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Entrevistas / Interviews
ANDRÉ CARNEIRO
por José Carlos Neves
Apresentar André Carneiro
é incorrer inevitavelmente em redundâncias. No entanto, como este site tem
atingido principalmente fãs e interessados de uma geração mais recente,
mister se faz esta providência.
Considerado tanto pelos ditos eruditos quanto pelos críticos da Cultura Pop
mais como um Poeta do que propriamente um Escritor, e muito menos de Ficção
Científica, André Carneiro é isto
e muito mais: Cineasta, Fotógrafo, Artista Plástico, Prestidigitador e
Hipnotizador, Publicitário, foi integrante da resistência armada, clandestino
- teve uma época que se chamou Augusto -, Pesquisador...E autor de diversas
obras de FC.
Esta longa bagagem, profundamente marcada também por ter sido um dos raros e felizardos participantes e co-organizador do famoso e pioneiro até no mundo, Simpósio de FC do Rio de Janeiro, em 1969, asseguram-lhe inquestionavelmente o título de mais importante personalidade do gênero no Brasil.
E provando que respeita o esforço de estudiosos amadores -
do que já fui testemunha quando com ele tive o prazer de estar, na Interiorcon
de Santo André-SP, há mais de 10 anos, quando me presenteou com um raro
exemplar de seu romance famoso "A Piscina Livre "- André prontamente
atendeu o nosso pedido para este bate-papo.
1-Vamos lá, André primeiro a "ficha completa",
idade, onde nasceu, cresceu e vive atualmente,estado civil, filhos e formação
acadêmica.
Ficha
completa é chato, fica larga, “não cai”.
Minha
idade se perdeu em um incêndio no Cartório de Registros.
Minha mãe me enganava. Cada publicação ou enciclopédia me atribui uma idade diferente. Tenho a idade do meu estado de espírito, que é bom, sou casado muitas vezes, vivo atualmente em Curitiba (tive problemas de visão há três anos, não mais dirijo, vim morar ao lado do meu filho Mauricio, que toca clarineta e clarone na Sinfônica do Paraná. O outro, Henrique, é professor de História na USP: tese de doutorado sobre drogas. Formação ? Fui convidado pela Universidade do Arizona e também para dar cursos na França, fiz conferências em Universidades brasileiras, sem diplomas nas paredes.
2-Seus primeiros trabalhos publicados foi na década de 50, em suplementos literários sãopaulinos. Eles já tinham tendência à FC? Como se originou seu interesse pelo gênero?
Sim,
publiquei contos e artigos
nos Suplementos Literários e até fotos de arte. Alguns suplementos,
como o do Estadão, eram verdadeiras revistas, fortuna cultural
que desapareceu. Hoje, fazem pesquisa, só se importam com números e não
com a qualidade ou o patrimônio da inteligência nacional, por isso não
publicam
poemas e contos, mas as seções de futebol e a policial são perfeitas.
As revistas da época publicavam meus contos, “Vamos Ler”,
“Carioca”. Você poderia me informar onde poderei publica-los hoje, em
revistas profissionais?
Lancei
um jornal literário “TENTATIVA”,
com um belo e
moderno titulo desenhado pelo hoje célebre Aldemir Martins. Eu era amigo
do Oswald de Andrade (que ninguém pronuncie erradamente, O´svald, com acento na
primeira sílaba). Ele apresentou o jornal, o que, certamente, contribuiu para o
sucesso que teve. Entrevistei e publiquei trabalhos dos maiores escritores da época.Já existe uma tese acadêmica, patrocinada pelo
CNPq,
na Universidade Federal de Rondônia, sobre a importância de TENTATIVA.
Também está sendo elaborada em Atibaia (SP), uma edição facsimilada,
com uma introdução sobre a repercussão literária do jornal, pelo escritor e
professor de Literatura Dr. Osvaldo Duarte.
TENTATIVA
tinha correspondentes em vários estados brasileiros, Buenos Aires, Lisboa e
Paris.
Estava
quase esquecendo da tal ficção científica.
Acho que meu primeiro conto de FC publiquei no Suplemento do Estadão.
“O começo do fim”. O jornal “O Estado de São Paulo” naquele tempo era
o mais importante do país, se distanciando demais do segundo colocado. Ele
somente publicava colaboração solicitada e ter o nome em suas páginas era um
verdadeiro diploma. Eu estava empenhado (como estou até hoje) em escrever
literatura de qualidade. Quase não percebia que a temática da maioria dos meus
contos se enquadrava dentro daquela maldita
e absolutamente inadequada denominação de FICÇÃO CIENTÍFICA.
Quando a Edart publicou DIÁRIO DA NAVE PERDIDA e O HOMEM QUE ADIVINHAVA,
tentamos mudar para Cienciaficção, inutilmente. Hoje, como no A MÁQUINA DE
HYERÓNIMUS, não coloco nada. Ainda espero que uma Fada boa, fã do tal gênero,
delete, exclua, apague de todos os dicionários, arquivos e banco de dados do
planeta, aquele nome tão amaldiçoado como a palavra COMUNISMO. Quando eu
afirmo que nunca houve no planeta Terra um governo Comunista, olham para mim
como se eu estivesse louco. Bem, calma, meu caro Zé Carlos, não vou explicar
aqui a diferença entre comunismo e socialismo.
Nem lembrar que talvez o mais importante escritor de FC do mundo, Aldous
Huxley, jamais teve essas letras na capa dos seus livros.
3-Quais obras e autores que mais lhe influenciaram e porque?
Tenho
medo de citar nomes. No tempo em
que fazia isso, tinha vontade de consultar o próprio Freud
para saber como tinha esquecido o mais importante ou a mais importante e,
se se tratava de coisas amorosas, jamais haveria perdão. Nunca fui dogmático,
por isso cito um autor de alto prestígio mundial, aquele mesmo ali de cima, o
criador do ADMIRÁVEL MUNDO NOVO.
4-Em 1967 voce foi o pioneiro autor do raríssimo "Introdução ao Estudo da Science Fiction". O que o motivou a escrever esta obra e a manutenção da nomenclatura inglesa? Por ser mais comercial, digamos assim, ou porque realmente ainda não havia sido consolidada a denominação Ficção Científica no país?
Jose` Sanz, Andre` e Arthur Clarke - Festival Internacional do Filme - - 1969 -Rio de Janeiro
É
triste anotar, mas nos velhos tempos era menos difícil publicar uma obra
erudita, um ensaio literário como “Introdução ao estudo da Science-Fiction”. Escrevi o livro porque o preconceito, ou melhor, a imbecil
confusão que se faz (não estou me referindo aos ignorantes, mas professores de
Faculdades,
Toda
essa confusão estava começando a se alastrar.
