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Entrevistas / Interviews
ROTEIRISTA,
AMANTE DAS HQs E EDITOR- “HISTORIETA”-
OSCAR CHRISTIANO KERN
por José Carlos Neves
fanzine tupiniquim sobre Quadrinhos,
o aclamado, valoroso e insubstituível HISTORIETA.
Quando, há priscas eras, eu comecei a ler praticamente através dos Quadrinhos,
sempre manifestei uma atração muito grande pelos aspectos técnicos de sua
produção, pelos “bastidores”, seu “making of” .Isto, num tempo que eu
nem sabia o que era fanzine, o contato com outros aficionados era através de
cartas quilométricas, na maioria das vezes ilustradas – verdadeiros
“tesouros” que tenho em coleção ainda, com arte original de Mozart
Couto, Emir Ribeiro, Watson
Portela, Deodato Borges entre outros.
Foi quando descobri o
HISTORIETA, o qual prontamente
“assinei” e passei a
aguardar cada edição como quem
espera uma namorada que só podia
se ver de quando em vez...
Pelo Historieta nutro
ainda um carinho especial por ter sido nela a minha estréia como pretenso
Quadrinista, com “Bem Vindo `a Terra!”; e como “uma coisa puxa
outra”, esse trabalho me levou a conhecer o mano Cerito,
com o qual vim a lançar depois a Hiperespaço; fiz amizade com o
editor do Historieta, por intermédio
do qual vim a conhecer outros fanzineiros e quadrinistas. E depois vim a
descobrir ainda que Kern, alem de fanzineiro inveterado, tinha escrito dezenas
de roteiros para os iconográficos quadrinhos Disney – Tio Patinhas, Pateta,
Aristogatas, Peninha e Zé carioca – este, desenhado por outro gaúcho
supimpa, Renato
Canini, de traço inconfundível
e formador de estilo - entre 1970 a
71.
O serviço publico
como previdenciário, em Porto Alegre, garantia a Kern poder se dar ao luxo de se dedicar `a paixão real, tendo
inclusive recusado convite da própria Disney para mudar-se para São Paulo.
Ali no extremo sul,
ao lado de outros gaúchos igualmente conhecidos pela paixão em comum – Aníbal
Barros Cassal, “reverendo” Jorge
Barwinkel, Daniel HDR, Canini...
– Oscar Kern, embalado e inspirado pelas leituras principalmente de Mandrake,
Fantasma e Ferdinando, desde o final da década de 30,
escrevia seus roteiros, criava seus próprios heróis (Homem-Justo, A
Brigada das Selvas, etc...)e usava a nossa querida Historieta como uma
verdadeira “vitrine” – denominação alias que ele gosta de dar aos
fanzines – para expor tudo aquilo que ama na Nona Arte; A prova maior do que o
que e´ bom tem de ser eterno, ate´
hoje o HISTORIETA, em sua 20ª edição, circula pelas mãos de quase uma
centena de abnegados e verdadeiros privilegiados.
Conosco, Oscar
Christiano Kern.
Vim de alemães, suiços,
holandeses e portugueses. 68 anos (êste
ano, deverei chegar à idade erótica), casado quatro filhos (two girls and two
boys - e aí termina meu inglês).
Estudei até o
Ginasial (não sei a quê corresponde hoje), e com 16 anos entrei para a Previdência
Social, onde, tal como Stanislaw Ponte Preta, vivia de expedientes (os
expedientes na repartição, claro).
-O quê e quando
iniciou seu interesse pela Literatura, Quadrinhos e Cultura Pop em geral? Na infância
você lia muito, tanto HQ quanto Literatura mainstream? Pode citar
autores e obras que o influenciaram?
Eu morava em
Esteio/RS, e meu tio Augusto (coloquei foto dele
em Cartas e Mercado da Historieta/15) em Porto
Alegre. Sempre que vinha nos
visitar, nos fins de semana, ele trazia umas revistinhas diferentes, repletas de
histórias profusamente ilustradas, chamadas Suplemento Juvenil, Mirim, Gibí, O
Globo Juvenil. Eu ainda não sabia
ler, e isso se tornou tarefa de minha mãe.
