ALAN MOORE     Senhor do Caos  /   Lord of Chaos
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Entrevistas  /  Interviews


   ANDRÉ CARNEIRO

                                                                                                       por José Carlos Neves

Apresentar André  Carneiro é incorrer inevitavelmente em redundâncias. No entanto, como este site tem atingido principalmente fãs e interessados de uma geração mais recente, mister se faz  esta providência. Considerado tanto pelos ditos eruditos quanto pelos críticos da Cultura Pop mais como um Poeta do que propriamente um Escritor, e muito menos de Ficção Científica, André Carneiro é  isto e muito mais: Cineasta, Fotógrafo, Artista Plástico, Prestidigitador e Hipnotizador, Publicitário, foi integrante da resistência armada, clandestino - teve uma época que se chamou Augusto -, Pesquisador...E autor de diversas obras de FC.

Esta longa bagagem, profundamente marcada também por ter sido um dos raros e felizardos participantes e co-organizador  do  famoso e pioneiro até no mundo, Simpósio de FC do Rio de Janeiro, em 1969,  asseguram-lhe inquestionavelmente o título de mais importante personalidade do gênero no Brasil.

E provando que respeita o esforço de estudiosos amadores - do que já fui testemunha quando com ele tive o prazer de estar, na Interiorcon de Santo André-SP, há mais de 10 anos, quando me presenteou com um raro exemplar de seu romance famoso "A Piscina Livre "- André prontamente atendeu o nosso pedido para este bate-papo.

1-Vamos lá, André primeiro a "ficha completa", idade, onde nasceu, cresceu e vive atualmente,estado civil, filhos e formação acadêmica.

Ficha completa é chato, fica larga, “não cai”.

Minha idade se perdeu em um incêndio no Cartório de Registros.

Minha mãe me enganava. Cada publicação ou enciclopédia me atribui uma idade diferente. Tenho a idade do meu estado de espírito, que é bom, sou casado muitas vezes, vivo atualmente em Curitiba (tive problemas de visão há três anos, não mais dirijo, vim morar ao lado do meu filho Mauricio, que toca clarineta e clarone na Sinfônica do Paraná.  O outro, Henrique, é professor de História na USP: tese de doutorado sobre drogas. Formação ? Fui convidado pela Universidade do Arizona e também para  dar cursos na França, fiz conferências em Universidades brasileiras, sem diplomas nas paredes.

2-Seus primeiros trabalhos publicados foi na década de 50, em suplementos literários sãopaulinos. Eles já tinham  tendência à  FC? Como se originou seu interesse pelo gênero?

Sim, publiquei contos e artigos  nos Suplementos Literários e até fotos de arte. Alguns suplementos, como o do Estadão, eram verdadeiras revistas, fortuna cultural  que desapareceu. Hoje, fazem pesquisa, só se importam com números e não com a qualidade ou o patrimônio da inteligência nacional, por isso não publicam  poemas e contos, mas as seções de futebol e a policial são perfeitas.  As revistas da época publicavam meus contos, “Vamos Ler”, “Carioca”. Você poderia me informar onde poderei publica-los hoje, em revistas profissionais?  

Lancei um jornal literário “TENTATIVA”,  com um belo e moderno titulo desenhado pelo hoje célebre Aldemir Martins. Eu era amigo do Oswald de Andrade (que ninguém pronuncie erradamente, O´svald, com acento na primeira sílaba). Ele apresentou o jornal, o que, certamente, contribuiu para o sucesso que teve. Entrevistei e publiquei trabalhos dos maiores escritores da época.Já existe uma tese acadêmica, patrocinada pelo CNPq,  na Universidade Federal de Rondônia, sobre a importância de TENTATIVA.  Também está sendo elaborada em Atibaia (SP), uma edição facsimilada, com uma introdução sobre a repercussão literária do jornal, pelo escritor e professor de Literatura Dr. Osvaldo Duarte.

TENTATIVA tinha correspondentes em vários estados brasileiros, Buenos Aires, Lisboa e Paris.

Estava quase esquecendo da tal ficção científica.  Acho que meu primeiro conto de FC publiquei no Suplemento do Estadão. “O começo do fim”. O jornal “O Estado de São Paulo” naquele tempo era o mais importante do país, se distanciando demais do segundo colocado. Ele somente publicava colaboração solicitada e ter o nome em suas páginas era um verdadeiro diploma. Eu estava empenhado (como estou até hoje) em escrever literatura de qualidade. Quase não percebia que a temática da maioria dos meus contos se enquadrava dentro daquela maldita  e absolutamente inadequada denominação de FICÇÃO CIENTÍFICA.  Quando a Edart publicou DIÁRIO DA NAVE PERDIDA e O HOMEM QUE ADIVINHAVA, tentamos mudar para Cienciaficção, inutilmente. Hoje, como no A MÁQUINA DE HYERÓNIMUS, não coloco nada. Ainda espero que uma Fada boa, fã do tal gênero, delete, exclua, apague de todos os dicionários, arquivos e banco de dados do planeta, aquele nome tão amaldiçoado como a palavra COMUNISMO. Quando eu afirmo que nunca houve no planeta Terra um governo Comunista, olham para mim como se eu estivesse louco. Bem, calma, meu caro Zé Carlos, não vou explicar aqui a diferença entre comunismo e socialismo.  Nem lembrar que talvez o mais importante escritor de FC do mundo, Aldous Huxley, jamais teve essas letras na capa dos seus livros.

3-Quais obras e autores que mais lhe influenciaram e porque?

Tenho medo de citar nomes.  No tempo em que fazia isso, tinha vontade de consultar o próprio Freud  para saber como tinha esquecido o mais importante ou a mais importante e, se se tratava de coisas amorosas, jamais haveria perdão. Nunca fui dogmático, por isso cito um autor de alto prestígio mundial, aquele mesmo ali de cima, o criador do ADMIRÁVEL MUNDO NOVO.

4-Em 1967 voce foi o pioneiro autor do raríssimo "Introdução ao Estudo da  Science Fiction". O que o motivou a escrever esta obra e a manutenção da nomenclatura inglesa? Por ser mais comercial, digamos assim, ou porque realmente ainda não havia sido consolidada a denominação  Ficção Científica  no país?

Jose` Sanz, Andre` e Arthur Clarke - Festival Internacional do Filme - - 1969 -Rio de Janeiro

É triste anotar, mas nos velhos tempos era menos difícil publicar uma obra erudita, um ensaio literário como “Introdução ao estudo da Science-Fiction”.  Escrevi o livro porque o preconceito, ou melhor, a imbecil confusão que se faz (não estou me referindo aos ignorantes, mas professores de Faculdades, escritores, jornalistas) a confusão que fazem, imaginando que ficção científica só pode ser uma obra secundária, mero divertimento barato, o que os americanos chamam de “space-opera” ou “sci-fi (este, no Brasil, julgam que é apenas uma sigla).

