ALAN MOORE     Senhor do Caos  /   Lord of Chaos
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Entrevistas  /  Interviews


Entrevista ao Jornalista e Escritor (ainda Revisor e Tradutor) Hector Gouvêa Lima

  -Prezado Hector,sua apresentação: Idade, onde nasceu, cresceu e vive atualmente? Estado civil, filhos, formação acadêmica e profissional.

  Tenho 27 anos, nasci em Santos-SP, onde cresci e ainda vivo. Minha namorada, a jornalista a Flávia Durante - http://www.flaviadurante.com/blog - me atura há sete anos. Não tenho filhos. Fiz faculdade de Letras na minha cidade mesmo e minha experiência vai de tradutor-revisor-redator a corretor de redações escolares, balconista de livraria, garçom e auxiliar do silo de grãos no porto [ocupações que tive respectivamente por memoráveis um dia e uma semana]. Mantive durante um tempo a coluna Hectorama no site da extinta revista Play.

Meu sangue é tipo O positivo, tenho quase oito graus de miopia, escrevo roteiro de HQ e ajudo na organização e discotecagem da festa http://popscene.tk

-O quê e quando iniciou seu interesse pelos Quadrinhos?

  Aprendi a ler com eles, que foram algumas das minhas melhores companhias durante a infância e a adolescência nerd. Até o dia em que resolvi levar isso a sério demais e tentar produzir algum.

-Na infância você lia muito, tanto HQ quanto Literatura mainstream? Pode citar autores e obras que o influenciaram?

  Lia muito sim, HQs e livros, mas acho que poderia ter lido mais. Acho que peguei o gosto de ler da minha família que sempre leu bastante e tinha prazer em ler os romances da escola. Desse período a influência que sinto até hoje é a de autores Machado de Assis [Memórias Póstumas de Brás Cubas], Álvares de Azevedo [Noite na Taverna] e afins. Mais adiante os que mais me afetaram foram William Burroughs [Almoço Nu], Edgar Allan Poe, H.P. Lovecraft, George Orwell [1984], Alan Moore, John Byrne, Daniel Clowes, Warren Ellis e Grant Morrison. E tenho de citar o David Lynch, mesmo ele sendo do Cinema e não dos Livros.

-Quando foi seu primeiro contato com o trabalho de Alan Moore e qual obra lhe causou algum impacto especial?

Se a memória não falha uma das primeiras coisas que li do Moore foi o Monstro do Pântano na revista SuperAmigos, que realmente chegou a me assustar em alguns momentos, como a Abigail raspando a pele no banho e a consciência do Verde. A arte casava muito bem nessas cenas nojentas. V de Vingança tinha várias cenas de impacto e foi uma das obras que despertou em mim um interesse por política. Quase todo o trabalho do Moore causa algum impacto e não me refiro só ao potencial de choque visual. Quando moleque eu não lia muitos álbuns europeus ou americanos independentes, então o Moore foi um dos primeiros autores de HQ que vi trazer uma densidade literária ao meio. Por essas e outras ele construiu essa reputação de semi-deus da HQ, um ser quase intocável. Isso e a barba.

-Qual trabalho do mago bardo de Northampton que você considera sua obra-prima e porquê?

Complicada essa. Eu diria Do Inferno, porque é O Livro, A graphic novel do Moore em todos os sentidos. Mas vai saber se ele ainda não solta algo mais porrada ainda no futuro.

- E´o que esperamos todos.Ainda mais agora com a "aposentadoria" que ele se concedeu, abandonando os "projetos comerciais".Ao seu ver, quais foram as inovações mais importantes do autor? Especificamente sobre Watchmen e sua instigante forma narrativa – já apelidada de O Cidadão Kane das HQs – o que tem a nos dizer?

