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Entrevistas  /  Interviews


            “Samurai das HQBs” CLÁUDIO SETO

                                                                                            por José Carlos Neves

Antes de “Druuna” do italiano Serpieri, já tínhamos nossos “sonhos adolescentes” embalados por “Maria Erótica”.  Antes do mangá-boom e de “Lobo Solitário” já tínhamos as aventuras de samurais, pela saudosa Editora Edrel – SP. Antes de ao menos saber do que se tratava o nome japonês “ninja”, verdadeiro ícone do folclore nipônico hoje totalmente “corrompido” por Hollywood,  fomos brindados com “Ninja, o Samurai Mágico”, nos idos de 1967, também pela Edrel; E o que dizer do famoso “Clube de Quadrinhos Bico de Pena”, uma “academia”, um nome mítico para os então “candidatos a quadrinistas” que acompanhavam avidamente as “revistinhas da Grafipar”? Por trás de todos esses inquestionáveis feitos, está um cara simples, discreto, bem “zen”, para não negar a raça, Cláudio Seto, um dos mais importantes quadrinistas, criadores e incentivadores das HQBs.

Nunca me esqueço quando pedi pelo reembolso postal da Edrel e recebi umagraphic-novel” verdadeira, numa época em que Wil Eisner nem havia cunhado ainda este termo, intitulada “Psicuy, Homens que Nascem Morrendo”, com desenhos de um dinamismo, tomadas de cena e movimentação vertiginosa de mangá, mas contando uma estória adulta, a la James Bond; O mesmo choque quando deparei-me com uma revista em quadrinhos  que não se enquadrava em nenhum gênero, super-herói, terror, infantil, por englobá-los sinergisticamente a todos: a citada Ninja, O Samurai Mágico.

Batizado Chuji Seto Takeguma,  Cláudio Seto iniciou-se na profícua carreira pelo “Deptº de Desenho” da Votorantim, Sorocaba-SP, em 1965.

Denunciando seu espírito combativo e ao mesmo tempo cooperativista, que mais tarde o caracterizaria frente aos amantes dos Quadrinhos tupiniquins, Seto foi candidato a vereador, em Guaiçara-SP, em 69, onde chegou à presidência da Câmara.

Levando as HQs como hobby, começou também a pintar em 1970, angariando vários prêmios, inclusive internacionais (Iália, 1975, Concurso Internacionale Per Il Manifesto Celebrativo), em óleo sobre tela no estilo neo-figurativista.

Participou com destaque da “Mostra de Artes de Gegiká Shiran-Gakô, em Tóquio, Japão.

Como quadrinhista seus trabalhos abrilhantaram centenas de títulos, de forma bastante eclética – desde “Garotas e Piadas” até a “Folha de São Paulo”, passando pelo emblemático Pasquim, Estórias Adultas, Humor Negro, Karatê 09 entre outras .

Publicou vários livros e, no final dos anos 70, tornou-se o encarregado dos Quadrinhos da Grafipar, fundando ali uma verdadeira “Casa das Idéias”, na Vila Maria, em Curitiba, um forte movimento de combate aos enlatados americanos, que contou em seus quadros – arregimentados pelo samurai – os veteranos Colin, Sérgio Lima e o “samurai-mor” Shimamoto, e revelou talentos como Mozart Couto, Watson Portela, Rodval Matias, Roberto Kussumoto, Franco de Rosa. Sebastão Seabra, Maurício Veneza, Itamar Gonçalves, Bonini e tantos mais.

Hoje com 60 anos, Seto ainda vive em Curitiba, Paraná, como um monge da seita Zenshi, onde se dedica às artes e cultura, notadamente nipônicas, como o Bonsai, Haiku, Tanka, Shodô, Kadô, Kendô e Kyudô, continuando ainda a pintar, fotografar e escrever.

Portanto, o Seto é um ídolo de longa-data e é um privilégio “bater o papo” abaixo com ele, depois dele figura em minha “Lista de Procurados” desde o debut deste site – e graças ao amigo Erik Lustosa, que me passou o e-mail da filha do Seto, a gentil Mayumi, é que isto está sendo possível.

-Estimado Seto, vamos “completar” a  sua apresentação: Você nasceu mesmo no Japão ou  aqui? Porque o “Cláudio”? Onde  vive atualmente?

É uma história longa e complicada. Nasci no Brasil e morei entre a infância e adolescência no Japão, durante 7, quase 8 anos, por isso, é comum as pessoas (até meus parentes) pensarem que nasci no Japão.

Fui batizado de Cláudio para poder receber o diploma, quando me formei no curso primário. Na época, na escola rural de Jundiaí, no bairro do Engordadouro, não entregava diploma para pagão, então,  meus irmãos, eu, e mais meia dúzia de nisseis que estudavam lá, fomos devidamente catequizados como faziam com índios na época colonial. Na verdade Cláudio é o nome do meu irmão gêmeo que na época estava morando no Japão. Contam que no tempo em que nascemos, existia um jogador de futebol do São Paulo F.C. com esse nome. Portanto Cláudio é um nome cristão e inspirado em um nome de jogador que até hoje não sabemos de quem se trata. Então eu, legalmente registrado Chuji Seto Takeguma sou na verdade um falso Cláudio Seto. Já o verdadeiro e registrado Cláudio Seto é o meu irmão gêmeo Cláudio Seto, que tem o apelido de Chuji. A única diferença é que apesar de termos nascidos juntos, ele é registrado com nacionalidade japonesa e eu como brasileiro. Pensávamos que éramos o único caso existente de nome trocado entre irmãos, mas recentemente fiquei sabendo que a atriz Suzana Vieira tem a história semelhante a nossa. Suzana é o nome da irmã dela, que é desconhecida do grande público.