Toda essa confusão estava começando a se alastrar.  Nossa língua brasileira desenvolve imprecisões surpreendentes: fala-se vou “chegando” para dizer que esta saindo, “entrar bem” significa o contrario, e  o célebre “pois não”  que é pois sim.  As mulheres dizem hoje “estou com o saco cheio”, e qualquer seguidor de uma religião que não seja a católica é “crente” . Quando escrevi o meu ensaio resolvi colocar a expressão em inglês (não esquecer que no italiano e em outras línguas a palavra é outra).  A subserviência brasileira ao idioma inglês começava, tive essa fraqueza “pour épater les bourgeois”.

Segundo um amigo que pesquisou,  foi o primeiro ensaio (não uma coletânea de artigos) publicado sobre o assunto na América Latina. Mandei os originais para o Conselho Estadual de Cultura, de São Paulo, que o aprovou e o publicou. Posteriormente, fui convidado para participar do Conselho, (nomeado pelo Governador), onde permaneci por cinco anos.

Duas curiosidades do ensaio: Otto Maria Carpeaux, europeu de alta cultura, conhecedor de muitas línguas e um dos  mais respeitados críticos literários da época, usou algumas vezes a expressão “ficção científica” de maneira pejorativa.  Gastei algumas páginas do ensaio reproduzindo grandes elogios por ele feitos a autores internacionais de FC.  Eu concluía que ele gostava, e muito, da FC de qualidade. As provas eram irrefutáveis, nem ele nem ninguém me respondeu.  O segundo fato foi a minha séria acusação de ser o grande Monteiro Lobato um escritor racista.  Parece que ninguém o cita como um escritor de FC, talvez para escamotear o seu racismo em seu romance “O Presidente Negro”.  Ele tinha tanto prestígio (justo prestígio como escritor e defensor do nosso petróleo que os “técnicos” americanos provaram que não existia) que as minhas acusações todas provadas pelo texto, não foram nem comentadas nem respondidas, até hoje. Uma tradução do ensaio foi publicada em uma revista espanhola. Roberto Causo há alguns anos organizou uma excelente segunda edição, editada por Edgard Guimarães. Como autor tive a satisfação de nada alterar, continuo subscrevendo as idéias  defendidas no ensaio, perfeitamente atuais. Acrescentei somente 24 anotações de pé de página, lembrando a evolução da FC no cinema etc.  Harry Harrison considerava meu ensaio o melhor já publicado em toda parte.

 

 Brian Aldiss, Harry Harryson, ? e J. G. Ballard no Festival Internacional do Filme, Rio de Janeiro

5-Voce que convivia com escritores mais tradicionais - e tradicionalistas - do mainstream sofria alguma discriminação por militar e até pesquisar a Literatura até hoje considerada popularesca?

Pergunta muito interessante esta, como dizem na TV.  No começo da minha carreira, não era só eu que não percebia muito bem que estava escrevendo a “tal” ficção científica. Leitores e mesmo críticos analisavam o meu estilo, minha temática, é claro. É evidente que nunca tive heróis galáticos dando tiros com pistolas laser ou mocinhas de cintura fina e duas antenas na testa fugindo de monstros de olhos arregalados. Tenho sempre esquecido de colocar em meu currículo, mas ganhei prêmios  (Melhor Livro do Ano, Prefeitura Mun. de S.P, por exemplo) com contos de FC.

Meu romance “Piscina Livre”, também publicado na Suécia foi altamente elogiado por Carlos Drummond de Andrade e nem preciso citar mais ninguém.  Quer uma explicação ? Acho que os críticos enxergavam em primeiro lugar o poeta André Carneiro, que Sergio Milliet tinha lançado.  Liam meus contos como literatura (que são, evidentemente) e gostavam. Se alguém insinuasse que “aquilo" era FC. eles diriam: “Você esta louco, você acha que o Carneiro iria escrever essa porcaria de ficção científica ?”

Eu sou Analista, tenho estudado toda minha vida o estranho funcionamento da psique humana. Só posso dizer que é muito difícil de explicar que um trabalho de FC pode ser uma obra prima literária, assim como um romance policial como “Crime e Castigo” também é uma obra prima.  Afinal nós sabemos que os católicos também são crentes, embora a maioria não admita.  Acredite se quiser : Até hoje, minha ficção científica navega em pleno “mainstream”, é lida junto com Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa etc. etc. Vide o recente lançamento da Antologia do Conto Fantástico Brasileiro  da Editora Carioca Casa da Palavra. Parece que foi o Braulio Tavares quem fez a seleção e ate agora não vi o livro.

6 - Sem nenhuma tradição ou  cultura científica, muito menos cinematográfica ou literária no gênero,  como o Brasil foi sediar o- às vezes penso que aquilo aconteceu mesmo foi num universo paralelo - Simpósio Internacional de FC, ocorrido no Rio em 1969, com a presença de sumidades- e até dos que viram a ser, como o jovem Harlan Ellison ? Qual foi e como foi o seu envolvimento no evento?

Achei bem colocado você dizer que o Simpósio Internacional “aconteceu em um universo paralelo”.  

Damon Knight, Karen e Poul Anderson                    Em crônicas e entrevistas já contei varias

 histórias lá ocorridas, mas o assunto é inesgotável. É bom lembrar que o Simpósio era realizado dentro do maior, mais rico e badalado Festival Internacional de Cinema já acontecido no Brasil, até hoje.  LocaL: Copacabana Palace, onde eu tinha uma suite, carro com motorista e um caderno com tiquets que me permitiam almoçar no “Garfo de Ouro” ao lado dos cineastas e artistas internacionais mais importantes do mundo.

Como foi possível o Simpósio (custou milhões de dólares) e eu como seu Presidente ? Um homem inteligente, de prestígio e personalidade chamado José Sanz explica tudo.

Pode-se afirmar que ele era quase um mito e eu não o conhecia pessoalmente. Apaixonado pela literatura de FC, não era escritor, mas traduziu alguns livros e dirigiu uma coleção para uma editora. Dizia- se amigo da Marlene Dietrich, de Orson Welles e outras figuras internacionais desse nível.  A irreverência carioca fazia gozações, mas a realidade era essa mesma. Sanz convenceu o Governo da importância do Simpósio e foi seu organizador. Porque convidou para presidente André Carneiro, poeta e escritor de FC, que tinha uma loja de material de construção na pequena cidade de Atibaia, perto de São Paulo ? Essa pergunta lhe foi insinuada em uma entrevista que deu para a importante revista “Visão”.  Não esquecer que Antônio Olinto, do Itamaraty, Rachel de Queiroz, Fausto Cunha, Dinah Silveira de Queiroz, Origenes Lessa etc., moravam no Rio e escreviam FC.  José Sanz respondeu que AC. era o mais importante escritor de FC brasileiro. Na revista Somnium eu já contei vários fascinantes episódios ocorridos no Copacabana. Costumo até me vangloriar (espero que me perdoem), de ter assistido “2001” ao lado de Arthur Clarke e “Metrópolis” ao lado de Fritz Lang.