Como disse acima, foi trazer a HQ uma certa qualidade literária, da mesa forma quando começaram a aparecer contos que iam além da diversão nas revistas pulp. Não se pode negar o verniz de importância que ele trouxe à HQ de super-heróis com Watchmen. O Moore é um pensador da forma narrativa e um pesquisador que vai fundo. Muito do que se vê hoje em várias obras ditas adultas já haviam aparecido no trabalho dele, como as releituras do Super-Homem - sintetizadas em Miracleman e Supreme - e as linhas inteiras de HQ "adulta", cuja semente está no Monstro do Pântano. Essa preocupação quase neurótica (no bom sentido) com a forma narrativa aparece muito em Watchmen, que não sei se é uma visão realista dos super-heróis, mas é uma visão forte e decadente da política num mundo de heróis – nesse caso baseados nos personagens da editora Charlton. Talvez a história faça ainda mais sentido agora.

-E From Hell, você acha que Moore conseguiu atingir plenamente seu intento de Forjar em uma HQ o caldeirão que nos preparou o Século XX, com toda sua paranóia, conspirações, contradições, horror e beleza?

Sim, ali se podem ver algumas das bases do que foi o século XX e do que está sendo o nosso, com pequenos grupos de poderosos arquitetando os meios pra se manterem cada vez menores em número e maiores em poder. Tudo isso sintetizado na figura do Jack Estripador, um aristocrata por natureza. A escravista Revolução Industrial já estava ali, com trocadilho e tudo, a todo vapor.

-Sobre o filme baseado nessa obra, você acha que ficou à sua altura?

Não é um filme ruim e nunca é demais ver qualquer filme com o Johnny Depp. Mas uma adaptação é sempre uma adaptação, algo à parte, outra mídia. Tem um limite de até onde dá pra comparar. Além da perda óbvia quando se condensa tantos volumes de história em duas horas de narração, parece que os diretores não pegaram muito o feeling da Hq, se é que tinham a intenção. Nas entrevistas que vi quase não é citada a HQ, como se a dupla tivesse gerado as idéias – todo mundo quer dar uma de criativo. Mas o Moore nem deve se importar, uma vez que quando vende os direitos não está mais na mão dele – a menos que tivesse um cargo de produtor. Desde que vendeu aquele roteiro nunca filmado, o Fashion Beast, que essa postura ficou clara.

-E a Liga dos Cavalheiros Extraordinários, o que espera do filme?

Pode acabar sendo um filme bem divertido, estou muito curioso pra assistir. A idéia de juntar vários protagonistas de livros clássicos de domínio público é muito boa. É a fanfic definitiva. A menos que se confirmem os boatos de o Sean Connery dominar a edição, o filme tem potencial pra ser uma boa diversão B.

-E de Big Numbers a inacabada magnus-opus, a Teoria do Caos, os Fractais? O que você acha que Alan Moore pretendia com esta série?

Acho que ele pretendia justamente o que dizia na proposta: mostrar como se comporta um sistema caótico numa sociedade organizada. Lembro de um texto legal a respeito do assunto num dos Recados da importadora Devir; sempre faziam isso na época [uns 13 anos atrás] e acho que foi meu primeiro contato com o Teoria do Caos. Gibi sempre ensina a gente mais que a escola. Pena que essa HQ não pôde ser completada ainda.

-Você acha que uma HQ tem a capacidade de abarcar tamanha complexidade e ser compreendida?

Claro, não existe tema complexo o suficiente que uma HQ não possa mostrar. É como aquela frase do Harvey Pekar: "Quadrinhos são apenas palavras e imagens. E você pode fazer qualquer coisa com palavras e imagens."

-Sobre as músicas e espetáculos de recitação e performances de Magia do grande mago bardo, Você tem algum conhecimento a respeito para tecer suas considerações?

Não muito pra dizer a verdade; ainda tenho de achar os discos pra dar uma opinião. Consegui a música "March of The Sinister Ducks" feita em parceria com o David J. e me lembrou alguma coisa dos Residents. Acho muito interessante a postura do Moore como Mago e essas performances refletem uma ritualística que, apesar de parecer meio "cabeça" demais, tem muito a ver com o caminho de Magia "masculina" que ele escolheu.