A nossa é uma longa história que se contada em detalhes daria um livro. Mas falando resumidamente,  toda essa confusão foi armada pela minha avó materna. Ela era uma pessoa do Período Meiji (1868 a 1912), nascida no século XIX no Japão. O pensamento das pessoas dessa e das épocas anteriores naquele País, a respeito de gêmeos, era o pior possível. Para eles, os seres humanos tinham um filho de cada vez. Ter dois ou mais filhos num mesmo parto, era coisa de bicho, de animal. Podia até acontecer na classe baixíssima dos etá (parias), mas nunca de um samurai ou descendente. Alias, essa era a condição divina e privilegiada do ser humano: nascer um de cada vez. Tanto que no folclore ou literatura japonesa não existe nenhum caso de gêmeos, se nascesse, matavam um e enterravam para ninguém ficar sabendo.

Quando minha mãe teve gêmeos, minha avó ficou apavorada.  Para ela, era a coisa mais vergonhosa do mundo. Um castigo Divino. Então tratou de esconder o fato e só mostrava um quando as pessoas vinham visitar minha mãe no pós-parto. Igualmente no cartório de Guaiçara só me registraram. Meu irmão seria registrado mais tarde no Japão, para que ninguém ficasse sabendo que éramos gêmeos. Por isso meu sobrenome é Takeguma (por parte do pai) e o de meu irmão Seto (por parte da mãe). Assim, no segundo ano de vida meu irmão foi levado ao Japão e ficou morando com a irmã da minha avó.

Quando completei nove anos, fui para o Japão e meu irmão veio para o Brasil. E durante toda nossa vida trocamos de lugar por várias vezes, inclusive na Edrel e na Grafipar.  Como somos gêmeos idênticos pouca gente percebeu a troca, as únicas pessoas que ficavam desconfiadas foram o Minami Keizi e o Faruk El Katib, ambos editores, que costumavam comentar “o que você fez ? tá diferente...meio desligado”, pensavam que eu tinha raspado a barba ou cortado o cabelo e ficava por isso. Sempre achei por isso que os editores têm percepção mais aguçada que outras pessoas. Como meu irmão também desenha nunca ouve problemas. Mas o estilo é um pouco diferente, só perceptível para um estudioso mais atento. Isso de certa forma lembra hoje, o caso dos irmãos Caruzo, Paulo e Chico, ambos chargistas.

Casado? Filhos – além da Mayumi? E no que vem trabalhando especificamente?

Casado com Mitsue. Tenho três filhos: Noriyassu, Sayuri e Mayumi e ainda mora conosco minha sobrinha Midori que é filha do meu irmão Cláudio.

Atualmente sou mestre e representante oficial da Seita Zenchi, na América do Sul.  Meu trabalho consiste em fazer pregações, palestras, orações. Sou artista plástico, pinto quadros de grandes dimensões, escrevo sobre cultura japonesa para o jornal “Nippo-Brasil” de São Paulo e “Paraná Shimbun” de Londrina,  trabalho no jornal “O Estado do Paraná” e também no jornal “Tribuna”, edito o “Planeta Zen” e escrevo anualmente o almanaque astrológico “Garça da Sorte”, faço pesquisa sobre imigração japonesa no Paraná e está em fase final o segundo volume do livro Ayumi de 550 páginas. Faço estudos florestais de árvores nativas e desenvolvo técnicas para fazer bonsai com árvores brasileiras. Diariamente cuido de bonsai, tenho no momento 1158 e, é a arte que mais gosto. Também sou agitador cultural da colônia japonesa de Curitiba, promovendo grandes eventos a cada dois meses.

-O quê e quando iniciou seu interesse pelos Quadrinhos?

A essência dos quadrinhos é a interação texto-imagem. Me marcou muito um haiku (ou haicai se preferir) que meu avô desenhou quando eu tinha seis anos. Meu avô era um budista fervoroso e rezava dia e noite, durante horas. Certa ocasião, quando ele estava rezando no santuário que exista na fábrica de sake dele, meus irmãos mais velhos (Yoshimitsu e Kuniomi) e eu,  resolvemos jogar bola no quarto do nosso avô. No primeiro chute a bola de capotão (como era chamado), estourou o espelho enorme que existia na porta do guarda-roupas. Nessa época todos os guarda-roupas tinham um espelho enorme na porta. Daí fugimos e fomos dormir.

Na manhã seguinte, quando o velho Seto foi nos buscar no quarto, pensamos que íamos levar um castigo daqueles.  Ele já tinha recolhido os cacos do espelho e na porta do guarda roupas só havia uma madeira branca que ficava atrás do espelho.

O velho Seto nos fez sentar em posição seiza (lótus japonesa) diante do guarda roupa e como castigo tivemos que ficar vendo ele pintar um haiku na madeira onde antes existia espelho. Em tradução rápida o haicai dizia:

Espelho quebrado

Vaidade em cacos

Surge o monte Fuji

O velho Seto desenhou o monte Fuji no fundo, que é uma montanha sagrada do Japão, um rio e um salgueiro. Os galhos do salgueiro pendentes tinham pequenas folhas que iam caindo e dava continuidade transformando em ideogramas que eram os texto do haicai. Essa interação texto-desenho-significado me impressionou muito e durante muitos anos de minha vida, ficou na minha cabeça que arte é interação desses três elementos: texto, desenho, significado. Achei um barato ao descobrir nossa vaidade, pode estar ocultando o que há de mais sagrado em nós seres humanos. Creio que aí está a origem de meu interesse pelos quadrinhos durante uma certa época da minha vida.

-Pode citar autores e obras que o influenciaram?

No tempo que morava no Japão gostava demais de Tezuka Osamu, inclusive nos finais de semana íamos (os aprendizes de monge) visitar o estúdio dele. No andar de cima do estúdio  tinha um dormitório com beliches, onde moravam vários jovens que vinham de toda parte do Japão, para aprender desenho com ele. Porém os dois seguidores da escola de Tezuka que mais me influenciaram foram Mizuno Hideko e Shirato Sanpei. O mestre Sanpei era muito atencioso, me deu vários livros de manga, inclusive quando eu tinha voltado ao Brasil ele me enviou os novos mangas que estava publicando. Quando ele montou a Akame Productions, me convidou para ir trabalhar com ele, não fui, naquela época era muito caro ficar indo e vindo ao Japão. Cláudio trabalhou um tempo como aprendiz no estúdio dele.

