ALAN MOORE     Senhor do Caos  /   Lord of Chaos
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Entrevistas  /  Interviews


                                 OCTÁVIO ARAGÃO

                                                por Jose Carlos Neves

Presença marcante seja com seus Contos, artigos e opiniões nos fanzines de Ficção Científica, como Megalon e Scarium Aragão é um   Designer carioca que também é fã de Alan Moore e autor do excelente Ensaio sobre Promethea.

-Prezado Octavio, para iniciar faça-nos sua apresentação: Idade,onde nasceu e cresceu, estado civil, filhos, formação acadêmica e profissional.

38 anos, nascido e criado no Rio de Janeiro, vivendo há mais de oito anos com Luciana Sampaio mas ainda sem herdeiros. Sou formado bacharel e mestre em História da Arte pela Escola de Belas Artes, UFRJ e fui editor de arte da Ediouro, subeditor do jornal ODia, coordenador de O Globo, ilustrador, designer gráfico e até trabalhei em cinema, na Renato Aragão Produções (não, não sou parente do Didi)

-O quê e quando iniciou seu interesse pelos Quadrinhos?

Dizem que aprendi a ler aos três anos de idade, mas minha primeira lembrança relativa a quadrinhos é de ter decifrado os textos de um exemplar de Pinnochio, quadrinização do desenho de Disney, aos cinco anos.

-Na infância você lia muito, tanto HQ quanto Literatura mainstream? Pode citar autores e obras que o influenciaram?

Até os dez anos eu era fissurado por Monteiro Lobato, Hergé, Goscinny & Uderzo, Marvel Comics e DC, mas lia Disney, Maurício e praticamente tudo que aparecia pela frente. Dos dez em diante comecei com os clássicos das Edições de Ouro - Homero, muito Júlio Verne - e as séries para adolescentes - A Turma do Posto Quatro, de Luiz de Santiago, e A Inspetora. Aos 15 anos já havia lido parte da biblioteca de meu pai, que continha autores como George Orwell, Edgar Alan Poe, Aldous Huxley, Edward Bellamy, Shakespeare, Jorge Amado, Eça de Queiróz e teóricos do porte de C. W. Ceram, Bertrand Russel e Ouspenski. Claro que muita coisa eu tenho de reler agora, pois era muito imaturo para perceber metade dos conceitos que haviam ali, mas que serviu de base, serviu...

-Voce menciona o matemático/filósofo soviético P.D. Ospenski. Também sou admirador e leitor assíduo de suas instigantes obras, tendo todas as nacionais - da Pensamento - e até uma em ingles.Mas considero as duas melhores Tertium Organun e Um Novo Modelo de Universo. Inclusive cito-os no meu artigo "Holismo e Caos em Big Numbers". Qual a sua opinião sobre as teorias de Ouspenski?

Eu li aos 14 anos - e já nem lembro direito - o Tertium Organum de meu pai numa versão em espanhol. Fiquei muito impressionado com sua visão polidimensional do universo.

-Teça suas considerações sobre o Tempo, e a 4ª Dimensão. -Voce, como eu, também acha que Ouspenski é o típico caso do pupilo que ultrapassa o mestre, no caso, Gurdjieff?

O Gurdjeff era, na minha opinião, um safado inteligentíssimo , um tremendo 171 que conseguiu arrancar grana da alta classe mas que, além disso, tinha uma visão única sobre o potencial humano (aquela história dele, na juventude, vender pardais pintados de amarelo como canários e depois sair fugido num dia de chuva é, além de hilariante, bem exemplar do tipo de caráter dele). Ouspenski, claro, era muito mais filósofo que Gurdjeff, que estava mais para showman, com seus espetáculos "extra-sensoriais".

-Quando foi seu primeiro contato com o trabalho de Alan Moore e qual obra lhe causou algum impacto especial?

Eu ainda estava fascinado por Dark Knight Returns, de Frank Miller, quando li Watchmen, que me fez cair de quatro, em 1987.

-Qual trabalho do mago bardo de Northampton que você considera sua obra-prima e porquê?

