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Entrevistas / Interviews
EDITOR LEANDRO LUIGI DEL MANTO
André Forastieri, Sérgio
Codespoti, Jotapê Martins, Dario Chaves.
Maurício Muniz e alguns outros abnegados editores, o nome de Del Manto se
destacou sempre como o profissional à frente da publicação nacional de tantos
heróis que embalaram nossos sonhos. Foram os caras que conseguiram transformar
a verdadeira paixão pelas HQs em trabalho. Agora é torcer para eles nos ajudem
a ter também uma produção que faça a diferença, pelo menos, no mercado do
Mercosul, pois talento não nos falta.
Caro
Tenho 38 anos. Nasci, fui
criado e vivo em São Paulo, cidade que amo de verdade (apesar dos buracos, das
enchentes e dos impostos!). Sou divorciado, sem filhos, jornalista e Editor.
Meu pai foi o grande
"culpado”. Ele trabalhava na Editora Abril (no setor que iria, depois, se
tornar o que é hoje a Dinap) e sempre trazia as revistas, fascículos e livros
para casa. Por isso, sempre tive contato com o mundo editorial desde que me
conheço. Fui praticamente alfabetizado pela minha mãe com revistas em
quadrinhos e cartilhas educacionais que a Editora Abril publicava na época.
Então,
tenho uma ligação muito forte com quadrinhos e livros desde pequeno. Mesmo
quando era obrigado a ler aqueles livros “chatos” recomendados pela Escola,
eu tentava compensar lendo os volumes da coleção “Clássicos da Literatura
Juvenil” (Os Três Mosqueteiros, Robin
Hood, Ivanhoé, A Ilha do Tesouro, Chamado Selvagem, Viagem ao Centro da Terra,
20.000 Léguas Submarinas e tantos outros). E, como fui criado em São
Paulo, nunca tive muita liberdade de brincar na rua etc. Assim, sou fruto da
geração “Vila Sésamo”, “Jonny
Quest”, “Globo Cor Especial” e “Globinho”.
Sempre assisti a muito desenho animado e programas de TV. Jonny
Quest, por exemplo, foi o que despertou meu interesse por desenhar. Hoje sei
que a TV, os quadrinhos e a literatura forjaram o que sou. O que mais sinto
falta atualmente são de séries instigantes como Seres
do Amanhã e bem-humoradas como Guerra,
Sombra e Água Fresca, dois verdadeiros clássicos pra mim!
Pode parecer que eu estou
querendo “puxar sardinha”, mas o fanzine Hiperespaço
contribuiu bastante nesse aspecto. Me lembro de uma matéria que falava
sobre Dreadstar, de Jim Starlin. Todo aquele conceito da Igreja da
Instrumentalidade, da Monarquia, da alta tecnologia lado-a-lado com magia me
deixaram maluco! Fui atrás do que eu pude encontrar do material na Livraria
Muito Prazer e adquiri a edição Dreadstar
Annual # 01, com a história “The
Price”, que contava a origem de Syzygy Darklock. A edição era toda
pintada e fiquei fascinado com o material. Daí, me lembro que o Hiperespaço
estava publicando tiras de Star Wars. E
pensei: “Por que não?” Então,
comecei a traduzir “The Price” e,
em cima de fotocópias, dei início ao meu primeiro trabalho de edição: eu
retocava com nanquim os fundos que tinham textos vazados (em negativo), refazia
partes do fundo com gouache e colava os textos de balões e recordatórios. Era
um trabalho insano! Tanto que acabei desistindo por causa do enorme tempo que eu
perdia com aquilo... Mas isso tudo foi bem antes de eu sonhar em trabalhar
profissionalmente com quadrinhos. Meu primeiro passo profissional nos quadrinhos
foi trabalhando como Assistente de Produção na Redação de Quadrinhos
Estrangeiros da Editora Abril. Lá eu aprendi o be-a-bá do que é fazer uma
revista. Foi uma escola como nenhuma outra! Pouco tempo depois eu passei a
Tradutor e comecei a editar alguns títulos. Peguei a fase de Crise
nas Infinitas Terras já “caminhando” e mergulhei de cabeça na Espada
Selvagem de Conan (acho que meu primeiro Editorial na ESC foi na edição # 29, quando me apresentei aos leitores como fã
do cimério – e eu era mesmo!).
Que eu me lembre, foi com
a história “Lição de Anatomia”, que,
se não me engano foi na revista Novos Titãs em formatinho . Quando terminei de ler aquela pérola,
vi que não tinha nada a ver com o que eu estava acostumado. Nada de super-heróis
e feitos heróicos. Beirava o horror, mas não parecia aquelas histórias da Krypta.