--Como se deu o seu “debut” nos Quadrinhos? Foi na Edrel? Obteve um feedback imediato, ou demorou um pouco?

Eu morava em Sorocaba no inicio da década de 60 e era auxiliar de caminhoneiro e na folga, pintor de porta de caminhão. Na época todos os caminhões tinham águias ou paisagens pintado nas portas. Eu ficava nos postos de beira de estrada na rodovia Raposo Tavares e enquanto os caminhoneiros almoçavam eu pintava portas. Daí um cidadão do tipo descobridor de talentos, me levou para a Fabrica de Tecidos Votorantin e arrumou emprego na seção de desenho de tecido e fotolito. Influenciado por um amigo chamado Wilson de Campos que era desenhista da Votorantin, enviei umas piadas já diagramadas em páginas inteiras para a Editora Bentivegna que foram logo publicadas. Anos depois fiquei sabendo pelo Minami Keizi que o Salvador Bentivegna  publicava porque eu mandava já fotolitado. Como na época os filmes de fotolito eram caríssimos, ele publicava por questão de economia. Pouco tempo depois, mudei para Lins para estudar e comecei a trabalhar no departamento de publicidade das Lojas Arapuá que estava começando suas atividades. A Arapuá tinha um jornal de ofertas e deram duas páginas semanais para mim. Uma de quadrinhos e outra de passatempos. Esse jornal (Jornal do Lar) era enviado para muitas pessoas cadastradas, então pedi para  a secretária  incluir o nome de todas editoras existentes na época . Não eram muitas, a Abril,  Outubro, Bentivegna, Ebal, La Selva e a nova Pan Juvenil. Assim os jornais com meus desenhos começaram a ser enviados  para as editoras. Um belo dia desse, estou dormindo no meu quartinho de estudante, e um cara me tira da cama para convidar a trabalhar para uma editora que estava abrindo. Era o Minami Keizi que estava fundando a Edrel. Assim, quase sem saber desenhar virei profissional. Era final da década de 60. De cara o Minami me deu a revista Humor Negro para eu tocar. Saiu dois ou três números com material só meu, um lixo. Na época o Minami estava se saindo bem com a revista Tupãzinho de autoria dele com desenhos dele e do Fabiano Dias. Chegou a receber proposta da Editora Abril para que a revista fosse publicada por eles. Então não aceitou e resolveu que atacaria o gênero infantil e me pediu uma revista. Fiz o personagem Flavo no estilo manga para a revista Ídolo Juvenil. Um misto de ficção e contos de fadas. Isso porque as revistas Contos de Fadas e Varinha Mágica haviam feito grande sucesso na Editora Outubro anos antes. Tanto a Humor Negro como a Ídolo Juvenil eram revistas que já haviam saído alguns números e como estavam fracas de vendas o Minami havia passado para mim. Como se dizia na época: “Fudido, fudido e meio”. Reclamei numa reunião com o Minami que revista em fim de carreira não havia santo que conseguisse ressuscitar. Então ele sugeriu que eu fizesse projetos para novas revistas. Propus uma revista de ninja e outra de samurai. Ele gostou da idéia e marcou lançamento em  30 dias. Sorte minha que meu irmão tinha voltado do Japão e desenhou o “Ninja. O samurai mágico”, para mim . Como tinha trabalhado de auxiliar no estúdio de Shirato Sampei, desenhava melhor do que eu. Eu desenhei “O Samurai”. Minami gostou demais do Ninja, era da linha infantil que ele idealizava na época, a exemplo de Tupãzinho. O Samurai N0 1 que fiz além do desenho e texto horríveis, o tema era incesto, uma revista para adultos. Naqueles anos de repressão e código de ética, decididamente não era uma revista aconselhável a ser lançado. Creio que só saiu porque a Editora precisava um xis número de revistas  para capital de giro da empresa. Ironicamente a revista para adultos, gênero de quadrinhos ainda inexistente na época, acabou agradando e ninja não durou mais que três números. A de se considerar que na época ninguém sabia o que era um ninja ou um samurai. O Samurai durou vários números, e meu irmão desenhou muitas delas. A revista só acabou porque o Minami inventou de fazer uma revista chamada Estórias Adultas com mais de 100 páginas, e colocou nessa revista as histórias de samurai.

-Ainda mantém contato com os veteranos da Edrel?

Depois que a Edrel acabou não tive mais contato com o pessoal porque mudei para Curitiba. Somente com o Fernando Ikoma que mora aqui e é artista plástico. As vezes participamos juntos de mostras coletivas de pinturas. Minami escreve para o Jornal Nippo-Brasil de São Paulo, onde também tenho uma coluna, mas não tenho contato com ele.

-E da nossa saudosa Grafipar, na qual também tive a honra de publicar alguma coisa, depois de pentelhar por meses com minhas cartas ao “Bico de Pena” – e até ao “vaca Amarela”, o tablóide correlato, lembra-se?

Francamente falando eu não lembro de muitas coisas, porque quadrinhos faz parte de um passado remoto e não é uma fase muito importante na minha vida. Como artista plástico, escritor e depois  paisagista e espiritualista, aprendi muito mais coisas e tive muito mais satisfação que minha fase de quadrinhista. Eu me lembro bem de você e do Baldisseri de Araxá porque eram os caras que escreviam carta quase que diariamente. Assim como o Cedraz da Bahia no tempo da Edrel. Uns fanáticos por quadrinhos. Eu nunca fui fanático por quadrinhos. Não sei nomes da maioria de autores ou personagens, sempre encarei a coisa profissionalmente. Como outro trabalho qualquer. Tipo ganha pão de cada dia. Por isso nunca tive desejo de publicar na Hevy Metal, por exemplo, pelo fato de ter sido a melhor revista de quadrinhos do mundo na época. Minha visão sempre foi o de fazer quadrinhos desde que tenha xis paginas por mês, que me dê xis em dinheiro para que possa viver.  Fazer um trabalho esporádico não me interessa. Não sou um curtidor de quadrinhos. Só me interessa compromisso profissional. Por isso no tempo que era editor procurava criar condições para que o pessoal pudesse viver de quadrinhos, não como bico. Vaca Amarela se não me engano era editada pelo Franco de Rosa e havia também outro jornal o Batata Quente que o Carlos Magno editava. Bons tempos a Grafipar, mas se fosse hoje faria tudo diferente.

