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Entrevistas / Interviews
ao sr. Jorge Luiz Calife, do Rio de Janeiro, por uma carta que me fez pensar
seriamente numa possível continuação (eu que há muito tempo dizia que esta
continuação era impossível); “
Arthur
C. Clarke, no seu livro “2010: UMA ODISSÉIA NO
ESPAÇO II”, Editora Nova Fronteira, 1982, pg.359.
Este reconhecimento formal do “papa da FC”,
Arthur Clarke, me instigou a tentar contatar na época, o autor carioca Jorge
Luiz Calife. Co-produzia, então, com os manos Cerito e Mário Dimov Mastroti, o nosso fanzine HIPERESPAÇO, hoje já “na
maioridade”.
Depois de uma verdadeira
odisséia, graças à trekker carioca
Maria Cristina Nastasi, consegui o endereço e enviei uma carta ao jovem
escritor.
Ele respondeu
prontamente, sendo muito gentil e até nos concedeu uma histórica Entrevista,
publicada no nosso zine, entrevista esta conduzida por outro “colaborador”,
o modelista Carlos Henrique da Silva Zangrando, igualmente do Rio.
Depois mantivemos
proficiente correspondência, com o Calife, mesmo então já “famoso”, após
a publicação de seu primeiro livro da trilogia “Padrões
de Contato”, sempre colaborando com o nosso e muitos outros fanzines.
O autor é considerado
também o “inaugurador” da chamada 2ª Geração da FCB (depois da Geração GRD, dos anos 60).
Tive a oportunidade de
me encontrar com ele numa das reuniões do Clube de Leitores de Ficção Científica-CLFC,
em São Paulo e, como se diz, “o resto é história”...
-Calife, idade, estado
civil, formação acadêmico-profissional, onde nasceu, cresceu e vive
atualmente e profissão?
Estou com 52 anos de
idade, solteiro, estudei engenharia mas acabei me formando em jornalismo com
especialização na área do jornalismo científico. Nasci em Niterói, do outro
lado da baía de Guanabara, cresci no Rio de Janeiro, onde passei 30 anos da
minha vida. Atualmente moro em Pinheiral, uma pequena cidade do interior do
estado do Rio de Janeiro, perto de Volta Redonda, onde encontro a paz e a
tranquilidade necessárias para o meu trabalho. Ganho a vida como tradutor,
escritor, e jornalista. Em Volta Redonda eu assino várias colunas sobre cinema,
vídeo, DVD e ciência para o jornal Diário do Vale.
-O que o atraiu inicial e especificamente pela Literatura “mais especulativa”, digamos assim? Algum autor e/ou obra em especial?
Eu nasci e cresci
durante um momento muito especial da história da humanidade, a corrida
espacial. Eu tinha sete anos quando os primeiros satélites entraram em órbita
e isso despertou em mim uma paixão pela astronáutica, a ciência das viagens
espaciais que iria influenciar toda a minha vida. Eu devo isso aos homens que
projetaram e lançaram o Sputnik 1 e o Explorer 1, o russo Serguei Koroliev e o
alemão Werner Von Braun. Um ano depois, quando eu tinha oito, nove anos de
idade, eu descobri o mundo da ficção científica graças a uma história em
quadrinhos maravilhosa, “Flash Gordon e a fortaleza flutuante” desenhada por
um senhor chamado Dan Barry que fez a minha cabeça. Eu li essa HQ em tiras que
saiam no jornal O Globo, que meu pai comprava. Fiquei com ela na memória a vida
inteira e ela influenciou muito o meu trabalho de ficção. Recentemente tive a
grata surpresa de reencontrar “A Fortaleza Flutuante” escaneada inteira num
site espanhol do Flash Gordon e pude fazer um download completo. Mais tarde, já
na adolescência, em passei dos quadrinhos do Dan Barry para os romances do
Arthur Clarke. Daí que eu posso dizer que devo tudo aos meus quatro gurus:
Serguei Korolev, Werner Von Braun, Dan Barry e Arthur C.Clarke.
-Sobre
seus escritos, qual foi a sua primeira obra ou conto publicado e onde? Alguma
repercussão?
O
meu primeiro conto publicado saiu na revista Manchete, em setembro de 1983. Foi
o “2002”, uma fanfiction que imaginava o que acontecia depois da sequência
final do “2001” do Kubrick. Esse conto teve uma repercussão tremenda, a
editora Nova Fronteira me contratou para publicar uma trilogia futurista a
partir desse conto e o meu amigo Arthur Clarke já tinha usado o mesmo conto
como base para um romance chamado “2010”que
virou até filme. Posso dizer que eu entrei no mundo da FC pela porta da frente.
-E a Trilogia “Padrões de Contato” (; N.Fronteira-1985/ Horizonte de Eventos – N.Fronteira-1986/ e Linha Terminal-GRD-1991), porquê o hiato de 5 anos para sair a última?
Demorou para escreve-la ou foi falta de editor mesmo? Neste caso, porque a Nova Fronteira “se desinteressou”?
Foi falta de editor mesmo. A Nova Fronteira
tinha um contrato comigo para três romances. Mas os dois primeiros, Padrões de
Contato e Linha Terminal venderam pouco. Aí, em 1987, a Nova Fronteira
enfrentou uma crise financeira braba devido ao fracasso nas vendas do carro
chefe deles, o dicionário do Aurélio. Com esse problema eles foram adiando
indefinidamente a publicação do terceiro livro e eu acabei rompendo o contrato
com a editora e levando o Linha Terminal para o GRD. Mas esse hiato de cinco
anos acabou sendo vantajoso porque permitiu que eu enxugasse e melhorasse
bastante o último livro da série.
-O que tem feito atualmente e quais seus novos projetos? Algum novo livro “no prelo”?
Acabei de escrever “a quatro mãos” um
livro com o meu amigo, o astrônomo Ronaldo Rogério de
Freitas Mourão, que vai ser lançado este ano pela Record. Chama “O
que é ser astrônomo” e conta como é a formação e a vida de um
profissional da área, incluindo várias histórias pitorescas sobre a vida do
Ronaldo, como a participação no projeto Apollo dos anos 60, observando uns fenômenos
luminosos estranhos que aconteciam na superfície da Lua e intrigavam os
astronautas. O Ronaldo, e outros astrônomos da rede internacional Lion,
detectavam aqui da Terra a posição desses transientes lunares, que eram umas
luzes verdes que apareciam dentro das crateras e informavam a Nasa, que
contatava os astronautas em órbita da Lua para observar de perto. Um desses
transientes, uma luz pulsante na cratera de Aristarco, foi localizado pelo
Ronaldo durante a missão Apollo 11 e verificado pelo Armstrong e o Aldrin. Também
acabei de fazer uma nova tradução do clássico “Eu Robô” do Isaac Asimov
para sair junto com o filme, pela Ediouro. Estou escrevendo novos contos para um
Sereias do Espaço 2 e uma série de livros pequenos, explicando ciência e o
Universo para crianças. Esse é um projeto da Record.
-E voce (s) já sabe (m) o que são realmente esses "transientes" lunares, as estranhas luzes nas cavernas?
Os transientes lunares parecem ter uma relação com emanações do gás radioativo radônio 222 que brota de certas regiões da Lua. Todas as áreas onde esses fenômenos fantasmagóricos aparecem, a cratera Aristarco, o vale Schoereter, são mais radioativas do que o resto da Lua. E a espectrografia dessas regiões revelou radônio 222. Mas um estudo completo e aprofundado do fenômeno só poderá ser feito quando tivermos uma base lunar. Será uma missão para o John Koenig e a Helena Russell o dia que construirem realmente a Moonbase Alfa.
Este é um argumento a favor de uma base na Lua.
-E o seu livro de contos, “As Sereias do Espaço” (GRD-1991) como foi a repercussão do mesmo?
“Sereias do Espaço” saiu em 2001 pela editora
Record e a acolhida foi muito boa. Aqui do meu lado, na estante, está a placa
do prêmio Argus, de melhor livro do ano, que o Sereias ganhou do Clube dos
Leitores de Ficção Científica. O livro também foi finalista num prêmio de
artes gráficas pelo seu design e concepção visual.
-Uma curiosidade de “gossip” mesmo, qual foi a reação da adorável jornalista Luciana Villas-Boas ao descobrir-se sua “musa”, que inspirou a “estonteante” Luciana Villares de suas estórias mais famosas?
Isso foi em 1985 e ela ficou lisongeada e
contente, sentindo-se homenageada com a personagem. Daí surgiu uma amizade que
já dura quase vinte anos. Luciana tornou-se uma grande amiga que sempre deu uma
grande força para os meus projetos, ela até lê as histórias da Villares e
faz sugestões. E hoje, de musa e modelo de personagem, ela virou minha editora.
Como gerente editorial da Record, a Luciana foi a responsável pela publicação
de meus últimos dois livros. O “Sereias do espaço” que saiu em 2001 e o
recente “Como os astronautas vão ao banheiro e outras perguntas perdidas no
espaço” (2003), um livro que faz a ligação entre a ficção e a realidade
das viagens espaciais, mostrando os segredos da vida a bordo de naves e estações
espaciais. E continuamos
trabalhando juntos, via e-mail, em novos projetos.
-E (esta é braba!) qual foi a sua reação ao se encontrar com ela pessoalmente pela primeira vez?
