêmea), ainda não temos filhos. Sou graduado em
arquitetura e urbanismo pela Universidade de Brasília(UnB), em 2001 conclui o
mestrado em multimeios na Unicamp , onde estudei a linguagem das HQs na
Internet, o que resultou na dissertação "HQtrônicas (Histórias em
Quadrinhos Eletrônicas) – Do Suporte Papel à Rede Internet,- ver
artigo - e atualmente faço
doutorado em artes na Escola de Comunicações e Artes da USP. Além de criar
HQs para revistas & zines, trabalho com ilustração (capas de CDs &
Livros), web arte e sou professor dos cursos de arquitetura e urbanismo & ciência
da computação da PUC - MG, na unidade de Poços de Caldas, cidade onde resido
atualmente.
-O quê e quando iniciou seu interesse pela Literatura, Quadrinhos e Cultura
Pop em geral? Na infância você lia muito, tanto HQ quanto Literatura mainstream?
Pode citar autores e obras que o influenciou?
Meu pai é um leitor inveterado,
tem atualmente uma biblioteca com mais de 5.000 volumes, envolvendo todos os gêneros
e assuntos, desde tenra idade eu cresci no meio dos livros, e foi muito natural
o meu descobrimento do universo das letras. Meu pai sempre me deixou livre para
escolher o que ler e inicialmente tive o meu interesse despertado por contistas
como Edgar Allan Poe (meu nome é uma homenagem de meu pai a Poe e Edgar
Wallace, dois autores que admirava na época), Guy de Maupassant, O. Henry, Ray
Bradbury, isto por volta dos 10-11 anos. Mas desde tenra idade meu pai já
comprava gibis pra eu ler, Disney, Brotoeja, Mortadelo e Salaminho, Mônica,
durante uma fase li poucos gibis e me concentrei mais na literatura, foi por
volta dos 13 anos que comecei a retomar gradativamente o interesse por
quadrinhos, isso veio junto com a paixão pelo desenho, e na época um certo
apreço pelas temáticas mórbidas, pelo horror. Eu assisti meu primeiro filme
de horror aos 4 anos de idade, foi a versão clássica (p&b) de "O
Fantasma da Ópera" que passou numa sessão noturna de TV em 1976, meu pai
iria assistir ao filme, eu pedi a ele se podia ver também e ele deixou, até
hoje ele se lembra bem de meu interesse e atenção, assisti tudo até o fim e
nem precisei dormir na cama dos meus pais, he,he. Eu não gostava de super-heróis,
não lia mesmo, achava um saco principalmente porque quando tentei ler parece
que o gênero vivia uma fase horrível, só tinha herói dando porrada em herói,
fui ter interesse novamente em super-heróis na década de oitenta, quando
surgiram as obras clássicas de Frank Miller, Alan Moore, Grant Morisson; a única
exceção foi o Conan, eu gostava de muitas HQs, principalmente as arte
finalizadas pelo Alfredo Alcala. Mas o que eu lia mesmo era terror nacional,
colecionava as revistas da D-Arte (que traziam trabalhos maravilhosos de Mozart
Couto, Rodval Matias, Colin, Cortez, Ofeliano) e também garimpava nos sebos as
antigas Kripta (com quadrinhistas clássicos dos EUA) e as Spektro &
Pesadelo da Editora Vecchi. Foi também na década de 80 que vim a tomar contato
com a HQ européia, conheci através da revista Animal e me deslumbrei, a partir
dali vi que o que eu começava a criar tinha mais semelhanças com aquelas
propostas do que com tudo que eu já tinha visto de quadrinhos. Só mais tarde
fui conhecer autores como CAZA e DRUILLET dos quais sou grande admirador, mas
considero que eles me influenciaram pouco, o meu trabalho já seguia o caminho
atual quando me deparei com as obras deles, foi mais um lance de
identificação
do que uma influência propriamente dita. Eu sou mais influenciado pela
literatura, artes plásticas e música do que pelos quadrinhos, gosto de citar
como influência sempre o que estou lendo/vivenciando no momento, por isso agora
estou sobre a influência do pensamento de Ken Wilber (Escritor e ensaísta
americano, um dos criadores da psicologia transpessoal autor de " O
Espectro da Consciência"), Rupert Sheldrake (polêmico biólogo que
concebeu a "Teoria dos Campos Morfogenéticos"-veja Entrevista),
Peter G. Bentley (autor de "Biologia Digital", livro onde eles
questiona as noções vigentes do que é real e o que é virtual), Hans Moravec
(cientista norte americano, estudioso de robótica e I.A. e autor de "Robot
– Mere Machines to Transcendent Mind"), Stelarc (artista australiano que
defende a tese de que "O Corpo Humano Está Obsoleto"), Eduardo Kac
(que faz experimentos com "arte transgênica") e Stanislav Grof
(criador da teoria da "mente holotrópica"). Na música tenho
experimentado as vibraçoes de bandas como Negura Bunget (da Transilvânia),
Rakoth (da Russia), Thee Maldoror Kollective, Napalmed, Recalcitrant, Dismal,
Brighter Death Now, Daniele Brusaschetto, entre outros, inclusive tenho um site
chamado KREPUSKULUM, onde faço resenhas e entrevistas com bandas underground do
mundo inteiro, já está na décima edição, com mais de 700 resenhas de CDs e
90 entrevistas, quem quiser conhecer visite: www.geocities.com/krepuskulum
-Como se iniciou profissionalmente no gênero e qual foi sua primeira
atividade?
Bem, eu já publiquei HQs esporadicamente em diversas revistas, algumas que
tiveram distribuição nacional, como a Metal Pesado e a Quark, mas também tive
HQs publicadas em revistas como Quadreca (Eca/USP), Fêmea Feroz, Ervilha e no
álbum Brazilian Heavy Metal, além de outras diversas HQs publicadas em
revistas underground e alternativas do Brasil e Europa (Alemanha, Romênia,
Portugal, Espanha, França e Inglaterra). Mas minha maior produção está
concentrada nos fanzines, já publiquei em mais de 400 títulos, incluindo várias
edições solo, e já ultrapassei a marca das mil páginas. Comecei a publicar
em zines com 13-14 anos, quando criei minha primeira HQ, o nome do zine era
Odisséia; o trabalho trazia um horror meio visceral, tinha o título de "O
Filho de Lúcifer", mas já dava pra perceber a veia poética contaminando
a narrativa.