Mas eu passava o dia
com as revistas, juntando letrinhas e fazendo perguntas à minha mãe.
De determinado dia em
diante, já sabia ler.
Em seguida, enveredei
pela Coleção Terramarear, livros policiais, com o tempo literatura brasileira,
todo Machado de Assis, Jorge Amado, Bertrand
Russel, Mark Twain, Caio
Prado Junior, Somerset Maughan,
Pitigrilli, tudo...
-Você me revelou que
os Quadrinhos chegam a ser um vicio físico, que você adorava sentir o cheiro
novo das revistas das saudosa EBAL, que embalou tantos
de nossos sonhos da infância. Eu também fui um “viciado”, de
colecionar as famosas “Noticias em Quadrinhos” – seriam as precursoras
aqui dos fanzines? --, o “ABC das Historias em Quadrinhos” ,”Cronologia HQ”
a as “Cartas dos Leitores” das revistas da editora da “Av. general Almerio
de Moura,302/320, Rio de Janeiro-Guanabara” (e´, ainda era assim quando começou...)
Você teve algum contato com algum dos irmãos-Aizen, diretores-proprietarios da
EBAL?
Quando editei
Historieta mimeografada, visitei a EBAL, para mostrar meu trabalho. Lá permanecí
duas horas, conversando com Adolfo, Naumin e Paulo Aizen.Aizen gostou de
Historieta, mas sugeriu que eu apresentasse também histórias em quadrinhos.
Foi uma bela edição,
algo nunca feito por nenhuma editora. Perdí
essa revista comemorativa para os cupins.
-Você
acompanhou a saga do “primeiro herói brasileiro (da Ebal)”, O
Judoka, principalmente
naqueles antológicos 3 números desenhados por um tal de FHAF – Floriano
Hermeto de Almeida Filho, um arquiteto que amava os Quadrinhos a o estilo de
decupagem cinematográfica do falecido italiano Guido “Valentina” Crepax?
Foram as três
melhores edições de O Judoka, perdidas também
para os cupins.
Eu tinha esse álbum.
Mas desapareceu.
Anos atrás, eu
recebia muitas visitas de roteiristas, desenhistas iniciantes, gente até de
outros Estados... Muitas vêzes, eu tinha de sair de minha sala para atender
telefonemas, coisas afins.Comecei a notar falta de material que tinha em cima da
mesa.
Como dizia o rapaz do
Big Brother: "Faz parte"...
Você não procurou o
nome do Novelli nas listas telefônicas?
Coitado do Cavaleiro
Negro: em sua fase final, era falsificado pelo Mantovi...
atual campeão no desenho de super-heróis emblemáticos, da Marvel/DC?
Deodato é fora-de-série: deve entrar para a
galeria dos grandes desenhistas do quadrinho americano.
Passou também por Historieta, com seu Ninja.
-E os artistas brasileiros da “velha
guarda” como Jayme Cortez, Ignácio Justo , Walmir
Amaral, Salatiel de Holanda, Igayara, Colin, Shima,
Edmundo Rodrigues, conheceu o
trabalho deles?
GRANDES TALENTOS. se tivesse tido grandes roteiristas, como aquele inglês...
Como é o nome dele? Moore, algo
assim...
-E a “geração Vecchi/Grafipar? (Franco,
Rodval Matias, Mozart Couto, Watson Portela, Olendino
e tantos outros)?
Nossos desenhistas
nada deixam a desejar, diversos deles estão
"lá fora", atuando a contento. Neste momento, Emir
Ribeiro está desenhando
diversas encomendas feitas por fans americanos.
Mas, nossos autores
se ressentem, mesmo, é da falta de editores.
Renato "Zé
Carioca" Canini sugeriu que eu escrevesse roteiros para o Grupo Disney da
Editora Abril. Depois de uma dúzia
de roteiros recusados, começaram a aceitar.