Eu a conhecia da televisão e ao vê-la de perto eu
descobri que era tudo aquilo que eu via na telinha e muito mais. Foi muito bom
ser colega dela no Jornal do Brasil. Porque quando eu fiz o “Padrões de
Contato” eu criei a Luciana Villares a partir de uma imagem bidimensional na
telinha da TV. Já no “Horizonte de Eventos” eu tinha a modelo de verdade,
em carne e osso e terceira dimensão, pertinho de mim, na redação do JB, para
servir de referência para a personagem. Um dia eu peguei uma máquina Nikon e
bati mais de vinte fotos da minha colega, em ângulos e poses variadas e ainda
hoje eu uso essas fotos como referência para a personagem Villares. Mas a
Luciana não foi um caso único. Eu tenho muita sorte de trabalhar cercado de
mulheres maravilhosas que adoram servir de modelo e referência para as minhas
personagens. Todas as mulheres que aparecem nos meus contos e romances não
foram criadas do nada. Foram baseadas em amigas e colegas de trabalho que sempre
me ajudaram muito na criação dessas personagens femininas. Todo mundo lembra
da Luciana porque ela é famosa, foi a primeira apresentadora do Jornal da Globo
mas eu tenho outras modelos, anônimas, que me ajudaram a criar a Angela Duncan,
a Marina Jen, a Dafne, a Gloria. É curioso porque as vezes uma amiga chega pra
mim e pede: Jorge, faz uma personagem inspirada em mim. E fica difícil dizer não.
Eu sempre tive uma facilidade maior para me relacionar com as mulheres do que
com os homens. Na vida profissional a maioria dos meus chefes foram mulheres. As
duas únicas vezes em que eu fui chefiado por homens nós nos estranhamos e
entramos em choque. Já com as chefes, as editoras, sempre foi uma maravilha.
Elas me adoram e eu adoro elas. Acho que essa empatia que eu tenho com as
mulheres vem do fato de eu Ter sido criado junto com uma irmã, dois anos mais
velha. Nós dividíamos o mesmo quarto, ela me contava os problemas dela com os
namorados e eu dava conselhos, ajudava ela a escolher as roupas para ir nas
festas. Mas as vezes as pessoas estranham isso. No Jornal do Brasil eu juntava a
minha turma e ia para o restaurante da empresa almoçar. E ficava uma coisa
esquisita, uma mesa com seis, sete mulheres, e só eu de homem no meio. Elas
sorriam e diziam: “Calife, você é o bendito fruto entre as mulheres”. E os
homens ficavam me olhando desconfiados, achando que eu era gay. Porque os
homossexuais é que tem essa facilidade de ganhar a confiança
das mulheres e
virar confidentes delas. Mas eu não sou gay, eu nunca me senti atraído por
homens. Eu gosto é das mulheres, eu vivo cercado de amigas não porque eu
deseje ser como elas, mas porque eu gosto de sentir a diferença entre a minha
personalidade, a minha visão masculina e a delas. Mas curiosamente eu nunca me
casei. Eu tive uma namorada que morria de ciúmes da Luciana. Ela dizia, “A
Luciana é que é a sua paixão, foi para ela que você dedicou um livro, fez
uma personagem baseada nela”. E a Luciana sempre foi apenas uma amiga, uma
colega, nada mais. Eu quase me casei com essa namorada, mas ela não queria
aceitar que eu tivesse outras amigas, que saisse do trabalho e fosse jantar com
minhas colegas. Um dia ela me encostou na parede e disse: “Você escolhe, ou
eu ou as suas “amiguinhas”. E eu fiquei com minhas “amiguinhas”. Acho
que eu sou como aquele personagem do filme do François Truffaut. Eu não
consigo gostar de uma mulher só, eu gosto de todas. E isso se reflete muito na
minha obra. No “Linha Terminal” tem um cara que fica preso numa nave das
Amazonas de Vega, cercado pela mulherada, e isso é uma sátira aos meus almoços
com minhas amigas. As amazonas de Vega nasceram da observação das minhas
amizades.
-Me lembrei que você também aprecia o modelismo espacial. Quais as maquetes que você tem, as que mais aprecia e a que deu mais trabalho para montar?
Olha, se eu
fosse fazer uma lista de todas as maquetes que eu tenho, dava para encher umas
três páginas. Eu tenho uns 150 modelos em escala de naves reais e fictícias
que ocupam todo um quarto da minha casa em Pinheiral e mais um barracão nos
fundos do quintal. A maquete que eu mais aprecio é um modelo pequeno, simples,
mas que eu levei vinte anos para conseguir. É o modelo da nave “Eagle”
do seriado “Space 1999” do Gerry Anderson. Eu queria muito ter essa nave do
John Koenig mas eu só consegui uma em 1999, quando o modelo foi relançado pela
AMT para comemorar a data, o “ano” da grande catástrofe na Lua. Outras jóias
da minha coleção são os modelos do ônibus espacial Orion
do filme “2001”, que eu tenho o original da extinta Aurora Plastics e um
projeto de foguete nuclear dos anos 60, o Helios Atomic Lunar Lander da Revell.
O mais difícil de montar, até hoje, foi uma maquete enorme do disco voador
C-57 D Starcruiser do filme “Planeta Proibido” que tem todo o interior
detalhado, até com a figura do robô Robby. O modelo tem mais de um metro de
largura e as pessoas ficam impressionadas ao vê-lo num canto do meu estúdio.
Elas perguntam, “Nossa, o que é isso?!” e eu respondo, “É uma maquete do
Cruzador Estelar C-57D comandado pelo Leslie Nielsen. Elas não entendem a conexão.
Dois modelos que deram muito
trabalho:A
estação espacial internacional ISS eu tive que fazer um suporte novo para ela, porque com esse pedestal da Revell ela envergava toda com o peso.
E a nave Cygnus do filme Abismo Negro, que montei ano passado mas ainda não terminei de pintar. A montagem é fácil, a pintura é um desafio.
-Sim,sim,eu já tive esta. e lembro realmente que foi muito difícil torna-la realista, através de pintura, com toda aquela superestrutura em forma de gradil sobre vidro...Como você "se arranjou"?
-Eu tenho um esquema do James Small, para pintar a Cygnus com tinta fluorescente que ela fica parecendo toda iluminada, que nem no filme. Mas dá muito trabalho
-Quem é este modelista e qual foi a "técnica"?
James Small é um dos maquetistas americanos mais conhecidos. Ele tem uma empresa de fundo de garagem, a
smallworks, que fabrica peças de resina para incrementar kits como aquela Eagle da AMT. A pintura fluorescente que ele fez para a Cygnus da MPC está documentada, passo a passo, com fotos coloridas no site
www.starshipmodeler.com/other/js-cyg.htm
Basicamente ele pintou aquelas partes envidraçadas da nave com uma base branca, em várias camadas finas com o aerógrafo, e depois de tudo seco aplicou tinta fluorescente amarela, com alguns toques de laranja, também com o aerografo. Aí é que vem a parte difícil. Small passou dias pintando a mão, com tinta preta, todo aquele gradeado que cobre as partes de vidro. O
modelo pronto está impressionante, e brilha quando iluminado com luz negra de boate. Hoje em dia, quem tem internet tem o mundo em suas mãos. Está tudo na rede.
-As maquetes importadas, como a Discovery (nave principal de “2001”), como você conseguiu?
A maioria dessas maquetes eu consegui graças a um
americano chamado John Green que tinha uma loja em Riverside, na Califórnia,
especializada em modelos raros. No começo era uma mão de obra danada. Ele me
mandava todo o ano o seu catálogo, eu escolhia o que queria e encomendava por
carta, pagando com vale postal internacional. A partir de 1995, com a Internet,
ficou muito fácil. Eu acessava o site da loja, escolhia o que queria com alguns
cliques do mouse e pagava tudo com o meu cartão Visa. Mas como tudo o que é
bom dura pouco, no ano passado o John Green fechou o negócio e nos deixou a
todos, maquetistas
espaciai
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-Sei que você também desenha, escreve roteiros para Quadrinhos. Inclusive você me mandou aquele, lembra, de uma alien-loira ameaçando astronautas numa nave. Você me mandou alguns "desenhos de pré-produção", conceituais, muito bons; eu desenvolvi outros, cheguei a rascunhar a HQ (para o Megalon), mas infelizmente outros compromissos me impeediram de continuar...Como você começou a desenhar? Auto-didatismo? E esse roteiro?
-Qual roteiro? Aquele que tinha uma loiraça que virava
mutante? Eu tenho uns desenhos que você fez desse
roteiro. Eu já fiz vários roteiros, mas nenhum virou HQ
completa, todo mundo tenta e depois desiste.
Sim, o desenho foi autodidatismo mesmo, tentativa e erro. Aos poucos eu vou aprendendo. Atualmente estou desenhando dez vezes melhor do que eu desenhava há cinco anos atrás.
Essa história de loira-alien é uma de minhas grandes frustrações. Eu tive essa idéia em 1988 e, como eu era péssimo desenhista naquela época eu pedi ao Roberto Causo que fizesse uma ilustração para mim.
Depois você fez outra versão, muito melhor que a do Causo.
Mas eu acabei não publicando o conto e uns americanos tiveram a mesma idéia e fizeram o filme
(Species) com uma tal de Natasha Henstridge. Hoje não tem mais graça publicar o conto porque todo mundo vai dizer, ah ele tá imitando aquele filme da Experiência. Mas eu tenho o esboço do Causo, datado de 1988, pra mostrar que eu tive essa idéia primeiro.
Estou te enviando os esboços originais para as capas de Padrões de Contato e Sereias do Espaço, meus desenhos da Luciana Villares e tem um desenho curioso, de uma simbionte nua, que eu fiz em 1994 e que foi o único desenho meu em que eu usei uma modelo viva. Eu tinha uma namorada, a Ligia, uma mulher de 36 anos e físico exuberante, e ela posou para esse nu da personagem Nicole. Ficou uma andróide de formas opulentas que é um dos desenhos mais realistas que eu já fiz. Também, com modelo viva não vale.
-Você manteve algum contato com os ilustradores das capas de seus livros?
Infelizmente não tenho contato com o ilustrador do Sereias do Espaço. Nunca fomos apresentados. É uma coisa insólita, porque essa parte gráfica a editora decide sozinha, sem pedir a colaboração do autor, mas eu acho que o César Lobo, que foi o ilustrador do Sereias, se saiu muito bem, fazendo tudo a partir das descrições do livro, sem ter contato algum com o autor.
-Sim, o Lobo é muito bom. É outro
de meus "Procurados". Você ainda mantém contato com Cláudio Egalon, o
físico-engenheiro de Volta Redonda -RJ, que trabalhou para a NASA e com o qual você foi co-autor
do excelente livro "Espaçonaves
Tripuladas"- um dos meus
próximos entrevistados?