Falar em
"profissionalmente" para artistas dos quadrinhos no Brasil é piada,
praticamente ninguém trabalha "profissionalmente" na atualidade...é
complicado. Mas meu trabalho também sempre foi motivo de resistência por parte
dos editores, é tido como hermético, pretencioso, ou não é considerado como
quadrinhos por alguns, ou é tachado de setentista, hippie, ultrapassado,
pornográfico, ou vanguardista demais...tenho colecionado dezenas de adjetivos
que tentam denegrir minha proposta artística, mas apesar deles vou dando
continuidade à obra, pois faço por prazer, por paixão. Se o Brazil tivesse um
mercado de quadrinhos, artistas como eu, Gazy Andraus & Antônio Amaral seríamos
os últimos da fila a sermos procurados pelos editores, já que não temos esse
mercado, temos que nos contentar com a auto-publicação e com as oportunidades
esporádicas e com o maravilhoso universo dos zines.
-Quando foi seu primeiro contato com o trabalho de Alan Moore e
qual obra lhe causou algum impacto especial?
Comecei com "A Piada Mortal" e depois li o "Monstro do Pântano",
fiquei fascinado com a densidade do texto, com as sutilezas do roteiro e a forte
veia literária de Moore, são dois trabalhos impactantes, assim como a clássica
"Watchmen", que desconstrói os famigerados Super-heróis e trabalha
com propriedade os conceitos definidos pela Teoria do
Caos (Gian Danton fez sua dissertação de mestrado analisando este aspecto
da obra!). Tem um álbum que me foi emprestado pelo amigo Gazy Andraus, "A
Small Killing", que é muito pungente, poderoso, um dos mergulhos de Moore
na psicanálise Freudiana, implodindo-a em certos aspectos, é um trabalho que
me impressionou muito, ainda mais depois que li um artigo de Andraus que desvela
todo o subtexto desta obra.
-Preciso ver isto com o Gazy, urgente.Qual trabalho do mago bardo de
Northampton que você considera sua obra-prima e porquê?
Como disse, gosto de diversos trabalhos e de maneiras diferentes, "V de
Vingança", por exemplo, é muito interessante, mas muito diferente de
"A Piada Mortal", ou de "Watchmen", não tenho predileção,
são todos obras de uma mente genial, obrigatórios para aqueles que querem
conhecer a fundo a importância das HQs enquanto gênero narrativo e artístico.
-Ao seu ver, quais foram as
inovações mais importantes do autor?
Especificamente sobre Watchmen
e sua instigante forma narrativa – já apelidada de O Cidadaõ Kane da Nona
Arte – o que tem a nos dizer?
O que mais me impressiona é que Moore parece não ter essa pretensão
de ser genial, ele quer só escrever boas histórias, eu não me considero em
nada inspirado pelo seu trabalho (pois como disse, ele esbarra muitas vezes no
literário, eu gosto disso, mas
minha proposta artística caminha em outra direção) que encontra eco no Brasil
principalmente na obra de Gian Danton,- veja Entrevista
- um fã confesso de Moore. Moore é sempre genial, mas esbarra no
problema dos desenhistas, nem sempre eles são tão capazes quanto ele, Dave
Gibbons é uma exceção maravilhosa!
-Voce acha que ainda existe espaço para seres musculosos e com
super-poderes, metidos em colantes, na verdadeira Cultura Pop, mais madura?
Pergunto porque muitos fãs dos super-heróis, ao mesmo tempo que admiram Alan
Moore, o detestam por considerar que ele praticamente destruiu o gênero com
Watchmen. E você?
Como
já disse, nunca gostei do gênero Super-Heróis, se ele acabasse, para mim a
cultura humana perderia muito pouco, a cultura pop talvez sofresse um abalo
momentâneo...Os Super-Heróis são um produto Norte Americano, é claro que
foram influenciados pelos herós clássicos gregos, mas eles são produtos do
narcisismo e nacionalismo dos EUA, a megalomania de Tio Sam está refletida
nestes tais seres de colante, eles
são sua principal metáfora, seu arquétipo pós-moderno, o nacionalismo é um
dos últimos bastiões dos idiotas, dos alienados. Mas eles já se infiltraram
no inconsciente coletivo do ocidente, são onipresentes, mesmo que as novas gerações
não estejam lendo quadrinhos como as anteriores, eles estão renascendo nos blockbusters
de Hollywood, nos games para computador, veja estes novos produtos cinematográficos:
Hulk, Demolidor, Homem Aranha, X-Men, etc.
Mas como um defensor da
pluralidade, não faço uma cruzada contra os super-heróis, quem gosta e quer
gastar seu dinheiro com eles, eu respeito, sem neurose nenhuma, só fico
preocupado quando vejo os moleques idolatrando esses serviçais que trabalham
como operários do traço para os americanos como se fossem
"Deuses"...os caras nem sequer podem assinar o próprio nome, isso é
se vender sim, não é só se adaptar, é cooptar com a condição de alienado,
de operário nos moldes da revolução Industrial...Se fosse assim, uma adaptação
apenas, os americanos iriam mudar também o nome dos diretores de cinema
estrangeiro que fazem sucesso por lá, assim o Pedro Almodóvar poderia virar
"Peter All Mod Over", o que você acha!!!
Mas agora tem também a
proliferação virótica dos tais mangás, e dá-lhe lixo descartável no mundo
da cultura Pop, é claro que existem bons trabalhos, mas no geral é tudo muito
ruim, um negócio de misturar mitologia grega de boutique, com moleques dando
voadora & karatê em todo mundo, virando robôs transformers e soltando raio
(urghhhhh!), nem os super-herós conseguiram a façanha de serem tão ruins, e têm
também aquelas centenas de milhares de páginas que não dizem porra nenhuma,
umas sagas que possuem dez mil páginas, para contar histórias que dá pra
narrar em 40 (um dos novos álbuns do mestre Shimamoto, conta em 48 páginas a
saga de um dos míticos samurais do Japão, já uma série japonesa leva dezenas
e dezenas de números de 100 páginas para contar a mesma história...revistas
mensais que custam mais de 5 reais cada!!!!). Eu desenvolvi meu processo
narrativo sempre em espaços exiguos (os fanzines), normalmente você tem de 3 a
5 páginas para contar uma história, tem que ser breve, ter poder de síntese,
o exemplo mais radical desse narrativa enxuta é uma saga chamada Elegia que
editei há alguns anos, são 3 volumes de 6 páginas cada, e contam a tragetória
de vida de um personagem (vou relançá-la em volume único em breve).