- Ainda a propósito, o que você pensa da Magia?

É uma tecnologia ótima que devia ser explorada por todo mundo. Fuço um pouco Magia do Caos faz um tempo depois que conheci o trabalho do Grant Morrison. Ele tem ajudado a popularizar a prática, uma visão "Faça Você Mesmo" - sem o peso inútil do ritual - e não uma coisa de sociedade secreta. Magia sempre fez parte da cultura humana e esconder isso das pessoas é um dos meios de dominá-las. Não foi o Moore quem disse que "religião organizada é fascismo"? Um dos aspectos legais da Magia do Caos é que mostra como funcionam na mente as crenças como complexo de idéias; um caminho legal é criar e destruir os complexos de idéias bolados por você mesmo. E não por gente que está atrás da sua grana usando pra isso o memeplexo "Jesus". Magia é só o outro lado complementar da Ciência, a alteração da realidade através da percepção. Acredito que o Moore tem no fim essa mesma visão só que o método é mais solene e ritualístico. Se o cara acredita que invoca uma cobra gigante no banheiro pra receber inspiração e isso dá resultado, ótimo. É como o John Merrick Ganesha, uma imagem que fiz pra ajudar a abrir os caminhos .A idéia veio de eu precisar de um símbolo pop e pro deus hindu. Lembrei que em Do Inferno o Homem-Elefante fica sabendo que seria adorado como um deus se tivesse nascido na Índia.

Qualquer esforço pra se popularizar a Magia como tecnologia é válido e ela está reaparecendo; mas precisa estar num formato interessante e atualizado também pra quem não curte fantasia medieval. Acho que era mais do que você tinha perguntado, não?

- Já leu outros “mestres” sempre recomendados ou mencionados por Moore, como Crowley, Spare, Colin Wilson, Robert Anton Wilson, P.D. Ouspesnki, o poeta Blake, Iain Sinclair, Thomas Pyncon e outros?

Só alguma coisa do Blake e Pynchon. Estou com arquivos do Wilson e do Crowley aqui pra fuçar. Não é difícil achar em sebo o Leilão do Lote 49 do Pynchon, um livro divertido pra caramba.

-Qual sua concepção do Tempo? Acha que seria a 4ª dimensão do espaço, como preconizado por Einstein ou algo distinto?

Cara, que pergunta pra eu responder às 2h22 da manhã... ainda faltam evidências "científicas" e mais conclusivas pra se provar o tempo como quarta dimensão, até porque não se chegou à tal Teoria Unificadora que trata das relações entre Relatividade, Gravidade etc. Gosto muito da teoria de que todos os momentos do tempo são acessíveis de qualquer ponto e acontecem agora, num presente eterno – mais como dimensões paralelas que correm junto com a nossa do que pontos numa linha reta. Outro dia estava pesquisando pra um roteiro e achei engraçado como há poucas soluções pro Paradoxo do Avô, aquele em que o sujeito volta no tempo e mata o próprio avô ou pai antes mesmo de ter nascido.

-Você busca as obras importadas de Alan Moore também, ou espera por versões tupiniquins? E se busca importar, tem obtido sucesso? Poderia nos dar os detalhes (onde as consegue, etc).

Comprava só nacionais mas o Moore é um daqueles caras de que se tira muito mais proveito lendo no original, sem querer parecer pedante. O problema é que a relação do Dólar pro Real está muito alta pro meu pobre bolso de jornalista freelancer. Normalmente as importadoras e lojas de HQ podem trazer a maioria dos trabalhos sem problema. Pra achar as coisas de distribuição mais restrita recomendo comprar direto das editoras gringas ou se aventurar no Ebay.com. Com um pouco de conhecimento de inglês, um certo tempo livre e alguns dólares pra se gastar na internet valem a pena.

-E o livro “A Voz do Fogo”, se o leu, o que tem a nos dizer a respeito?