Faz um ano que eu não vejo o Egalon, ele saiu da Nasa, trabalhou numa empresa americana e ultimamente tava desempregado, procurando emprego em universidades.
-E o cineasta Adnor Pitanga, que chegou a me enviar um projeto interessante de um filme de FC tendo como cenário uma Brasília "pós-apocalíptica" (nuclear), acompanhado de vários "desenhos de pré-produção e conceituais" de sua autoria, sabe do paradeiro dele?
O Adnor também sumiu. Ele foi diretor da Embrafilme no governo do Sarney, depois o Collor acabou com tudo e ele sumiu.
O que aconteceu com o roteiro do Adnor, já aconteceu antes. Alguém me pede uma idéia para um filme, eu dou um conto, aí a pessoa não sabe desenvolver o conto e fica uma coisa sem pé nem cabeça.
-Vamos
ver se consigo (re)contatar e entrevistar o Pitanga. Mas, voltando à literatura
e FC, como renomado escritor de Ficção Científica, como você acha que seria
realmente um alienígena? Tanto física, como (e principalmente)
“psicologicamente”?
Bom,
os alienígenas podem ser, basicamente, de dois tipos. As criaturas biológicas
como nós, e os robôs e computadores inteligentes que poderiam resultar da
evolução das máquinas em mundos distantes. Os seres biológicos vão ser bem
diferentes de nós, a natureza é muito criativa. Aqui na Terra, todos os seres
vivos tem o mesmo DNA, a mesma composição química básica e descendem dos
mesmos organismos unicelulares primitivos. E no entanto surgiram milhares de
formas e de designs diferentes. Girafas, medusas, tigres, águias, tubarões,
gazelas, borboletas, homens. Daí que eu acho uma falta de imaginação essas
histórias com extraterrestres humanóides, com duas pernas, dois braços e uma
cabeça com dois olhos e uma boca, como se fossem descendentes dos primatas
terrestres. Também é improvável que os extraterrestres sejam monstros
repugnantes e gosmentos, como os aliens do cinema. Como eu disse no meu livro,
se algum dia toparmos com um extraterrestre, veremos em sua forma a mesma
simetria e beleza comum em todas as criações da natureza. Uma simetria que é
ditada pela funcionalidade. O habitante de um sistema solar distante pode ser
colorido como uma borboleta, esperto como uma raposa, elegante como uma gazela,
majestoso como um leão. E ficaremos admirados com sua forma e seu colorido,
sentindo a mesma coisa que sentimos ao olhar uma rosa ou uma medusa dos mares
tropicais. Isso os seres biológicos. Os robôs poderão ser espaçonaves vivas,
ou cristais, como o monolito negro. Psicologicamente é pouco provável que eles
tenham a agressividade e o instinto territorial dos primatas terrestres. O
homem, o macaco, o lôbo e o cão são seres agressivos porque tem o instinto de
marcar e defender um território. Mas nem todos os seres inteligentes são
assim. Os golfinhos por exemplo não demarcam nem defendem territórios, eles
compartilham todo o espaço oceânico com outros membros de sua espécie. Exércitos,
guerras e conquistas seriam noções desconhecidas para uma civilização de
E.T.s como os golfinhos. O instinto de caça, de perseguir e abater uma presa,
também seria desconhecido de seres que não fossem caçadores carnívoros. Um
organismo fotossintético, e não há nada que impeça a existência de
extraterrestres capazes de sintetizar seu alimento a partir da luz, como as
plantas, não teria agressividade. Eu acho que o Larry Niven, um autor que eu
aprecio muito, tem razão. Aí pelas galáxias devem existir tanto seres pacíficos
como os golfinhos quanto guerreiros instintivos como o homem e o cão. Agora
quanto ao primeiro contato, eu acho mais provável que façamos contato com
sondas programadas para se entenderem conosco. Como naquele filme de Jornada nas
Estrelas, da Ilia, em que a inteligência extraterrestre cria uma réplica da
mente e do corpo de uma mulher para servir de ponte entre ela e os humanos. Não
acho que vamos falar diretamente com os extraterrestres e sim com os seus emissários,
sondas programadas para lidarem com a psicologia humana.
-A boa FC transpira um senso de absurdo mas consegue simultaneamente falar de seres e civilizações extraterrestres com eficiência, ou seja, “suspender a incredulidade” – requisito imprescindível a todo escritor. Mas por incrível que pareça ( e olha que eu leio bastante), ainda não me deparei com uma FC que fosse suficientemente “realista” ao tratar de um contato de terceiro grau. E você?
Eu acho que há boas histórias de contatos
de terceiro grau, com extraterrestres bem convincentes. Eu citaria, entre meus
e.t.s favoritos da ficção a Vegana do Robert Heinlein (Have spaceship will
travel), as octoaranhas e os avianos do Rama 2 do Clarke , a Nuvem Negra do Fred
Hoyle, o oceano inteligente de Solaris (Stanislaw Lem), a “coisa” do Joseph
Campbell e, meu e.t. mais querido, que é o Starholmer das Fontes do Paraíso do
Clarke.
-Quais foram os eventos
mais importantes que já ocorreram em sua vida?
Bom, os fatos mais memoráveis
que eu vi ou vivi, foram os primeiros vôos espaciais do Gagarin e do Shepard, a
chegada do homem na Lua, em 69, o contato com o Clarke, amizades memoráveis com
pessoas como a Luciana Villas Boas, a publicação dos meus livros, a realização
profissional como jornalista. Ter tido o privilégio de ser um escritor de ficção
científica e participar da criação desta mitologia moderna que envolve
pessoas de muitos países diferentes num esforço de criação coletiva. Isso é
maravilhoso. Eu acho que eu sou muito feliz por viver cercado de pessoas
maravilhosas numa época muito empolgante da história da humanidade. Acho que
eu seria uma pessoa frustrada se eu tivesse nascido no século dezoito ou
dezessete. Eu nasci na época certa, na aurora das viagens espaciais, no momento
em que a humanidade molhou os pés na praia do oceano celeste. Num tempo em que
as fronteiras do espaço e do tempo estão sendo desbravadas. Só isso já foi
maravilhoso.
-E atualmente, o que lhe é realmente imprescindível, seminal?
A paz e a quietude da
vida no interior. Poder passear com o meu cachorro de noite, sob a luz da lua e
das estrelas, pelas trilhas do campo. Ver as estrelas cadentes e os eclipses da
Lua num céu sem poluição. Acordar com os pássaros cantando no pomar do
quintal. Andar no meio da névoa nas manhãs de inverno vendo a geada sobre as
folhas das plantas. Sentar em casa de noite e rever meus filmes e seriados
favoritos em DVD. Isso não tem preço.
-Conte-os com detalhes, Calife – certamente não é a primeira vez, mas não me lembro de ler lido toda a “história” – como seu deu esta sua importante “influência” sobre o mestre Clarke, para ele continuar seu clássico “2001” ?
Acho que eu vou Ter que
repetir essa história pelo resto dos meus dias. Vamos lá. Foi em 1977, quando
a revista Omni publicou uma grande entrevista com o Arthur no Ceilão. E na
entrevista ele dizia que “As Fontes do Paraíso” era o seu último romance,
que ele não tinha mais nada a dizer e ia dedicar o resto de sua vida a aprender
a tocar piano e fotografar os recifes de coral do Sri Lanka. Eu tinha adorado
“As fontes do Paraíso” e não queria perder meu escritor favorito. Aí eu
escrevi uma carta para ele, pedindo que ele reconsiderasse a decisão e mandei
na carta um resumo de um conto que eu tinha escrito imaginando uma sequência do
2001. E eu concluia: Se eu posso imaginar uma sequência do 2001 o senhor pode
fazer muito mais criando novos mundos com sua imaginação. Eu não tinha o
endereço do Arthur, mas sabia que ele morava na capital do Sri Lanka, num
bairro chamado Cinamon Gardens. Daí mandei a carta para esse endereço vago, Só
com a cidade e o bairro, sem o número e o nome da rua. Eu calculei que o
carteiro saberia de cor o endereço do morador mais ilustre. Estava certo, o
correio entregou a carta, e dois meses depois eu recebi um bilhete do Arthur
Clarke onde ele dizia que não queria mesmo escrever novos livros, mas que as
minhas idéias para uma sequência do 2001 eram tão boas que ele se sentia
tentado a mostrá-las para o Stanley
(Kubrick). Na resposta ele me mandou o
endereço dele, com rua, número e tudo. E eu escrevi nova carta dizendo que ele
podia mostrar a minha sinopse para o Stanley, sem problema algum, e mais ainda,
se ele quisesse aproveitar alguma daquelas idéias eu não fazia nenhuma objeção.
Elas não tinham utilidade para mim, ele podia usá-las sem qualquer ônus.
Passaram-se dois anos e em 1979 o editor dele, Scott Meredith me mandou uma
carga comunicando que o Arthur tinha resolvido escrever uma continuação para o
2001 e que ia usar as idéias que eu “tão gentilmente cedera”. Acho que ele
estava com medo de eu mudar de idéia. Eu dei as minhas bençãos e assim eu e o
Clarke voltamos a trocar correspondência durante toda a produção do livro, e
depois do filme. Eu até sou citado no livro “Odyssey File” que o Clarke
publicou sobre a correspondência dele com o diretor Peter Hyams. Eu tinha
notado um erro no “2010”, quando eles abordavam a Discovery, o Curnow e o
Braylovski encontravam dois trajes espaciais na garagem de cápsulas. E, eu
chamei a atenção do Arthur, de que aquele detalhe estava errado. Havia três
roupas espaciais, uma vermelha, perdida com o Dave Bowman, uma amarela, perdida
com o Frank Poole, e uma azul, que foi a única que ficou. E ele pediu ao Peter
Hyams que corrigisse esse detalhe no filme.
-Você ainda mantém contato com ele? Sabe de algum novo “projeto” dele?