-Tambem tenho o album do mestre
Shima sobre o lendario Musashi. E a "vagabond" ja´ parei de
comprar,por falta de grana tambem...E From Hell, você acha que Moore
conseguiu atingir plenamente seu intento de
forjar em uma HQ o caldeirão que nos preparou o Século XX, com toda sua
paranóia, conspirações, contradições, horror e beleza?
Eu não li From Hell, ainda não
tive grana pra comprar a série, está muito cara, dei uma olhada nos volumes e
li muitos bons comentários a respeito, preciso guardar uma grana e comprar essa
série, pois sei de sua importância e pungência...
-E a versão para o cinema agradou? Porque? O que espera da de Liga
dos Cavalheiros Extraordinários?
Eu vi o filme e gostei sim, sei que ele não tem praticamente nada a ver com os
quadrinhos, mas é um bom filme, tem clima, boa narrativa e personagens bem
construidos (nesse sentido ele lembra a proposta de Moore, talvez seja por esse
motivo que ele manteve seu nome nos créditos!).
Também não li "A Liga dos
Cavaleiros Extraordinários"...
-Sei que você tem uma formação
eclética, se podemos definir assim.O que pensa da Magia?
Eu penso que a magia permeia
tudo, a vida é uma forma de magia, o estudo dos processos físicos e químicos
que ocorrem em nosso corpo material não é suficiente para explicar o milagre
da consciência; a ciência acadêmica, racional, é realmente digna de pena
quando tenta explicar fenômenos naturais como os processos da vida e da consciência,
o surgimento do Universo, a Eternidade, o Nada. Eu acredito que de certa forma
somos imagens holográficas do Universo, nós contemos o todo e o todo nos contém
(teoria holográfica de Stanislav Grof), dessa forma temos uma conexão muito
profunda com todas as forças que regem a natureza (o Universo), estamos
conectados a tudo e a todos, muitos estudiosos de "magia" e pesquisa
da consciência, estudam na verdade canais que nos permitem uma conexão direta
com essas forças da natureza, intrínsecas & extrínsecas à existência.
Eu me interesso por esses estudos, pela manifestação dessas forças e pelas
metáforas que elas envolvem.
-Outra obra interessante sobre isto e´”O Paradigma Holográfico”
(Pensamento).E da obra Big
Numbers a inacabada magnus-opus de Alan Moore, que através da
Teoria do Caos e seus Fractais, a vida de uma comunidade representando o
macrocosmo, tentaria explicar o próprio Universo?
Eu me interesso muito pela
teoria do caos, e por todas essas novas teorias científicas que abalam a
estrutura da física Newtoniana, mostrando que o fluxo dos acontecimentos não
pode ser contabilizado em termos de ações e reações de intensidade
semelhante, elas exemplificam bem a falência completa da ciência (até o
momento) em tentar explicar os fenômenos...O princípio da causa e efeito
adquire outras proporções, um simples piscar de olhos pode provocar um
deslocamento de elétrons que desencadeará um processo que finalmente culminará
em um maremoto na outra extremidade da Terra, ou porque não irmos mais longe,
esse piscar de olhos pode provocar o surgimento de uma nova estrela daqui a milhões
de anos, nenhum ato, por insubstancial que pareça pode ser desconsiderado. No
início dos anos oitenta li uma HQ de Steve Ditko (acho que foi na Kripta), que
era pura teoria do Caos, narrava a história de um cientista que desenvolve uma
máquina do tempo e vai para o passado, para a pré-história, antes do
surgimento do homem, ele desce da máquina para ver melhor o ambiente e sem que
perceba pisa em um pequeno lagarto, quando ele retorna para o tempo presente
fica assustado, todos os seres humanos tem feições e corpo de lagarto!!!! É
simples e muito impactante, a morte de um único lagarto desviou todo o processo
de evolução da espécie humana, antes de Moore, Ditko já falava de Teoria do
Caos (antes mesmo das bases da teoria terem se solidificado). Mas eu gostaria
imensamente de conhecer os volumes publicados de Big Numbers!!! Por acaso você
têm??? Se tiver gostaria de piratear uma cópia....
- Eu conheço essa estoria, que e´ um conto clássico da Ficção
Cientifica escrita por nada mais nada menos que Ray Bradbury, o poeta do gênero.
E se nao me falha a memória, o desenhista (dessa versao da saudosa Kripta)
foi o filipino Alex Nino, compatriota do Alfredo Alcala. Você acha que uma HQ
tem a capacidade de abarcar tamanha complexidade e ser compreendida?
Eu acredito que as HQs como qualquer outra forma de linguagem têm um
potencial ilimitado, elas se prestam a qualquer assunto, gênero, tendência, têm
as particularidades que a tornam um meio de expressão único, tão poderoso
quanto qualquer outro. O hermetismo de uma obra depende muito do referencial do
leitor, acho que o autor deve ter consciência do público com o qual ele quer
dialogar, deve ter consciência das pessoas que quer alcançar, se eu faço HQ
infantil, tenho que ter em mente o público para o qual o trabalho se destina.
No caso específico dos meus quadrinhos, eu tenho consciência de que o meu público
leitor será sempre pequeno, eu faço HQs poéticas e filosóficas que exigem
uma certa espontaneidade, disposição para o novo, interesse por assuntos que vão
da metafísica à biotecnologia, para aqueles que são abertos à trabalhos
menos literários e mais poéticos, menos literais e mais sutis, é claro que a
compreensão da mensagem dependerá do discernimento desse leitor, de seu
referencial, assim existem infinitos níveis de interpretação, mas quando faço
uma HQ tenho uma idéia em mente, uma mensagem, uma reflexão a passar, a
compreensão ou não dessa mensagem dependerá do leitor, mas eu não acho que o
artista deva "esquartejar" o seu ideário ou mastigar a mensagem para
que ela fique insonsa e fácil, a não ser que esse seja o seu desejo
(normalmente é o desejo dos editores, he, he!). Eu não faço HQ pra vender, eu
não me vendo, sou autêntico, tenho consciência do preço a pagar por fazer
essa opção. Penso que autores como Moore também têm plena consciência disso
e quando criam obras como BIG NUMBERS sabem que o público para elas será
exiguo, seleto (é por isso que a série parou de ser publicada...não vendeu,
os editores cortam mesmo, se eu fosse o Mooore publicava esse negócio em
Fanzine, he,he!!!).