-Sabe do “paradeiro” dos quadrinhistas Nelson Padrela, Vilachã, Sebastião Seabra, Mauricio Veneza, Gustavo Machado, Bonini, Kussumoto, Eros?

Padrela mora em Curitiba vira e mexe aparece coluna dele em jornal local. Vilachã nunca mais vi ou ouvi falar  dele. Seabra fiquei sabendo que mudou de nome para Sebastião Zéfiro. Maurício Veneza também nunca mais soube dele. Gustavo Machado parece que mora em Londrina e trabalha com animação. Bonini sumiu do mapa. Kussumoto está no Japão, de vez em quando ele aparece nos jornais de lá, fazendo exposição. Eros está criando minhocas em Morretes-PR.

-Quais dos seus trabalhos você julga mais importantes e porque?

O livro Ayumi de 450 páginas na primeira edição. É uma pesquisa documentada de 10 anos de trabalho. Fala sobre a imigração japonesa no Paraná e editada pela Imprensa Oficial. Tenho também alguns bonsai que gosto muito.

-Voce publicou no Exterior? O quê, quando e onde?

Não.  Me falaram anos atrás que viram um álbum da Maria Erótica na Bélgica e na França. Quem vendeu meus trabalhos não sei, eu que não fui.

-Foi através do Artecomix , outro agente, ou direto com as editoras?

Se alguém publicou  eu nunca cheguei a ver. Sei que as editoras de São Paulo  muitas vezes publicaram minhas h

istórias sem meu conhecimento ou consentimento. Alguns chegaram raspar meu nome assinado no original.

-Aqui no Brasil, o pessoal paga direito?

Dizem que pagam, mas não pagam.

-Sobre o atual estágio dos Comics no mundo, qual o futuro que voce antevê para a Nona Arte?

Faz anos que não acompanho o que anda acontecendo, portanto, não tenho condição para opinar.

-O quê voce acha que pode explicar o atraso brasileiro em relação, não digo aos EUA, mas à Europa, por exemplo, no que concerne a álbuns de qualidade (salvo raras exceções, é claro, como os de Mutarelli, Mestre Shima, Mozart Couto e uns poucos outros abnegados)?

Quem dita as regras é o mercado. Com meia dúzia de compradores de álbuns, jamais haverá qualidade, é uma questão financeira e cultural. Pessoalmente sou contra álbuns de luxo. Acho que o bom dos quadrinhos é a comunicação de massa. Grande tiragem, qualidade pouco importa. É como num campo de futebol, o que interessa são as arquibancadas lotadas. Muita vibração. Se meia dúzias de milionários comprassem todas entradas do jogo e fechassem o campo só para eles, os jogadores perderiam a tesão da disputa. Nos quadrinhos brasileiros muitas vezes acontecem isso, tem artista que só sonha em jogar para a elite. Se a intenção é produzir para agradar a elite é melhor partir para artes plásticas.

-O quê, ao seu ver, poderia ser feito para mudar para melhor este quadro?

É só o brasileiro começar a ganhar bem que tudo se resolve.

-Mas falemos agora do teu reconhecido trabalho. Como você se interessou por desenho?

Meu irmão gostava de desenhar e fui influenciado por ele. Coisa de adolescente.

-Frequentou alguma escola ou é autodidata? Quais suas maiores influências?

Fiz Faculdade de Filosofia e depois Faculdade de Desenho e Plástica, mas já era profissional de publicidade e quadrinhos na época. Eu comecei desenhando manga,  toda minha infância e adolescência desenhei no estilo manga. Quando comecei a publicar profissionalmente, fiz um esforço danado, copiando traços ocidental para me livrar desse estigma do manga, porque me aconselhavam a desenhar como os americanos e depois como os europeus. Agora parece que tudo está invertido, o ocidente está copiando o mangá. Recentemente encontrei um sujeito que gosta de desenhar e mandava cartas e desenhos para Edrel no início dos anos 70. Ele me disse entusiasmado. – Você é um gênio, ha 30 anos atrás já desenhava no estilo manga , eu não gostava do seu tipo de desenho. Não entendia porque a Edrel publicava seus desenhos e não os meus que era calcado na melhor escola de quadrinhos: a de Hal Foster. Hoje reconheço que você estava trinta anos na nossa frente! 

Veja o que é a obra do acaso. Eu desenhava no estilo manga, porque minha cultura e formação em quadrinhos era mais o mangá. Na época da Edrel  existiam vários desenhistas colaboradores e 3 estúdios de quadrinhos que garantiam o fornecimento das páginas necessárias para preencher as revistas existentes na editora. O estúdio de Paulo Fukue, de Fernando Ikoma  e meu. Dos três a que menos produzia e tinha o pior material era o meu. Atualmente por causa dessa febre de mangá, sou mais lembrado que o Ikoma e  Fukue.

--Como reconhecido pelo Prof. Valdomiro Vergueiro, você também foi vitima de alguma espécie de preconceito por se dedicar ao estudo das HQs?