Eu sou uma das
poucas pessoas no mundo que conhece um segredo muito bem guardado. O e-mail do
Arthur Clarke. Mas eu só uso em situações de emergência. Uma delas foi em
1999, quando eu estava jogando o jogo de computador “Rama”, baseado no
romance “Rama 2” do Arthur e do Gentry Lee. E na última fase eu não
conseguia desarmar a bomba nuclear. Eu tinha o código, a sequência de números
primos, mas o computador não aceitava. Aí mandei um e-mail pro Arthur dizendo.
“Olha, Rama vai explodir, eu tenho o código mas a bomba não desarma.” E o
Arthur respondeu que ainda não tinha chegado naquela fase do jogo. Ele quase não
escreve mais, mas dá muitas entrevistas e vive participando de debates. Teve um
ano passado dele com o Edwin Aldrin. O Aldrin defendendo o projeto da base lunar
e o Clarke achando que o melhor é gastar todo o dinheiro numa missão a Marte.
Foi muito divertido. Teve um momento em que o Arthur disse: “É melhor ir para
Marte, na Lua não tem nada!” E o Aldrin respondeu. “Como é que você sabe?
Você nunca esteve lá, eu estive lá!”. Clarke também participa do projeto
Encounter que vai lançar uma sonda com DNA humano para ser clonado por possíveis
extraterrestres. Ele cedeu um fio de cabelo dele para ser colocado na cápsula,
que subirá no cone de um foguete Ariane.
-Certamente você não participou, até pela idade, mas o que sabe sobre o famoso, inusitado e insuperável II Festival Internacional do Filme do Rio de Janeiro, que teve a presença de várias sumidades da FC mundial e no qual Clarke foi agraciado com o “Monólito Negro”?
Eu só sei o que fui
publicado. Eu tinha dezessete anos na época, era um estudante enrolado com as
provas e vivia sem dinheiro. Esses festivais e palestras eram eventos de gala, e
se a pessoa não recebesse convite tinha que pagar caro pelo ingresso. Daí que
eu não fui. Mas li as palestras num livro que foi publicado depois. E o relato
do José Sanz sobre como ele serviu de cicerone para o Clarke no Rio de Janeiro.
Naquela época eu nem sonhava que um dia ia ser “colaborador” do Clarke.
-Sabe do “paradeiro” do José Sanz, um dos organizadores e entusiastas do evento?
Eu não tenho
certeza, mas acho que o Sanz já faleceu. Eu me lembro vagamente de ter lido um
obituário dele em algum lugar há uns cinco ou seis anos atrás.
-O que nos diz do livro
“Mundos Perdidos de 2001” (Editora Expressão e Cultura, RJ, 1973)?
Qual idéia mais fantástica dos prováveis desdobramentos e alternativas
à 2001 você considera nesta obra incrível?
O “2001: uma odisséia no espaço”
é um filme maravilhoso, mas é um filme frustrado, um filme incompleto. Porque
o Stanley Kubrick não conseguiu filmar cinquenta por cento de tudo o que ele e
o Clarke tinham imaginado. Eu tenho o roteiro original do “2001”, antes dos
cortes e alterações e posso dizer que era muito mais fantástico e
espetacular. O problema é que em 1965, com a tecnologia daquela época, só
dava para filmar cinquenta porcento daquele roteiro. Hoje dava para fazer tudo.
Várias idéias interessantes foram abandonadas. E outras ficaram truncadas,
confusas, entre elas a idéia da bomba atômica como ameaça e redenção da
humanidade. Quando o macaco atira o osso para o alto, e o osso vira um satélite
em órbita, num dos mais belos cortes da história do cinema, a platéia só
capta uma parte da mensagem original. Aqueles satélites em órbita da Terra, no
final da “Aurora do homem”, são plataformas militares, armadas com bombas
de mil megatons. Se você reparar, e com o DVD dá para ver isso muito bem, cada
satélite daqueles tem o emblema de uma força aérea. O primeiro é da Força Aérea
americana, o segundo da Força Aérea alemã. Os três seguintes são da França,
China e Rússia. Porque o roteiro original imaginava que no ano 2001, todas as
potências nucleares do mundo teriam trocado seus arsenais primitivos por bombas
orbitais de mil megatons. Prontas a cairem sobre um agressor em caso de ataque.
Mas nesse mundo, cercado por megatons orbitantes, a bomba atômica vai ser também
a salvação da humanidade. No roteiro original a Discovery, a nave que leva o
homem para a transcendência, é uma nave do projeto Orion. O Orion foi um
projeto do Laboratório de Los Alamos, de uma nave movida por explosões atômicas
sucessivas, que deixou o Kubrick entusiasmado. O roteiro que eu tenho descreve a
Discovery se afastando da Terra, impulsionada por uma explosão atômica a cada
minuto. A nave vai para Saturno e não Júpiter, onde o monolito negro gigante
aguarda o Dave Bowman no meio dos anéis de gelo circulante. Infelizmente esses
conceitos fizeram o departamento de efeitos especiais entrar em crise. Anéis de
Saturno! Bombas atômicas explodindo na cauda da Discovery! um
monolito gigante entre cristais de gelo flutuantes. E o roteiro foi modificado.
A Discovery virou uma nave mais “convencional” movida a plasma, o planeta
alvo tornou-se Júpiter, e tudo o que restou no filme, dessas idéias originais,
foram as bombas orbitando a Terra e o nome Orion, dado ao ônibus espacial que
leva Floyd para a roda espacial. Antes de morrer, Kubrick pensou em fazer uma
versão moderna para a sua obra prima, estimulado pelas novas cenas de computação
gráfica, que o George Lucas tinha inserido em Star Wars. Ele queria manter
inalteradas as cenas com atores do “2001”, mas acrescentar novas cenas, de
computação gráfica, mostrando algumas de suas idéias
originais para o encontro do Bowman com o monolito e sua viagem as estrelas.
Infelizmente Kubrick morreu antes de implementar esse plano, e tudo o que restou
foi o relato do Clarke no livro que você cita, “Os mundos Perdidos do
2001”. Mas cada vez que eu releio aquele roteiro original eu penso: Que filme
fantástico não teria sido. (..Duas das plataformas de bombas nucleares orbitais de 2001: A space odyssey. A primeira é americana, repare no emblema da US Air Force na base da torreta. A segunda é alemã, repare na bandeirinha na torreta e a cruz da Luftwaffe no corpo da ogiva MIRV. Von Braun deve ter projetado essa. Veja essa imagens ao som do Danúbio
Azul...JLC)
-Caramba! Quer dizer que tu tem o roteiro original,sem cortes, de "2001", este verdadeiro ícone da FC do século XX?
O roteiro original do 2001 não é nenhuma propriedade particular. Tá na internet para quem quiser baixar, mas é um arquivo meio pesado, são dezenas de páginas. Eu baixei sem problemas lá do Diário do Vale porque lá eles tem internet via rádio. Mas não custa nada você tentar.
Vá no site do 2001, é www.palantir.net/2001
, depois que abrir a página principal clique em "meanings" que o roteiro está lá.
-Além de 2001, qual obra do veterano autor você considera igualmente “perfeita”?
Eu gosto muito de “A
cidade e as estrelas”, talvez a obra-prima do Arthur e de “As fontes do Paraíso”.
-Eu já ficaria “em segundo”, como “O Fim da Infância” e seu final epifânico-apoteótico-quase- místico...Na época eu não pensava assim, mas você não acha as obras de Clarke levemente “frias”, desprovidas de conteúdo humano, digamos assim, que realmente emocione em termos de criação psicológica das personagens? (sim, pois emoção não falta em 2001 e, também, em “Encontro com Rama”)
O Clarke tem um talento único que é a capacidade de dar vida a coisas
inanimadas, de fazer o leitor se emocionar com a descrição de um planeta, de
um oceano, de uma criatura
extraterrestre. Os críticos ficam cobrando mais profundidade nos personagens
mas eles se esquecem de duas coisas. Primeiro, a ficção científica é uma
literatura de idéias onde os personagens devem ser apenas os condutores da
narrativa. A função deles é fazer a história prosseguir, descobrir coisas,
analisar fatos. O resto é supérfluo. E nos romances do Clarke o homem é
apenas um coadjuvante. No “2001”, por exemplo, os personagens principais não
são o Dave Bowman ou o Heywood Floyd, os personagens principais do “2001” são
o Hal, os monolitos negros, a nave Discovery. Mas o Clarke ficou dando ouvido
aos críticos e isso prejudicou muito o trabalho dele. Em 1973 ele escreveu o
romance “Encontro com Rama”, que tem uma narrativa perfeita, enxuta, que
lembra os romances de viagens a lugares fantásticos do Júlio
Verne. E os
personagens recebem apenas nomes e nada mais. O pas
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-Ah!
Não posso de deixar de destacar também o sensacional "mangaká" de
Yokinobu Hoshino (Cadence Books), a trilogia "2001 NIGHTS", uma
das mais bonitas homenagens à obra imortal de Arthur Clarke, a qual até te
mandei alguns xeroxes uma vez...Qual o rumo você vê a FC tomando na nesta
primeira década do século XXI?
Como
forma literária a FC já tem mais de um século e ela tem se mantido com suas
características básicas ao longo das décadas, porque ela é a literatura da
mudança. Que explora as perspectivas abertas pelo progresso tecnológico e as
mudanças que vão acontecendo em cada geração. É possível determinar em que
época foi escrita uma determinada obra de FC pelos temas, pelas preocupações
expressas pelo autor na obra. Nos anos de 1950, por exemplo, tudo girava em
torno da energia atômica, do medo da guerra nuclear e dos mutantes. Nos anos 60
foi a conquista espacial, nos anos 70 a ecologia. De vez em quando surgem modas,
a “new wave” nos anos 60, que procurava fazer uma FC preocupada mais com o
estilo do que com as idéias, como a literatura mainstream. O “cyberpunk”
dos anos de 1980, que explorava o tema da informatização do mundo e da
realidade virtual. Mas as modas passam e a ficção científica fica. Ainda é
cedo para prever qual vai ser o tema dominante, a preocupação dos autores nas
próximas décadas. Talvez as promessas e ameaças da biotecnologia e da genética.