- Mais um esclarecimento: BN nao
parou por falta de venda e a editora era do proprio Moore, a Mad Love. Parou
porque ele se desentendeu com o artista Bill Sienkiewicz (Bill achou na época o
roteiro de Moore muito ditatorial, nao dando margem para o artista fazer nada
que o autor não quisesse), seu sucessor Al Columbia simplesmente “endoidou”
ao fazer o 4ª numero, tanto que destruiu os originais e desapareceu) e,
finalmente, mais por boicote das grandes editoras e distribuidores, o famigerado
establishment, a Mad Love quebrou. Mas, ainda nesta direção metafísica,
qual é a sua concepção do Tempo?
Considera-o a Quarta Dimensão do Espaço, como teorizou Einstein ou tem outra
visão?
Uma das últimas concepções sobre o tempo que mais me fascinaram foi a
de Ken Wilber, na verdade o tempo não existe, não é outra dimensão, o que
existe é um eterno agora, infinito, e nossa existência é infinita pois
estamos sempre nesse eterno agora, gravado na essência do Universo, o
passado/presente e futuro são prognósticos falsos criados por uma das válvulas
de nossa percepção para que possamos compreender o mundo; veja como os nossos
processos de pensamento não são lineares (são hipertextuais, damos saltos quânticos
a todo momento), mas a nossa concepção de nossa existência é linear, pois
ela é baseada nessa noção de tempo linear que corre do passado para o futuro.
Eu tenho uma HQ chamada ATEMPORAL (publicado no fanzine Bifa de Marcelo Garcia)
que metaforiza isso, o ser coexiste em todos os seus pseudo tempos : infância
–maturidade e velhice, mas não existe linearidade/processo, é tudo
coexistente, um eterno agora, como no Retroagir da cultura Indu, dos Vedas
-Realmente.Também tenho algumas obras do Wilber,”o careca”,
alem de muitos ensaios e lectures baixados da web. E veja você
que ate´ a Ciência parece abraçar também essa teoria: o físico britânico
Stephen Hawking também considera o tempo como um sólido, onde tudo esta´se
passando simultaneamente, portanto, se pudéssemos “se examinados” por um
ser “fora do tempo”, ele nos veria como uma gigantesca centopéia, com
milhares de pernas e braços e cabeças, se esticando desde de um bebe ate´ um
velhinho, por todos os lugares – e tempos – por onde já
passamos – mais ou menos como Kubrik tentou visualizar no antológico
final de seu “2001”.Como você imagina um ser ou objeto (como o Tesserato)
da Quarta Dimensão? (se pudesse aparecer a nos, pobres materializações
tridimensionais que somos ?
Este é um grande paradoxo, o paradoxo de nossa limitação perceptiva,
é impossível para nós concebermos algo que foge de nosso paradigma
perceptivo, H. P. Lovrecaft tinha uma palavra muito certeira e poderosa para
descrever as criaturas de seus mitos terroríficos, ele dizia "o inominável",
"o indizível", é brilhante. Stanislaw Lem faz a mesma coisa em
Solaris, para mim um dos maiores livros de "filosofia" (embalada num
pacote de FC)
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de todos os tempos, ele nos mostra que sempre que falamos em
outras vidas, extra terrestres, estamos falando sobre o nosso paradigma, estamos
procurando espelhos, será que se essa outra forma de vida aparecesse teriamos
percepção para compreendê-la? Será que ela já não existe??...veja a teoria
de Gaia (a Terra é um organismo vivo, um ovo em gestação) de Lovelock, é
muito interessante, mas para a ciência e para a maioria das pessoas é inconcebível!!!
Esses dias vi um filme B que trata dessa questão da quarta dimensão, chama-se
"O Cubo 2", vale a pena ser visto, pois apresenta uma visão curiosa
para o conceito da quadridimensionalidade.
-Me interessei muito! Sou apaixonado por esse instigante tema. Inclusive, num
nº de sua “1963”, Alan Moore tenta mostrar justamente como seria essa
quarta dimensão se a pudéssemos “exergar”, e e´ muito interessante.Ele
brinca inclusive visualmente, com o “mundo bidimensional” que e´ a pagina
dos Quadrinhos, mostrando figuras geométricas impossíveis, ilusões de ótica,etc.Já
li em algum lugar que você se interessa pela imberbe Teoria do Caos, com seus
Fractais e o popular "efeito borboleta". Quais suas considerações a
respeito e como acha que esta teoria pode ser aproveitada por exemplo em algum
enredo – HQ ou literário?
Tenho pelo menos uma meia dúzia de HQs curtas que tratam da Teoria
do Caos, tenho muitas idéias envolvendo esse tópico...
-Dos meus entrevistados ate´ agora, você e´ um dos poucos que
leu as obras do matemático-filósofo soviético P.D. Ouspenski, do qual
sou estudioso. Qual o seu entendimento para as teorias dele sobre o Tempo e a 4ª
Dimensão – ver final do meu artigo Holismo e Caos em Big Numbers – em suas
obras – ao meu ver – mais expressivas, Tertium Organum e Um Novo Modelo de
Universo (Editora Pensamento)?
Eu li alguns trabalhos de Ouspenski, gosto da forma densa com que
desenvolve suas teorias, partindo de uma certa aura acadêmica proveniente de
sua formação racionalista de matemático, acho que ele é brilhante em algumas
de suas visões, mas peca em outras, discordo em partes em seu entendimento das
dimensões, sobretudo pela classificação evolutiva que dá a elas, colocando
alguns animais em segundo plano, como menos perceptivos (só com percepção
bidimensional), acho que é meio reducionista (ranço racionalista), mas é
brilhante na concepção dessa quarta dimensão, e tem solidez matemática para
criar a conceituação. O seu mestre Gurdjieff é mais leve, brincalhão,
jocoso, vivo, é um verdadeiro mago, no sentido mais profundo que essa palavra
engendra, por isso sempre foi tido como charlatão, mas é mais profundo e
contundente. Uma das teorias que Ouspenski resgata, a da Lua como organismo que
apreende energia da Terra, é assustadora e muito intrigante.