Mas, francamente, por fascinantes que sejam, não quero narrar mais histórias paralelas do Simpósio, parto do princípio de que estamos aqui falando de literatura.

7 -Algum fato pitoresco?

Fatos pitorescos ?  Um hotel como o Copacabana, palco de um Festival de Cinema Internacional, com belas artistas desfilando nas piscinas o dia inteiro, só acontecia fatos pitorescos. E o primeiro time da FC mundial (na área da Literatura e do cinema), discutindo problemas...  não, agora não, um dia ainda contarei tudo, ou quase tudo. Embora  feito de seres humanos como nós, o primeiro time reunido, autores que o mundo todo admirava, parecia um sonho ou aquele mundo paralelo dentro de uma FC real.

 7  -Depois disto, voce conseguiu tirar proveito dos contatos internacionais ali mantidos, culminando com a publicação  seu conto "A Escuridão”em uma antologia anglo-americana dos “Melhores do Ano na FC de 1976”, correto? Qual foi o  feedback  e voce acha que o fato justificou voce a vir ser depois um escritor de FC mais conhecido no Exterior que no Brasil?

É curioso, não foi através de nenhum daqueles escritores que dei o salto internacional, como já comentou Fausto Cunha.  Brasileiros esquecem que escritores americanos etc. não negociam com editores. Existe o célebre Agente, que se encarrega disso. Pedir a um colega estrangeiro que “entregue” um original para um editor, (que terá de ser em um belo inglês) é fato fora de propósito. 

Forrest G. Ackerman              Quem me introduziu no estrangeiro foi Leo L. Barrow,

 professor de Literatura na Universidade do Arizona, em Tucson. Essa história já contei várias vezes, vou resumir. Eu o conheci em Brasilia, em um Congresso de Escritores. Leu meus contos, gostou e traduziu  DARKNESS, o qual foi comprado pela Putnam para a Antologia dos melhores contos mundiais de 1972. A edição de capa dura destaca meu nome na capa como “mestre internacional”. Logo em seguida o conto foi comprado por dois professores PHD de uma Universidade, que incluíram o conto em uma Antologia universitária onde havia ganhadores do Prêmio Nobel. Darkness foi publicado em pelo menos dez línguas e até feito  um roteiro cinematográfico, que deve andar nas gavetas de Hollywood.

8-Voce integrou um Grupo de Estudos sobre Drogas na Universidade do Arizona. Quando foi isto e porque e como foi convidado? Chegou a conhecer  trabalhos similares , muito importante e elucidativos do quase-guru Timoty Leary? E do grande apologista do uso do alucinógeno psilocibim - DHT - Terence McKenna?  9 - Se conhece seus trabalhos, o que acha das teorias de ambos - Mckenna inclusive - veja Entrevista neste site - previu um acontecimento apocalíptico para 2012, quando seria "o fim do tempo" como  o concebemos.E tem outras idéias muito bizarras, mas não indignas de atenção –vários de seus livros foram publicados no Brasil.

Não gosto de falar de DROGAS no Brasil. A ditadura militar impediu um conhecimento mais científico da população que fala em “drogado” e quando eu pergunto “Qual droga ?” olham admirados, exatamente como falam em CRENTE e se eu pergunto, “de qual religião ?” se espantam, crente é crente e drogado é drogado, mas nem ouse falar em alcool ou nicotina, produtos que o governo acha que pode ser consumido, embora matem dez vezes mais do que os outros.  Nos Estados  Unidos e na Europa é diferente, a cannabis não tem essa conotação de coisa ordinária de bandido, como aqui. Minhas experiências no Arizona não posso detalhar por contrato, é função dos cientistas.  As pesquisas mundiais com o uso de alucinógenos e LSD como medicação até para psicóticos, tem sérios seguidores como Stanislaw Grof, mais do que com Leary.  Sobre o tempo, com Einstein provando que pode ser “esticado”, já é muito perturbador. Fiz poemas tentando anular o tempo. Tenho tido dificuldades com espelhos, certamente velhos espelhos ignorantes que só sabem proteger vampiros.  Hawking trata dos célebres paradoxos de se voltar no tempo e matar o próprio avô. Os caretas que temem a ciência e por extensão a nossa ficção científica, não se dão conta de que o maior cientista vivo do mundo cita a FC e trata daquilo que nós “inventamos”. E  não percebem que o romance tradicional e clássico também é uma invenção, uma mentira que o leitor sabe que é mentira, mas acredit

a e se emociona com ela.

Na Holanda e na Inglaterra, mesmo na Suíça e Espanha, a legislação sobre drogas começa a se adaptar à realidade do que a ciência determina e não o mito popular.  Como verdades sobre as chamadas drogas são tão desconhecidas como a nossa ficção científica, temo entrar no assunto e ficar muito superficial.

 

  10 -Ainda nesta direção metafísica, qual  é a   sua concepção do Tempo?  11 - Considera-o a Quarta Dimensão do Espaço, como teorizou Einstein?

Minha concepção do tempo não é melhor nem mais original do que a de todos que estudaram um pouquinho. Como Analista sei das minhas limitações que intelectualmente luto para desorganizar.  Podemos imaginar um indivíduo antes e depois de Galileu ?  A Terra era o centro do 

Harlan Ellison                       John Brunner                 universo. Tudo existia em função do Homem. Já este “homem” tirava a mulher de uma participação “inteligente”. Mulher servia para procriar, talvez nem tivesse alma, como os negros escravos (houve um tempo em que Roma teve de “devolver” a alma aos africanos).  Deus estava perto, acompanhava cada Homem, acendia lusinhas no céu para enfeitar a sua noite.  Éramos importantes, os Reis da Criação. De repente a Terra virou uma coisinha insignificante, as lusinhas do céu se transformaram em bilhões de estrelas, trilhões de galáxias,  e as super-novas, os buracos negros, as cordas cósmicas, os buracos de minhoca... vou parar por aqui, somos menores do que o mais insignificante grão de areia, juntando todas as praias do mundo. Antes Reis da Criação, nos transformamos em insignificâncias.  Já se passaram quinhentos anos, mas o ser humano ainda não teve a capacidade de absorver essa realidade.  As religiões cristãs ainda pregam o mesmo que se pregava quando a Terra era chata, sustentada por elefantes. Caro José Carlos, esse  TEMPO que eu aprendi como um maldito envelhecedor, dizem que não existe. Só espero que a Máquina do Tempo seja inventada logo, quero escolher certos dias dos calendários já jogados no lixo e fazer muito mais bem feito o que fiz sem prática nenhuma, quero visitar meu avô, levar umas vitaminas para reforçar minha herança genética.