Essa é difícil. Diria que sua obra-prima ainda está por vir, mas posso estabelecer uma espécie de hierarquia, com V de Vingança (uma resposta ao 1984, de Orwell, criticando o governo Tatcher), From Hell (talvez a maior pesquisa histórica já feita para uma HQ) e Watchmen (pela experimentação narrativa) empatados num primeiro lugar.

- O quê o motiva a buscar material de e sobre Alan Moore, e o que pretende com o mesmo? Puro colecionismo, ou voce o usa como fonte inspiradora para seus 'escritos'?

Meus "escritos" se alimentam de várias fontes, mas não consigo ver Moore entre elas mais por incompetência de minha parte que por falta de vontade. Procuro seus trabalhos pelo  mesmo motivo pelo qual procuro livros de vários outros autores: gosto de ler obras de qualidade.

-Ao seu ver, quais foram as inovações mais importantes do autor?

Ele trouxe uma certa maturidade a um gênero de comics desacreditado.

Especificamente sobre Watchmen e sua instigante forma narrativa - já apelidada de O Cidadão Kane das HQs - o que tem a nos dizer?

Não tem nada a ver. Watchmen lida com várias linhas narrativas diferentes. É uma obra muito mais complexa, em vários níveis, que o filme de Welles. É um romance, uma HQ, uma defesa de tese sobre física quântica e representação gráfica do espaço-tempo... se fosse possível uma comparação com outra obra cinematográfica, o que considero um erro, Watchmen estaria mais para 2001, de Kubrik.



-E From Hell, voce acha que Moore conseguiu atingir plenamente seu intento de forjar em uma HQ o caldeirão que nos preparou o Século XX, com toda sua paranóia, conspirações, contradições, horror e beleza?

Ainda tenho de ler From Hell mais duas vezes para assimilar toda a gama de informações existente ali. Mas, sim, é uma obra impressionante, não apenas pelo lado de Moore, mas também pelo trabalho gráfico de Eddie Campbell, que recria com habilidade o clima das publicações de época, como as ilustrações dos tablóides
ilustrados.

-E de Big Numbers a inacabada magnus-opus, a Teoria do Caos, os Fractais? Você acha que uma HQ tem a capacidade de abarcar tamanha complexidade e ser compreendida?

Nunca li o que existe de Big Numbers, mas posso afirmar que não há assunto que as HQs não possam abordar, ainda mais pelas mãos de um autor talentoso como Moore.

-Sobre as músicas e espetáculos de recitação e performances de Magia do grande mago bardo, voce tem algum conhecimento a respeito para tecer suas considerações?

Conheço as letras das canções, seu songbook, e o texto ilustrado da performance The Birth Caul. As referências musicais de Moore não batem muito com as minhas - ele curte Bauhaus, por exemplo, e chegou
a ser parceiro de Peter Murphy, cujos trabalhos não me despertam atenção - mas a parte que me interessa de suas aventuras musicais, as palavras, é muito boa.

-Ainda a propósito, o que você pensa da Magia?

Parafraseando Indiana Jones, "eu acredito em tudo até que me provem que não exista".

-Voce busca as obras importadas de Alan Moore também, ou espera por versões tupiniquins? E se busca importar, tem obtido sucesso? Poderia nos dar os detalhes (onde as consegue,etc).

Só compro as importadas nas lojas especializadas. O mínimo possível de traduções quando o assunto é AM.

-Em rápidas pinceladas, apresente-nos suas considerações sobre as seguintes obras, caso as tenha lido: Brought to Light, A Small Killing, The Birth Caul e Snakes and Ladders.

Apenas li, das quatro, A Small Killing - uma obra tocante sobre criatividade, nascimento e morte que me deixou prostrado por algum tempo após a leitura - e The Birth Caul - uma aula sobre as relações metafísicas entre um indivíduo e o local onde mora, no caso, Northampton.

-E o livro ìA Voz do Fogo, se o leu, o que tem a nos dizer a respeito?

Como estréia nas letras, Moore está de parabéns. Todos os temas que vêm assombrando seus outros trabalhos - magia, Northampton, templários - estão presentes ali, com um texto vigoroso e sólida bagagem histórica.