-E a teoria dele de que a reencarnaçao seria na verdade um circulo vicioso,
como a serpente mordendo a cauda – ou seja, que na verdade nos sempre nos
reencarnaríamos em nos proprios, vivendo a mesma vida eternamente e somente
pequeninas modificações e´que, aos poucos, iria nos libertando desta vida
material compulsória? (em Tertium Organum).
Pois é, de certa forma essa teoria é muito semelhante à da inexistência do
tempo de Ken Wilber, ao "eterno agora", mas o equívoco de Ouspenski
está nessa necessidade de acreditar que há uma "evolução", mais
uma vez é um ranço da racionalidade cartesiana, onde tudo tem que ter um
motivo, um resultado, neste ponto prefiro a visão de Wilber: o "Ouroboros
Eterno", pura e simplesmente...
-Alan Moore e´adepto fervoroso da Cabala – inclusive toda a serie Promethea
gira em torno dessa “escola”. Como você encara a Cabala? Vê utilização
pratica de seus conceitos?
Como muitos outros tratados herméticos de evolução e transcendência a Cabala
é um instrumento legítimo para a busca dessa quintessência transcendente, mas
existem infinitos caminhos para essa elevação, alguns são pré-estabelecidos,
outros são criados pelo navegante, William Blake fez de sua arte o seu
"processo alquímico", eu tenho trabalhado neste sentido!
-Verdade? Precismaos falar sobre isto mais.Voltando aos seus escritos,
o que você fez que considera o melhor até agora?
O melhor sempre é o que está sendo feito, eu valorizo muito a fluência do
momento em que estou concebendo, criando, esse ato criativo (taoísta) é mais
importante que o produto acabado, por isso sempre prefiro os trabalhos que estão
em gestação. Mas se você me perguntar dos meus trabalhos quais mais gosto, eu
destacaria o álbum AGARTHA (que está na sua segunda edição pela editora
"Marca de Fantasia"), e as HQtrônicas "Ariadne e o Labirinto Pós-Humano"
(ainda Inédita) e "NeoMaso Prometeu" (Menção honrosa no 13º
VIDEOBRASIL –Festival Internacional de Arte Eletrônica) , tem também algumas
HQs curtas que selecionei para o meu novo álbum que será publicado pela Marca
de Fantasia, e algumas capas de CD que curto bastante, como as do Medicine Death
e do projeto Noise for Deaf.
-Por ter se interessado por Historias em Quadrinhos em nível
profissional e ser um acadêmico,
você sofreu – ou sofre ate´ hoje – alguma especie de preconceito ou
discriminação? Como lida com isto?
Faço a minha parte, tenho trabalhado para desmistificar as HQs como coisa de
criança, apresentando artigos em congressos, ministrando palestras em
Universidades e cursos de HQ de Autor. Mas o preconceito é forte, apesar de que
nos últimos anos ele está diminuindo, o número de dissertações e teses
sobre quadrinhos defendidas em Universidades do mundo todo é impressionante,
talvez esse seja um sintoma do amadurecimento completo da linguagem.
-E atualmente, o que tem escrito?
Tenho diversos projetos em
andamento, um álbum só com HQs inéditas & coloridas, uma HQ de 28 páginas
para um número especial da coleção Corisco da Marca de Fantasia, um projeto
artístico envolvendo Vida Artificial, e uma nova narrativa hipermidiática nos
moldes de "Ariadne e o Labirinto Pós-Humano", além de alguns
roteiros para outros artistas...
-Alguma produção em Quadrinhos?
Estou com alguns trabalhos no prelo, o álbum "Transessência" (60 páginas
de HQs curtas) que está para ser lançado pela Marca de Fantasia, o álbum
"Biocyberdrama" (64 pgs) – parceria com o lendário Mozart Couto
(que quadrinizou meu roteiro de forma belíssima)
já concluido e que será lançado pela Opera Graphica, além do álbum
"Duetos Essenciais" que também já está pronto mais ainda demorará
um pouco para ser editado.
-Voce sempre batalhou arduamente por um autêntico Quadrinho nacional.
Ele existe?
Acho que o Brasil tem muitos talentos individuais, e chego a acreditar que temos
um gênero de HQs que frutificou no Brasil de uma forma muito autêntica e
contundente, o gênero que foi batizado pelo crítico espanhol Henrique Torrero
de "Fantasia Filosófica" e que inclui artistas como eu, Gazy Andraus,
Flávio Calazans(Entrevista) Antônio
Amaral, Henry Jaepelt, Al Greco, entre outros, eu estou preparando um artigo
sobre esse gênero que praticamente passou despercebido pela HQ maistream pois
quase toda a produção desses autores foi publicada nos fanzines, a exceção
é a revista MANDALA da editora Marca de Fantasia que é dedicada a esse gênero
de HQs e publicou mais de 10 números com trabalhos dos autores referidos. Também
gosto muito do ciclo de HQs das revistas de terror da Vechi que abriu espaço
para que artistas como Mano (ele era autêntico, divertido, despretensioso),
Shimamoto & Colin falassem de elementos e assuntos de nossa cultura.
Mas não sou apegado a esse discurso de que HQ nacional deve falar de assuntos
da cultura brasileira, isso é pseudo-culturalismo xiita, eu estou de saco cheio
de ler/ouvir/ver histórias sobre o regime militar (parece que existe um
saudosismo desse período, todo mundo quer posar de coitadinho - reprimido pelo
regime militar), também ficar plagiando os romances de Guimarães Rosa &
congêneres e achar que está escrevendo grandes roteiros é babaquice, isso é
pastiche, tem muita gente por aí plagiando e dizendo que é homenagem... isso
vem acontecendo no cinema, nas artes visuais em geral e também nos quadrinhos.
O bom quadrinho deve ser regional
& universal ao mesmo tempo, dialogar com todos os povos e eras.
-Voce citou o Mano (o cariocaElmano), do qual tambem sou fan e procuro
ha algm tempo contata-lo. O que você acha que dificulta para o quadrinista
brasileiro sobreviver de sua arte? Falta de talento ou de mercado?