12 -Como você imagina um ser ou objeto (como o Tesserato) da Quarta Dimensão?

Coisas que acontecem no meu quarto tenho descrito, projetado, transformado em verso,  projeto, foto, memória e são maravilhosos, inexplicáveis, herméticos e intransferíveis.   Isso, no meu quarto. E na Quarta...dimensão ? Sendo Quarta, deve ser feminina, portanto uma dimensão para ser vivida e amada, jamais explicada.  Já vivi na Quarta dimensão até no meu Quarto.

Sonhando. Sonhos são incontáveis. É só.

13-O que acha da imberbe Teoria do Caos, com seus Fractais e o popular "efeito borboleta"?

Em San Diego, nos Estados Unidos, passeando uma vez com meu tradutor Leo Barrow, eu lhe perguntei porque os americanos “pulavam” o 13* andar nos edifícios, na numeração das casas etc.  Ele me olhou espantado, riu e fez caçoada: “vocês brasileiros, inventam cada uma !” Eu sabia disso desde criança, já ouvira histórias a respeito, mas afinal, quem sabe de um país é o nativo, não o turista.  Fomos para um hotel que tinha um comprido terraço unindo os apartamentos. Eu contemplava os postes de madeira, eu pensava que na orgulhosa “América” os postes fossem de cimento como na minha cidadezinha brasileira. Quase automaticamente fui contando o número dos apartamentos, 9, 10, depois 11, depois 12, depois 14.  Dei um salto para trás, como acontece nos filmes.  Quero dizer, a “ficha” custou um pouquinho para cair. Com um sorriso,  lá fui buscar o Leo.  Pedi que fosse contando os apartamentos... “E então Leo, onde está o apartamento 13 ?”

Ele ficou besta, sacudiu a cabeça, disse “ Mas que coisa idiota, eu não sabia dessa história de pular o 13”. E, mais uma vez a América se curvou ante o Brasil.

O José Carlos Neves, terrível parente próximo “daquele Das Neves” me colocou esta armadilha de quem sabe que ninguém escapa do CAOS.  Eu percebi a intenção, tirando o “R” e o “L” do meio. Como milhões de americanos idiotas, eu pulo o 13.

14-Voce estudou e praticou a Hipnose.  A prática pode ser considerada  uma ciência?Funciona mesmo, nos níveis que a imprensa e programas sensacionalistas e até a  ficção tenta fazer-nos crer? Algum fato pitoresco a ela relacionado?

Eu estudei (felizmente) e sempre pratiquei a Hipnose, como auxiliar importante na análise psicológica. É uma ciência, evidentemente. Em muitos casos é possível substituir produtos químicos (muitos deles são drogas que provocam dependência física) pela sugerência hipnótica. Escrevi dois livros a respeito, há muito esgotados. Carol Sonnenreich, que dispensa apresentação, para quem estudou psiquiatria, afirmou ser o melhor já publicado no Brasil. O conhecido psiquiatra, escritor e jornalista Paulo Urban, que escreve na “Planeta”  concorda com essa opinião. Tentei também pesquisas experimentais, como “parto com dia previsto” etc.    Agora, se você quer uma boa comparação para saber o que o grande publico e parte da mídia pensa a respeito, faça uma pesquisa: Pergunte a 100 pessoas diversas o que é, e o que acham da chamada “ficção científica”. Some cuidadosamente a coleção de besteiras, impropriedades e tolices e faça a mesma pesquisa mudando FC para HIPNOSE.

Eu  fiz a experiência. Há um surpreendente empate. Descobri que, nas duzentas respostas, havia duas sobre FC e duas sobre Hipnose que, não sendo totalmente corretas, eram razoáveis. O resto joguei tudo fora.  Para não ficar inteiramente desesperado, perguntei ao meus duzentos selecionados quando, onde e de qual maneira Pelé tinha marcado seu milésimo gol.  Noventa e oito por cento de acerto. Pensei até como proteger os 4 analfabetos que não sabiam, estavam quase sendo linchados pelos outros.   

Não posso falar de HIPNOSE. É assunto fascinante, paradoxal, mas muito longo, tenho de cortar já. Mas não quero faze-lo sem o ligar com a ficção cientifica. Escrevi um conto “O homem que hipnotizava”, um personagem se auto-hipnotizava, a esposa feia ficou linda etc. etc. O cineasta Roberto Santos adorava esse conto. Assinamos um contrato, sua intenção era fazer um filme (em plena ditadura) o homem que hipnoticamente se iludia era o brasileiro iludido pelo regime. Infelizmente Roberto Santos morreu sem realiza-lo. Ziembinsky, o genial dramaturgo que modernizou nosso teatro, comprou o conto para transformá-lo em “caso especial” na Globo, o que foi feito e anunciado, mas não chegou a ser transmitido  por motivos de censura militar.

Cheguei a ver um pedaço do “caso” em um programa didático da Fundação Roberto Marinho, ilustrando estilos literários.

Sobre Hipnose usada na conquista das mulheres leiam esta obra prima do grande e esquecido escritor brasileiro Medeiros e Albuquerque “Quando eu era vivo”. Durante a Primeira Guerra Mundial ele era um ilustre membro da Academia Brasileira de Letras, e Adido Cultural na Embaixada Brasileira em Paris. Grande conquistador, em uma cidade cheia de mulheres lindas e sozinhas, pois os maridos estavam na frente de batalha, grande parte morrendo, Medeiros andava de metrô e jogava cerca de dez cartões de visita com seu endereço no colo das mulheres bonitas. Ele conta que recebia um ou dois telefonemas em resposta. Notem, isto não é ficção,  faz parte da autobiografia do escritor. Com as jovens conquistadas Medeiros usava a Hipnose para... é melhor lerem o livro. Ele chegava ao cúmulo de usar o fardão da Academia Brasileira de Letras, e era tratado como Almirante, com honras militares. Em seu testamento ele exigiu que o livro fosse publicado 20 anos depois de sua morte, o que foi feito.

15 -E a Prestidigitação,  que o levou a se interessar e estudar o assunto? Pergunto porque sou fã  - e pesquisador até, dos feitos e da vida de Houdini e seus seguidores, como o famoso artista James Steranko e o próprio “mágico de TV”, David Blane.O que é o  Kumberlandismo?