-Sobre o atual estágio dos Comics no mundo, qual o futuro que voce antevê para a Nona Arte?

Acho que é a vez do 3º mundo mostrar seu valor. A Net, com o tempo, vai ser o grande veículo para exposição dos trabalhos de artistas oriundos da Índia, da China, do Chile, da Argentina e do Brasil.

-E no Brasil?

Aqui nós temos de deixar de usar antolhos e estudar um pouco mais. Parar com esse negócio de achar que artista não precisa de roteirista pra fazer HQ. Precisa, sim. E os escritores têm de acabar com o preconceito de achar que quadrinhos são uma mídia "menor". Só com qualidade se vai a algum lugar. O panorama está melhorando, mas ainda está longe do ideal. Certo está o André Diniz com seu site www.nonaarte.com.br e suas produções independentes. Olhem para esse cara! Ele é o Futuro!

-O que voce acha que pode explicar o atraso brasileiro em relação, não digo aos EUA, mas à Europa, por exemplo, no que concerne a àlbuns de qualidade (salvo raras e abnegadas exceções, È claro, como os de
Mutarelli, Mestre Shima, Mozart Couto, Alvimar dos Anjos  e uns poucos outros )?

Veja minhas colocações acima. Como produzir álbuns com mais de 40 páginas sem um bom texto?

-O quê, ao seu ver, poderia ser feito para mudar para melhor este quadro?

Estudo. O pessoal tem de deixar de lado a arrogância e abrir os livros. Pesquisar, ler história, conhecer os trabalhos dos antecessores. Não tem muita gente hoje que conheça os quadrinhos brasileiros do século XIX, e eles eram fantásticos.

-Voltando ý sua produção, fale-nos da sua Arte (Design), como se interessou, como iniciou seu aprendizado, alguma escola? Influências? Poderia nos enviar alguma amostra?

Como eu disse, sou oriundo da EBA, Escola de Belas Artes do RJ, antiga Academia Imperial de Belas Artes e, na vida profissional, tive a sorte de estudar e trabalhar com alguns dos mais talentosos ilustradores e designers do Brasil. Fui colega de turma de gente como Cesar Coelho (Anima Mundi), Ênio Torresan (Disney e Hanna -Barbera), Mariana Massarani (Jornal do Brasil) e trabalhei com o Aroeira, o Chico Caruso e o Erthal (O Globo e O Dia). Meus trabalhos mais recentes em termos de design gráfico foram a capa do livro COMO ERA GOSTOSA A MINHA ALIENÍGENA!, da Ano Luz, e o cartaz do ciclo de palestras do 9º Encontro da Pós-Graduação da Escola de Belas Artes.

-Tem algum site ou portfólio on-line no qual nosso leitor poderia aprecia-la?

Meu site no momento é o do projeto INTEMPOL , http://www.intempol.com.br.. Lá não tem exemplos de trabalhos gráficos, mas em breve estarei colocando no ar um site específico para isso.

-E seus textos, o que tem produzido? Como tem sido o feedback?

Em 2001 tive o prazer de ser agraciado com dois prêmios Argos
(Primeiro lugar para melhor publicação pelo livro INTEMPOL, editado por mim e publicado pela Ano Luz, e terceiro lugar para melhor ficção pelo conto Eu matei Paolo Rossi) e um prêmio da Sociedade Brasileira
de Arte Fantástica-SBAF, pelo Projeto Intempol. Eu diria que o feedback anda positivo...

-E, finalizando, exponha suas críticas sinceras ao nosso modesto Site e sugestões para aperfeiçoá·-lo.

Design, JC, falta design! :-) O conteúdo está muito bom, mas a navegação ainda precisa melhorar.(Ele se referiu à interconexão entre as diversas páginas, o que já foi corrigido,com os devidos "botões"de hyperlink).
-Obrigado, Octávio.

"Brazil is one of the first-rank countries producing uchronias and is also very inventive"
Henriet, Eric. L'Histoire Revisitée: Panorama de L'Uchronie Sous Toutes Ses Formes.