Nossa língua brasileira desenvolve imprecisões surpreendentes: fala-se
vou “chegando” para dizer que esta saindo, “entrar bem” significa o
contrario, e o célebre “pois
não” que é pois sim. As mulheres dizem hoje “estou com o saco cheio”, e
qualquer seguidor de uma religião que não seja a católica é “crente” .
Quando escrevi o meu ensaio resolvi colocar a expressão em inglês (não
esquecer que no italiano e em outras línguas a palavra é outra).
A subserviência brasileira ao idioma inglês começava, tive essa
fraqueza “pour épater les bourgeois”.
Segundo
um amigo que pesquisou, foi o
primeiro ensaio (não uma coletânea de artigos) publicado sobre o assunto na
América Latina. Mandei os originais para o Conselho Estadual de Cultura, de
São Paulo, que o aprovou e o publicou. Posteriormente, fui convidado para
participar do Conselho, (nomeado pelo Governador), onde permaneci por cinco
anos.
Duas
curiosidades do ensaio: Otto Maria Carpeaux, europeu de alta cultura, conhecedor
de muitas línguas e um dos mais
respeitados críticos literários da época, usou algumas vezes a expressão
“ficção científica” de maneira pejorativa.
Gastei algumas páginas do ensaio reproduzindo grandes elogios por ele
feitos a autores internacionais de FC. Eu
concluía que ele gostava, e muito, da FC de qualidade. As provas eram
irrefutáveis, nem ele nem ninguém me respondeu.
O segundo fato foi a minha séria acusação de ser o grande Monteiro
Lobato um escritor racista. Parece
que ninguém o cita como um escritor de FC, talvez para escamotear o seu racismo
em seu romance “O Presidente Negro”. Ele
tinha tanto prestígio (justo prestígio como escritor e defensor do nosso
petróleo que os “técnicos” americanos provaram que não existia) que as
minhas acusações todas provadas pelo texto, não foram nem comentadas nem
respondidas, até hoje.
Brian Aldiss, Harry Harryson, ? e J. G. Ballard no Festival Internacional do Filme, Rio de Janeiro
5-Voce que convivia com escritores mais tradicionais - e tradicionalistas - do mainstream sofria alguma discriminação por militar e até pesquisar a Literatura até hoje considerada popularesca?
Pergunta muito interessante esta, como dizem na TV.
No começo da minha carreira, não era só eu que não percebia muito bem
que estava escrevendo a “tal” ficção científica. Leitores e mesmo críticos
analisavam o meu estilo, minha temática, é claro. É evidente que nunca tive
heróis galáticos dando tiros com pistolas laser ou mocinhas de cintura fina e
duas antenas na testa fugindo de monstros de olhos arregalados. Tenho sempre
esquecido de colocar em meu currículo, mas ganhei prêmios
(Melhor Livro do Ano, Prefeitura Mun. de S.P, por exemplo) com contos de
FC.
Meu
romance “Piscina Livre”, também publicado na Suécia foi altamente elogiado
por Carlos Drummond de Andrade e nem preciso citar mais ninguém.
Quer uma explicação ? Acho que os críticos enxergavam em primeiro
lugar o poeta André Carneiro, que Sergio Milliet tinha lançado.
Liam meus contos como literatura (que são, evidentemente) e gostavam. Se
alguém insinuasse que “aquilo" era FC. eles diriam: “Você esta louco,
você acha que o Carneiro iria escrever essa porcaria de ficção científica
?”
Eu
sou Analista, tenho estudado toda minha vida o estranho funcionamento da psique
humana. Só posso dizer que é muito difícil de explicar que um trabalho de FC
pode ser uma obra prima literária, assim como um romance policial como “Crime
e Castigo” também é uma obra prima. Afinal
nós sabemos que os católicos também são crentes, embora a maioria não
admita. Acredite se quiser : Até
hoje, minha ficção científica navega em pleno “mainstream”, é lida junto
com Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa etc. etc. Vide
o recente lançamento da Antologia do Conto Fantástico Brasileiro
da Editora Carioca Casa da Palavra. Parece que foi o Braulio Tavares quem
fez a seleção e ate agora não vi o livro.
6 - Sem nenhuma tradição ou cultura científica, muito menos cinematográfica ou literária no gênero, como o Brasil foi sediar o- às vezes penso que aquilo aconteceu mesmo foi num universo paralelo - Simpósio Internacional de FC, ocorrido no Rio em 1969, com a presença de sumidades- e até dos que viram a ser, como o jovem Harlan Ellison ? Qual foi e como foi o seu envolvimento no evento?
Achei
bem colocado você dizer que o Simpósio Internacional “aconteceu em um
universo paralelo”.
Damon Knight, Karen e Poul Anderson Em crônicas e entrevistas já contei varias
histórias lá ocorridas, mas o
assunto é inesgotável. É bom lembrar que o Simpósio era realizado dentro do
maior, mais rico e badalado Festival Internacional de Cinema já acontecido no
Brasil, até hoje. LocaL:
Copacabana Palace, onde eu tinha uma suite, carro com motorista e um caderno com
tiquets que me permitiam almoçar no “Garfo de Ouro” ao lado dos cineastas e
artistas internacionais mais importantes do mundo.
Como
foi possível o Simpósio (custou milhões de dólares) e eu como seu Presidente
? Um homem inteligente, de prestígio e personalidade chamado José Sanz explica
tudo.
Pode-se
afirmar que ele era quase um mito e eu não o conhecia pessoalmente. Apaixonado
pela literatura de FC, não era escritor, mas traduziu alguns livros e dirigiu
uma coleção para uma editora. Dizia- se amigo da Marlene Dietrich, de Orson
Welles e outras figuras internacionais desse nível.
A irreverência carioca fazia gozações, mas a realidade era essa mesma.
Sanz convenceu o Governo da importância do Simpósio e foi seu organizador.
Porque convidou para presidente André Carneiro, poeta e escritor de FC, que
tinha uma loja de material de construção na pequena cidade de Atibaia, perto
de São Paulo ? Essa pergunta lhe foi insinuada em uma entrevista que deu para a
importante revista “Visão”. Não
esquecer que Antônio Olinto, do Itamaraty, Rachel de Queiroz, Fausto Cunha,
Dinah Silveira de Queiroz, Origenes Lessa etc., moravam no Rio e escreviam FC.
