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Entrevistas / Interviews
Lucas
Paio, criador do excelente e talvez site nacional
pioneiro sobre Alan Moore (www.watchmenbrasil.cjb.net)
Prezado Lucas, para iniciar
faça-nos sua apresentação:
Idade, onde nasceu e cresceu, estado civil, filhos, formação acadêmica e
profissional
Nasci, cresci e ainda moro em
Belo Horizonte-MG. Tenho 18 anos e atualmente estudo Publicidade. Estado civil,
solteiro, e quanto aos filhos, bem, daqui a uns dez anos poderei a começar a
falar a respeito...
O quê e quando iniciou seu interesse pelos Quadrinhos?
Desde a infância sempre fui
muito ligado aos quadrinhos, principalmente as revistas do Maurício de Souza
– aliás, acho que a maioria dos fãs brasileiros de HQs começou a ler com a
Turma da Mônica. Alguns anos depois, passei a ler coisas da DC, Batman (que
sempre foi um dos meus personagens preferidos), Super-Homem, depois Marvel, e daí
para ler Alan Moore e Frank Miller foi um pulo.
Na infância você lia muito, tanto HQ quanto Literatura mainstream? Pode citar autores e obras que o influenciaram?
Sempre fui muito incentivado em
casa a ler, tanto livros quanto quadrinhos. Muitos pais costumam dizer ao filho:
“pára de ler essas revistinhas, vai ler um livro, alguma coisa que
presta!”, talvez pelo fato de que as HQs sempre foram mais associadas à
diversão e os livros, ao estudo, quando tanto um livro quanto uma revista em
quadrinhos podem ser fonte de conhecimento e diversão (mas que papo de
professor!...). Bom, mas felizmente comigo isso não acontecia muito, tanto que
meu pai tem até hoje a coleção completa do Asterix – e insiste em lembrar
sempre que a coleção é dele, não
minha... Quanto a autores que me influenciaram, tratam-se de escritores bem
diferentes entre si, já que não tenho um estilo preferido de literatura, e
meus escritores favoritos variam desde Agatha Christie até Luis Fernando
Verissimo, além de, claro, Alan Moore.
Quando foi seu primeiro contato com o trabalho de Alan Moore e qual obra lhe causou algum impacto especial?
A primeira revista do Moore que
eu li foi Watchmen, e, logo depois, A
Piada Mortal (ambas
quando
foram republicadas no Brasil, em 1999). A
Piada Mortal não me causou tanto impacto: é uma boa história do Batman,
mais do Coringa do que do Batman, até, mas nada muito além disso. Já Watchmen
me fascinou, e ainda me fascina, pela complexidade e pelo fato de que, cada vez
que a leio, encontro alguma coisa diferente. Confesso que, quando estava lendo
as primeiras edições, não me impressionou muito, achei somente uma HQ muito
bem escrita. Foi só depois, lá pro número 6 e relendo os primeiros números,
que percebi o quanto a série era realmente boa.
Qual trabalho do mago bardo de Northampton que você considera sua
obra-prima e porquê?
Watchmen em primeiro, V de
Vingança num distante segundo lugar. Essa última é uma HQ excelente, mas
pra mim nada supera Watchmen. É uma
revista da qual eu nunca vi ninguém falar mal. Aliás, já vi uma única
pessoa, mas que só tinha lido até a edição 5, então não vale. Não gosto
de seguir as multidões quando se trata de opinião, mas nesse caso não posso
mentir e dizer que acho, por exemplo, From
Hell a obra-prima do Moore. É Watchmen,
sem sombra de dúvida.
O quê o motivou a criar o seu site de Alan Moore, como você iniciou o projeto, como buscou o material e o que pretende com o mesmo?
Quando comecei a ler Watchmen,
resolvi procurar na Internet alguma coisa sobre a série, e só encontrei um
site, em inglês, que tinha as anotações sobre cada página, cada quadro das
revistas. Só foi lendo aquilo que percebi o nível de detalhamento da série.