Era algo totalmente novo. Tinha um “quê” de literatura. Foi ali que começou
o meu respeito e minha admiração pelo Moore. Depois, acho que os trabalhos
dele que realmente me marcaram foram Watchmen
e V de Vingança.
Watchmen,
sem dúvida. Para mim, é uma obra quase perfeita. A sintonia ideal entre história,
narrativa, pesquisa e referência... O mais estranho para mim é que não
considero Watchmen uma obra de super-heróis. Muito pelo contrário! É muito
mais uma história policial que usa o cenário dos super-heróis. Acho que foi a
maneira (muito esperta!) que Moore encontrou na época para escrever uma história
policial. E quando li que se tratavam de personagens que Moore “resgatou” de
outra editora (da extinta Charlton) eu pensei: “Esse
Moore é completamente louco! Pegar personagens ‘esquecidos’ e fazer esta
história maravilhosa!” Moore foi além do conceito de reformulação de
personagens de quadrinhos. Foi quase um processo de transubstanciação! Watchmen
não era simplesmente uma maxi-série que reformulava super-heróis antigos.
Era como ter transformado chumbo em ouro. Eu já havia tido um exemplo disso com
as histórias que ele escrevera para o Monstro do Pântano, mas Watchmen abordava conceitos muito mais amplos. Mesmo se deixarmos de
lado o conteúdo referencial da história em si e focarmos nossa atenção
apenas às técnicas narrativas que ele empregou em
Watchmen, é impossível fechar os olhos. Capítulos fechando em
closes, dando gancho para supercloses (uma técnica digna de um David
Lynch),
toda a seqüência não-linear do Dr. Manhattan na superfície de Marte (o
momento mais genial e matemático da série toda), o capítulo da origem de
Rorschach (a coisa mais assustadora que já li em quadrinhos!). É fantástico!
Acho
que, com Watchmen, Moore fez mais mal
do que bem para o mercado de quadrinhos. Watchmen é um dos pontos altos dos quadrinhos do final do século
XX e acabou influenciando todo e qualquer novo quadrinhista contemporâneo. O
problema é que a obra de Moore é tão espetacular que ainda não surgiu
ninguém
que conseguisse se igualar a ele. O que continuamos vendo é um monte de
quadrinhistas frustrados e presunçosos que tentam a todo custo fazer algo no
estilo de Watchmen e, desgraçadamente,
se perdem em clichês e referências sem propósito algum. O próprio Frank
Miller provou um pouco disso quando fez DK2,
a sofrível e patética continuação de Dark
Knight Returns. Miller fez algo tão bom com o Batman, que acabou ofuscado
pela sua própria obra, pois o resultado de DK2
deixa muito a desejar. Então, o que posso dizer? Que Watchmen é um divisor de águas? Não. Pra mim, Watchmen é a muralha (ainda) intransponível de um dique que não
deixa a água passar. Um autor que chegou muito perto da criatividade de Moore
é Warren Ellis, com sua série Planetary,
que tenta mapear a história secreta dos super-heróis no século XX. Fora ele,
acho que estamos caminhando num imenso deserto...
Acho que existe, sim. Nossa
cultura, num todo, é bastante cíclica e sempre terá espaço para tipos
musculosos superpoderosos que usam a cueca por cima da calça. E tenho minhas dúvidas
quanto a Cultura Pop ter amadurecido. Acho que ela é temporal e muda de cara de
acordo com os ciclos. Quanto ao Moore ter destruído o gênero “super-herói”,
não acho que seja uma verdade. Mais do que isso, acho que ele deu um ultimato
na maneira de se contar histórias em quadrinhos com super-heróis. Mesmo em
materiais recentes do tipo, como a linha ABC (Tom
Strong, Top Ten, Promethea), ele usa narrativas bastante simplistas sem
querer oferecer algo com a qualidade de Watchmen.
Nisso ele foi muito inteligente, ao não ter de competir com suas próprias
obras anteriores. Um material que talvez possa ter “destruído” o gênero
super-herói é Miracleman, que teve
apenas quatro edições lançadas no Brasil no final dos anos 80. Nessa série
ele nos dá uma visão do que seria um super-herói que resolve tomar a atitude
derradeira e, realmente, tomar as rédeas do mundo. Um super-herói ditador!