José Sanz respondeu que AC. era o mais importante escritor de FC
brasileiro. Na revista Somnium eu já contei vários fascinantes episódios
ocorridos no Copacabana. Costumo até me vangloriar (espero que me perdoem), de
ter assistido “2001” ao lado de Arthur Clarke e “Metrópolis” ao lado de
Fritz Lang.
Mas,
francamente, por fascinantes que sejam, não quero narrar mais histórias
paralelas do Simpósio, parto do princípio de que estamos aqui falando de
literatura.
7 -Algum fato pitoresco?
Fatos
pitorescos ? Um hotel como o
Copacabana, palco de um Festival de Cinema Internacional, com belas artistas
desfilando nas piscinas o dia inteiro, só acontecia fatos pitorescos. E o
primeiro time da FC mundial (na área da Literatura e do cinema), discutindo
problemas... não, agora não, um
dia ainda contarei tudo, ou quase tudo. Embora
feito de seres humanos como nós,
7 -Depois disto, voce conseguiu tirar proveito dos contatos internacionais ali mantidos, culminando com a publicação seu conto "A Escuridão”em uma antologia anglo-americana dos “Melhores do Ano na FC de 1976”, correto? Qual foi o feedback e voce acha que o fato justificou voce a vir ser depois um escritor de FC mais conhecido no Exterior que no Brasil?
É curioso, não foi através de nenhum daqueles escritores que dei o salto internacional, como já comentou Fausto Cunha. Brasileiros esquecem que escritores americanos etc. não negociam com editores. Existe o célebre Agente, que se encarrega disso. Pedir a um colega estrangeiro que “entregue” um original para um editor, (que terá de ser em um belo inglês) é fato fora de propósito.
Forrest
G. Ackerman
Quem me introduziu
professor de Literatura na Universidade do
Arizona, em Tucson. Essa história já contei várias vezes, vou resumir. Eu o
conheci em Brasilia, em um Congresso de Escritores. Leu meus contos, gostou e
traduziu DARKNESS, o qual foi
comprado pela Putnam para a Antologia dos melhores contos mundiais de 1972. A
edição de capa dura destaca meu nome na capa como “mestre internacional”.
Logo em seguida o conto foi comprado por dois professores PHD de uma
Universidade, que incluíram o conto em uma Antologia universitária onde havia
ganhadores do Prêmio Nobel. Darkness foi publicado em pelo menos dez línguas e
até feito um roteiro cinematográfico,
que deve andar nas gavetas de Hollywood.
8-Voce integrou um Grupo de Estudos sobre Drogas na Universidade do Arizona. Quando foi isto e porque e como foi convidado? Chegou a conhecer trabalhos similares , muito importante e elucidativos do quase-guru Timoty Leary? E do grande apologista do uso do alucinógeno psilocibim - DHT - Terence McKenna? 9 - Se conhece seus trabalhos, o que acha das teorias de ambos - Mckenna inclusive - veja Entrevista neste site - previu um acontecimento apocalíptico para 2012, quando seria "o fim do tempo" como o concebemos.E tem outras idéias muito bizarras, mas não indignas de atenção –vários de seus livros foram publicados no Brasil.
Não
gosto de falar de DROGAS no Brasil. A ditadura militar impediu um conhecimento
mais científico da população que fala em “drogado” e quando eu pergunto
“Qual droga ?” olham admirados, exatamente como falam em CRENTE e se eu
pergunto, “de qual religião ?” se espantam, crente é crente e drogado é
drogado, mas nem ouse falar em alcool ou nicotina, produtos que o governo acha
que pode ser consumido, embora matem dez vezes mais do que os outros.
Nos Estados
Unidos e na Europa é diferente, a cannabis não tem essa
conotação de coisa ordinária de bandido, como aqui. Minhas experiências no
Arizona não posso detalhar por contrato, é função dos cientistas.
As pesquisas mundiais com o uso de alucinógenos e LSD como medicação
até para psicóticos, tem sérios seguidores como Stanislaw Grof, mais do que
com Leary. Sobre o tempo, com
Einstein provando que pode ser “esticado”, já é muito perturbador. Fiz
poemas tentando anular o tempo. Tenho tido dificuldades com espelhos, certamente
velhos espelhos ignorantes que só sabem proteger vampiros.
Hawking trata dos célebres paradoxos de se voltar no tempo e matar o
próprio avô. Os caretas que temem a ciência e por extensão a nossa ficção
científica, não se dão conta de que o maior cientista vivo do mundo cita a FC
e trata daquilo que nós “inventamos”. E
não percebem que o romance tradicional e clássico também é uma
invenção, uma mentira que o leitor sabe que é mentira, mas acredit
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Na
Holanda e na Inglaterra, mesmo na Suíça e Espanha, a legislação sobre drogas
começa a se adaptar à realidade do que a ciência determina e não o mito
popular. Como verdades sobre as
chamadas drogas são tão desconhecidas como a nossa ficção científica, temo
entrar no assunto e ficar muito superficial.
10 -Ainda nesta direção metafísica, qual é a sua concepção do Tempo? 11 - Considera-o a Quarta Dimensão do Espaço, como teorizou Einstein?
Minha concepção do tempo não é melhor nem mais original do que a de todos que estudaram um pouquinho. Como Analista sei das minhas limitações que intelectualmente luto para desorganizar. Podemos imaginar um indivíduo antes e depois de Galileu ? A Terra era o centro do
Harlan
Ellison
John Brunner
universo.
12 -Como você imagina um ser ou objeto (como o Tesserato) da Quarta Dimensão?
Coisas
que acontecem no meu quarto tenho descrito, projetado, transformado em verso,
projeto, foto, memória e são maravilhosos, inexplicáveis, herméticos
e intransferíveis. Isso, no
meu quarto. E na Quarta...dimensão ? Sendo Quarta, deve ser feminina, portanto
uma dimensão para ser vivida e amada, jamais explicada.
Já vivi na Quarta dimensão até no meu Quarto.
Sonhando.
Sonhos são incontáveis. É só.
13-O que acha da imberbe Teoria do Caos, com seus Fractais e o popular "efeito borboleta"?
Em
San Diego, nos Estados Unidos, passeando uma vez com meu tradutor Leo Barrow, eu
lhe perguntei porque os americanos “pulavam” o 13* andar nos edifícios, na
numeração das casas etc. Ele me
olhou espantado, riu e fez caçoada: “vocês brasileiros, inventam cada uma
!” Eu sabia disso desde criança, já ouvira histórias a respeito, mas
afinal, quem sabe de um país é o nativo, não o turista.