Algum tempo depois, um ano e meio mais ou menos, comecei a buscar material na
Internet já com a intenção de fazer um site, e em agosto de 2000 estreei a
Watchmen Brasil. Traduzi e refiz as anotações que encontrei, coletei tudo o
que eu consegui achar sobre a série, traduzi tudo o que eu pudia, escrevi vários
artigos exclusivamente para o site e com isso ele foi tomando a forma que tem
hoje. O que pretendo com ele? Bom, certamente não é ganhar dinheiro, pois até
agora já gastei horas de pesquisas na Internet e horas escrevendo e atualizando
o site e não ganhei um tostão com isso. O que eu pretendo, mesmo sem o estar
atualizando há séculos, é mostrar às pessoas os detalhes da série, as
curiosidades, o trabalho fabuloso desenvolvido pelo Moore e pelo Gibbons. E o
reconhecimento que às vezes vem pelo site que eu fiz (como essa entrevista), é
uma coisa ótima. Já me mandaram e-mails dizendo que utilizaram meu site para
trabalhos de faculdade, eu mesmo já encontrei sites que copiavam descaradamente
as anotações que eu fiz sobre a série, e isso, apesar do “plágio” (bom,
na Internet nada é de ninguém...) não deixa de ser bastante gratificante.
Como tem sido o “feedback” do site? Muitos contatos? Só do Brasil ou estrangeiros também? E estes contatos te possibilitaram conseguir algum material interessante?
Muita gente me escreve até hoje
parabenizando pelo site, tanto através de e-mails quanto pelo livro de visitas
(que aliás, só fui descobrir há umas semanas, não funciona mais). Muitos me
dão sugestões, corrigem erros, essas coisas, e a maioria esmagadora dos que me
escrevem são do Brasil: o site só tem versão em português, e fica difícil
para estrangeiros que não conhecem a língua desfrutarem dele. Bom, talvez o
nome, “Watchmen Brasil”, explicite isso. Mas a intenção sempre foi mesmo
fazer um site brasileiro sobre Watchmen,
para os brasileiros.
Tem colaboradores que te auxiliam na tradução, edição, etc? Pode
citar nomes?
Quando eu estava atualizando com
mais freqüência o site e principalmente as anotações sobre a série, que
formam a parte principal dele, muitos me mandavam correções e acréscimos, que
eu fui coletando e atualizando. Muitos também me mandaram matérias, traduzidas
ou não. Dos que eu lembro de cabeça, me ajudavam muito Guilherme Lutti,
Francisco Cláudio Barros (do site Alan Moore BR), João Paulo Ferreira e Lord
Morpheus, e outros mais.
Ao seu ver, quais foram as inovações mais importantes do autor?
Especificamente sobre Watchmen e sua
instigante forma narrativa – já apelidada de O Cidadão Kane das HQs – o que tem a nos dizer?
Alan Moore sempre inovou em suas
HQs, seja através do enredo de suas histórias (super-heróis no mundo real,
personagens da literatura inglesa reunidos, um anarquista intitulado apenas V),
quanto na forma original de contar histórias comuns (a origem do Coringa, a
história de Jack o Estripador). Em Watchmen,
creio que sua principal inovação – além de trazer os heróis à realidade
como nunca tinha sido feito antes, o que serviu de inspiração para Kurt Busiek,
Mark Waid e vários outros depois - foi na narrativa, que é circular, cheia de
temas que se repetem. Cidadão Kane dá
voltas e voltas em cima do “Rosebud” que aparece no começo. Já Watchmen
dá voltas e voltas sobre vários temas, gráficos ou não: o smiley respingado
de sangue, o relógio marcando 11:55, as pranchas de Rorschach, os amantes de
Hiroshima, a repetição da frase “who watches the watchmen?”. A edição número
5, “Temível Simetria”, é uma edição simétrica. A HQ dentro da HQ,
aquela história pirata que nos é mostrada durante a série, se interliga
diretamente com a trama principal, embora à primeira vista pensemos “O que
uma história de piratas está fazendo aqui?”. Enfim, o nível de complexidade
e originalidade de Watchmen é, como diria Spock, fascinante, uma aula de como fazer
quadrinhos.
E From Hell, você acha que
Moore conseguiu atingir plenamente seu intento de forjar em uma HQ o caldeirão
que nos preparou o Século XX, com toda sua paranóia, conspirações, contradições,
horror e beleza?
From Hell é uma HQ muito boa, resultado de uma longa pesquisa histórica.
Mas nem tudo o que está ali deve ser considerado como historicamente confiável,
como o próprio Moore mostra em seus apêndices no final dos volumes. Acho que From
Hell deve ser considerada como uma obra de ficção com referências reais,
apesar de toda a pesquisa feita: num romance como esse não se pode ser fiel o
tempo inteiro, tem-se que inventar falas e cenas, tornar tudo mais
“romanceado”, como ocorre também com a maioria dos filmes históricos.