Como acontece com o cinema nacional, nos não
temos mercado, o produto importado já vem com o marketing incorporado e custa
mais barato, por isso há um desinteresse completo de editores pela HQ feita no
Brasil, isso é ruim pois a HQ acaba tornando-se um trabalho residual dos
artistas, eles têm que conseguir outros meios pra sobreviver e a HQ vira um
hobby, o tempo dedicado a ela é menor, o processo de evolução mais lento.
Penso também que nós praticamente não temos editores de quadrinhos no Brasil,
dá pra contar nos dedos de uma mão os verdadeiros editores, o resto é
oportunista, crápula e safado...
-Como nacionalista ferrenho que é , também considera que
o nosso artista “se vende” quando passa a publicar no Exterior, nos
EUA principalmente, adequando-se ao
estilo e mudando até mesmo de nome?
Ops!!! Não sou nacionalista
ferrenho de forma alguma, sou cidadão do mundo, holista, esse negócio de pátria
e fronteira é coisa de políticos e suas linhas imaginárias, sou sim, telúrico,
tenho respeito e amor pela terra onde fui gerado. Como diz minha esposa
"cada um, cada um", os caras conseguiram uma forma de ganhar dinheiro
desenhando, uma forma de sustento, mas achar que são quadrinistas, isso é hilário,
são operários do traço, mão de obra barata do terceiro mundo que não tem
nem o parco direito de assinar o nome verdadeiro, se isso é o modelo de "quadrinista"
que todos devemos seguir eu passarei longe por toda a vida, isso não me
interessa, os trabalhos que vi não valem nada, são muito ruins, cópias de cópias,
padronizações industriais, produto descartável para pré-adolescentes ...é
realmente lastimável.
-Sobre Telematica e
extrapolação cientifica, tenho lido muito dos seus artigos nestas areas,
abordando tantas teorias que chega a fervilhar-nos o pensamento –
biomidiologia, efeitos subliminares da propaganda e outras mídias, psicologia,
psiquiatria, enfim, você demonstra um vasto conhecimento que precisa ser mais
explorado, em nosso – seus leitores – beneficio – ver artigo “Quadrinhos
e as Novas Tecnologias” Quais
autores e obras recomenda para nos dar uma visão mais abrangentes destas
areas?
Não tenho um vasto conhecimento, ainda estou engatinhando nesses tópicos e
assuntos, mas sou muito interessado e empolgado sempre buscando novas informações,
para aquele que está iniciando nessas áreas indico alguns trabalhos que
considero seminais (em língua portuguesa):
-
"A Mente Holotrópica" de Stanislav Grof (Editora Rocco).
-
"A Consciência sem Fronteiras" de Ken Wilber
(Editora Cultrix)
-
"O Renascimento da Natureza" de Rupert Sheldrake
(Editora Cultrix)
-
"Criação e Interatividade na Ciberarte" de Diana
Domingues (Editora Experimento)
-
"Cibercultura – Tecnologia e Vida Social na Cultura
Contemporânea" de André Lemos (Editora Sulina).
-
"Teleantropos – A desmaterialização da cultura
material, arquitectura enquanto inteligência, a metamorfose planetária"
de Emanuel Dimas de Melo Pimenta (Lisboa – editorial Estampa).
-
"Biologia Digital" de Peter G. Bentley (Editora
Berkeley Brasil).
A relação é enorme, e muitos livros ainda não tem edição em português,
mas acho que estes 7 que indiquei são um bom começo.
- E especificamente a Literatura de
FC tupiniquim, atualmente capengando sem um “mercado “mas por outro lado bem
mais amadurecida, a julgar por recentes contos publicados pelos fanzines, o que
você acha que “está faltando “?
É o mesmo problema das HQs, mas nesse caso a coisa é mais grave pois a
literatura não tem nem o apelo visual, as novas gerações não conseguem ler,
seu processo perceptivo não condiz mais com os procedimentos necessários para
a leitura que exige muito tempo de concentração sobre um mesmo assunto/tópico,
as mídias interativas têm contribuido gradativamente para essa mudança de
perfil cognitivo, a literatura, a longo prazo necessitará cada vez mais da
imagem para sustentá-la. Por isso temos escritores de talento que não têm
quem os lê. Me diz se o adolescente prefere ir para a Lan House e jogar um game
realista 3D de Guerra nas Estrelas, ou ler um livro com a história da saga? O
apelo da hipermídia é muito grande, os autores têm que começar a usar dessas
mídias para difundir os seus trabalhos, tornarem-se escritores multimídia, ou
estarão cada vez mais fadados ao ostracismo. E olha que eu sou apaixonado por
literatura de FC, inclusive leio alguns brasileiros, entre os quais destaco o
brilhante André Carneiro (Entrevista) com
um dos trabalhos mais pessoais e interessantes da FC mundial, uma densidade
pouco vista, se escrevesse em inglês já teria pelo menos meia dúzia de filmes
baseados em seus escritos. Há anos recebo o zine "Notícias do Fim do
Nada" com o qual tenho colaborado periodicamente com ilustrações, gosto
muito to trabalho cuidadoso e apaixonado de Ruby Felisbino Medeiros, uma
verdadeira enciclopédia humana da FC mundial!!! Também colaboro
esporadicamente com capas e ilustrações para o ótimo Megalon, e colaborei com
a extinta Quark, tenho lido excelentes contos e novelas de autores nacionais
nessas publicações...
-Quais dos nossos autores você julga mais em condições de produzir uma
obra de fôlego?
Temos dezenas e dezenas de autores de talento, só faltam as chances
para que eles brilhem!!!
-Especificamente sobre desenho Edgar, como começou o seu interesse, quais as
influências do início e os artistas que admira atualmente? E nos Quadrinhos?