É um livro grande, em todos os sentidos. Confesso que não acabei de ler ainda porque estou digerindo aos poucos. Tem momentos em que a pesquisa se sobressai à narração de uma maneira meio pesada, é questão do ritmo de cada um. Mas é muito envolvente a história mística e mítica da cidade dele. O Moore é um escritor foda e foi bom esse livro ter saído no Brasil.

-Sobre o atual estágio dos Comics no mundo, qual o futuro que você antevê para a Nona Arte?

A Nona Arte é um trabalho heróico do André Diniz, não canso de dizer. É uma das poucas alternativas viáveis pra HQ brasileira hoje, uma grande vitrine que usa recursos muito bons da internet pra espalhar informação. Fico pensando em como seria legal uma editora maior injetar uma grana pra investir ali porque o esquema funciona bem, mas talvez nem precise - o André se vira. Tanto que estão saindo mais edições impressas, agora em livro. O negócio ali ainda vai longe quanto mais puder aparecer no papel e der retorno financeiro.

-E no Brasil?

Todo mundo sabe que potencial não falta. Apesar de ter gente de visão como o André e o Jotapê da Via Lettera - que lança álbuns nacionais e a coletânea Front- muitos editores ainda acham mais rentável só comprar material gringo licenciado e traduzido. Não os culpo de todo, deve ficar mais barato mesmo e a grana é deles. Levantar bandeira nacionalista é besteira mas acho falta de visão deixar de investir também nos autores daqui. É aquela velha história de não ter mercado por não ter demanda, qualidade e vice-versa. Qualidade já se provou que existe, até pra se fazer Hqs de super-heróis que funcionem no nosso contexto. Quando se junta a isso os velhos problemas de divulgação e distribuição - que existem também nos EUA -  o quadro é feio, mas há meios de se furar esse loop estagnado. É só uma pena que a situação tenha impedido muita gente boa de viver de HQ. Por isso a maioria dos autores tem de se valorizar, mandar os editores que forem picaretas à merda e tentar explorar ao máximo o próprio trabalho, buscando alternativas em outras mídias pra não morrerem na pior.

-O quê você acha que pode explicar o atraso brasileiro em relação, não digo aos EUA, mas à Europa, por exemplo, no que concerne a álbuns de qualidade (salvo raras exceções, é claro, como os de Mutarelli, Mestre Shima, Mozart Couto e uns poucos outros abnegados)?

Em relação ao que sai de produção nacional em livro? Vários fatores, incluindo o fato de se ler pouco pra se ter um mercado formado. Não se formou um mercado auto-sustentável pra produção de HQ, então se vê pouca coisa realmente boa. Num mercado em que um sujeito como o Angeli ainda rala pra sobreviver há essas injustiças. A menos que ele estivesse mentindo na entrevista que li pra não ser seqüestrado, você vê que ainda se tem chão pela frente. Mas o que sai está melhorando muito em termos de qualidade. Sou otimista, só não se pode esperar sentado também.

-O quê, ao seu ver, poderia ser feito para mudar para melhor este quadro?

Várias coisas. Do mesmo jeito que já se respeita mais o cinema nacional, falta os leitores verem que há muito mais coisa além da mesmice dos super-heróis gringos, que quando são legais são como um filme da série Duro de Matar mas também cansam. Como falei, os autores têm de se valorizar mais, garantir seus direitos e não esperar tudo acontecer sem eles se mexerem, nem que se auto-publiquem. Falta os editores abrirem o olho pros autores nacionais e negociarem com os distribuidores acordos mais justos pra que não se perca tiragem à toa. Banca hoje em dia é depósito de papel colorido. E falta divulgar mais os produtos, fazer muita propaganda.

-Sobre seus artigos "Heróis Reais e Decadentes" e aquele sobre o "Submundo dos Hackers", faça-os uma resenha dos mesmos.