Mesmo assim, concordo quando você diz que nela há a semente do século XX, uma
prévia do que aconteceria nos cem anos seguintes. Afinal, o século XX, como From
Hell, é repleto de paranóia, conspirações, contradições, horror e, por
que não?, beleza. A cena que mostra a concepção de Adolf Hitler é uma prova
dessa “semente”: na época dos assassinatos de Whitechapel estava nascendo
um dos maiores assassinos da humanidade. A “coincidência” (se é que nessa
altura das coisas ainda existem coincidências) das datas é impressionante.
E de Big Numbers,
a inacabada magnus-opus, a Teoria do Caos, os Fractais? Você acha que uma HQ
tem a capacidade de abarcar tamanha complexidade e ser compreendida?
Big Numbers, ou pelo menos as duas edições concluídas, provocou
opiniões opostas entre os que leram: já vi pessoas que elogiaram ao extremo, e
outras que detestaram. O assunto, a teoria do caos, é difícil de ser tratado e
mostrado, tanto que o próprio desenhista não quis continuar a fazê-la. Mas
nada é impossível numa HQ, como nos prova o próprio Alan Moore, autor de
alguns dos projetos mais bizarros dos quadrinhos. Pena que, muito provavelmente,
nunca chegaremos a ver o fim dessa série e descobrir se ela seria ou não
compreendida – afinal, com duas edições e ainda mais com um tema dessa
complexidade, é natural que não se compreenda muito e que as opiniões a
respeito da obra sejam tão divergentes.
Sobre as músicas e espetáculos de recitação e performances de Magia
do grande mago bardo, voce tem algum conhecimento a respeito para tecer suas
considerações?
Já ouvi algumas músicas, mas
sobre performances de magia ainda não sabia. Não vou dizer que minha opinião
é favorável ou desfavorável, afinal não tenho muito conhecimento sobre o
assunto. Não vou dizer que gosto só porque é Alan Moore quem faz, pois mesmo
os grandes gênios podem decepcionar (afinal, Frank Miller não fez Cavaleiro das Trevas 2?), mas acho legal que ele se envolva com
projetos paralelos como músicas, magia e literatura, e não só com quadrinhos,
o que influencia e engrandesce suas obras (From
Hell e algumas HQs recentes do Moore, por exemplo, têm uma grande influência
de magia).
Ainda a propósito, o que você pensa da Magia?
Penso, mesmo com meus poucos
conhecimentos a respeito do assunto, que é uma forma do homem se aproximar do
sobrenatural, daquilo que ele não conhece totalmente – e que nem pode -, mas
tem vontade de conhecer. Agora fiquei curioso: o Moore anda fazendo
“perfomances de Magia”? Como será isso?
Você busca as obras importadas de Alan Moore também, ou espera por versões tupiniquins? E se busca importar, tem obtido sucesso? Poderia nos dar os detalhes (onde as consegue, etc).
Praticamente todas as obras do
Moore que eu tenho são brasileiras, exceto umas duas ou três edições de Top
Ten que consegui dos Estados Unidos, pois não sabia quando elas chegariam
aqui. Mesmo sendo um grande fã do cara, o preço das revistas importadas chega
a ser absurdo, por isso prefiro esperar mesmo e comprar quando chegam no Brasil.
Meu único arrependimento é não ter comprado uma edição encadernada de Watchmen,
cheia de anotações e detalhes, por causa do preço. E olha que isso tem quatro
anos, ou seja, com o tanto que o dólar subiu nos últimos tempos, o preço que
eu pagaria em 1999 por esse encadernado seria uma pechincha se comparado com
hoje.
Em rápidas pinceladas, apresente-nos suas considerações sobre as
seguintes obras, caso as tenha lido: Brought to Light, A Small Killing, The
Birth Caul e Snakes and Ladders.
Sinto deixá-los sem minhas
pinceladas, mas infelizmente não li nenhuma delas, principalmente pelo fato de
nenhuma ter saído por aqui. Essas e Lost
Girls, que também tenho muita vontade de ler (já saiu lá fora, falando
nisso?
E o livro “A Voz do Fogo”, se o leu, o que tem a nos dizer a
respeito?