Quando comecei a desenhar tinha uma aversão à copiar desenhos, nunca
copiava nada, sempre tentava desenhar de memória ou recorria a fotos e modelos
do real, devido a isso a evolução de meu desenho foi lenta, mas ao mesmo tempo
já muito cedo já me "acusavam" de ter um estilo, este estilo
frutificou-se mais rapidamente devido à minha insistência em não copiar, eu
gosto do meu desenho, apesar de conhecer suas limitações, sempre trabalhei com
fantasia e metáforas, por isso não me interesso por criar trabalhos
"realistas", minhas referências visuais são sempre simbólicas e
fantásticas, ao contrário de muitos desenhistas que com o tempo conseguem ser
mais sintéticos no traço, meu desenho fica cada vez mais rebuscado (enquanto o
argumento cada vez está mais enxuto), é uma tendência natural que não
consigo evitar, com o passar do tempo ao inves de gastar menos tempo em uma página
tenho gastado cada vez mais. Sobre influencias, posso dizer que gosto de Bosch
& Bruegel, de Doré e Goya, de Giger
& Caza, e dos brasileiros Jaime Cortez, Shimamoto, Gazy Andraus, Antônio
Amaral e Mozart Couto, considero o Mozart um dos desenhistas mais completos do
mundo, é impressionante a capacidade cênica deste artista, o domínio da
sombra e da luz, da anatomia, da perspectiva e do movimento, Mozart é um gênio
do traço, um monstro sagrado do desenho, tenho certeza que será motivo de
estudo por gerações e gerações, mas apesar dessa grande admiração não
posso dizer que meu desenho é influenciado pelo dele.
-Endoso em gênero, numero e grau: Mozart e´ o melhor desenhista do
Brasil, o nosso Michelangelo das HQs.E´´ meu amigo de longa-data e sua
entrevista uma das mais aguardadas aqui. Como o leitor interessado pode adquirir
seus Quadrinhos e livros, quais os que estão disponíveis?
Recentemente foi feita uma segunta tiragem do meu álbum AGARTHA, que pode ser
adquirido diretamente com a editora Marca de Fantasia (site: www.mdefantasia.hpg.com.br
), também existem vários números disponíveis da revista Mandala (todos contém
algum trabalho meu) que podem ser encomendados através do site da Marca de
Fantasia, assim como o meu novo álbum TRANSESSÊNCIA que deve estar sendo lançado
em breve. Tenho alguns fanzines solo que distribuo, principalmente os da minha série
de HQs baseadas no I-Ching, basta que me mandem 2 selos de segundo porte que
remeterei dois números para os interessados, meu endereço postal é: Av.
Melvin Jones, 265 – Bairro Santa Ângela, Poços de Caldas – MG –
37701-274. Tem HQs minhas em dois números da revista on-line Pixel (que podem
ser baixados gratuitamente no site da editora Nona Arte- www.nonaarte.com.br
) , além disso o leitor poderá encontrar HQs, ilustrações e poemas no meu
site pessoal (que em breve será totalmente reformulado) Ritualart: www.geocities.com/ritualart.geo,
e finalizando o trabalho de História em Quadrinho Eletrônica (HQtrônica)
"NeoMaso Prometeu" que pode ser baixado no url: http://wawrwt.iar.unicamp.br/HQtronicas/index.html
-Voce acha que a “sede” do nosso “espírito” – ou essência, ou
anima, o nome que se dê - se encontra na mente? Ou tudo não passa de um
aperfeiçoamento fantástico de uma verdadeira “maquina orgânica” com seus
ilimitados neurônios e suas ligações sinápticas?
Eu tenho dúvidas sobre tudo, não cheguei a uma conclusão sobre
esses tópicos, gosto da teoria dos campos morfogenéticos de Sheldrake que propõe
que nosso cérebro nada mais é do que um instrumento de captação, uma antena
que capta de um outro "logos" nossa consciência, tanto a individual
quanto a coletiva, céticos defendem que o humano é só uma máquina
natural...eu discuto isso no meu álbum Biocyberdrama (em parceria com Mozart
Couto), no fundo a questão central da história é essa, espero que ele seja
lançado em breve, e que pessoas que têm esse questionamento legítimo e
importante (como você) possam lê-lo para continuarmos o papo...
-O que você acha que é a consciência em si?
É a morada do mistério, a esfinge mais cruel e maravilhosa que
emudece a ciência e turva a religião. É nossa condição "Luciferiana",
de questionarmos o poder e a razão daquilo que nos gerou!
-Com esta você fechou com chave de ouro, amigo! Militando há
tanto tempo “no ramo” você pode dizer que valeu – ou vale – a pena?
Viver vale a pena, é maravilhoso poder ter a percepção do mundo e das coisas,
sentir. Eu aconselho a todas as pessoas a tentarem fazer de sua vida um passeio,
leve e gracioso, como o vôo da borboleta, levar tudo menos a sério, sorrir
muito e principalmente criar. Se eu tivesse somente aberto os olhos, visto o sol
e desfalecesse já teria valido a pena, o que dizer então de tantas dádivas
que tenho tido nestes anos? Viva a vida!
.....................................................................................................................................................................
Processo Criativo da HQ "Lord Unikorn".
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Edgar Franco
A idéia de falar sobre o processo de criação dessa HQ surgiu devido à série de
procedimentos intuitivos, aleatórios e racionais que envolveram o seu desenvolvimento, mesmo para mim que há muito venho tentando trabalhar com novas
formas para o já desgastado conceito tradicional de histórias quadrinhos, ela funcionou como quebra de alguns paradigmas. Meu processo usual é partir de um
argumento inicial, o conteúdo chave da história, e deixar as imagens fluírem a
partir desse argumento, assim ele acaba sendo modificado e acrescido, mas sempre
será de certa forma uma chave para desvendar o "Big Bang" deflagrador do processo.
Em LORD UNIKORN as coisas foram bem diferentes, para início de conversa, não existia uma intenção inicial de criar uma HQ. Fui convidado por uma amiga
artista plástica para participar de uma exposição de "Livros de Autor", um conceito muito amplo envolve essa tal categoria artística (mais uma dentre
tantas criadas pelo racionalismo acadêmico), no final das contas optei por uma espécie de caderno de rascunhos como sendo meu "Livro de Autor", comprei um
livro de notas daqueles antigos, com 500folhas brancas e capa dura e resolvi tratá-lo como um "Grimoire Intuitivo de Autor", passei então a criar imagens
livres para preencher as páginas desse álbum e adotei total liberdade para desenvolvê-las, usei para a confecção das mesmas um pincel japonês muito macio
deixando o traço inicial direcionar a imagem sem censurá-la, muitas delas foram
sendo feitas diretamente a tinta, outras tiveram um rascunho feito com lápis 6B,
mas sem nunca usar borracha, pois o ato de apagar acaba tirando a espontaneidade
cósmica-arquetípica da imagem e trazendo-a para os processamentos racionais do
lado esquerdo do cérebro. Para desenhar sempre colocava um fundo musical que podia variar muito dependendo do meu estado de espírito do momento, podendo ir
do rock progressivo ao doom metal . Em pouco tempo tinha já prontas cerca de 50
imagens, mas devido aos compromissos da vida "mundana" tive que parar. Como tinha como meta conseguir fechar o livro, isto é, completá-lo com imagens,
decidi não apresentá-lo na primeira exposição de minha amiga, e prometi incluí-lo numa próxima.
