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Entrevistas / Interviews
Paolo
Eleuteri
Serpieri
por Wellington Srbek
O italiano Paolo
Serpieri é um dos artistas de grande destaque no quadrinho
internacional. Em histórias que misturam erotismo, violência e
cenários decadentes, ele deu vida a Druuna, uma belíssima morena que em pouco
tempo conquistou uma legião de adoradores em todo o mundo. Com um total domínio
das técnicas de pintura e um estilo inconfundível, Serpieri é um apologista
da forma feminina, que não poupa elogios às mulheres brasileiras. Em breve
visita a Belo Horizonte, Paolo Serpieri foi um dos principais convidados da 3º
Bienal Internacional de Quadrinhos. Numa entrevista exclusiva, ele fala de seu
trabalho, de seus mundos decadentes e de sua paixão pela personagem Druuna,
que diz ser “muito brasileira”.
-Na década de 70, os quadrinhos europeus de ficção e fantasia
conquistaram o mundo influenciando o surgimento de revistas como a Heavy
Metal. Hoje o senhor publica seus trabalhos nesta revista. Qual a relação
de seus quadrinhos com aqueles dos anos 70?
Nos
anos 70, eu trabalhava com quadrinhos de faroeste e pensava que meu desenho não
tinha muito a ver com a ficção científica. Eu tinha resistência ao desenho
geométrico, certinho, tecnológico da FC. Mas a fantasia e a ficção dos
quadrinhos publicados na Metal Hurlant
me fascinavam muito. Como eu ainda tinha muitas histórias para contar com o
faroeste, comecei a fundir este gênero com a fantasia. Só depois, nos anos 80,
eu cheguei à ficção científica. Fiquei muito impressionado com Alien
e Blade Runner de Ridley Scott; aí comecei a fazer uma história em
que aparece a deterioração do mundo tecnológico. Quando comecei a desenhar
esta história não pensei numa personagem protagonista, mas foi aí que surgiu
a Druuna.
-O que é a Druuna para o senhor? Ela corresponde a seu ideal de mulher?
Enquanto
personagem, Druuna surgiu como minha concepção de uma mulher sensual. Ela
representa o erotismo e a sensualidade. Mas é como se ela fosse uma mulher que
você poderia encontrar, ela é viva, atual, palpável. É como se você pudesse
tocá-la, por isso utilizo essa plasticidade nos desenhos e nas formas. Eu a
inseri em um mundo em decomposição para criar um contraste entre um corpo
perfeito de mulher, que remete à vida e prazer, e o ambiente em decomposição.
Em suas histórias, Druuna também aparece em um mundo onírico, realizando uma
fuga da morte e da dor, através do prazer. Meu trabalho responde a uma
necessidade pessoal.
-Em suas obras o senhor
emprega a pintura como recurso técnico. Como o senhor vê a relação entre a
arte e os quadrinhos?
Eu
faço pinturas há muito tempo, antes de fazer quadrinhos. Uso a cor para criar
o ambiente, a atmosfera, o estado da alma. Não me interessa a cor simplesmente
como estética, mas a cor como expressão. Há muita polêmica se o quadrinho é,
ou não, uma arte. Acho que qualquer atividade criativa pode chegar à arte, mas
isso não quer dizer que todos os quadrinhos são artísticos.
-Comparado a outros quadrinhos eróticos europeus, Druuna parece uma
personagem mais passiva e o ambiente de suas histórias é mais sombrio. Isto
tem a ver com sua percepção pessoal do mundo?
Tenho
uma visão pessimista do futuro, mesmo quando faço coisas positivas. Druuna
parece ser sempre uma vítima, mas na realidade ela sempre vence. Ela representa
uma alternativa à morte, representa o prazer.
-A discussão sobre o que é erotismo e o que é pornografia é um tema
recorrente. O senhor estabelece uma diferença entre eles? As aventuras de
Druuna são eróticas ou pornográficas?
Eu
penso que a pornografia é a representação do ato sexual. Tanto pode ser chata
quanto pode ser excitante. Não entendo quando as pessoas se escandalizam com a
representação do ato sexual, que é algo belo. Por sua vez, o erotismo pode
ser muito fascinante. Há toda uma série de situações e elementos que se
referem ao ato sexual. Chamo de erotismo um olhar de uma bela mulher, um vestido
transparente, o movimento dos seios. Para alguns o erotismo é nobre e a
pornografia é vulgar; muitas vezes isso é hipocrisia de quem tem medo do
prazer. Vou dizer algo perigoso: o erotismo é muito hipócrita e parece muito
nobre pois se pensa que o ato sexual é algo vulgar.
-A Itália já nos presenteou com brilhantes viajantes e descobridores de
novos mundos, como Marco Polo e Hugo Pratt. O senhor acha que nos dias de hoje
ainda restam mundos a serem descobertos?
Não, não naquele sentido. Hoje, cada um deve descobrir o seu mundo. Muitas vezes a aventura de buscar novos mundos leva você a descobrir a si mesmo. A idéia da busca por um novo mundo é uma viagem em direção ao incógnito, em busca da felicidade, do paraíso. A conquista do espaço é uma destas viagens em direção ao incógnito.
ABAIXO - AMOSTRA DE UMA PÁGINA DOS POLÊMICOS QUADRINHOS DE "DRUUNA"
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