Moore. Que ele foi o criador da obra From
Hell , para os Quadrinhos, depois desperdiçada
por Hollywood. E que ele,” para vencer a crise existencial dos 40
anos”, resolveu se tornar um mago. Estudou muito Aleister Crowley, Austin
Osman Spare, participou de experiências e acontecimentos no mínimo
“fora-do-script”, como ele gosta de descreve-los. Você acredita na
Magia, na Kabala e outros desdobramentos, ou tenta também - como o James
Randi tupiniquim, Padre Oscar Quevedo - "explicar tudo à luz da
Parapsicologia" ?
A
"Liga" também foi desperdiçada pelo cinema, além de receber sequências
ridículas, como a colocação do Nautilus nos estreitos canais de Veneza.
Quanto
à Parapsicologia, não explica tudo, não..
-Quando
foi seu primeiro contato com o trabalho de Alan Moore e
qual obra lhe causou algum impacto especial?
O
Monstro do Pântano foi o suficiente para constatar que a gente estava diante de
um talento ímpar, embora ainda não revelasse o fôlego do autor.
Mas,
o grande trabalho foi Watchmen.
Especificamente sobre
Watchmen e sua instigante forma narrativa – já apelidada de O Cidadaõ
Kane da Nona Arte – o que tem
a nos dizer?
Moore
teve a capacidade de nos convencer de que, se existissem vigilantes mascarados
combatendo o crime na vida real, seriam como os vigilantes criados por ele, Dr.
Manhattan à parte.
Não tenho lido fanzines, só Historieta e O
Grupo Juvenil.
Muitos encerraram suas atividades.
Temos o Hiperespaço, mas aí já é uma
revista alternativa.
-Qual dos
trabalhos que tem visto atualmente – HQs, ilustrações, esculturas,
maquetes, etc – que julga
pelo menos promissor?
O personagem Kario, de Jean Okada, não é só
promissor, ele está pronto. Okada
consegue, com facilidade, "manter" rostos, de cena para cena e posições
diferentes, e isso não é para qualquer um.
-Você
acha que ainda existe espaço para super-heróis “bombados” nos Quadrinhos
ou os mesmos são so mesmo “para crianças”?
Os super-heróis podem ser usados para histórias
incomuns, sim. Agora mesmo,
temos uma HQ do Lanterna Verde Kyle Rainer (LJA n. 15) na qual dois rapazes saem
de uma boate gay e se beijam na rua.
O fato é testemunhado por machões de plantão que saem em sua
perseguição e espancam um deles até quase à morte.
Título da história: "Intolerância".
Isso
já aconteceu na vida real.
Nenhum
preconceito. Sou um roteirista
comum, de pouco fôlego, e até já me pediram autógrafos.
-Como
aconteceu de você vir a escrever para os clássicos personagens Disney, tão
prenhes que são da cultura norte-americana?
O
Grupo Disney tinha suas regras, mas infernizavam mesmo
era os desenhistas.
O topete do Professor Pardal tinha
um padrão correto, e por aí seguia. Renato Canini sofria com isso, pois
tinha traço muito
pessoal
Os
roteiros deviam deixar espaço para o desenhista
exercer sua criatividade.
Em
outras, é mostrado como ele, jovem pobretão, sai a garimpar, até encontrar
sua Moeda n. 1, ponto de partida para sua fortuna. Donald é um perdedor, sim,
mas... quem não é?
Um
colega meu era um "Gastão". Vivia ganhando bons prêmios em loterias,
e quase toda semana ganhava no Prado.
-É,
como diz Alan Moore, a vida à nossa volta – e a nossa própria – é muito
mais fantástica do que possa imaginar qualquer vã ficção...No pré-histórico
“pre-internet”, nos trocamos maciça correspondência e se não mel falha a
memória, você me enviou um roteiro do seu Homem-Justo
para eu quadrinizar. Julguei o material bastante promissor, uma estória com
algo a dizer, com um roteiro bem trabalhado, coisa rara então (e muitas vezes
ate´ hoje...). Nos conte a gênese desse projeto, motivações, repercussão,
etc
Remetí
roteiros do Homem Justo a diversos desenhistas, que, por razões diversas, não
chegaram a ser desenhados.