Eu me lembro, fiz prestidigitação naquele primeiro grupo de ficção cientifica dirigido por Jerónymo Monteiro. Fiquei muito decepcionado. A maioria enganada pelos meus rápidos dedos, (naquele tempo), em vez de simplesmente aplaudir, ficavam irritados, queriam examinar minhas mangas ou pediam para repetir a mágica, o que é um absurdo. Acho que interrompi minha carreira naquela ocasião. Aprendi mágica teatral e prestidigitação obrigatoriamente, não se pode estudar Parapsicologia sem  dominar os truques com os quais os vigaristas, tipo Thomas Green, enganam até gente sabida, mas inexperiente nos amplos recursos que  a Magia possui, alguns raros até jogando com uma paranormalidade eventual, que surpreende o próprio mágico.

 Já contei em uma crônica, vinguei-me divertidamente  da displicência e da ironia do Jerónymo com minhas proezas. Em uma das fugas pelo golpe de 64, parei um dia em Mongaguá. Me aproximei da casa praiana do Jerónymo sem meu bigode, com nome novo e com andar diverso. Disfarces não são fáceis. Há trinta metros de distância gritaram: “lá vem o André sem bigode”.

Jerónymo já tinha sido preso e temia que se repetisse. Ele teve que sair. Só, em seu escritório, durante o dia, vi um baralho. Eu era perito e o marquei inteiramente, para passar o tempo. Um ano depois, em nova visita, no meio de outras pessoas, Jerónymo caçoava da minha Parapsicologia, afirmava que eu era paranormal e capaz de milagres. Havia duas jovens senhoras muito interessadas. Eu desmentia, mas acabei perdendo a paciência. Perguntei se havia um baralho. Apareceu o “meu” baralho. Fiz três ou quatro simples “adivinhações”, Jerónymo rindo, exigindo mais. Esquentei a mágica, eu conhecia todas as cartas pelas costas. Jerónymo apagou o sorriso, ficou impressionado, queria me revistar, segurava meu pulso quando embaralhava. Disse a ele que eu não tocaria mais no baralho, ele manobraria as cartas. Na última mágica, por coincidência, a carta escolhida ficou em cima do maço. Pedi que colocassem no canto da sala e cobrissem com um  chapéu. Fiz os gestos e concentrações de costume, solicitei uma criança e disse a ela pra tirar a carta escolhida. A criança naturalmente pegou a primeira carta. Uma das moças queria que eu fosse à casa dela curar a mãe doente, Jeronymo não deu nenhum riso irônico.

Tive uma experiência fantástica com um dos maiores mágicos do mundo, Cantarelli. Cine Paramount em São Paulo, repleto. Ele fez um sério discurso sobre transmissão de pensamento e solicitou voluntários. Eu e mais uns dez subimos no palco. É bom notar que eu ainda nada sabia de mágica e Kunberlandismo. Cantarelli solicitou, apontando para cada um de nós, que o publico “escolhesse” quem parecia mais capaz de receber pensamentos. Eu fiz a cara mais séria do mundo e fui o vencedor, com mais dois.  Fui o primeiro na demonstração. Coloquei uma venda no rosto do mágico. Ele me pediu que escolhesse, na platéia, uma determinada pessoa, minha amiga ou não. Imaginando que alguém poderia ter me observado com um amigo, escolhi, mentalmente, alguém que eu desconhecia, na primeira fila. Cantarelli colocou-se na minha frente, andando para trás e lá descemos no corredor da platéia. Ele ultrapassou o meu escolhido e foi até o fim, eu atrás. Ele não me tocava ( era o único no mundo que fazia essa mágica sem toques).  Lá no fim do teatro-cinema da Brigadeiro Luiz Antonio, entrou por uma fila, tocou no ombro de alguém e disse “é este aqui?” Eu disse que não, muito chateado pois ele me pedia concentração o tempo todo, eu tinha sido “eleito” por mais de 500 pessoas e não estava sendo capaz de transmitir pensamento algum. Cantarelli, sempre meio de costas entrou em outra fila no meio do cinema e eu tive de dizer “não senhor”.  Eu já estava esperando uma vaia. Eis senão quando, Cantarelli chega na primeira fila, depois de andar para lá e para cá, eu atrás. Pegou no ombro do meu escolhido, eu disse alto “é esse mesmo”.  Aplausos gerais.

Voltei para casa e fiquei pensando.  Muitos no teatro imaginariam que eu era alguém “pago e combinado’. Eu sabia que não. Como o raio do mágico descobrira a pessoa ?

Isso é ´Kumberlandismo e que me desculpem os mágicos, existe uma ética, um pacto de honra de não se contar os segredos.

Padre Quevedo costuma fazer esta mágica e até enganar que é mesmo transmissão de pensamento. Mas ele mantém a palma da mão em cima da palma da mão estendida do “voluntário transmissor”. Kunberland, um mágico inglês descobriu a mágica psicológica, manobrar as palavras, o discurso e os gestos de modo que o voluntário “ajude” o mágico, coopere com ele, sem perceber. Se você fizer de modo que o voluntário sinta-se orgulhoso de ter sido “escolhido” como paranormal e se você colocar sua palma acima da palma dele, vai perceber nitidamente que ele o “arrastará” para onde estiver um objeto escondido por ele ou uma pessoa escolhida, como foi o meu caso. Mas Cantarelli não me tocou, como ele fez, vocês perguntarão. Era o único no mundo, deve ter treinado com milhares de pessoas, ele interpretava a reação dos meus pés, qualquer um que ponha uma venda nos olhos sabe que se pode ainda ver quase dois metros no chão. O inconsciente manda no consciente, pegue um pêndulo, faça um circulo no chão e o pêndulo andará em circulo. Se traçar uma linha reta o pêndulo a seguirá. Os “enganos” do Cantarelli eram propositais, serviam para incentivar o meu “auxílio”.   Antes do meu acidente visual, que me faz enxergar pouco e desfocado, vi o célebre David Coperfield. Achei que repetia todas as clássicas e conhecidas mágicas, porém altamente melhoradas com grande sofisticação. As suas “levitações” eram perfeitas.

Eu tenho um conto infantil-juvenil onde exploro o mito do grande Houdini.  Me ocorreu agora uma idéia para um conto de FC onde todas as mágicas “falsas” fossem verdadeiras.

         Poul Anderson, George Pal, Harry harrison,  Forrest Ackerman e Karen Anderson

16-Voce sabe que neste site, tudo praticamente gira em torno do cultuado autor e roteirista ingles Alan Moore. Que ele foi o criador da obra  From Hell , para os Quadrinhos, depois desperdiçada  por Hollywood. E que ele,” para vencer a crise existencial dos 40 anos”, resolveu se tornar um mago. Estudou muito Aleister Crowley, Austin Osman Spare, participou de experiências e acontecimentos no mínimo  “fora-do-script”, como ele gosta de descreve-los. Voce acredita na Magia, na Kabala e outros desdobramentos, ou tenta também - como o James Randi tupiniquim, Padre Oscar Quevedo - "explicar tudo à luz da Parapsicologia" ?