Fomos para um hotel que tinha um comprido terraço unindo os
apartamentos. Eu contemplava os postes de madeira, eu pensava que na orgulhosa
“América” os postes fossem de cimento como na minha cidadezinha brasileira.
Quase automaticamente fui contando o número dos apartamentos, 9, 10, depois 11,
depois 12, depois 14. Dei um salto
para trás, como acontece nos filmes. Quero
dizer, a “ficha” custou um pouquinho para cair. Com um sorriso,
lá fui buscar o Leo. Pedi
que fosse contando os apartamentos... “E então Leo, onde está o apartamento
13 ?”
Ele
ficou besta, sacudiu a cabeça, disse “ Mas que coisa idiota, eu não sabia
dessa história de pular o 13”. E, mais uma vez a América se curvou ante o
Brasil.
O
José Carlos Neves, terrível parente próximo “daquele Das Neves” me
colocou esta armadilha de quem sabe que ninguém escapa do CAOS.
Eu percebi a intenção, tirando o “R” e o “L” do meio. Como milhões
de americanos idiotas, eu pulo o 13.
14-Voce estudou e praticou a Hipnose. A prática pode ser considerada uma ciência?Funciona mesmo, nos níveis que a imprensa e programas sensacionalistas e até a ficção tenta fazer-nos crer? Algum fato pitoresco a ela relacionado?
Eu
estudei (felizmente) e sempre pratiquei a Hipnose, como auxiliar importante na
análise psicológica. É uma ciência, evidentemente. Em muitos casos é possível
substituir produtos químicos (muitos deles são drogas que provocam dependência
física) pela sugerência hipnótica. Escrevi dois livros a respeito, há muito
esgotados. Carol Sonnenreich, que dispensa apresentação, para quem estudou
psiquiatria, afirmou ser o melhor já publicado no Brasil. O conhecido
psiquiatra, escritor e jornalista Paulo Urban, que escreve na “Planeta” concorda com essa opinião. Tentei também pesquisas
experimentais, como “parto com dia previsto” etc.
Agora, se você quer uma boa comparação para saber o que o grande
publico e parte da mídia pensa a respeito, faça uma pesquisa: Pergunte a 100
pessoas diversas o que é, e o que acham da chamada “ficção científica”.
Some cuidadosamente a coleção de besteiras, impropriedades e tolices e faça a
mesma pesquisa mudando FC para HIPNOSE.
Eu fiz a experiência. Há um surpreendente empate. Descobri
que, nas duzentas respostas, havia duas sobre FC e duas sobre Hipnose que, não
sendo totalmente corretas, eram razoáveis. O resto joguei tudo fora.
Para não ficar inteiramente desesperado, perguntei ao meus duzentos
selecionados quando, onde e de qual maneira Pelé tinha marcado seu milésimo
gol. Noventa e oito por cento de
acerto. Pensei até como proteger os 4 analfabetos que não sabiam, estavam
quase sendo linchados pelos outros.
Não posso falar de HIPNOSE. É assunto fascinante,
paradoxal, mas muito longo, tenho de cortar já. Mas não quero faze-lo sem o
ligar com a ficção cientifica. Escrevi um conto “O homem que hipnotizava”,
um personagem se auto-hipnotizava, a esposa feia ficou linda etc. etc. O
cineasta Roberto Santos adorava esse conto. Assinamos um contrato, sua intenção
era fazer um filme (em plena ditadura) o homem que hipnoticamente se iludia era
o brasileiro iludido pelo regime. Infelizmente Roberto Santos morreu sem
realiza-lo. Ziembinsky, o genial dramaturgo que modernizou nosso teatro, comprou
o conto para transformá-lo em “caso especial” na Globo, o que foi feito e
anunciado, mas não chegou a ser transmitido
por motivos de censura militar.
Cheguei
a ver um pedaço do “caso” em um programa didático da Fundação Roberto
Marinho, ilustrando estilos literários.
Sobre
Hipnose usada na conquista das mulheres leiam esta obra prima do grande e
esquecido escritor brasileiro Medeiros e Albuquerque “Quando eu era vivo”.
Durante a Primeira Guerra Mundial ele era um ilustre membro da Academia
Brasileira de Letras, e Adido Cultural na Embaixada Brasileira em Paris. Grande
conquistador, em uma cidade cheia de mulheres lindas e sozinhas, pois os maridos
estavam na frente de batalha, grande parte morrendo, Medeiros andava de metrô e
jogava cerca de dez cartões de visita com seu endereço no colo das mulheres
bonitas. Ele conta que recebia um ou dois telefonemas em resposta. Notem, isto não
é ficção, faz parte da
autobiografia do escritor. Com as jovens conquistadas Medeiros usava a Hipnose
para... é melhor lerem o livro. Ele chegava ao cúmulo de usar o fardão da
Academia Brasileira de Letras, e era tratado como Almirante, com honras
militares. Em seu testamento ele exigiu que o livro fosse publicado 20 anos
depois de sua morte, o que foi feito.
15 -E a Prestidigitação, que o levou a se interessar e estudar o assunto? Pergunto porque sou fã - e pesquisador até, dos feitos e da vida de Houdini e seus seguidores, como o famoso artista James Steranko e o próprio “mágico de TV”, David Blane.O que é o Kumberlandismo?
Eu me lembro, fiz prestidigitação naquele
primeiro grupo de ficção cientifica dirigido por Jerónymo Monteiro. Fiquei
muito decepcionado. A maioria enganada pelos meus rápidos dedos, (naquele
tempo), em vez de simplesmente aplaudir, ficavam irritados, queriam examinar
minhas mangas ou pediam para repetir a mágica, o que é um absurdo. Acho que
interrompi minha carreira naquela ocasião. Aprendi mágica teatral e
prestidigitação obrigatoriamente, não se pode estudar Parapsicologia sem
dominar os truques com os quais os vigaristas, tipo Thomas Green, enganam
até gente sabida, mas inexperiente nos amplos recursos que
a Magia possui, alguns raros até jogando com uma paranormalidade
eventual, que surpreende o próprio mágico.
Já
contei em uma crônica, vinguei-me divertidamente
da displicência e da ironia do Jerónymo com minhas proezas. Em uma das
fugas pelo golpe de 64, parei um dia em Mongaguá. Me aproximei da casa praiana
do Jerónymo sem meu bigode, com nome novo e com andar diverso. Disfarces não são
fáceis. Há trinta metros de distância gritaram: “lá vem o André sem
bigode”.