É o seguinte... Nossa existência
toda é muito estranha! Vivemos no meio de uma série de paradoxos morais e políticos
e o ser humano está se distanciando cada vez mais da Natureza e de seus
instintos mais primários. Quando se tenta explicar algo apenas pelo prisma
científico, fechamos muitas outras portas. Não dou as costas à Ciência. Acho
que ela faz parte do desenvolvimento da Humanidade e está atrelada à nossa própria
história. Mas sei que existem coisas que a Ciência não consegue explicar. Já
presenciei muitas coisas estranhas e não encontrei explicação plausível,
pelo menos, do ponto de vista científico. Acho que a Ciência é a grande
religião do século XXI. Assim como as religiões que surgiram para nos dar
conforto diante de eventos inexplicáveis, a Ciência está aí para servir de
nova Bíblia. Questões como o Universo ser infinito (por definição!) só nos
leva a crer que existe uma força maior que ainda não conseguimos entender
muito bem. Aliás, você já parou pra pensar na facilidade com que afirmamos
que o Universo é infinito? É quase o trecho de uma prece... Caramba! Como é
que pode existir algo infinito?!?! E nós estamos flutuando numa coisa infinita?
Pode existir algo mais estranho do que isso e sendo aceito com a maior
facilidade? Eu acredito em muita coisa e sempre quero poder aprender mais.
Procuro manter minha mente aberta e não virar ovelha...
contradições, horror e beleza?
Acho que isso seria
pretensão demais... O tema paranóico da conspiração que, na minha opinião,
reflete a segunda metade do século XX, é bem mais complexo e amplo. Acho,
muito mais, que From Hell seguiu uma
tendência literária, como muitas outras obras. O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco,
é muito mais representativo desse movimento e acabou influenciando outras mídias,
inclusive os quadrinhos. Mesmo assim, acho esta obra de Moore fabulosa. Ela só
peca, talvez, pela arte de Eddie Campbell,
que deixou a desejar. Fico imaginando a história sendo desenhada por David
Lloyd (de V de
Vingança). Aí,
seria espetacular! Não engulo muito esse comentário de que o Campbell deu um
charme vitoriano à série. Sejamos sinceros: o cara desenha muito mal!
Muito
fraca, pois só esbarrou naquilo que Moore tinha a dizer.
Li,
mas, sinceramente, não gostei tanto como eu achava que iria gostar. Meu desafio
agora será ler em Inglês. Nessas horas sempre jogamos a culpa na tradução...
Sei de amigos meus que leram no original e disseram que o texto é igualmente
complexo e cansativo. Vamos ver...
A Magia está em todo lugar.
Nas conseqüências, nos desencontros, nos passos que damos acertadamente ou não.
Em tudo! Tenho absoluta consciência de que sou mais uma das inúmeras vítimas
da tecnologia, pois simplesmente não consigo arranjar tempo livre para me
dedicar às coisas em que eu gostaria de acreditar. Penso na Magia como uma
porta que está sempre presente e aberta, só esperando a hora em que eu decida
dar um chute no monitor do meu computador e mandar tudo à merda! Bem... Já
deixei de usar relógio! Não sou mais escravo do tempo... Mas o caminho será
longo. Só espero que a porta não se feche!
Pois é... Eu era muito novo
quando li aqueles dois números da série... Gostaria de ter a oportunidade de
poder relê-los hoje. Lembro-me do sentimento de frustração que tive quando
soube que a série não teria continuação. Não sei se chega a ser uma comparação
um tanto forçada, mas foi a mesma sensação que tive ao ler O
Castelo, a derradeira (e inacabada) obra de Kafka. Você acaba se perdendo
nas possibilidades que se abriram com a história e chega a odiar o autor por
ter feito aquilo conosco... Fica difícil dizer algo sobre uma obra sem-fim. E
no caso do Moore eu nem me arrisco!
Por que não? Os quadrinhos são
apenas uma maneira de se contar uma história. Não vejo por que Moore não
teria conseguido isso.
Ainda nesta direção
metafísica, qual é a sua concepção do Tempo? Considera-o a Quarta Dimensão
do Espaço, como teorizou Einstein ou tem outra visão?
Agora
você está exigindo muito de mim... Sou apenas um leitor de quadrinhos! Mas
vamos lá! Acho que todo mundo tem sua própria versão do que é o Tempo. Pra
mim, esse conceito seria melhor explicado através de linhas que, talvez tenham
partido de um único fio pendurado na Aurora do Tempo. Cada linha emergente
seria uma linha temporal paralela que, por um motivo ou outro (uma viagem no
tempo, por exemplo), segue um determinado rumo. Sou um sonhador que gosta de
acreditar que as viagens no tempo são possíveis. Assim, toda vez que alguém
do futuro volta no tempo, ele dá origem a uma nova linha e assim por diante.
Sei que minha teoria tem seus furos, mas nada que não possa ser explicado numa
mesa de bar!