Desculpe minha ignorância, não sei quem é esse professor. Não nunca tive esse tipo de problema. Minha família sempre assinava várias revistas de manga e eu comprava muitos gibis também. Eu era o moleque que mais tinha gibi na cidade de Guaiçara. Acho que tudo é uma questão cultural. No Brasil, com exceção do recente Maurício de Souza, não temos nenhum exemplo de pessoa que tornou-se personalidade nacional por fazer ou gostar de quadrinhos. Então acho que não se trata de preconceito, mas de desconfiança  do desconhecido, pois pais e mestres não tem onde se espelhar para fazer um julgamento. Lembro que no início da década de 70, na minha fase Edrel, meu irmão começou a freqüentar o Manga-kai (associação dos desenhistas e argumentistas de  manga) de Tóquio e ele me escreveu que existia mais de dois mil associados. Nosso universo de quadrinhos brasileiros ainda hoje é uma titica de galinha, tanto que todo mundo conhece todo mundo. É meia dúzia de gato pingado correndo em círculo vicioso, dizendo as mesmas coisas, repetindo as mesmas ladainhas, por anos e anos, sem perceber que esse círculo está se fechando cada vez mais. Na década de 50, 60 e até 70, as prateleiras de quadrinhos abrangiam  50% de espaço das revistas expostas nas bancas. Hoje não chega a 5%, em algumas bancas já nem existem mais gibis. 

--Eu residi por um ano em Hong Kong a me espantava, realmente, como as pessoas  - até jovens yuppies de terno-a-gravata – liam quadrinhos normalmente nas praças, no metro etc. Como você justificaria o real preconceito contra o gênero no Brasil?

No Japão é a mesma coisa, as pessoas lêem quadrinhos em qualquer lugar. Não creio que seja preconceito é uma questão cultural, de formação, de hábito. Aqui ninguém lê nada, nem livros, nem jornais, nem filmes legendados. E principalmente o brasileiro não tem dinheiro para comprar gibi. Somos o País do Gibi Zero.  Eu acho isso ótimo, num país tropical é melhor ficar tomando cerveja que  comprando esse lixo cultural chamado comix.

-A influência do dinâmico mangá, é notória, não? Me parece que seu avô lhe legou alguns daqueles calhamaços japoneses cujas tiragens ultrapassam  o 1 milhão mensal, não foi?

A dinâmica do mangá também é uma questão cultural. Como o japonês fala pouco tem que contar a história através de gestos e ações. O mangá tem tudo para dar certo no Brasil. O brasileiro tem preguiça de ler então vai olhando as imagens. Vantagem é que enquanto fala ao telefone pode ir lendo visualmente a história. No mangá os personagens aparecem vivem a história  e depois desaparecem. Isso dá oportunidade para novos heróis surgirem e para novos artistas entrarem no mercado. Nesse aspecto é como as nossas telenovelas. Já os super-herois parecem eternos, por isso um em cada 10 anos que consegue espaço no mercado.Também como as telenovelas brasileiras os mangas são em vários capítulos. Isso permite criar mais tramas no roteiro e desenvolver a personalidade de cada personagem.

--Uma curiosidade: desde meu primeiro contato com os mangás, me espantei também com a exploração, mesmo naqueles destinado ao publico infantil,  de temas ate´ hoje “tabus” em quadrinhos tupiniquins – e mesmo no Ocidente – como incesto, iniciação sexual a escatologia explicita (ainda hoje tenho um daqueles calhamaços japoneses com uma HQ que mostra crianças se enfrentando com fezes, aparecendo os órgãos genitais,etc. Naquela época pelo menos, vilões nunca morriam nem nas HQs, nem nos desenhos animados ocidentais – quem poderia imaginar o Tio Patinha fuzilando um dos Irmãos Metralha ? . Já desenhos japoneses – os animes – Ultra-Man cortava o monstro inimigo ao meio, com um golpe de karate.  Como mangaká e de origem nipônica, como você explica este fato?

-Seu espanto deve ser fruto da longa repressora e castrante educação cristã. Se você lê quadrinhos ou literatura japonesa com pensamento aprisionado nos moldes rígidos da falsa moral ocidental, certamente vai ficar chocado. Agora se você partir para uma leitura com a mente livre de pré-conceitos moralistas, verá que é uma coisa natural e realista. Vale dizer que hoje o super-heroi nipônico corta o inimigo ao meio com golpe de karatê, porque seus antepassados faziam isso freqüentemente com a espada. Se você ler uma história de samurai, é comum o personagem fazer picadinho do adversário. As histórias são contadas como realmente aconteciam na época. Já os quadrinhos americanos ou brasileiros nunca mostraram os branco chicoteando os negros, currando as negrinhas, e submetendo-os a toda sorte de tortura e humilhação. Em nome da moral e dos bons costumes varre para baixo do tapete a cruel realidade. Alguns psicólogos dizem que a leitura de quadrinhos serve de válvula de escape. Lendo uma história chocante, violenta e cruel, a pessoa pode sublimar sua agressividade. Talvez isso explique a baixíssima taxa de criminalidade no Japão, já que esse é um pais onde as tiragem dos gibis semanais chegam a milhões de exemplares. E no Brasil quem sabe a taxa de criminalidade seja a maior do mundo porque aqui ninguém lê gibi. Aliás dentro desse raciocínio, o presidente Lula devia publicar montão de gibi brasileiro e distribuir para o povo. Resolvia-se o problema da criminalidade e os quadrinhistas nacionais estariam inclusos no projeto fome-zero.

Agora essa da guerra de fezes é muito boa, melhor e mais barato que os pastelões do gordo e magro. No tempo da Edrel cheguei a escrever e desenhar  uma história onde havia merda o tempo todo. Nunca foi publicado.  Em poucas palavras era a história de um professor normalista que recebeu uma cadeira para lecionar numa ilha no cafundéu do rio Amazonas. O alimento principal dos ilhéus era um cogumelo que nascia da merda humana. Como o cogumelo era importante para a sobrevivência deles, a merda que o fornecia alimento era uma espécie de deus. Então o Deus-Merda era adorado por todos. Ninguém se atrevia a pisar na merda, pois estaria cometendo um santo sacrilégio. A nova escola que o professor ganhou em pouco tempo ficou com o assoalho forrado de merda, portanto impossível de dar aulas. Assim quase toda ilha estava forrado de merda e o povo tinha muito alimento porém, pouco espaço para lazer ou trabalho. Assim por diante a historia vai se desenvolvendo até o professor morrer atolado na merda, gritando “ ser professor no Brasil é uma merda”. Essa história bolei quando eu dava aula de Mobral, no Hospital Clemente Ferreira que ficava entre Lins e Guaiçara. Era um hospital de tuberculosos e havia muito comércio de escarros lá dentro.