Jerónymo
já tinha sido preso e temia que se repetisse. Ele teve que sair. Só, em seu
escritório, durante o dia, vi um baralho. Eu era perito e o marquei
inteiramente, para passar o tempo. Um ano depois, em nova visita, no meio de
outras pessoas, Jerónymo caçoava da minha Parapsicologia, afirmava que eu era
paranormal e capaz de milagres. Havia duas jovens senhoras muito interessadas.
Eu desmentia, mas acabei perdendo a paciência. Perguntei se havia um baralho.
Apareceu o “meu” baralho. Fiz três ou quatro simples “adivinhações”,
Jerónymo rindo, exigindo mais. Esquentei a mágica, eu conhecia todas as cartas
pelas costas. Jerónymo apagou o sorriso, ficou impressionado, queria me
revistar, segurava meu pulso quando embaralhava. Disse a ele que eu não tocaria
mais no baralho, ele manobraria as cartas. Na última mágica, por coincidência,
a carta escolhida ficou em cima do maço. Pedi que colocassem no canto da sala e
cobrissem com um chapéu. Fiz os
gestos e concentrações de costume, solicitei uma criança e disse a ela pra
tirar a carta escolhida. A criança naturalmente pegou a primeira carta. Uma das
moças queria que eu fosse à casa dela curar a mãe doente, Jeronymo não deu
nenhum riso irônico.
Tive
uma experiência fantástica com um dos maiores mágicos do mundo, Cantarelli.
Cine Paramount em São Paulo, repleto. Ele fez um sério discurso sobre
transmissão de pensamento e solicitou voluntários. Eu e mais uns dez subimos
no palco. É bom notar que eu ainda nada sabia de mágica e Kunberlandismo.
Cantarelli solicitou, apontando para cada um de nós, que o publico
“escolhesse” quem parecia mais capaz de receber pensamentos. Eu fiz a cara
mais séria do mundo e fui o vencedor, com mais dois.
Fui o primeiro na demonstração. Coloquei uma venda no rosto do mágico.
Ele me pediu que escolhesse, na platéia, uma determinada pessoa, minha amiga ou
não. Imaginando que alguém poderia ter me observado com um amigo, escolhi,
mentalmente, alguém que eu desconhecia, na primeira fila. Cantarelli colocou-se
na minha frente, andando para trás e lá descemos no corredor da platéia. Ele
ultrapassou o meu escolhido e foi até o fim, eu atrás. Ele não me tocava (
era o único no mundo que fazia essa mágica sem toques).
Lá no fim do teatro-cinema da Brigadeiro Luiz Antonio, entrou por uma
fila, tocou no ombro de alguém e disse “é este aqui?” Eu disse que não,
muito chateado pois ele me pedia concentração o tempo todo, eu tinha sido
“eleito” por mais de 500 pessoas e não estava sendo capaz de transmitir
pensamento algum. Cantarelli, sempre meio de costas entrou em outra fila no meio
do cinema e eu tive de dizer “não senhor”.
Eu já estava esperando uma vaia. Eis senão quando, Cantarelli chega na
primeira fila, depois de andar para lá e para cá, eu atrás. Pegou no ombro do
meu escolhido, eu disse alto “é esse mesmo”.
Aplausos gerais.
Voltei
para casa e fiquei pensando. Muitos
no teatro imaginariam que eu era alguém “pago e combinado’. Eu sabia que não.
Como o raio do mágico descobrira a pessoa ?
Isso
é ´Kumberlandismo e que me desculpem os mágicos, existe uma ética, um pacto
de honra de não se contar os segredos.
Padre
Quevedo costuma fazer esta mágica e até enganar que é mesmo transmissão de
pensamento. Mas ele mantém a palma da mão em cima da palma da mão estendida
do “voluntário transmissor”. Kunberland, um mágico inglês descobriu a mágica
psicológica, manobrar as palavras, o discurso e os gestos de modo que o voluntário
“ajude” o mágico, coopere com ele, sem perceber. Se você fizer de modo que
o voluntário sinta-se orgulhoso de ter sido “escolhido” como paranormal e
se você colocar sua palma acima da palma dele, vai perceber nitidamente que ele
o “arrastará” para onde estiver um objeto escondido por ele ou uma pessoa
escolhida, como foi o meu caso. Mas Cantarelli não me tocou, como ele fez, vocês
perguntarão. Era o único no mundo, deve ter treinado com milhares de pessoas,
ele interpretava a reação dos meus pés, qualquer um que ponha uma venda nos
olhos sabe que se pode ainda ver quase dois metros no chão. O inconsciente
manda no consciente, pegue um pêndulo, faça um circulo no chão e o pêndulo
andará em circulo. Se traçar uma linha reta o pêndulo a seguirá. Os
“enganos” do Cantarelli eram propositais, serviam para incentivar o meu
“auxílio”. Antes do meu
acidente visual, que me faz enxergar pouco e desfocado, vi o célebre David Coperfield. Achei que repetia todas as clássicas e conhecidas mágicas, porém
altamente melhoradas com grande sofisticação. As suas “levitações” eram
perfeitas.
Eu tenho um conto infantil-juvenil onde exploro o mito do grande Houdini. Me ocorreu agora uma idéia para um conto de FC onde todas as mágicas “falsas” fossem verdadeiras.
Poul Anderson, George Pal, Harry harrison, Forrest Ackerman e Karen Anderson
16-Voce sabe que neste site, tudo praticamente gira em torno do cultuado autor e roteirista ingles Alan Moore. Que ele foi o criador da obra From Hell , para os Quadrinhos, depois desperdiçada por Hollywood. E que ele,” para vencer a crise existencial dos 40 anos”, resolveu se tornar um mago. Estudou muito Aleister Crowley, Austin Osman Spare, participou de experiências e acontecimentos no mínimo “fora-do-script”, como ele gosta de descreve-los. Voce acredita na Magia, na Kabala e outros desdobramentos, ou tenta também - como o James Randi tupiniquim, Padre Oscar Quevedo - "explicar tudo à luz da Parapsicologia" ?