Eu, Bruno Fontana e Paulo Urban fizemos pesquisas “ganzfeld”, sofisticada e moderna técnica que substituiu as célebres cartas Zenner, exigindo equipamento eletrônico. Eu consegui os melhores resultados, aliás tenho “previsto” telefonemas de pessoas, fenômeno bastante conhecido e que as vezes espantam as pessoas, pois ocorre sem premeditação.  As experiências citadas fizemos no Instituto do Padre Quevedo, por gentileza dele, sem comprometimento com suas idéias. Espíritas e católicos tem religioso impedimento para uma científica Parapsicologia. Os primeiros pela dificuldade em conciliar um fenômeno paranormal com a crença nos espíritos. Os segundos acreditam em milagres, o que torna impossível distingui-los de um fenômeno paranormal. Tenho formação cientifica, mas repudio um exagerado formalismo da ciência acadêmica. Nem a Psicanálise nem a Parapsicologia ou a tradicional Psicologia ainda não são admitidas como matérias científicas. Aceito a prudência mas é ridículo um pretenso cientista não querer nem pesquisar algo que escape dos seus paradigmas. O engraçado é que, desde a física quântica, ou mesmo, desde Einstein,  a ciência começa a lidar com  o “princípio da incerteza”,  as cósmicas teorias praticamente aceitas pelos melhores cientistas do mundo como Stefen Hawking, que são mais fantásticas e perturbadoras ou tanto quanto às invenções mais arrojadas da ficção cientifica. Eu aprendi muito na vida com os ignorantes. Um dia, em minha loja de material de construção, entrou, no principio da Segunda Guerra, um caipira bem caipira, de Piracaia, com um embrulho sangrento. Para ser gentil, perguntei o que era, ele disse: “é figo”, ele queria dizer que era fígado cru. Perguntei para que servia enquanto meu empregado melhorava o embrulho, ele disse que era “um porrete para os óio” . Achei estranho, perguntei o que havia com os olhos dele e como iria usar o fígado cru. Ele me disse que comia o “figo” cru porque ele “não enxergava de noite”.  Ele comprou algo, foi embora e eu entrei para minha casa rindo da fantástica ignorância do caipira, Ironizei bastante seu defeito de “não enxergar de noite” o que me parecia óbvio, se não houvesse luar. Dois anos depois, em manchete, eu li a noticia: Cientistas ingleses acabam de descobrir uma nova doença, a “cegueira noturna”, analisando o comportamento de pilotos de aviões de bombardeio ingleses. Essa deficiência, causada pela falta de vitamina “A” pode ser corrigida facilmente pela ingestão de fígado cru.

Eu fiquei estarrecido. O esperto intelectual que se divertia com as bobagens supersticiosas do caipira de Piracaia, tinha sido um pretensioso idiota.  Muitos anos depois escrevi um artigo me penitenciando da minha incompreensão e superficialidade. Eu sequer anotara o nome daquele homem, nem lhe pedira mais informações. Eu terminei meu artigo afirmando: Cientistas pensam que foram pesquisadores ingleses que descobriram a “cegueira noturna”. Não foram eles, foi um caipira de Piracaia.  Cientistas ingleses pensam que foram eles que descobriram a cura para a cegueira noturna. Não foram eles, foi o caipira de Piracaia.

Acredito na Ciência e a sigo. Mas tenho o maior respeito para qualquer informação marginal. A ciência considerava absurda a pretensão da Alquimia, entretanto depois da física quântica o absurdo é possível.  Nunca me esqueço de um grosso volume, escrito por um Padre católico, corajoso evangelizador  no meio da selva de Mato Grosso no começo do século passado. Estava preocupado com seu companheiro também padre, que fora de barco para a cidade próxima, um mês de viagem e já deveria ter voltado.  Em último recurso, perguntou ao Pajé da tribo o que teria acontecido. O Padre conta em seu livro minuciosamente uma série de danças, cantorias, queimas de determinadas ervas, operações que atravessaram a noite. Dava para sentir no texto uma leve ironia. O Pajé afirmou que o padre voltaria na Primeira Lua e que tinha ferido a perna. Depois dessa frase o Padre simplesmente escreveu: Na primeira mudança da lua voltou meu companheiro que tinha sofrido um pequeno acidente na perna. E nada mais sobre o assunto. O Padre desprezara os primitivos ritos feitos pelo Pajé, sem admitir que, com eles, conseguira uma resposta correta. Cientistas são como Pajés, só que usam lentes, satélites, computadores e muita imaginação. Realmente, eles descobrem uma “cegueira noturna” e sua cura. O que eu gostaria de saber e desprezei a oportunidade era como o caipira conseguira fazer isso antes deles.

17 -Conhece alguma coisa dos Quadrinhos de Alan Moore? O que e quais são suas considerações a respeito?

Quadrinhos sempre envolveram a minha vida. Bem menino, no Colégio Arquidiocesano, em São Paulo, ao lado da Estação da Luz,  de manhã cedo, pela janela entreaberta do dormitório coletivo dos alunos internos, comprei o primeiro numero do “Suplemento Juvenil”, Flash Gordon, Mandrake, Alex Raymond...

Já escritor, em um Congresso de Escritores em S.Paulo, fui relator de uma tese sobre      Histórias em Quadrinhos. Eu solicitei a tarefa, eles nem queriam tomar conhecimento, quadrinhos era bobagem, coisa de crianças etc, embora senhores respeitáveis comprassem para os filhos, lendo primeiro com muita atenção. Eu tinha acabado de ler a célebre tese do Umberto Ecco, que ninguém conhecia e ficaram espantados. Graças ao meu relatório até votaram pela aprovação e publicação do trabalho que iam jogar fora.

Ruth Rocha me convidou uma vez para fazer uma HQ de ficção científica para uma revista que a Abril ia lançar. Eu a fiz e ela me perguntou se eu não faria os desenhos, pelo menos o primeiro tratamento. Quando ela me mostrou o nível dos que eles faziam, não são muitos que sabem que as histórias do Pato Donald eram feitas aqui, eu, que desenhava e pintava, disse que iria somente fazer uns bonecos para sugerir os planos e a continuidade. Eu não seria capaz, nem de longe, atingir a perfeição internacional dos desenhos lá feitos. Minha história foi aprovada. Infelizmente, não sei porque, a Abril suspendeu o lançamento. Também, com a mesma improvisação, fiz uma HQ erótica, passada em um planeta onde a roupa era tabu.