Já essa questão de mostrar órgão genital nos desenhos japoneses é encarado com certa naturalidade. No Japão ainda existem termas com banheiros mistos. No começo do séculos vinte, quando a imigração japonesa chegou no Brasil, os  colonos nipônicos voltavam da roça e iam todos pelados, homens, mulheres e crianças tomar banho no rio. Foi maior escândalo causado no Brasil. Jornais de 1908 até 1912 falam muito disso. Chamando os imigrantes japoneses de promíscuos. Igualmente quando havia luta de sumô na colônia japonesa, muitas pessoas ficavam escandalizadas vendo a bunda  de fora, dos lutadores de sumô.

-Será que a repressão sexual, o tradicionalismo chauvinista a ate´ mesmo a “atração pela morte”, como uma “saída redentora” – é notório o fato de até mesmo crianças se suicidarem no Japão, por terem saído-se mal em exames escolares – poderia explicar esse fenômeno cultural?  Não seria contraditória eles serem um povo tão pudico, não afeito a expressar emoções, e explorarem o contrario em suas formas de entretenimento?

Não creio que os japoneses sofram de repressão sexual, pelo que vivi e conheço, o assunto sexo sempre foi dito abertamente e naturalmente em conversas familiares. Aqui no Brasil sexo é conversa de rua e boteco.

A meu ver não se trata de atração pela morte, mas sim fanatismo pela preservação da honra. Então muitas e muitas vezes a honra sobrepõe a vida e morte. No caso de suicídio de estudantes é a mesma coisa, a honra japonesa é algo muito pesado a ser carregado.

A expressão da emoção é uma linguagem cultural. Existe o modo refinado de se expressar e o modo vulgar de se fazer a mesma coisa. Quando se tem uma cultura milenar, aprende-se a expressar através da essência.

-E o “fenômeno-Ninja”, tão em voga no Ocidente, ate´contemporaneamente, como você observa a exploração desse verdadeiro mito folclórico no próprio pais-do-sol-nascente? Seriam os “ninjas” para eles, algo como os nossos “cangaceiros”?

Comparar ninja com cangaceiro exige grande esforço mental, espírito de concessão aguçado, permissividade histórica e imaginação desenfreada. Existe mais ninja nos Estados Unidos que no Japão. A exploração do tema acho até salutar, pelo menos para a cultura japonesa, que por séculos foi ignorado, passa agora por fase de internacionalização. Isso vai obrigar no futuro próximo uma revisão na história mundial, pois na época em que eu era estudante, nunca vi história do Oriente incluída na história do mundo.

  -Como já salientei, o seu “Ninja, O Samurai Mágico” foi um marco, pelo menos para os leitores como eu, admiradores e estudiosos da Cultura Japonesa.

-De lá para cá, tanto você como eu aprendemos bastante sobre a cultura japonesa.

  -Acabei de ler recentemente “Musashi”, pelo “Jorge Amado de olhos puxados”, Eiji Yoshikawa (Estação Liberdade-SP, 2 Vols.) que acirraram ainda mais esta minha atração.

-Não tem nada a ver Jorge Amado com Yoshikawa. A única coisa que fez sucesso do Yoshikawa foi Musashi, e nem precisava ser ele o escritor, Musashi já era um personagem de sucesso antes de Yoshikawa nascer. No Japão existem milhares de livros, folhetins, gravuras, crônicas, peças de teatro, marionetes e canções sobre Musashi. Assim como os 47 samurais, pouco tempo depois dos acontecimentos reais, Musashi tornou-se legendário. Atualmente existem vários filmes e seriados de tevê, sobre esse personagem real. Mesmo aqui no Brasil pudemos assistir recentemente o seriado de Musashi pela NHK tevê. No Japão existe muitos pesquisadores que se dedicam a estudar a vida de Musashi, como também existem muitos pontos turísticos, dos lugares em que ele travou duelos, museus com suas peças de arte e até a caverna em que ele se isolou para escrever O Livro dos Cinco Elos. (publicado pela Ediouro como "O Livro dos 5 Anéis"1984-JCN)

- Você acredita nos  feitos quase “mi (s) ticos” do “ninjutsu”? Tem livros ou algum documento histórico sobre o tema? Já leu “Ninja” de Eric van Lustbader?

-Não, não conheço o livro desse Eric, nem tenho curiosidade. Tudo que foi escrito sobre a cultura japonesa pós Segunda Guerra Mundial é lamentável. No final da década de 40 e início de 50, meu avô lia para meus irmãos e eu, um livro sobre ninjitsu, de aproximadamente 500 páginas, que ele trouxe do Japão no início da década de 30. O livro era envolvente e passava clima de pura magia. Havia algumas ilustrações que ajudava a formar imagens refinadas e elegantes dos acontecimentos na história. O personagem principal se chamava Jiraya. Quarenta anos depois, vi na tevê um seriado com nome desse personagem. Que decepção. Que merda que ficou, adaptaram o ninja e mais parecia super herói. A leitura moderna que fazem do ninjitsu, leva até mesmo sem querer, para uma visão comercialmente aceitável, tirando de certo modo a carga mítica original. Existem muitos documentos históricos, não traduzíveis por questão de bom senso no Japão. Tradições familiares, seitas acéticas (Suguendô, Shingon sectário, Jinja Shintô, Zenchi) que trazem ainda hoje os ensinamentos dos tempos do período Sengoku, quando floresceu a classe dos ninjas. A iniciação ninja é uma iniciação religiosa, austera, e possível somente com completo desapego. Uma verdadeira escola de kamikaze, onde aspirações pessoais e o ego simplismente deixam de existir e o anonimato é o ponto alto da tradição. Tanto é que não existem ninjas famosos na história do Japão. Se existisse não seria um verdadeiro ninja.