O primeiro é uma análise sobre os pontos de intersecção metafísica entre realidade e ficção na HQ e foi escrito pro projeto da revista GAS do Augusto Olivani. O segundo texto é "O Lado Humano do Submundo Hacker" é uma resenhona sobre um livro que trata de como um adolescente vira hacker, com relatos de casos famosos – tanto de hackers "do bem" como daqueles procurados pela Justiça.

-Ao seu ver, porque a Internet despertou esta febre mundial que em muitos – e até graves – casos, chegou a se transformar em vicio perigoso?

Porque é um meio muito fácil e rápido de se transmitir e reorganizar informação, além de o perigo ser muito atraente e a satisfação de se conseguir fazer algo do tipo provavelmente muito grande. A popularização da internet deixou no mesmo pé as pessoas e as grandes corporações no que diz respeito a essa capacidade de trocar informações e visibilidade. Eu tenho uma visão muito positiva da internet. Agora, quando se fala em vício, são casos muito raros e vêem de situações em que a internet é uma fuga e um alento; podia ser uma relação ruim com bebida, drogas, violência e amor doentio.

-O que você acha que motiva principalmente um hacker? A vontade de aparecer ou a de causar danos no anonimato? Este aliás, li uma vez, é um dos grande dilemas dos espiões de verdade – não poder expor aos seus – ou até ao mundo – seus feitos. Ou seja – segundo Graham Greene, ou foi John Le Carre? – o espião perfeito é aquele atualmente bem sucedido mas totalmente no anonimato.

Bom, uma das coisas legais do livro do Dan Verton é que ajuda um pouco a desfazer algumas concepções erradas: "hacker" é literalmente o "fuçador" e o termo se aplica a quem curte invadir sistemas e sites só pelo prazer da conquista, sem causar danos. Normalmente o cara que faz estrago é o "cracker", aquele que quebra senhas, altera e rouba dados. Muitas vezes esse tipo de atitude de aparecer está ligada a uma cultura adolescente de auto-afirmação. O que faz um cara virar hacker é a facilidade, o desafio de descobrir outros usos pra tecnologia não só o aspecto negativo do crime. Nesse caso o anonimato é desejável apesar de existirem as estrelas do meio. Como nos casos de espionagem industrial e consultoria de segurança, que move muita grana e contrata vários ex-crackers. Se não fossem os fuçadores, nenhuma tecnologia seria interessante como hoje; veja os softwares de código aberto, que podem ser melhorados por qualquer pessoa ao redor do planeta. É muito bom existirem hackers de todo tipo.

-Você tem escrito também matérias sobre o banditismo urbano, luta armada, guerrilha e até mesmo entrevistado elementos “de dentro” do esquema, não foi? O que o atrai a tais temas? Curiosidade mórbida inerente à maioria de nos? Fonte para sua ficção? Interesse social? Ou uma mistura de tudo isto?

O que fiz foi uma entrevista com o Júlio Ludemir, autor do livro No Coração do Comando, uma história de romance a la Romeu e Julieta baseada num caso real acontecido numa prisão carioca. Eu nunca entrevistei ninguém do esquema não, o Júlio sim, e recomendo o livro dele. Essa pauta foi muito legal fazer. O interesse pelo crime e bizarrices é tudo isso: curiosidade mórbida, análise social, fonte pra ficção que acumulo no meu computador e no meu blog-  http://digitador.tk . Porque a realidade sempre vai ser mais estranha que a ficção. É um mundo estranho, ainda bem.

-Você acha que todos estes bandidos e traficantes são fruto do meio, de suas origens pobres e sem família, revolta dos alijados, psicopatas ou o que? Pergunto porque, ao meu ver, tem muito bandido que não é nada disto, não tem nenhum destes precedentes, são pessoas “normais” e, mesmo assim são capazes de atos at

rozes e extremamente amorais. Este tipo de personalidade me atrai, como escritor e ficcionista. E a você? Teria alguma explicação para tal comportamento?