Guardei o "Grimoire" e fiquei sem olhar para suas imagens por quase 3 meses, voltando a ele, descobri imagens realmente muito fortes de sentido, um certo
lirismo que transcende em força boa parte da minha produção de HQs, resolvi então fotocopiá-las para utilizá-las como capas ou contracapas de fanzines de
amigos, selecionei dentre todas umas 20 que me pareceram mais simbólicas, considero essa seleção uma ação mútua entre o lado direito (intuitivo) e o
esquerdo (racional) do cérebro. Depois disso aconteceu um fato interessante, fui
convidado por um editor de zines para fazer a capa de sua nova produção, quando
vi a proposta de seu zine decidi enviar uma das imagens que tinha fotocopiado para a capa e aconteceu um fato raro de se ver no universo zinístico, tive o
desenho censurado pelo editor, que de forma amena tentou me dizer que aquela imagem era "um pouco agressiva demais" para figurar na capa de seu zine. Já
estou calejado de receber recusas de editores de revistas que usam milhões de argumentos e subterfúgios para não publicar o meu trabalho ("é datado", "é
setentista", "é meio Metal Hurlant, né?", "mas isso não é HQ!", "até que é
bonito, mas é poesia ilustrada", "mas cadê os quadrinhos e os balões?", "tem muita mulher pelada!" etcetera e tal), mas no meio zineiro foi uma novidade ser
censurado, ainda mais sendo o editor em questão um cara de mente aberta com quem
já tinha feito várias parcerias, detalhe importante: a imagem censurada é aquela
que posteriormente tornou-se a página sete da HQ estudada neste artigo.
Esse acontecimento fez-me reavaliar o valor dessas imagens e passei a mostrá-las
para alguns amigos que sempre se assustavam ou gargalhavam com algumas. Arrisco dizer então que algumas delas funcionam como Koans, para usar um conceito
detalhado na dissertação de mestrado "Existe o quadrinho no vazio entre dois quadrinhos?(ou: O Koan nas Histórias em Quadrinhos Autorais Adultas)",
desenvolvida pelo quadrinhista e pesquisador Gazy Andraus, onde ele esclarece-nos o que é um Koan: "O koan, é uma forma de pergunta, em forma de
enigma indecifrável pelos padrões lógicos racionais vigentes. Uma forma de pergunta, para a qual não possui resposta imediata racional, que busca derrubar
toda a estrutura condicionada da mente racional. Na verdade o koan seria apenas um desafio aos arraigados hábitos de nossa mente, ao seu modo de pensar e então
agir.(1)" Na dissertação Gazy demonstra-nos que os Koans podem surgir na forma
de questionamentos filosóficos, poemas, problemas da física quântica e é claro
em HQs. Na minha opinião algumas dessas imagens criadas para o meu "Livro de Autor" têm esse potencial de provocar certos deslocamentos em nossa lógica
racional.
Diante dessa conclusão decidi fazer mais uma seleção escolhendo as imagens que
ao meu ver fossem mais "Koânicas"(2), para a partir delas criar uma HQ, chegando
finalmente a 9 imagens, entretanto uma delas já havia sido utilizada para outro
fim, como capa para a demo-tape de uma banda de Death Metal de uns amigos meus, o mais interessante desse fato é que além de ser convidado para desenvolver o
desenho da capa, também fui incumbido de escolher um nome para a banda, chegando
a LORD UNIKORN quando lia alguns verbetes de um dicionário de ciências ocultas,
o nome me chamou a atenção por sua sonoridade e curiosamente por remeter-me a uma das imagens de meu "Grimoire" (e menos por seu significado: trata-se de um
demônio que chefia 29 legiões), imediatamente procurei a minha imagem e desenhei
o logotipo que criei para a banda sobre ela, o trabalho agradou muito aos músicos. Como a capa da demo-tape fazia parte das 9 imagens selecionadas, optei
por usá-la como primeira página da HQ, adotando como título para a mesma o nome
LORD UNIKORN (com a concessão de meus amigos da banda homônima). Para impedir que o lado racional criasse critérios para ordenação lógica das demais páginas,
entreguei-as a minha esposa e pedi para que as embaralhasse e me devolvesse, essa "ordem aleatória" foi a utilizada na HQ. E ela veio repleta de
sincronicidades, uma ordem gerada no caos do processo criativo.
O texto/roteiro da HQ surgiu em poucos minutos e foi escrito diretamente sobre as páginas, na primeira ele é apenas uma frase descritiva, mas nas seguintes ele
fluiu liricamente fundindo-se às imagens e redobrando seus significados, tendo como foco central questionamentos sobre eternidade, ego e vazio e certas alusões
aos Koans, ao Taoísmo, ao Zen e ao oráculo milenar chinês I-Ching. Aquilo que
parecia não deflagrar uma seqüência de ligações lógicas, acabou gerando seqüências aleatórias interessantes, reparem nas 3 primeiras páginas, os
personagens estão de perfil e olhando para o lado direito da folha, além disso
todos têm um objeto nas mãos (crânio, relógio e espada), já a penúltima e a
última página apresentam relações simbólicas com a sexualidade e os genitais.
Todas essas sincronicidades, coincidências e convergências intuitivas levam-me a
refletir sobre o conceito do artista como veículo de forças transcendentais, o
artista talvez seja o pincel do Universo e a arte a forma mais profunda de ciência, envolvendo a inexpugnável e maravilhosa intuição. O ato criativo um
orgasmo cósmico puro e eterno!
Notas:
(1) In ANDRAUS, Gazy - Existe o quadrinho no vazio entre dois quadrinhos? (ou: O
Koan nas Histórias em Quadrinhos Autorais Adultas), Dissertação de Mestrado defendida em dezembro de 1999 no Instituto de Artes da UNESP- Universidade
Estadual Paulista, São Paulo.
(2) Koânico - Neologismo criado pelo pesquisador Gazy Andraus para designar os gêneros narrativos e obras de arte que contém Koans.