-O que você pensa dos atentados terroristas do 9/11 e em Madri recentemente? Lembra-se de alguma FC que “previu” estes acontecimentos e “clima” para o mundo?
Como eu expliquei para a moça da TV Bandeirantes,
que me entrevistou no dia seguinte do 9/11, o tema dos terroristas, das organizações
criminosas internacionais, não pertence ao gênero ficção científica. Essa
é a praia dos autores de romances de espionagem, como o Ian Fleming, dos
technothrillers do Tom Clancy. Numa leitura superficial o Osama bin Laden parece
a realização de um sonho dos autores de quadrinhos e de pulp fiction. O doutor
Fu Manchu, o gênio do mal que vive oculto numa caverna, nas montanhas do
Oriente, arquitetando o fim da civilização ocidental. A diferença é que
tanto o Fu Manchu do Roemer quanto o Dr.No do Ian Fleming eram realmente gênios.
Mentes super-poderosas capazes de criar armas fantásticas e arquitetar esquemas
diabólicos para dominar os seres humanos. Já o Osama bin Laden é um vilão tão
desastrado que me lembra mais o doutor Noeh, interpretado pelo Woody Allen na
deliciosa sátira ao James Bond, “Cassino Royale”. As ações dele
prejudicam mais seus amigos do que seus inimigos. Com os atentados do onze de
setembro o bin Laden conseguiu derrubar o governo islâmico do mulá Omar no
Afeganistão, botou o Saddan Hussein na cadeia e transformou o George W. Bush,
de um presidente medíocre, que era motivo de piadas entre os americanos, num líder
guerreiro, um herói nacional. O que equilibra um pouco a coisa é que o Bush
também é muito burro e deu um tiro no pé com a invasão do Iraque, que não
tinha nada a ver com o onze de setembro. Agora a única chance do Bush ficar
mais quatro anos na Casa Branca é se a al Qaeda fizer um novo atentado. Porque
o discurso do Bush é todo montado em cima de uma ameaça terrorista permanente.
Se os terroristas sumirem ele perde o emprego. De um modo
simplificado, o que o
Bush diz aos seus eleitores é mais ou menos o seguinte: “A América é hoje
um país sitiado por inimigos terríveis. Vocês não precisam de um presidente
da república, vocês precisam de um líder guerreiro, um senhor da guerra que
vai exterminar os terroristas e livrar a América do mal. Votem num democrata
pacifista e vocês estarão perdidos. Votem em mim e eu os conduzirei a vitória.”
Tudo isso me lembra um romance de ficção científica que eu li há muito,
muito tempo, chamado “A marcha dos idiotas”. Era sobre um mundo do futuro
onde o quociente de inteligência da humanidade despencava e tudo nesse mundo, a
programação da televisão, o discurso dos políticos, o sistema educacional
era feito para idiotas. As vezes eu acho que estou vivendo nesse mundo. Osama
bin Laden e George W.Bush são líderes idiotas para um mundo de idiotas.
-Você sabe que neste site, muita coisa
praticamente gira em torno do cultuado autor e roteirista inglês Alan Moore.
Que ele foi o criador da obra From
Hell , para os Quadrinhos, depois desperdiçada
por Hollywood. E que ele,” para vencer a crise existencial dos 40
anos”, resolveu se tornar um mago. Estudou muito Aleister Crowley, Austin
Osman Spare, participou de experiências e acontecimentos no mínimo
“fora-do-script”, como ele gosta de descreve-los. Você acredita na
Magia, na Cabala e outros desdobramentos, ou tenta também - como o James
Randi tupiniquim, Padre Oscar Quevedo - "explicar tudo à luz da
Parapsicologia" ?
Eu sou da linha ateu-materialista do Carl Sagan e
do Karl Marx. Pra mim tudo tem uma explicação científica.
-Sei que você tem uma formação eclética, se podemos definir assim.O que pensa da Magia?
Arthur Clarke diz
que magia é toda tecnologia suficientemente avançada que a gente não entende.
Um telefone celular na Idade Média seria considerado um artefato mágico, uma
coisa do demônio. Eu acho que todos esses fenômenos mágicos e paranormais
poderão ser explicados e entendidos o dia em que tivermos um conhecimento maior
do cérebro e de certas forças da natureza. Na semana passada eu revi em DVD um
episódio do seriado “Space 1999” do Gerry Anderson, que representa bem o
meu ponto de vista. Chama-se “O Fator Lambda”. Nesse episódio a base lunar
Alfa se aproxima de um fenômeno cósmico, de uma nebulosa energética, que
emite ondas lambda. Ondas que interferem com o cérebro humano, amplificando
certos poderes normalmente latentes. E a base lunar vira o caos com as pessoas
afetadas provocando fenômenos de poltergeist, fazendo coisas voarem com
telecinese. E o mais prejudicado é o comandante John Koenig. Ele adquire o
poder de materializar fantasmas, espectros de amigos dele que morreram numa missão
espacial e o acusam de tê-los abandonado no espaço. E o herói quase
enlouquece com essas visões, até que sua amiga, a doutora Helena Russel,
mostra para ele que os fantasmas são apenas projeções da mente dele,
superativada pelas ondas lambda. E a Helena faz um exorcismo tecnológico,
criando até uma blindagem contra as ondas mentais. Isso é ficção científica
claro, mas sugere muito bem como a mente humana pode criar espectros, visões,
ilusões, e afetar o mundo ao seu redor de modos que ainda não compreendemos
muito bem. Mas um dia chegaremos lá e o que hoje é Magia será tecnologia.
Tecnologia mental extra-sensorial se quiser.
-Você também curte Quadrinhos? Quando foi seu primeiro contato com o trabalho de Alan Moore e qual obra lhe causou algum impacto especial?
Eu leio pouco quadrinho. Uma mini-serie que eu gostei muito e comprei todas as quatro revistas foi da
Fathom, uma super-heroína aquática. Tem um visual lindo.Eu conheço muito pouco a obra do Alan Moore.
Eu tenho os Watchmen, acho um trabalho impressionante mas eu conheço muito
pouco a obra do autor para poder opinar a respeito com segurança.
-Como você concebe o Tempo? A quarta dimensão espacial einsteiniana ou algo mais?
O Tempo é uma dimensão
que ainda não foi suficientemente explorada ou entendida pelo Homem. A teoria
do Einstein mostra o tempo como uma coisa interligada a curvatura do espaço e dá
dicas de como poderíamos usar melhor essa dimensão. Mas ainda estamos
engatinhando nessa nova fronteira. É uma das grandes áreas a serem exploradas
pela física do novo milênio.
-O físico britânico Stephen Hawking considera o tempo como um sólido, onde tudo esta´se passando simultaneamente, portanto, se pudéssemos “se examinados” por um ser “fora do tempo”, ele nos veria como uma gigantesca centopéia, com milhares de pernas e braços e cabeças, se esticando desde de um bebe ate´ um velhinho, por todos os lugares – e tempos – por onde já passamos – mais ou menos como Kubrick tentou visualizar no antológico final de seu “2001”.Como você imagina um ser ou objeto(como o Tesserato)da QuartaDimensão? (se pudesse aparecer a nós, pobres materializações tridimensionais que somos )
Nós
não poderíamos ver uma criatura quadridimensional em sua totalidade. Ela nos
pareceria na forma de fatias, de segmentos. Exatamente como uma esfera
tridimensional vira uma série de círculos ao ser projetada num plano
bidimensional. E nós, sêres tridimensionais só poderiamos ver criaturas e
coisas quadridimensionais como projeções na terceira dimensão.
-Você acha que nossa incapacidade de “enxergar dimensões mais elevadas”e´ um problema relacionado unicamente a nossa condição humana ou também envolveria algum aspecto espiritual – na falta de um termo mais “neutro”?
É a condição humana. Nós vivemos na terceira dimensão e só podemos visualizar dimensões mais elevadas através de modelos, de simulações virtuais.
-Você acredita que algum dia teremos realmente condição de
construir a proverbial “máquina do tempo”?
Acho que sim, a
tecnologia caminha para isso. Mas a distância que existe entre os projetos
atuais e uma máquina do tempo funcional é a mesma distância que separa os
projetos de máquinas voadoras do Leonardo da Vinci do Concorde. Já temos a
teoria, mas a tecnologia, vai levar muito, muito tempo. Há 3 tipos básicos de
máquinas do tempo. A que usa wormholes, a que usa órbitas de Godell e a que usa raios
laser. A última é a mais próxima do
nosso horizonte tecnológico. Um wormhole pode ser um túnel do tempo, mas para
mantê-lo aberto e estável você precisa de coisas como matéria estranha e
energia negativa que os físicos suspeitam que existe mas nunca viram. É a
tecnologia do ano 3001. Mas é possível que uma civilização mais antiga já
tenha construído um metrô espaço-temporal que nem aquele do livro
“Contato” do Carl Sagan. A máquina de Godell depende de um tipo especial de
curvatura de espaço-tempo que uma nave percorre, viajando para o futuro ou o
passado. É a órbita descrita pela espaçonave do filme “Fuga do planeta dos
macacos”. A máquina do tempo movida a raio laser é um projeto do físico
americano Ronald Mallett da universidade de Connecticut.
Ele quer usar um feixe laser circulante, um anel de luz para agitar o
espaço-tempo até criar uma dobra espaço temporal que unirá duas épocas
diferentes. Num primeiro protótipo ele vai fazer uma máquina capaz de mandar
partículas atômicas para o passado. Se funcionar ele vai tentar coisas maiores
do que partículas atômicas. É uma idéia interessante porque não exige
nenhuma tecnologia mirabolante, tipo wormholes estabilizados. É só um laser de
anel, que existe em qualquer laboratório de física avançada.
-Mas não é incongruente, no mínimo, que, se elas realmente serão inventadas no futuro, próximo ou longínquo, nunca tenhamos sido visitados por uma destas, “estudando o passado”?