-Inclusive, confesso que a sua citada estória me motivou a estudar o tema, o que resultou inclusive num artigo publicado pela saudosa EBAL em sua revista Kung Fu, nº 8 – acho que foi o primeiro texto meu publicado “oficialmente”, portanto desnecessário ressaltar o quão importante o considero.

-Não me culpe por essa desgraçada magia que o ninjitsu fez na sua cabeça. Quem escreveu e desenhou a história foi meu irmão Cláudio. Transmitirei a ele sua consideração.

  -Sei que hoje você cultiva os mundialmente admirados “bonsai”, as “mini-árvores” japonesas. Sua casa é decorada no estilo nipônico (tatames, esteiras de plahinha, salão-do-chá, portas deslizantes de bambu-e-papel-de-seda, ou estou “viajando”? E pelo menos uma réplica da famosa espada samurai, a Kataná, você deve ter,  não? – não sei se sabe, mas impossiblitado de conseguir uma, eu mesmo fiz a minha www.josecn.hpg.ig.com.br/construindokatana.htm

-Sim cultivo bonsai que são árvores em bandeja. Mas como meus bonsais são de jaboticaba, pitanga, jatobá, aroeira, primavera, jaca, pau-brasil, café, guabiroba,  ipê, angico, cabreuva, cabuí, canela do brejo, figueira, goiaba, guauvira, jequitibá, tamarindeiro, pau ferro, uvaia, etc, minha casa não tem tatami, nem esteira de palhinha, nem salão de chá, nem portas deslizante de bambu e papel de seda. Tenho uma velha espada que pertenceu aos meus antepassados e que usava para treinar kendô quando era jovem.

  -Fale-nos sobre sua já clássica graphic-novel “A Máscara de um Samurai”, como foi sua gênese, ainda mantém seus originais?

-Mascara de Samurai, não sabia que tem esse nome sofisticado de graphic-novel, quanta frescura! Essa história foi publicada na Edrel, depois meti sexo dentro e publiquei na Grafipar. Os originais joguei fora, talvez se der uma vasculha na bagunça ainda haja alguma página.

  -Você chegou a acompanhar a saga de Ito Ogami, “O Lobo Solitário” e seu filhote, por Goseki Kojima e Ryiochi Ikegami, que maravilhou a terra do Tio Sam levadas pelo conhecido Frank Miller?

Antes do Lobo Solitário, os quadrinhos esses autores, ainda iniciantes, eram publicados para preencher a revista Kamui Den de Shirato Sanpei, da Akame Productions. Como bons auxiliares de Sanpei, davam a eles uma carona no final da revista. Ipiki Okami ou Lobo Solitário nós líamos nas revistas japonesa no tempo da Edrel, no início da década de 70. Também o Canal 4 passava o seriado de tevê desse personagem. Na época não fez sucesso e ninguém deu bola no Brasil. Assim mesmo, devido a compra do pacote que tinha feito sucesso no Japão, o canal 4 exibiu durante vários meses, no horário das novelas da Globo. O interesse pelo lobo só foi despertado depois que os americanos gostaram desse personagem. Isso significa que a velha máxima que diz “o que é bom para americanos é bom para os brasileiros” , continua valendo.

  -E a série Vagabond, atualmente publicado pela Conrad, (re)contando graficamente a história de Musashi?

É a mesma coisa, agradou americano, agrada brasileiros. Os desenhos dos quadrinhos de Musashi são muito bonitos. Só não me agrada o nome, por que “Vagabond”? Não tem nada a ver. Devia chamar-se Musashi.

Sabe que desde o tempo em que eu produzia a revista O Samurai, nos anos 70, tinha vontade de desenhar a história de Musashi. Cheguei a começar várias vezes, mas nunca dei continuidade porque a história dele é muito comprida e não cabia num só gibi. Se eu soubesse que ia fazer tanto sucesso 30 anos depois, teria feito mesmo com muito sacrifício. Cheguei a fazer um estudo minucioso sobre o ponto de vista do horóscopo oriental, já durante toda sua vida ele, Musashi, mostrou-se tentando dominar os cinco elementos da natureza. Tanto que sua obra final é Gorin no Sho (O Livro dos Cinco Elos). Sobre esse ângulo é interessante o duelo com Sasaki Kojirô, que como ele, era do signo de Macaco. Musashi era do elemento Madeira e Kojiro do elemento Água. Como Kojirô era melhor espadachim que ele, sua estratégia foi a de privar seu adversário do uso da força dos elementos. Por isso chegou de barco ao duelo, e não permitiu que Kojiro corresse para a água (seu elemento). Kojirô era mestre do Fussui (Feng Shui, em chinês), ou seja Vento e Água, ele treinava seu estilo deixando a ponta da espada dentro da água do rio e cortando andorinhas em pleno vôo (elemento vento). Uma vez que Musashi desembarcou do mar isolando-o da água, e com cabelos amarrados de modo estranho, que dava impressão errada da direção do vento, de certa maneira desnorteou Kojirô, o melhor espadachim da época no Japão. Eliminado esses dois elementos, Musashi desembarcou a tarde, deixando o sol (elemento fogo) a suas costas. E venceu a luta porque usou o remo como espada. O remo é do elemento Madeira que é do seu signo de nascimento. Enfim, dos cinco elementos só restou o metal (espada) para Kojiro. Também todos seus duelos tiveram horário e data que favoreciam seu signo (Macaco) em detrimento de seus adversários. Esse tipo de raciocínio, passa quase sempre desapercebido quando no Ocidente traduzem as histórias japonesas.

  -Fantástico! O que você pretendeu com “Psikuy: Homens que Nascem Morrendo”?  Me parece que foi uma narrativa realista da verdadeira “maldição” que é a vida de um agente-secreto/assassino profissional/espião, sem nada da “glamourização” que o cinema nos passa, não?

Não pretendi nada. Só desenhei porque naquela época estava na moda esse negócio de agente secreto, com o sucesso de James Bond no cinema.