Eu,
Bruno Fontana e Paulo Urban fizemos pesquisas “ganzfeld”, sofisticada e
moderna técnica que substituiu as célebres cartas Zenner, exigindo equipamento
eletrônico. Eu consegui os melhores resultados, aliás tenho “previsto”
telefonemas de pessoas, fenômeno bastante conhecido e que as vezes espantam as
pessoas, pois ocorre sem premeditação. As
experiências citadas fizemos no Instituto do Padre Quevedo, por gentileza dele,
sem comprometimento com suas idéias. Espíritas e católicos tem religioso
impedimento para uma científica Parapsicologia. Os primeiros pela dificuldade
em conciliar um fenômeno paranormal com a crença nos espíritos. Os segundos
acreditam em milagres, o que torna impossível distingui-los de um fenômeno
paranormal. Tenho formação cientifica, mas repudio um exagerado formalismo da
ciência acadêmica. Nem a Psicanálise nem a Parapsicologia ou a tradicional
Psicologia ainda não são admitidas como matérias científicas. Aceito a prudência
mas é ridículo um pretenso cientista não querer nem pesquisar algo que escape
dos seus paradigmas. O engraçado é que, desde a física quântica, ou mesmo,
desde Einstein, a ciência começa
a lidar com o “princípio da
incerteza”, as cósmicas teorias
praticamente aceitas pelos melhores cientistas do mundo como Stefen Hawking, que
são mais fantásticas e perturbadoras ou tanto quanto às invenções mais
arrojadas da ficção cientifica. Eu aprendi muito na vida com os ignorantes. Um
dia, em minha loja de material de construção, entrou, no principio da Segunda
Guerra, um caipira bem caipira, de Piracaia, com um embrulho sangrento. Para ser
gentil, perguntei o que era, ele disse: “é figo”, ele queria dizer que era
fígado cru. Perguntei para que servia enquanto meu empregado melhorava o
embrulho, ele disse que era “um porrete para os óio” . Achei estranho,
perguntei o que havia com os olhos dele e como iria usar o fígado cru. Ele me
disse que comia o “figo” cru porque ele “não enxergava de noite”. Ele comprou algo, foi embora e eu entrei para minha casa
rindo da fantástica ignorância do caipira, Ironizei bastante seu defeito de
“não enxergar de noite” o que me parecia óbvio, se não houvesse luar.
Dois anos depois, em manchete, eu li a noticia: Cientistas ingleses acabam de
descobrir uma nova doença, a “cegueira noturna”, analisando o comportamento
de pilotos de aviões de bombardeio ingleses. Essa deficiência, causada pela
falta de vitamina “A” pode ser corrigida facilmente pela ingestão de fígado
cru.
Eu
fiquei estarrecido. O esperto intelectual que se divertia com as bobagens
supersticiosas do caipira de Piracaia, tinha sido um pretensioso idiota.
Muitos anos depois escrevi um artigo me penitenciando da minha
incompreensão e superficialidade. Eu sequer anotara o nome daquele homem, nem
lhe pedira mais informações. Eu terminei meu artigo afirmando: Cientistas
pensam que foram pesquisadores ingleses que descobriram a “cegueira
noturna”. Não foram eles, foi um caipira de Piracaia.
Cientistas ingleses pensam que foram eles que descobriram a cura para a
cegueira noturna. Não foram eles, foi o caipira de Piracaia.
Acredito
na Ciência e a sigo. Mas tenho o maior respeito para qualquer informação
marginal. A ciência considerava absurda a pretensão da Alquimia, entretanto
depois da física quântica o absurdo é possível.
Nunca me esqueço de um grosso volume, escrito por um Padre católico,
corajoso evangelizador no meio da
selva de Mato Grosso no começo do século passado. Estava preocupado com seu
companheiro também padre, que fora de barco para a cidade próxima, um mês de
viagem e já deveria ter voltado. Em
último recurso, perguntou ao Pajé da tribo o que teria acontecido. O Padre
conta em seu livro minuciosamente uma série de danças, cantorias, queimas de
determinadas ervas, operações que atravessaram a noite. Dava para sentir no
texto uma leve ironia. O Pajé afirmou que o padre voltaria na Primeira Lua e
que tinha ferido a perna. Depois dessa frase o Padre simplesmente escreveu: Na
primeira mudança da lua voltou meu companheiro que tinha sofrido um pequeno
acidente na perna. E nada mais sobre o assunto. O Padre desprezara os primitivos
ritos feitos pelo Pajé, sem admitir que, com eles, conseguira uma resposta
correta. Cientistas são como Pajés, só que usam lentes, satélites,
computadores e muita imaginação. Realmente, eles descobrem uma “cegueira
noturna” e sua cura. O que eu gostaria de saber e desprezei a oportunidade era
como o caipira conseguira fazer isso antes deles.
17 -Conhece alguma coisa dos Quadrinhos de Alan Moore? O que e quais são suas considerações a respeito?
Quadrinhos
sempre envolveram a minha vida. Bem menino, no Colégio Arquidiocesano, em São
Paulo, ao lado da Estação da Luz, de
manhã cedo, pela janela entreaberta do dormitório coletivo dos alunos
internos, comprei o primeiro numero do “Suplemento Juvenil”, Flash Gordon,
Mandrake, Alex Raymond...
Já
escritor, em um Congresso de Escritores em S.Paulo, fui relator de uma tese
sobre Histórias
em Quadrinhos. Eu solicitei a tarefa, eles nem queriam tomar conhecimento,
quadrinhos era bobagem, coisa de crianças etc, embora senhores respeitáveis
comprassem para os filhos, lendo primeiro com muita atenção. Eu tinha acabado
de ler a célebre tese do Umberto Ecco, que ninguém conhecia e ficaram
espantados. Graças ao meu relatório até votaram pela aprovação e publicação
do trabalho que iam jogar fora.
Ruth
Rocha me convidou uma vez para fazer uma HQ de ficção científica para uma
revista que a Abril ia lançar. Eu a fiz e ela me perguntou se eu não faria os
desenhos, pelo menos o primeiro tratamento. Quando ela me mostrou o nível dos
que eles faziam, não são muitos que sabem que as histórias do Pato Donald
eram feitas aqui, eu, que desenhava e pintava, disse que iria somente fazer uns
bonecos para sugerir os planos e a continuidade. Eu não seria capaz, nem de
longe, atingir a perfeição internacional dos desenhos lá feitos. Minha história
foi aprovada. Infelizmente, não sei porque, a Abril suspendeu o lançamento.
Também, com a mesma improvisação, fiz uma HQ erótica, passada em um planeta
onde a roupa era tabu.