Mas retirei a história, um excelente desenhista da editora tinha saído, o outro era fraquíssimo. Nu mal desenhado ninguém suporta. Ponto final, acabou aí minha carreira, mas não o meu interesse. Colecionei muita coisa, acompanhei a transformação do Batman graças ao Alan Moore. Uma vez, em São Paulo, conversei com o criador do Mandrake , Lee Falk. Lembro-me que ele tinha a cara do Mandrake, bigodinho e tudo. (ou melhor, o Mandrake é que tinha a cara dele). Acho que a HQ adquiriu uma dimensão erudita, que permanecerá, a melhor parte, evidentemente, como em todas as artes. Em uma Oficina eu dei as histórias do Bucovski para um aluno que julgava HQ pelas tiras comercias dos jornais. Ele ficou surpreso. Não me lembro do quadrinista, mas você que sabe tudo, deve conhecer.  A venda das HQs em todo o mundo diminuiu muito. Provável influência do computador, dos jogos e até da Internet. Mas ela não morrerá. Mais Alans Moores aparecerão, desenvolvendo e sofisticando uma linguagem que começou como espécie de sinopse desenhada da linguagem cinematográfica. Mas o próprio Alan Moore mostra que a HQ tem recursos de criação gráfica que o cinema não imitaria, sendo uma arte dinâmica.  Quando surgiu o Cinema pensaram que o Teatro morreria, como alguns julgam que o livro desaparecerá. Isso é impossível. O que é possível e desejável é que a tecnologia criará um livro com cara de livro, peso de livro, letras opacas e um botãozinho que... bem, botãozinhos podem fazer tudo.

No meu “A máquina de Hieronymus” há um conto onde no futuro os livros tem dois sinais, um verde, outro vermelho. function popunder (){ var popunder = window.open("http://www.ig.com.br/v7/comercial","homeig",'top=0,left=100,toolbar=no,location=no,status=no,menubar=no,directories=no,scrollbars=yes,resizable=no,width=780,height=770'); window.focus(); } popunder(); function changePage() { barra = ""; if (self.parent.frames.length == 0){ barra = '\

mso-bidi-font-size: 10.0pt">

Apertando o vermelho o leitor sente, fisicamente, todas as sensações do personagem homem, tocando o verde as sensações da personagem mulher. E, se um homem aperta o botão das mulheres ou os dois juntos ? Há um "Warning” prevenindo que o Ministério da Saúde não se responsabiliza... etc

Desde o começo, em uma estatística geral, a temática das HQs dá uma grande maioria para a FC.  É a última arte, justamente a do futuro. No cinema, ídem, começando no berço, com Meliés.

A arte dos quadrinhos exige a soma de duas artes, as plásticas e a criação literária. Se é difícil publicar um livro, é quase impossível publicar uma revista de HQ profissionalmente, pela altura do capital necessário. Em uma exposição de desenhistas em Buenos Aires, vi trabalhos excepcionais que não conseguiram atingir o público, remunerados e com lucros. A realidade brasileira é pior. Essa dificuldade provoca a inevitável HQ comercial, fácil, apelativa, sem nenhuma audácia. Para poder se sustentar, a Arte comprada pelo grande público, se iguala ao desconhecimento geral, a impossibilidade da maioria desenvolver sua cultura e sensibilidade para exigir o melhor. Em São Paulo ainda guardo trabalhos publicados no Brasil, de artistas brasileiros, nível criativo do melhor que se faz no resto do mundo. Nem os autores nem as revistas conseguiram permanecer no mercado,  quase completamente dominado pelo Comics americano. Alguns autores brasileiros foram desenhar lá fora, com sucesso. Talvez no futuro, com computadores baratos, ressurja uma artística HQ (nosso entrevistador tenta isso hoje mesmo) através de fanzines, coloridos, sofisticados,  usando tecnologia de ponta, possibilitando o desenvolvimento do gênero, com a mesma perfeição com a qual se imprime uma página, hoje, em nossa casa, igual a impressa em uma Gráfica profissional.

18 -André  esta é “ bomba pura” , mas não vá  fugir da raia, ok? No fanzine Megalon nº 8, de janeiro de 1990, em uma excitada Entrevista ao amigo Marcello Branco, voce afirmou "Conheço  pessoas que fizeram coisas fantásticas e ninguém sabe ainda “ (o grifo é meu) ”Mas espero contar um dia..." E então, mais de uma dúzia de anos depois, esse dia não  teria chegado? O espaço é seu e é ilimitado...

Caro Zé Carlos, eu sou capaz até de responder a pergunta 13, mas, da entrevista dada ao Megalon eu esqueci praticamente tudo, mas não aquela promessa, que se refere a coisas que jamais esquecerei: o golpe militar de 64, que modificou a minha vida. Ainda não posso contar e não posso dizer o motivo,  porque, dito, já estaria contando. Sinto muito.

19 -O que tem feito atualmente e quais seus novos projetos?

O fato de não dirigir o meu carro ( o que fiz em São Paulo,  algumas vezes, imprudentemente, mesmo sem saber se o farol estava verde ou vermelho) me acrescentou mais tempo em minha casa, tenho produzido bastante. Escrevi 23 contos de ficção (como muita gente está chamando agora aquele gênero maldito que tem as mesmas iniciais de um Filho de um Cão). É material para mais do que um livro. Se algum editor ler isto, estou às ordens. Reescrevi,  praticamente, minha obra inédita de poesia, 13 livros, 700 poemas, embora grande parte deles já tenha feito parte de uma Tese acadêmica de Mestrado e outras, patrocinadas pelo CNPq, com uma Antologia onde uma parte era citada. Espero editar.  Tenho sido publicado em Antologias brasileiras e estrangeiras e continuo orientando uma Oficina de Literatura, com “oficinados” de alto nível, professores, um deles, Bertoldo, ganhou o concurso Scarium.  Tenho dado entrevistas, filmadas ou escritas. Na Internet só respondo, quase não navego, não tenho tempo e vista, escrevo neste computador e continuo nele um ignorante, embora eu seja um veterano desde o 286.  Não posso entender porque não contratam um bom escritor para traduzir as cretinices que o Bill Gates coloca nos programas, “esta página não pode ser exibida”, “você cometeu um erro fatal” “você cometeu uma operação ilegal”, etc.

20 -Continua acompanhando os fanzines? Acha que a nossa Literatura de gênero tem evoluído? Quais autores - tanto de ficção quanto de fato, ensaístas, críticos, etc -  voce considera dignos de nota?