Quem garante que
não? Os OVNIs podem muito bem ser sondas de um futuro distante. Viajantes do
tempo serão pessoas muito discretas, eles vão evitar fazer qualquer coisa que
provoque um paradoxo temporal. Uma pessoa que passa por você na rua, ou senta
ao seu lado no ônibus pode muito bem ser um visitante de outra época. Afinal,
se eu entrar numa máquina do tempo para visitar a Roma antiga eu vou Ter o
cuidado de me vestir como romano, aprender latim, e ocultar a minha verdadeira
identidade enquanto estiver lá. Ave César!
-O que você pensa do fenômeno OVNI?
Há muitos relatos interessantes que mereciam uma investigação.
Mas, como no caso dos círculos nas plantações, houve tantas fraudes que os
pesquisadores sérios se afastaram desse campo. Talvez alguns casos de OVNIs
sejam sondas enviadas de outros universos ou de outras épocas. O futuro começou
ontem, em janeiro de 2001, não podemos Ter resposta para tudo em apenas quatro
anos de século 21. O tempo dirá.
-Inclusive há a teoria escatológica mirabolante do falecido
Terence McKenna que, em 2012, cessará o tempo como
o conhecemos. Ele estudou calendários maias que só vão até essa data,
desenvolveu um gráfico de computador que mostra a velocidade com que as
novidades tem ocorrido no planeta e, por incrível que pareça, elas também
atingem um ápice nesta data – como se, numa propagação em “ramalhete
fractal”, mesmo os cada vez menores interregnos entre os graus de obsolescência
da informática, se aproximassem do “tempo-zero” nessa data. A interpretação
dele é que, em 2012 finalmente algum “laboratório secreto” realizará a
primeira experiência concreta de “romper o tecido do tempo”. E mais: que só
poderíamos “voltar no passado”até a data da invenção da máquina do
tempo. Curioso, não?
Essa turma do fim do mundo não desiste. Primeiro era o
Nostradamus, o mundo ia acabar em 1999, “de mil passarás, a dois mil não
chegarás” dizia uma profecia. E o século 21 chegou e não aconteceu nada.
Curioso que ninguém mais fala em Nostradamus hoje em dia. Agora é o calendário
Maia. Eu tinha uma agenda com um calendário que só ia até 2002, mas nem por
isso eu achava que o tempo ia “acabar” em 2002. Essa limitação de só
voltar no tempo até a data da construção da máquina só afeta a máquina de
wormhole. Ela depende do ponto no tempo e no espaço que você ancora uma das
bocas do wormhole. A máquina de Godell e a de anel laser não sofrem essa
limitação.
Não daria tempo de sentir nada. Um asteróide grande assim
derreteria a crosta da Terra transformando tudo num mar de lava. Mas mesmo que a
crosta se mantivesse, a onda de choque do impacto agitaria tudo como um grande
forno de microondas, cozinhando todos os seres vivos instantaneamente. John
Baxter descreve isso muito bem no romance “The Hermes Fall”. No livro o
asteróide Hermes cai no meio do oceano Atlântico e a onda de choque atinge
primeiro um avião jumbo 747 da British Airways. Dentro do avião tem uma aeromoça
se preparando para servir uma dose de champanhe para um passageiro da primeira
classe. Nas palavras do John Baxter: “A garrafa na mão da aeromoça virou uma
poeira brilhante. Os ossos na mão que a segurava tornaram-se cascalho. Como o
branco de uma clara de ovo cozida o fluido dos globos oculares dela se
solidificou. Toda a carne de seu corpo, e de todos os outros passageiros, virou
churrasco. E a medida em que cada junta vibrava separadamente o avião virou uma
coleção de peças soltas caindo numa chuva de metal em direção ao oceano”
E tem gente que acha que a pesquisa de Near Earth Objects é
dinheiro jogado fora.
-Nós quase sempre pensamos na Física e Espiritualidade
(para não dizer Religiosidade) como excludentes. Você acha que se a Física Clássica
não precedesse a Quântica, pensaríamos diferente como preconizado na
verdadeira obra de paradigmas que representou o livro “O Tao da Física”,
seguido por “Ponto de Mutação”de Fritjof Kapra? Ou mesmo na tendência
verificada pelo teorizado “A Gnose de Princeton” (Editora Pensamento).
Sem Newton não haveria Einstein nem Planck. Não dá para
Ter física quântica sem física clássica, porque o conhecimento depende de
uma evolução tecnológica que é cumulativa.
-O que você pensa das “supercordas”e dos “universos
paralelos”?
São teorias interessantes, mas por enquanto são só
teorias. A Ciência é diferente da Religião. Na Religião você tem que Ter fé
em dogmas estabelecidos, você precisa acreditar. Na Ciência você cria uma
teoria mas ela só vale se for comprovada pela experimentação. A relatividade
de Einstein é a base da Física moderna porque ela foi comprovada por uma série
de experimentos envolvendo dilatação do tempo e desvio da luz por campos
gravitacionais. O desafio para os físicos teóricos será sempre provar que estão
certos como Einstein provou. Ciência não é filosofia. Você tem que testar a
teoria no campo. Senão não fale.
-O renomado físico e cosmologista (por Cambridge e Princeton) João Manqueijo, acredita Ter derrubado a dogmática “impossível de ser ultrapassada velocidade da luz einsteniana de 3 x 106 metros/segundo”, ao pressupor uma velocidade que seja “dependente da energia e do continuun espaço-tempo”, a sua denominada “velocidade da luz variável”. Como você encara essa nova teoria? Ela não conflita com o modelo e a mecânica do “big-bang” e seu universo inflado?
Como eu disse aí em cima, não adianta teorizar, tem que
provar. Me mostre as experiências de campo que provem a existência de fenômenos
mais velozes do que a luz.
-Você acha que algum dia teremos a “Teoria do Tudo”
reunindo o “campo unificado” de Einstein, o Holismo, e etc?
Tudo é possível, mas essa aí é mais difícil do que a máquina
do tempo.
-Já leu alguma explicação convincente para os famosos “crop circles” em campos da Inglaterra?
Não. Teve uma equipe de uma estação de TV que se escondeu
num milharal para flagrar a formação de um círculo e flagrou umas pessoas
fazendo um círculo, mas isso não prova que todos os círculos sejam fraudes,
assim como ninguém prova que todas as aparições de OVNIs sejam fraudes ou
ilusões de ótica.
- Sei que você é exímio jogador e conhecedor dos games de
computador, principalmente os de simulação. Quais os que reputa realmente como
“quase perfeitos”, em todos os pontos? (nivel de dificuldade, realismo dos
gráficos, cenários, veículos e principalmente personagens 3 D e emoção?
-O que acha da imberbe Teoria do Caos, com seus Fractais e o popular "efeito borboleta"?
A Teoria do Caos e os Fractais foram muito
populares no fim dos anos 80. Ela é útil para estudar certos sistemas, como o
movimento dos asteróides, as alterações do clima. É um ramo da ciência
moderna com suas aplicações que não deve ser superestimado nem subestimado.
Os fractais são uma ferramenta útil para a computação gráfica. Eles
permitem criar belas imagens. O Arthur Clarke tem um romance, “The ghost of
the Grand Banks” onde um personagem fica tão fascinado pelos fractais que se
perde nesse mundo de imagens repetitivas. Os fractais viram uma droga, uma fuga
da realidade para ele.
-Como acha que esta teoria pode ser aproveitada por exemplo em algum enredo literário?
Já foi, várias
vezes. O “efeito borboleta” por exemplo, tornou-se popular a partir das
pesquisas de simulação do clima, que o Edward Lorenz andou fazendo no MIT aí
por volta de 1960. Mas tem um clássico da FC, escrito pelo Ray Bradbury nos
anos de 1950, onde o efeito borboleta é a idéia central. Chama-se “O soar do
trovão”e fala de uns caçadores que viajam no tempo para matar dinossauros no
período Jurassico. Mas um dos personagens se descuida e pisa em uma mariposa na
floresta primitiva. E a morte daquela mariposa, há 150 milhões de anos, vai
alterar toda a história futura da humanidade.
-Acha que as chamadas artes populares e de entretenimento, como o Cinema e os Quadrinhos, têm também a capacidade de, através de seu experimentalismo formal, metalinguagem e outros recursos estilísticos, mas sobretudo de conteúdo humano que realmente nos enleve, nos atingir em cheio como as consagradas obras literárias? Algum exemplo?
Claro
que sim. O cinema e a HQ são artes tão importantes para o desenvolvimento
humano quanto a literatura ou a música. Eu já citei um exemplo de uma HQ que
me deixou apaixonado quando eu era garoto e mudou o rumo da minha vida. Eu
provavelmente não seria um escritor de FC hoje se não tivesse tido contato com
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--E no cinema, o que você realmente gosta? No ensejo, qual seria sua
“resenha-crítica” ao premiado “Cidade de Deus”, do Fernando Meirelles,
notadamente em termos de montagem e narrativa bem pós-modernista, na minha
modesta opinião (temos ali a aplicação da Teoria do Caos, alguns movimentos
mirabolantes de câmera a la matrix...).
Eu
gosto de tudo no cinema. É uma de minhas formas de arte favoritas. Se eu
tivesse que partir para um planeta distante e pudesse levar alguns filmes, para
mostrar aos habitantes desse mundo como é a sétima arte, eu certamente levaria
o “Dançando na chuva” com o Gene Kelly, o “Dersu Uzala” do Kurosawa,
“O Processo” na versão do Orson Welles, com o Anthony Perkins imperdível,
“Meias de Seda” com a maravilhosa Cyd Charisse, “2001”, claro, O “oito
e meio” do Fellini, “Imensidão Azul” do Luc Besson. Eu não gostei de
“Cidade de Deus”, acho que não é imitando os maneirismos do cinema
norte-americano que o cinema brasileiro vai alcançar respeito e autenticidade.