Mesmo os psicopatas, que são casos extremos, sofrem influência do meio. Traficantes, ladrões, assassinos, são fruto da circunstância, da necessidade, do que assimilam como valores positivos. No caso dos bandidos pobres [não se pode esquecer dos ricos], imagine o meio fodido e sem perspectiva, sem oportunidade, em que viveram. Nada mais natural que achem a "vida loca" o melhor caminho pra se sentirem gente, pra compensarem toda a frustração, humilhação e necessidade material. Ainda sim por melhor que seja a educação que uma pessoa recebe ela tem potencial pra ter um acesso violento ou desenvolver um fetiche extremamente mórbido. Todos temos uma besta desumana, um psicopata adormecido lá no fundo. Meu interesse pelo assunto é uma mistura disso tudo.

-Você também escreve roteiros para HQs. Pode citar os que considera seus melhores trabalhos – se possível informando também quem os desenhou?

Pois é, quero um dia viver de HQ, estou ferrado. Até agora escrevi bem pouca coisa e os melhores roteiros que fiz já estão escritos mas as artes não estão prontas ainda. Zumbingo- esboço acima - http://geocities.com/hectorgouvea/zombingo.html -é uma história de terror sobre... um prêmio e um zumbi que está sendo desenhada pelo Irapuan Luiz - http://irapuanluiz.hpg.ig.com.br -. O Império Nunca Morre é uma sátira política sobre os atentados de 11 de Setembro, a cargo do Ronald Guimarães - http://www.ronald.com.br - . Espero ansioso pra ver isso pronto.

-Qual artista nacional que gostaria de ver desenhando um roteiro seu?

Vários:meu amigo Marcelo Garcia http://www.ilhadefortuna.hpg.ig.com.br   , Kipper, Fábio Moon, Octavio Cariello, Mike Deodato, Lourenço Mutarelli, Márcio Takara, Daniel Brandão, DW, José Aguiar, Titi Freak, Jean Okada. Gostaria de trabalhar de novo com o Antonio Eder e o meu camarada Leonardo Andrade quando rolar a oportunidade. É uma lista grande e ainda falta gente. Só aí tem nomes o bastante pra sustentar um bom mercado brasileiro se as circunstâncias fossem outras.

-Viu Matrix Reloaded, X-Men II e O Demolidor? O que achou? Você acha que tais filmes servem para engrandecer as HQs ou prestam-lhes um desserviço na verdade?

Desses só X-Men 2; não me animei pra ver os outros ainda. E vi o Hulk recentemente. Estes são filmes muito bons porque antes de serem "filmes de HQ" são ficção científica e drama; ambos caem um pouco quando tentam respeitar demais o material original. Não sei se precisam engrandecer as HQs porque estas são só uma nova fonte pra alimentar o cinema. Desde que ele existe vive adaptando livros e a Literatura continua sendo respeitada. Ainda deve aparecer alguma pesquisa sobre o potencial dos filmes pra atrair novos leitores, mas no fim das contas acabam engrandecendo a HQ - seja pela idéia besta de que Quadrinhos são bons o suficiente pra serem adaptados ou por rechear bolso de quem detém os direitos dos personagens. Principalmente se for um cara só.

-E, finalizando, exponha suas críticas sinceras ao nosso modesto Site e sugestões para aperfeiçoá-lo.

O site está muito bom, você é um "hacker" de Alan Moore e compila uma quantidade de informações úteis por aqui. Como todo webmaster imagino que tem se preocupado em manter o negócio andando bem e sempre. Os ajustes de formatação de texto você vai fazendo naturalmente com o tempo. Essas entrevistas com caras novos da HQ são uma iniciativa legal que deve seguir adiante. Espero que um dia você consiga uma exclusiva com o Moore, mesmo ele sendo averso à internet. O site vai estourar ainda mais se você tacar umas fotos da filha mais velha dele na galeria. Melhor: da família Moore toda. No quintal de casa. Pelada.

-Obrigado, Amigo.

Eu que agradeço a oportunidade.