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bidi-font-size: 12.0pt">-E aquela sensacional estória “Roberto Wilmar Patrícia”, que saiu na Inter Quadrinhos (a nossa versão “real” da iconográfica Heavy Metal)?

É uma história real, nada mais.

  -Porque aquela frase "Camaducaia Nunca Mais",com uma data, no final ?

A história é real e as datas é de quando acontecem os fatos. Jornais da época deram repercussão aos acontecimentos.

  -O que recomenda para desenhistas novatos em termos de aprendizagem, principalmente desenho da figura (anatomia), luz-e-sombra, perspectiva e composição artística?

Essa pergunta deve ser feita para o Mozart Couto, eu desenho com muita dificuldade, um verdadeiro parto cada história.

  -Você concorda que, depois de uma onda iniciada, ao meu ver, na Image, o desenho de super-heróis tem optado por uma arte mais realista – em termos de visual e não de temática.Melhor explicando: seres de músculos anabolizados impossíveis não são realistas. Mas sua representação no papel,  quase sempre iluminados por no mínimo duas fontes de luz – uma mais forte e no lado oposto a esta, outra mais fraca, ou de luz rebatida, torna as figuras mais realistas, mais tridimensionais, se me entende – como faz Dale Keown e  principalmente o italiano Paolo “Druuna”Serpieri. Concorda que existe esta tendência?

Não entendo dessas coisas, nem sei o que é Image.  Só sei que Druna é a mais gostosa das personagens femininas que já apareceu.

  -Seria este novo jeito de desenhar mais elaborado uma forma de concorrer mais à altura com a computação gráfica, na qual as figuras, eu costumo dizer, são mais reais do que o real?

Sei lá, acho que o melhor modo de desenhar é não ficar pensando em como desenhar.

  -E falando nisto, o que acha do desenho do italiano Paolo Eleuteri Serpieri – e sua inigualável Druuna – principalmente em termos anatômicos e de artefinalização, com aqueles traços finos à pena, hachureando para representar a iluminação mencionada acima, e simultaneamente acompanhado a superfície – como os wire-frames da computação gráfica – que passa a idéia de volume, de tridimensionalidade com grande maestria?

Serpieri não me interessa, mas a Druuna realmente é inigualável.

  -Quando foi seu primeiro contato com o trabalho de Alan Moore e  qual obra lhe causou algum impacto especial?

Desculpe minha ignorância, não sei quem é Alan Moore.

  -Você vai ter de "descobrir" sozinho. Eu sei que você é um cara místico. O que você pensa da Magia?

Magia é arte.

  -O mesmo que diz Alan Moore. Falemos de sua pintura. O que tem feito atualmente nesta maravilhosa arte visual?

Tenho pintado bem menos do que pintava a 11 anos atrás. Perco muito tempo fazendo bonsai.

  -Ainda no neo-figurativismo? Tem exposto ou pintado só para si mesmo?

Tenho viajado entre o figurativo e o abstrato informal. Jamais pintai para mim.

  -Você também já trabalha com Arte Digital? Somente “aperfeiçoando”o que desenhou antes no papel, ou já cria totalmente no PC? Qual programa considera o melhor para isto e porque?

Tenho perdido muito tempo com o computador Mack.  Já ganhei lesão por esforços repetitivos graças ao mouser. Mas acho que é mais rápido desenhar e pintar a mão livre. Não conheço muitos sobre programas, apenas a que uso intuitivamente.

--E este lance de sua Arte em 3D, outro assunto que sempre me fascinou (desde os anaglifos, do holandês Ducos du Hauron, até a estereoscopia e os hologramas de hoje).Alguma forma de me enviar "uma amostra"?

Não entendo de hologramas, nem sei o que é anaglifos,  ou estereoscopia, nem quem é Duco du Hauron. As pinturas que fazia a 15 anos atrás, eram intuitivas baseadas nos ensinamentos do mestre zen Takuan. Depois descobriram mais tarde que eram iguais as chamadas 3D. Na verdade quem revelou os efeitos foi as reportagens de teve. Eles filmaram meus quadros fora de foco e foram focando aos poucos. Quem estava assistindo teve nesse momento, a medida que o quadro ia sendo focado, perceberam que eram em 3D. Ficaram maravilhadas, daí muita gente telefonou para a teve, pedindo informações sobre a exposição que foi um sucesso no puro acaso.

-Dos artistas nacionais, quais os que você mais aprecia e porquê? E dos gringos?

Acho que o Mozart é o melhor. Dos gringos Shirato Sampei.

-Sobre os fanzines, onde , parece, quase todos nós brasileiros começamos você acha que eles ainda têm espaço neste novo mundo de Internet?

Acho fanzine uma punheta. Tudo bem enquanto adolescente. Acho que os desenhistas nacionais precisam raciocinar como profissionais. Já vi pessoa se orgulhar porque seu fanzine está com mais de 7, 8 ou 10 anos de edição. É como um jogador de futebol comemorar 10 anos de amadorismo, depois de tentar ser profissional por esse período. 

-Continua lendo Quadrinhos? Pensa em “voltar”?

Dificilmente leio quadrinhos, aliás nunca fui de ficar lendo as histórias. O que eu faço é dar umas olhadinhas nos desenhos.  Não perdi a mania de comprar revistas, porém dificilmente as leio. Só vejo. De vez em quando me dá vontade de desenhar quadrinhos, mas fica só na vontade. Falta coragem, não tenho vontade de bancar o super herói.

Há alguma pergunta que não fiz e que você, por julgar que teria algo interessante a dizer, gostaria de ter respondido?

Não tenho muito a dizer. A não ser sobre a seita Zenchi. Mas isso ocuparia muito tempo e espaço.

-E, finalizando, o que achou do nosso modesto site e o que recomenda para aperfeiçoa-lo?

Prometo que quando tiver um tempo vou dar uma olhada minuciosa no seu site. No momento só posso dizer que você não bate muito bem da cabeça. As coisas que você faz e diz,  não é de uma pessoa normal. Acho que estou dando entrevista para um cara pirado.

-Obrigado pelo elogio.

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