Um
desenhista pedia um roteiro toda semana, até que escrevi e remetí um - e ele
nunca mais voltou.
Eu
tencionava, com o Homem Justo, seguir um estilo "Spirit", no qual
contar histórias diversas, muitas vêzes
com pouca participação de herói.
Mas
não dá para se fazer HQ sem desenhista e sem editora, e o Homem Justo foi
desaparecendo...
Na
verdade, a Brigada das Selvas foi criada pelo A. Elias, que passou a mim o
encargo dos roteiros.
Atualmente,
ele está produzindo uma HQ de 100 páginas, na qual assobia e toca flauta, ou
seja, escreve e desenha: "Em Busca dos Fawcett".
Ele
reside em Cruz Alta / RS.
-Sei
que você tem uma coleção de gibis com mais de 3 mil exemplares. Qual ou quais
considera seus maiores tesouros e porque?
Meu
caro, mandei construir prateleiras em uma peça nos fundos, "madeira à
prova de cupins".
Vigiei
vários anos, e tudo bem. Não me
preocupei mais.
Quando
ví, metade de minhas edições estava transformada
em sinuosas crateras.
Hoje
tenho pouca coisa, tudo moderno e reedições, bem
como uma coleção completa (28 volumes de 1200 páginas)da revista
portuguesa semanal TINTIN.
-Nesta
biblioteca tem também livros sobre Quadrinhos? Quais os mais interessantes e
seus autores?
Livros:
Alvaro de
Moya,
Ionaldo, Goida, Diamantino...
Continuo fazendo Historieta.
É meu melhor trabalho, por ser uma vitrine.


Autores preferidos?
Asimov (os robôs e as três leis da
Robótica), A.E.
Van Vogt, Clifford D. Simak, Robert A. Heinlein.
-Você
sempre batalhou arduamente por um autêntico Quadrinho nacional. Ele existe?
O
quadrinho nacional existe com Pererê, Xaxado, Mônica e Cebolinha.
Temos Laerte, Angeli.
No gênero super-herói, a Velta do Emir Ribeiro.
Mas,
da HQ nacional de aventuras, só existem embriões, aqui e ali.
Falta
mercado. Falta dinheiro.
- Você acha que
o nosso artista “se vende” quando passa a publicar no Exterior, nos
EUA principalmente, adequando-se ao estilo e mudando até mesmo de nome?
No caso específico
de Deodato Filho, parece-me que seu pseudônimo foi criado por seu agente
brasileiro.
-Quais dos nossos
autores você julga mais em condições de produzir uma obra de fôlego?
Nosso autor de HQ tem
de canalizar seu fôlego para atividades imediatas de subsistência, e assim não
nos revela até onde poderia ir no ramo dos quadrinhos.
-Como
o leitor interessado pode adquirir seus Quadrinhos e livros, quais os que estão
disponíveis?
Todas
as Historieta s estão disponíveis, pois, sendo fanzine, é fácil pegar os
originais e mandar fazer novos exemplares.
Mas
Historieta é cara: 120 páginas formato ofício horizontal e capas coloridas,
R$ 25,00
Com
êsse dinheiro, você compra 400 páginas PANINI, coloridas...
Historietabr#yahoo.com.br
Substituam
o sinal # por @
-Quais
sites da web você visita com freqüência?
Visito
o site www.sergiobonellieditore.it
-Qual
foi a experiência mais louca que você já experimentou na vida?
Não
sou dado a loucuras...
-Militando há tanto tempo “no ramo” você pode dizer que valeu – ou vale – a pena?
Se tivesse de começar de novo, preferiria o cinema - roteiro & direção.