O cineasta que se preocupa muito com o estilo, com os malabarismos de câmera,
acaba se esquecendo do conteúdo. A preocupação com o estilo já arruinou a
carreira de muito cineasta brilhante. Eu posso citar dois exemplos, o Glauber
Rocha no Brasil e o Jean Luc Godard na França, que se perderam nas experimentações
e nos estilismos. Eu prefiro um filme brasileiro autêntico como “O homem que
copiava”. MacLuham estava errado, o meio não é a mensagem, o meio é a onda
portadora onde a mensagem navega. Se você bagunça muito com a onda portadora a
mensagem se perde.
É
o domínio da palavra, claro. O estilo é a impressão digital de um escritor,
vem de dentro dele, da sua personalidade. Mas para Ter estilo é preciso dominar
o idioma, encontrar as palavras exatas para expressar uma determinada idéia.
-Na literatura de gênero (para não usar o já desgastado e famigerado rotulo FC, como diz André Carneiro) há alguma obra que considera seminal?
“The last and first men” do Olaf
Stapledon é uma obra pouco conhecida, mas que é um marco da FC, com sua visão
de eras futuras e da evolução da humanidade através de milênios. Ainda hoje
não foi superada. “O admirável mundo novo” do Huxley é outro alicerce do
gênero, assim como “A máquina do Tempo” do H.G.Wells.
--O que você acha que dificulta para o escritor brasileiro sobreviver de sua arte? Falta de mercado?
É a falta de mercado. O
brasileiro tem uma cultura audiovisual, ele lê muito pouco. Se as pessoas lêem
pouco os livros tem edições pequenas e ficam caros, e ninguém compra porque
é caro e aí tudo entra num círculo vicioso. No caso da FC eu sou testemunha
de que as grandes editoras já tentaram investir muito no gênero e só tiveram
prejuízos. A Record por exemplo, no início dos anos de 1990, ela editou a
Isaac Asimov magazine, promoveu um concurso de contos e publicou obras
excelentes, como a trilogia “Maré de Verão” do Charlie Sheffield. Mas
vendia tão pouco que a revista acabou acumulando prejuízos e deixou de ser
publicada. E a trilogia do Sheffield ficou só nos dois primeiros livros. Hoje
as editoras só publicam romances associados a filmes. Porque aí as pessoas
compram o livro que “virou filme”. É o caso das obras do Phillip K. Dick,
como Minority Report e O Pagamento, editadas recentemente no rastro das versões
para o cinema. Do Solaris do Lem, reeditado por conta do filme com o George
Clooney. Enquanto o brasileiro achar que FC é só quadrinhos e seriado de
televisão a literatura do gênero não tem futuro no Brasil. Só para enfatizar
o meu ponto de vista eu vou citar um exemplo tirado do gênero “espada e
magia”. A trilogia “O senhor dos anéis” do Tolkien foi publicada no
Brasil no final dos anos de 1970 e não vendeu quase nada. Era uma obra
conhecida apenas por um pequeno grupo de iniciados, de entusiastas desse tipo de
ficção épica, medieval. Se você quisesse comprar um livro do Tolkien ia Ter
que ir nos sebos e procurar lá naquelas estantes mais empoeiradas dos fundos. Aí,
de repente, “O senhor dos Anéis” vira filme, uma super-produção cheia de
efeitos especiais. E agora as livrarias estão cheias de livros do Tolkien
vendidos a preços salgados. Até os contos inacabados dele são publicados. É
uma vergonha, um retrato da nossa pobreza cultural, o brasileiro só ler livro
“que virou filme”. E uma coisa injusta com o autor nacional, que tem poucas
possibilidades de ver a sua obra filmada. A menos que você seja um Jorge Amado,
um Paulo Coelho e a sua obra vire mini-série de TV. Aí todo mundo quer ler,
porque passou na TV Globo.
-A julgar pelo que tem saído nos fanzines, prozines e algumas revistas e minguados livros, quais autores tupiniquins julga que tem talento de fôlego para produzir uma obra regular?
Eu
gosto muito do Gerson Lodi Ribeiro e do Roberto Causo. Recentemente eu li um
conto do Causo, sobre guerra espacial que não perde nada para o melhor do Joe
Haldeman.
-Aqui,
um parêntesis necessário: como um dos meus temas prediletos em FC, além de
viagens no tempo e interdimensionais, é justamente a guerra. Fiquei curioso e
indaguei ao Causo sobre este conto, ao que ele respondeu: <Trata-se de uma noveleta chamada "Lessons of theKiller", em inglês, ainda inédita -- e ainda um work
in progress. Aliás, o Calife leu para me dizer se asnoções de ciência e de tecnologia estão convincentes.
O entusiasmo dele com respeito a esta história mehonra muito, mas ainda preciso trabalhar intensamentenela (tenho pesquisado e escrito esse trabalho já háanos), especialmente no inglês, na caracterização decertas situações e personagens. Dois amigos, umfrancês e um canadense, também leram, gostaram, masfizeram muitas ressalvas que precisam ser trabalhadas.Também acho que a comparação com o Haldeman éexagerada...>
-Você
continua acompanhando e participando de zines com o importantíssimo Megalon,
o Scarium e o
próprio Somnium, do nosso CLFC?
Eu
sempre colaboro com os fanzines, porque são eles que mantêm acesa a chama da
FC brasileira. Mas por falta de tempo eu só envio coisas mediante solicitação.
Quando alguém me pede um conto ou um artigo eu faço e mando.
-Dostoyevski escreveu que na ficção, a consciência das personagens devem interagir e se debater até somente com as consciências das outras personagens, ficando o autor totalmente “de fora”. Como pensa que um conto ou romance deve ser, formalmente falando, para atingir esse objetivo?
Eu discordo da visão do Dostoievski. O autor não
pode ficar de fora, mesmo que ele queira. Ele cria os personagens a partir das
suas vivências e sua visão de mundo permeia a sua obra o tempo todo. Nesse
aspecto eu fico com o Gustav Flaubert quando ele gritou: “Madame Bovary sou
eu!”
-Você
acha que a “sede” do nosso “espírito” – ou consciência, ou anima, o
nome que se dê - se encontra na mente? Ou tudo não passa de um aperfeiçoamento
fantástico de uma verdadeira “maquina orgânica” com seus ilimitados neurônios
e suas ligações sinápticas?
Aquilo
que chamamos de mente é o produto dos campos elétricos produzidos por células
chamadas neurônios, se os neurônios forem destruídos ou lesados a mente se
evapora, se esvai. Uma pessoa com o cérebro lesado vira um vegetal, um frasco
de perfume vazio. Porque sem o suporte físico não existe mente nem consciência.
-Como você imagina a Informática e a tecnologia digital em geral, daqui a dez anos?
As possibilidades são
incríveis. Nós passamos da era em que os computadores eram máquinas enormes,
que ocupavam uma sala inteira para a época atual dos lap-tops e dos micros. O
processo vai continuar e vamos Ter computadores embutidos nas nossas roupas,
computadores de pulso. A ligação cérebro computador vai ser aperfeiçoada nos
próximos vinte anos e vamos poder baixar conhecimentos diretamente de bancos de
memória ou Ter microchips implantados no cérebro para corrigir danos causados
por isquemias e acidentes vasculares cerebrais. No lugar de telas de vídeo
poderemos Ter óculos onde a saída de dados do computador corporal é
projetada, e mais tarde teremos pick ups neurais com as imagens e as informações
sendo projetadas diretamente nas nossas retinas. As drogas serão substituidas
pela estimulação direta dos centros de prazer no cérebro. As pessoas vão se
conectar para Ter orgasmos. Aliás a máquina do orgasmo já está em testes nos
Estados Unidos. E teremos pessoas viciadas na estimulação cerebral direta como
nos romances do Larry Niven.
-Bill Joy, um dos inventores da linguagem Java, escreveu certa vez que a robótica, genética e a nanotecnologia, que alimenta a industria globalizada e turbinada do capitalismo, contem também as sementes de nossa própria destruição O que você pensa disto?
Toda tecnologia pode ser
usada para a criação e a destruição. É o homem que destrói, não a máquina.
Essa é uma das mensagens perdidas do “2001”, que eu citei lá em cima. O
porrete do macaco, a primeira ferramenta, tanto servia para arranjar comida e
salvar sua família da desnutrição quanto para esmagar o crânio do seu
semelhante. A bomba atômica tanto podia nos ameaçar com a aniquilação total
quanto nos levar para as estrelas. O homem, o bicho que constrói ferramentas,
é uma experiência da evolução assim como o dinossauro. Se usarmos nossa
habilidade e conhecimentos construtivamente poderemos espalhar nossa espécie
pelo céu estrelado. Agora se imperar o nosso talento para a destruição
seremos outro experimento fracassado da natureza e um dia nossos ossos serão
desenterrados por pesquisadores de uma outra espécie, que escreverão teses
sobre a extinção humana. Como naquele final maravilhoso do “Inteligência
Artificial” do Spielberg, que mostra seres de um futuro distante tentando
recriar os humanos extintos a partir de corpos preservados em uma geleira.
-Qual seria o “elo
perdido” que realmente colocaria a pesquisa da I. A . vis-a-vis com as da Ficção
Cientifica?
A criação de uma mente artificial, de uma máquina
auto-consciente como o Hal 9000.
-O que você acha que é a consciência em si?
O
produto de um complexo avançado de processamento de informações sensoriais e
de acesso cognitivo múltiplo.
-O que pensa que acontece com a consciência após a morte?
Aqui
eu cito as palavras finais daquele andróide do “Blade Runner” . Now, all those moments will
be lost in time...like tears in the rain. O homem é o único
animal que sabe que vai morrer um dia e esse conhecimento o apavora, o enche de
terror. Porque a mente consciente não pode conceber a inexistência, o nada.