Também não li, mas tenho
curiosidade e esse, pelo menos, é infinitamente mais fácil de encontrar no
Brasil, pois foi lançada aqui. O Moore sempre teve uma “queda” por
literatura, tanto que em Watchmen ele
“inventou” um livro como se tivesse sido escrito por um dos personagens, e
colocou vários capítulos desse livro nas primeiras edições da série. Agora,
tenho uma dúvida em relação a esse “A Voz do Fogo”: será que Alan Moore
fez como o Nite Owl e começou a escrevê-lo com a coisa mais triste que ele pôde
imaginar?
Sobre o atual estágio dos Comics no mundo, qual o futuro que voce antevê
para a Nona Arte?
A tendência dos quadrinhos, na
minha opinião, é cada vez mais se firmarem como arte. As Artes clássicas eram
somente seis, mas quando o cinema surgiu, trataram de colocá-lo como a sétima.
Os quadrinhos, que surgiram na mesma época, demoraram um pouco mais para serem
reconhecidos e ainda não há um consenso se ela seria a Oitava ou a Nona Arte,
mas depois das graphic novels criadas
por Will Eisner e as obras-primas de Alan Moore, Frank Miller, Neil Gaiman e
muitos outros, não há dúvida de que as HQs são a cada dia mais valorizadas,
e não apenas como mero entretenimento.
E no Brasil?
O Brasil, apesar de produzir
muita coisa de qualidade, infelizmente não tem um grande mercado para a produção
de quadrinhos. Mesmo havendo milhões de fãs de HQs em terras tupiniquins, a
grande maioria do que lemos é americana, européia ou japonesa. Os quadrinhos
feitos no Brasil, tirando os do Maurício de Souza que são exceção, não têm
muito futuro. E é o que acontece com os livros: o preço é alto, pouca gente
pode se dar ao luxo de pagar 30, 40 reais num álbum, ou mesmo 8 reais numa
revista normal. Por isso, a maioria prefere mesmo comprar suas HQs da DC ou da
Marvel (o que não significa que essas não sejam boas) a arriscar numa revista
brasileira que ele não tem garantia de que valerá a pena.
O quê você acha que pode explicar o atraso brasileiro em relação, não digo aos EUA, mas à Europa, por exemplo, no que concerne a álbuns de qualidade (salvo raras exceções, é claro, como os de Mutarelli, Mestre Shima, Mozart Couto e uns poucos outros abnegados)?
Acho que é isso, a falta de
mercado, a falta de interesse das grandes editoras nacionais e o alto preço
desses álbuns, que não deve ser desconsiderado pois tem uma grande importância.
Com certeza esse atraso não é por causa de fãs, eles existem, é claro, mas
talvez pela falta de um alto número deles, que dê lucro para as editoras que
publicam os álbuns. Como diria Rorschach: “Por que restam tão poucos de nós
na ativa e sem desvios de personalidade?”
O quê, ao seu ver, poderia ser feito para mudar para melhor este
quadro?
Não desistir, eu acho...
“Jamais se render”, diria Rorschach, e agora chega de citações de Watchmen. Acho que as editoras, principalmente as maiores, podiam
incentivar o quadrinho nacional (de qualidade, não aquelas coisas de Terra
1...). Há muita coisa boa sendo feita, mas de que adianta se o público não
conhece? Se as editoras grandes incentivassem a compra e a leitura de álbuns de
quadrinhos feitos por brasileiros, com certeza esse “atraso” poderia ser
diminuido.
E, finalizando, suas críticas sinceras ao nosso modesto site e sugestões
para aperfeiçoá-lo.
O site está muito bom, é uma
fonte de informação excelente e um dos sites
mais
completos sobre Alan Moore e sua obra existentes na Internet. A melhor parte são
as entrevistas, que em sua maioria são exclusivas e não apenas copiadas de
outros sites, e isso faz uma diferença enorme. Gostaria muito de ler uma
entrevista com Dave Gibbons , um nome meio
sumido dos quadrinhos atualmente. A iniciativa em colocar os textos em português
e inglês também é boa, apesar de que nem todos os artigos tenham tradução
em português: esta talvez seja a crítica principal. E é isso, continue com o
ótimo trabalho, e estou bastante curioso para ver o livro sobre Alan
Moore pronto.
Obrigado, amigo.