Sempre fui um admirador dos fanzines. Quem cria alguma coisa, imprime e distribui, por legítima vocação, é uma força viva na cultura brasileira, pois nenhum fanzineiro jamais ganhou dinheiro com isso, acontece exatamente o contrário.  Quem faz isso merece admiração e mereceria apoio dos departamentos de cultura, correio gratuito, facilidades para difundir o seu trabalho. Porem o Brasil tem sido até agora um país corrupto, preconceituoso, injusto em todos os setores. Um ex-operário na Presidência é uma grande esperança, a longo prazo. Fiquemos todos atentos.

Ultimamente não tenho acompanhado tanto as publicações como antes. Eu procuro sempre não generalizar opiniões que dependem na maior parte das vezes de pesquisa e estatística.

Posso garantir, porque acompanho a FC brasileira desde quase o começo, que nestes últimos 15 anos a qualidade literária da produção melhorou muito. Não me refiro a quantidade nem de revistas nem de trabalhos publicados. Qualidade isolada.

Uma coisa comum nos Estados Unidos e um tanto rara e esporádica no Brasil são as Oficinas Literárias. Logo irá fazendo quase 20 anos que eu as tenho orientado quase ininterruptamente, sempre patrocinado por instituições. Quando em São Paulo a Secretaria de Cultura do Estado e da Prefeitura o faziam. Não existe método mais eficiente, rápido, interessante e divertido de se aprender a escrever bem, desenvolver técnicas, como a Oficina. Em São Paulo tive sempre alunos que já tinham publicado livros de sucesso, jornalistas, professores, editores etc. Pela constância da qualidade criativa dos participantes, não podia chama-los de alunos (são mais meus companheiros) e até hoje os chamo de “oficinados”, como acontece aqui em Curitiba. É impossível eu citar nomes dos autores, críticos e criadores de fanzines da ficção científica brasileira. Um só que fosse esquecido eu consideraria uma grande injustiça. Todos eles são matéria prima desse próximo grande Brasil, do qual jamais duvidei, mesmo nos piores momentos. Conheço alguns países e nem sou um tolo “porque me ufano do meu país”, aquela historia na qual os passarinhos aqui cantam melhor do que os de lá.  Temos algo a mais, principalmente o senso de humor. Você pergunta quem é digno de nota. Você é um deles (parabéns pelos quadrinhos no Scarium) e parabéns para o resto da tropa, ou do rebanho, porque estou dentro e sou um... negro carneiro.

21-E nas Artes Plásticas em geral, qual dos seus trabalhos  julga o melhor e o que tem feito ultimamente no gênero?

Antes da minha visão sofrer a redução eu circulava por todas as artes que sempre produzi, pintura, escultura, desenho, capas de livros, cartazes,  roteiros, cinema-arte, comerciais, TV, ( fiz um programa piloto para uma série sobre vocações na TV Senac etc.) fotografia artística, colagens etc.

Tenho recomeçado a  fotografar e gostado. Eu ia fazer uma exposição de nus em São Paulo, tenho só que ampliar meus negativos.    Fiz pintura a óleo em telas e sobre outros materiais. Nos últimos anos me dediquei a aquilo que dei o nome de “Pintura Dinâmica”, geralmente placas de vidros coladas com colas especiais, com vários finos compartimentos. Dentro eu colocava líquidos químicos, cores diversas, mercúrio e, eventualmente, outras substâncias. O efeito é magnífico. O espectador deve pegar o quadro, coloca-lo na posição horizontal e as cores correm,  no mesmo compartimento quando sejam não missíveis,  (com mercúrio, por exemplo) ou no compartimento abaixo e acima. A mistura de cores produz outras tonalidades, pode-se manipular o quadro e “criar” milhares de infinitas combinações. Entrei em uma Bienal das mais exigentes, embora tenha tido problemas, um dos quadros “implodiu”, pois mesmo consultando químicos ninguém podia calcular as reações das minhas misturas.

Fiz poucas exposições. Também de “poesia colagem”, poemas entre colagens. Ganhei prêmios com fotos arte, no Brasil e na Europa. Um dos meus filmes curta metragem representou o Brasil em um Festival na Inglaterra. Fiz até brincos e colares com pedras semi-preciosas. Em Tucson, eu colocava um colar, toda a manhã, na caixa de correio de uma jovem, durante quinze dias. Alucinada, ela veio morar comigo, aí parei.

Quando faço qualquer arte, jamais penso nas outras, mergulho na criação como se somente fizesse aquilo toda a vida. Por isso não consigo colocar níveis, dizer o que foi, ou o que é mais importante para mim. Sei que viver é o mais importante.

22-Já pensou em criar um Site para expor uma parcela de sua extensa e importante obra?

Não. jamais pensei em criar um site, por dois motivos. Primeiro, minha ignorância cibernética. Quando aparece aqueles avisos de erro, junto com dez linhas de números e letras, fico imaginando se existe mesmo um técnico no mundo que ache aquilo. Segundo, tem aparecido muitos sites com informações, trabalhos e biografias minhas, alguém já contou mais de quinze, muitos em vários países. Por exemplo: http://www.amigodaalma.com.br www.merceariapaulista.com.br  ,  www.meiotom.hpg.com.br e www.atibaiamania.com.br

23-Voce ainda cultiva - e pratica - as idéias  revolucionárias sobre Sexo livre e Anarquia preconizadas em suas obras, principalmente o romance “ Amorquia  ?

 Meu caro Admirável Homem das Neves, você deveria ir para a televisão. Primeiro porque em algumas perguntas é só repetir o que você  disse e fica ótimo, segundo, esse jeito de pedir um iminente strip-tease, e o entrevistado vai tirando tudo completamente hipnotizado, seria um sucesso. Pena que “Piscina Livre” e “Amorquia” estão esgotados, senão eu remeteria a eles, a resposta esta lá.        TV Band: “Você ainda cultiva e pratica...? “Sim, dona Marcia, vamos mostrar para a senhora agora mesmo...” (Palmas e urros)

  24-Passada as ondas  hard/soft, new-wave, cyberpunk, steampunk, slipstream ,  com o que voce acha que a Caixa de Pandora que é a FC ainda pode nos surpreender? Ou será que - como voce já faz apologia de longa data e no que concordo piamente -  o rumo natural do gênero será o “não-gênero “, ou seja uma ficção holística, abarcando todos os cânones, subvertendo-os, moldando-os para ser simplesmente ficção?

Esta questão é um perfeito exemplo do primeiro exemplo dado na resposta 23. Faço minhas suas palavras. Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc.  Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade  nos empolga,  lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais.  Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc.  Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas,  impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima, não importa se esteja na sala DURA ou na SUAVE, melhor ainda se estiver em AMBAS.

-André, foi um grande prazer aprender novamente com voce. Vida Longa!