Incapaz de viver com o conhecimento da sua própria finitude, da sua
mortalidade, o homem se refugia na negação simples e pura da existência da
morte. Ele cria mitos e religiões para negar o fim terrível. A morte não
existe, nossa mente é simplesmente transportada para outro lugar. E a negação
da morte vira a base de filosofias e de rituais. Hoje, a crença na vida após a
morte, na consciência infinita, é uma arma de guerra. O mulá chega para o
jovem islâmico e diz que se ele amarrar aqueles explosivos no corpo, entrar num
ônibus ou num restaurante e se explodir junto com dezenas de pessoas ele irá
para o céu, onde 70 jovens virgens estarão esperando para servi-lo. E o rapaz
se explode com um sorriso nos lábios, trocando a vida por uma ilusão. Foi
nisso que deu a religião. A crença na imortalidade da mente. Deu no terrorista
islâmico, apontando o nariz do Boeing 767 para a torre de vidro do World Trade
Center achando que dentro de alguns instantes estaria no paraíso, onde todas
aquelas aeromoças que ele acabou de degolar seriam suas escravas sexuais por
toda a eternidade. É desanimador perceber que na alvorada do terceiro milênio
a maior parte da humanidade ainda vive numa infância mental, acreditando em
papai Noel, papai do céu e coelhinho da páscoa. Mas alguns poucos seres
humanos conseguem se libertar dessas fantasias pueris e é na mão deles que está
o futuro da espécie. Se o pensamento deles conseguir se sobrepor ao pensamento
da massa ruminante.
-E as drogas, o que você pensa do assunto? Acha que alucinógenos tem realmente o poder de abrir a nossa consciência a outras dimensões, universos paralelos, ou tudo não passa realmente de uma desarrumaçao que causa nos nossos neurônios? Vê alguma utilização pratica das mesmas no processo criativo em si?
Não, a droga é outra fuga da realidade, outro
refúgio contra as verdades duras da vida. A droga é um veneno para o artista
porque ela anula o seu senso crítico. O cara está produzindo uma porcaria, mas
sob o efeito da droga ele acha que aquilo é uma obra prima. A crença na droga
como porta para uma outra realidade já arruinou a vida e a carreira de homens
brilhantes. Eu citaria o caso do cientista John C.Lilly. Lilly foi um dos
pioneiros no estudo da linguagem dos golfinhos. No início da década de 1960
ele era um pesquisador respeitado, amigo do Carl Sagan e do Arthur C. Clarke,
Trabalhava em universidades de renome com verbas do governo. Aí o homem começou
a tomar LSD e a Ter visões. Visões de seres bizarros, de mundos estranhos. E
ficou convencido de que aquelas alucinações, induzidas pela droga, eram reais.
Passou a “conversar” com seres de outras dimensões durante seus delírios.
Seu senso crítico se anulou, suas pesquisas estagnaram. As alucinações
passaram a acontecer no meio da rua, no carro, e Lilly perdeu até a carteira de
motorista. Só podia sair com a mulher, para reconduzi-lo de volta para a casa.
Acabou tendo que fazer tratamento para não perder totalmente o contato com o
mundo real. Sua carreira, suas pesquisas foram arruinadas pela droga.
-Quais sites da web você visita com freqüência?
Eu
visito muito o spaceflightnow (www.spaceflightnow.com)
que tem as últimas notícias sobre a exploração espacial, o site da Nasa que
tem aquelas imagens todas do Hubble e das sondas espaciais (www.nasa.gov)
o site dos modelistas espaciais que é o starship modeller que tem um arquivo de
imagens de naves do cinema para servir de referência aos maquetistas, é o (www.starshipmodeller.com)
e o site de cinema do yahoo, (www.yahoo.com).
-Qual foi a experiência mais louca que você já experimentou na vida?
Uma
viagem num avião Bandeirantes da FAB para assistir ao lançamento de um foguete
Sonda na Barreira do Inferno em Natal. Tinha uma frente de tormenta entre a
Bahia e o Ceará e o avião pulava feito um cavalo selvagem. Foi aí que eu
percebi que o oceano de ar, o céu que nos protege, pode ser tão agitado quanto
o oceano líquido dos mares.
-Qual foi o sonho mais louco que você já teve?
Uma
vez eu tive um sonho fantástico, em que eu participava de uma trama de FC. Eu
acordei a anotei o sonho num papel para transformar num conto. Mas bobeei e os
americanos acabaram usando uma idéia parecida num filme. No sonho eu era
comandante de uma colônia espacial móvel, um imenso anel giratório, como
aqueles do Padrões de Contato. Com uma tripulação de mais de 400 pessoas nós
viajavamos por um braço remoto da Via Láctea, procurando mundos para colonização
humana. Aí encontrávamos um planeta oceânico lindo, com ilhas e praias de
areia branca num mar côr de anil. E toda a minha tripulação ficava empolgada
com a idéia de ir a praia depois de dois anos no espaço. Eu organizava as
licenças, os homens pegavam suas bermudas e sungas, as mulheres tiravam os biquínis
da gaveta e íamos a praia, pousando com nossos V.E.Ps (veículos de excursão
planetária) numa grande restinga. Mas o que não sabíamos é que aquele
planeta era um paraíso durante o dia. Quando caia a noite, as criaturas das
trevas, os predadores, saiam das tocas para caçar. E naquele dia, naquela
praia, ia Ter um eclipse solar total. Uma das luas do planeta ia ficar na frente
do Sol produzindo uma noite de uma hora de duração. E quando as trevas cairam
súbitamente sobre a praia, os olhos luminosos dos predadores começaram
a surgir no meio das árvores do mangue e foi uma tarefa difícil colocar todo
mundo dentro das naves e dizer adeus ao paraíso.
-Tem alguma pergunta que não foi feita mas que, por você ter algo realmente interessante a acrescentar, você gostaria de responder?
Eu
gostaria de terminar essa entrevista com uma reflexão sobre o lugar do Homem no
Universo e o futuro que a humanidade pode Ter. Uma vez, durante uma entrevista,
perguntaram ao cientista espacial neozelandês Derek Lawden, famoso por seu
trabalho sobre órbitas planetárias, o que ele achava do impacto que a exploração
espacial ia Ter sobre o Homem. Se não íamos nos sentir pequenos e
insignificantes diante da grandeza do Universo. E Lawden respondeu: “Eu creio
que o homem se verá como um agente por meio do qual todo o universo da matéria
toma consciência de si mesmo lentamente. Ele deixará de se sentir uma criatura
estranha, num mundo indiferente e sentirá dentro de si mesmo a pulsação do
Cosmos. Ele se familiarizará com as formas maravilhosas e variadas que a matéria
pode tomar e com certeza conceberá um sentimento de respeito pelo
impressionante todo do qual ele é uma parte muito pequenina. Sugiro que a reação
de vocês a essas experiências impressionantes encontre expressão num panteísmo
que proporcione finalmente uma filosofia de vida e uma atitude em relação a
existência que estejam em harmonia com a ciência. Peço a quem negue essa
possibilidade que volte os olhos em direção ao céu numa noite clara...”
O
que Lawden queria dizer é que é através de nós, e de outros seres
inteligentes e auto-conscientes que o Universo imenso e maravilhoso fita a si
mesmo e toma consciência de sua grandeza. Desde que surgiu o Universo vem
evoluindo em direção a formas cada vez mais complexas. As primeiras partículas
atômicas formaram átomos, os átomos formaram moléculas, as moléculas se
uniram para formar proteínas e ácidos nucleicos. Essas substâncias se
combinaram para produzir seres vivos. No princípio formas muito simples, células,
medusas. Mas a vida foi se tornando cada vez mais complexa, até atingir o estágio
dos seres inteligentes e auto-conscientes. Isso não quer dizer que o homem é o
climax da evolução. Somos apenas uma entre muitas formas auto-conscientes que
devem Ter surgido em muitos mundos diferentes. E um dia talvez todas essas
consciências se unam para formar uma mente cósmica.
A
humanidade pode Ter um futuro brilhante se abandonar o seu lado primata, o seu
passado de predador assassino. Os filmes de ficção como Matrix e Exterminador
do Futuro gostam de imaginar guerras entre os homens e as máquinas. Mas isso é
uma projeção da nossa agressividade simiesca. O futuro pode estar no
casamento, na união entre as duas formas. Criador e criatura se fundindo nos
cyborgues, metade homem, metade máquina, reunindo num único sêr o melhor da
vida biológica e o melhor da máquina inteligente. E a mente poderia se tornar
imortal, trocando o cérebro orgânico fragil por um cérebro de cristal e plástico,
para onde migrariam nossos pensamentos e nossas memórias. E o passo seguinte
desta evolução possível seria a mudança do cyborgue para o simbionte. A fusão
do homem com formas de vida sintética, que nos permitiriam viver em qualquer
ambiente, viver milênios em comunhão com outras formas de vida adaptadas ao
ambiente cósmico. É o que pensa o físico Freeman Dyson. Mas para isso a nossa
espécie tem que sair da infância racial e atingir a idade adulta. Senão
seremos outra experiência fracassada da naturza, como os dinossauros, e outros
seres, em outros mundos deste imenso rio de sóis,
prosseguirão com a evolução da vida e do Universo.
-E so´ para finalizar, amigo, o que pensa de nosso site e que sugestões apresentaria para o aperfeiçoarmos?
O
site está ótimo e esse acervo de entrevistas é um documento precioso. Eu li alguma entrevistas no seu site
, incluindo aquela da Libby Ginway. Mas não li muita coisa porque eu não posso ficar muito tempo conectado, porque aqui em Pinheiral não tem provedor e eu pago tarifa interurbana cada vez que eu me conecto com meu provedor em Volta Redonda. Então tudo tem que ser rápido e rasteiro. Mas já visitei muitas vezes a seção de desenhos e pinturas, que eu gosto muito. Eu adoro
aquelas mulheres que você desenha as vezes.Eu
sugiro que no futuro vocês pensem seriamente em gravar essas entrevistas todas
num CD-ROM que poderia até ser comercializado, vendido pelo correio. Elas são
um documento precioso sobre o pensamento e o panorama da arte fantástica no
Brasil neste início do terceiro milênio.
-Já
estou cuidando disto, amigo. Obrigado, Calife,
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por dividir conosco um pouco do seu precioso tempo.
TOPO / TOP ---LEIA AQUI O CONTO DE FC "O INSPETOR", DE CALIFE---