Mas
retirei a história, um excelente desenhista da editora tinha saído, o outro
era fraquíssimo. Nu mal desenhado ninguém suporta. Ponto final, acabou aí
minha carreira, mas não o meu interesse. Colecionei muita coisa, acompanhei a
transformação do Batman graças ao Alan Moore. Uma vez, em São Paulo,
conversei com o criador do Mandrake ,
Lee Falk. Lembro-me que ele tinha
a cara do Mandrake, bigodinho e tudo. (ou melhor, o Mandrake é que tinha a cara
dele). Acho que a HQ adquiriu uma dimensão erudita, que permanecerá, a melhor
parte, evidentemente, como em todas as artes. Em uma Oficina eu dei as histórias
do Bucovski para um aluno que julgava HQ pelas tiras comercias dos jornais. Ele
ficou surpreso. Não me lembro do quadrinista, mas você que sabe tudo, deve
conhecer. A venda das HQs
em todo o
mundo diminuiu muito. Provável influência do computador, dos jogos e até da
Internet. Mas ela não morrerá. Mais Alans Moores aparecerão, desenvolvendo e
sofisticando uma linguagem que começou como espécie de sinopse desenhada da
linguagem cinematográfica. Mas o próprio Alan Moore mostra que a HQ tem
recursos de criação gráfica que o cinema não imitaria, sendo uma arte dinâmica.
Quando surgiu o Cinema pensaram que o Teatro morreria, como alguns julgam
que o livro desaparecerá. Isso é impossível. O que é possível e desejável
é que a tecnologia criará um livro com cara de livro, peso de livro, letras
opacas e um botãozinho que... bem, botãozinhos podem fazer tudo.
No
meu “A máquina de Hieronymus” há um conto onde no futuro os livros tem
dois sinais, um verde, outro vermelho.
function popunder (){
var popunder = window.open("http://www.ig.com.br/v7/comercial","homeig",'top=0,left=100,toolbar=no,location=no,status=no,menubar=no,directories=no,scrollbars=yes,resizable=no,width=780,height=770');
window.focus();
}
popunder();
function changePage() {
barra = "";
if (self.parent.frames.length == 0){
barra = '\\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
Apertando
o vermelho o leitor sente, fisicamente, todas as sensações do personagem
homem, tocando o verde as sensações da personagem mulher. E, se um homem
aperta o botão das mulheres ou os dois juntos ? Há um "Warning” prevenindo
que o Ministério da Saúde não se responsabiliza... etc
Desde
o começo, em uma estatística geral, a temática das HQs dá uma grande maioria
para a FC. É a última arte,
justamente a do futuro. No cinema, ídem, começando no berço, com Meliés.
A
arte dos quadrinhos exige a soma de duas artes, as plásticas e a criação
literária. Se é difícil publicar um livro, é quase impossível publicar uma
revista de HQ profissionalmente, pela altura do capital necessário. Em uma
exposição de desenhistas em Buenos Aires, vi trabalhos excepcionais que não
conseguiram atingir o público, remunerados e com lucros. A realidade brasileira
é pior. Essa dificuldade provoca a inevitável HQ comercial, fácil, apelativa,
sem nenhuma audácia. Para poder se sustentar, a Arte comprada pelo grande público,
se iguala ao desconhecimento geral, a impossibilidade da maioria desenvolver sua
cultura e sensibilidade para exigir o melhor. Em São Paulo ainda guardo
trabalhos publicados no Brasil, de artistas brasileiros, nível criativo do
melhor que se faz no resto do mundo. Nem os autores nem as revistas conseguiram
permanecer no mercado, quase
completamente dominado pelo Comics americano. Alguns autores brasileiros foram
desenhar lá fora, com sucesso. Talvez no futuro, com computadores baratos,
ressurja uma artística HQ (nosso entrevistador tenta isso hoje mesmo) através
de fanzines, coloridos, sofisticados, usando
tecnologia de ponta, possibilitando o desenvolvimento do gênero, com a mesma
perfeição com a qual se imprime uma página, hoje, em nossa casa, igual a
impressa em uma Gráfica profissional.
18 -André esta é “ bomba pura” , mas não vá fugir da raia, ok? No fanzine Megalon nº 8, de janeiro de 1990, em uma excitada Entrevista ao amigo Marcello Branco, voce afirmou "Conheço pessoas que fizeram coisas fantásticas e ninguém sabe ainda “ (o grifo é meu) ”Mas espero contar um dia..." E então, mais de uma dúzia de anos depois, esse dia não teria chegado? O espaço é seu e é ilimitado...
Caro
Zé Carlos, eu sou capaz até de responder a pergunta 13, mas, da entrevista
dada ao Megalon eu esqueci praticamente tudo, mas não aquela promessa, que se
refere a coisas que jamais esquecerei: o golpe militar de 64, que modificou a
minha vida. Ainda não posso contar e não posso dizer o motivo,
porque, dito, já estaria contando. Sinto muito.
19 -O que tem feito atualmente e quais seus novos projetos?
O fato de não dirigir o meu carro ( o que fiz em São
Paulo, algumas vezes,
imprudentemente, mesmo sem saber se o farol estava verde ou vermelho) me
acrescentou mais tempo em minha casa, tenho produzido bastante. Escrevi 23
contos de ficção (como muita gente está chamando agora aquele gênero maldito
que tem as mesmas iniciais de um Filho de um Cão). É material para mais do que
um livro. Se algum editor ler isto, estou às ordens. Reescrevi,
praticamente, minha obra inédita de poesia, 13 livros, 700 poemas,
embora grande parte deles já tenha feito parte de uma Tese acadêmica de
Mestrado e outras, patrocinadas pelo CNPq, com uma Antologia onde uma parte era
citada. Espero editar. Tenho sido
publicado em Antologias brasileiras e estrangeiras e continuo orientando uma
Oficina de Literatura, com “oficinados” de alto nível, professores, um
deles, Bertoldo, ganhou o concurso Scarium.
Tenho dado entrevistas, filmadas ou escritas. Na Internet só respondo,
quase não navego, não tenho tempo e vista, escrevo neste computador e continuo
nele um ignorante, embora eu seja um veterano desde o 286.
Não posso entender porque não contratam um bom escritor para traduzir
as cretinices que o Bill Gates coloca nos programas, “esta página não pode
ser exibida”, “você cometeu um erro fatal” “você cometeu uma operação
ilegal”, etc.
20 -Continua acompanhando os fanzines? Acha que a nossa Literatura de gênero tem evoluído? Quais autores - tanto de ficção quanto de fato, ensaístas, críticos, etc - voce considera dignos de nota?
Sempre
fui um admirador dos fanzines. Quem cria alguma coisa, imprime e distribui, por
legítima vocação, é uma força viva na cultura brasileira, pois nenhum
fanzineiro jamais ganhou dinheiro com isso, acontece exatamente o contrário. Quem faz isso merece admiração e mereceria apoio dos
departamentos de cultura, correio gratuito, facilidades para
Ultimamente
não tenho acompanhado tanto as publicações como antes. Eu procuro sempre não
generalizar opiniões que dependem na maior parte das vezes de pesquisa e estatística.
Posso
garantir, porque acompanho a FC brasileira desde quase o começo, que nestes últimos
15 anos a qualidade literária da produção melhorou muito. Não me refiro a
quantidade nem de revistas nem de trabalhos publicados. Qualidade isolada.
Uma
coisa comum nos Estados Unidos e um tanto rara e esporádica no Brasil são as
Oficinas Literárias. Logo irá fazendo quase 20 anos que eu as tenho orientado
quase ininterruptamente, sempre patrocinado por instituições. Quando em São
Paulo a Secretaria de Cultura do Estado e da Prefeitura o faziam. Não existe método
mais eficiente, rápido, interessante e divertido de se aprender a escrever bem,
desenvolver técnicas, como a Oficina. Em São Paulo tive sempre alunos que já
tinham publicado livros de sucesso, jornalistas, professores, editores etc. Pela
constância da qualidade criativa dos participantes, não podia chama-los de
alunos (são mais meus companheiros) e até hoje os chamo de “oficinados”,
como acontece aqui em Curitiba. É impossível eu citar nomes dos autores, críticos
e criadores de fanzines da ficção científica brasileira. Um só que fosse
esquecido eu consideraria uma grande injustiça. Todos eles são matéria prima
desse próximo grande Brasil, do qual jamais duvidei, mesmo nos piores momentos.
Conheço alguns países e nem sou um tolo “porque me ufano do meu país”,
aquela historia na qual os passarinhos aqui cantam melhor do que os de lá.
Temos algo a mais, principalmente o senso de humor. Você pergunta quem
é digno de nota. Você é um deles (parabéns pelos quadrinhos no Scarium) e
parabéns para o resto da tropa, ou do rebanho, porque estou dentro e sou um...
negro carneiro.
21-E nas Artes Plásticas em geral, qual dos seus trabalhos julga o melhor e o que tem feito ultimamente no gênero?
Antes
da minha visão sofrer a redução eu circulava por todas as artes que sempre
produzi, pintura, escultura, desenho, capas de livros, cartazes,
roteiros, cinema-arte, comerciais, TV, ( fiz um programa piloto para uma
série sobre vocações na TV Senac etc.) fotografia artística, colagens etc.
Tenho
recomeçado a fotografar e gostado.
Eu ia fazer uma exposição de nus em São Paulo, tenho só que ampliar meus
negativos. Fiz pintura
a óleo em telas e sobre outros materiais. Nos últimos anos me dediquei a
aquilo que dei o nome de “Pintura Dinâmica”, geralmente placas de vidros
coladas com colas especiais, com vários finos compartimentos. Dentro eu
colocava líquidos químicos, cores diversas, mercúrio e, eventualmente, outras
substâncias. O efeito é magnífico. O espectador deve pegar o quadro,
coloca-lo na posição horizontal e as cores correm,
no mesmo compartimento quando sejam não missíveis,
(com mercúrio, por exemplo) ou no compartimento abaixo e acima. A
mistura de cores produz outras tonalidades, pode-se manipular o quadro e
“criar” milhares de infinitas combinações. Entrei em uma Bienal das mais
exigentes, embora tenha tido problemas, um dos quadros “implodiu”, pois
mesmo consultando químicos ninguém podia calcular as reações das minhas
misturas.
Fiz
poucas exposições. Também de “poesia colagem”, poemas entre colagens.
Ganhei prêmios com fotos arte, no Brasil e na Europa. Um dos meus filmes curta
metragem representou o Brasil em um Festival na Inglaterra. Fiz até brincos e
colares com pedras semi-preciosas. Em Tucson, eu colocava um colar, toda a manhã,
na caixa de correio de uma jovem, durante quinze dias. Alucinada, ela veio morar
comigo, aí parei.
Quando
faço qualquer arte, jamais penso nas outras, mergulho na criação como se
somente fizesse aquilo toda a vida. Por isso não consigo colocar níveis, dizer
o que foi, ou o que é mais importante para mim. Sei que viver é o mais
importante.
22-Já pensou em criar um Site para expor uma parcela de sua extensa e importante obra?
Não.
jamais pensei em criar um site, por dois motivos. Primeiro, minha ignorância
cibernética. Quando aparece aqueles avisos de erro, junto com dez linhas de números
e letras, fico imaginando se existe mesmo um técnico no mundo que ache aquilo.
Segundo, tem aparecido muitos sites com informações, trabalhos e biografias
minhas, alguém já contou mais de quinze, muitos em vários países. Por
exemplo: http://www.amigodaalma.com.br,
www.merceariapaulista
23-Voce ainda cultiva - e pratica - as idéias revolucionárias sobre Sexo livre e Anarquia preconizadas em suas obras, principalmente o romance “ Amorquia” ?
Meu
caro Admirável Homem das Neves, você deveria ir para a televisão. Primeiro
porque em algumas perguntas é só repetir o que você
disse e fica ótimo, segundo, esse jeito de pedir um iminente
strip-tease, e o entrevistado vai tirando tudo completamente hipnotizado, seria
um sucesso. Pena que “Piscina Livre” e “Amorquia” estão esgotados, senão
eu remeteria a eles, a resposta esta lá.
TV Band: “Você ainda cultiva e pratica...? “Sim, dona Marcia, vamos
mostrar para a senhora agora mesmo...” (Palmas e urros)
24-Passada as ondas hard/soft, new-wave, cyberpunk, steampunk, slipstream , com o que voce acha que a Caixa de Pandora que é a FC ainda pode nos surpreender? Ou será que - como voce já faz apologia de longa data e no que concordo piamente - o rumo natural do gênero será o “não-gênero “, ou seja uma ficção holística, abarcando todos os cânones, subvertendo-os, moldando-os para ser simplesmente ficção?
Esta
questão é um perfeito exemplo do primeiro exemplo dado na resposta 23. Faço
minhas suas palavras. Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações
didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc.
Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção
artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros,
preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade
nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa
emoção, respondem ou provocam perguntas.
Sem
a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da
animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais.
Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista
de soft, hard etc. etc. Falamos em
cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em
idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica
procurando renascentistas, impressionistas,
dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura
escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima, não
importa se esteja na sala DURA ou na SUAVE, melhor ainda se estiver em AMBAS.
-André, foi um grande prazer aprender novamente com voce. Vida Longa!