O físico britânico Stephen Hawking
também considera o tempo como um sólido, onde tudo está se passando
simultaneamente. Portanto, se pudéssemos “ser examinados” por um ser
“fora do tempo”, ele nos veria como uma gigantesca centopéia, com milhares
de pernas, braços e cabeças se esticando, desde um bebê até um velhinho, por
todos os lugares – e tempos – por o
Hummm... Esta é difícil,
hein? Mas vamos lá! Acho que não conseguiríamos ver muita coisa simplesmente
pelo fato de pertencermos a dimensões diferentes. Da mesma forma que não
conseguimos “ver” ondas de calor e outras de frequências diferentes, acho
que não veríamos algo concreto. Se fosse possível, creio que veríamos apenas
relances de imagem... Blinks, por assim dizer. Seriam imagens tão rápidas e
aceleradas em sua forma que passariam quase despercebidas. Mas foi curioso você
citar a visão que um ser fora do tempo tem de nós... É mais ou menos o que o
Moore descreve no conto “Allan e o Véu
Rasgado”, da Liga
Extraordinária.
Quero
acreditar que seja por causa do condicionamento ao qual somos levados desde que
nascemos. Somos “ensinados” a não dar ouvidos ou enxergar determinadas
coisas. É como eu disse: somos vítimas e escravos da tecnologia. Assim, a
possibilidade da Magia é quase uma maneira de escapar do sistema em que
vivemos. É quase uma declaração do tipo: “eu forjo o destino e não estou
preso a ele.”
Tecnológicas, sem dúvida!
Hoje quase não há mais espaço para uma postura empírica, pois a evolução
chegou a um ponto em que não existem brechas para tanto. Estamos cada vez mais
condicionados a aceitar o que a Ciência nos dita. Deixando o maniqueísmo de
lado, a base do código binário, o “sim” e o “não”, rege o que
aceitamos ou não. Se existe algo mais limitador do que isso, eu desconheço.
O que acha da imberbe Teoria
do Caos, com seus Fractais e o popular "efeito borboleta"?
Muito
tem se falado sobre o tal “Efeito Borboleta”, mas, ironicamente, ninguém
parece levar a questão a sério. Num plano mais abrangente, poderíamos
simplificar da seguinte maneira: nada pode ser analisado separadamente. Cada vez
que alguém abre uma torneira e a deixa aberta, a água que está sendo desperdiçada
ali provocará alguma reação, se não naquele momento, num futuro
indeterminado. É tudo uma questão de consciência. E me desculpe se usei uma
exemplo tão simples como o da água, mas isso é um problema que estamos
vivendo na cidade de São Paulo já há alguns anos e ninguém dá muita atenção
a isso. Hoje, você ouve sobre a preocupação mundial a respeito da falta de água
no Globo. Então, o que falta para o ser humano abrir os olhos e realmente
enxergar com mais seriedade o papel que ele tem no Universo? Prefiro pensar
nessas teorias como pequenos lembretes de coisas que deveriam ser óbvias. Mais
uma vez, essas teorias disso ou daquilo só reforçam mais a idéia da
necessid
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Na
verdade, ela já foi aproveitada em algumas histórias do Planetary
escritas por Warren Ellis. O conceito do Multiverso, com múltiplas
realidades paralelas coexistindo numa estrutura parecida com um “snowflake”.
Sei que muita gente nem esbarrou na complexidade disso, mas o conceito está lá.
Basta ter interesse suficiente para pesquisar em cima. Esse material será lançado
pela Devir este ano na forma de livro, reunindo as quatro primeiras histórias
de Planetary e a cultuada história preview de 8 páginas que tenta
recontar a origem do Hulk através da Física Quântica. É bastante curioso o
fato de Ellis se equiparar ao Moore em termos de qualidade de texto e de história.
No entanto, se Moore caminha pelo lado da Magia, Ellis segue um rumo totalmente
diferente: o da Ciência. São dois pesos numa mesma balança de criação.
Como
eu contei antes, tudo começou com uma matéria sobre o Dreadstar no Hiperespaço...
e o resto é história... Já editei muitos quadrinhos nesses anos todos e gosto
de pensar que aprendi sempre um pouco mais a cada trabalho que caía nas minhas
mãos. Posso não ter sido bem-sucedido em alguns como eu gostaria, mas podem
ter certeza de que sempre me empenhei muito em fazer um bom trabalho. Tenho
carinho por muitas obras de quadrinhos que editei, mas acho que uma delas sempre
irá se destacar das outras: a série Sandman. Foi um material que exigiu muito de mim como profissional e
como ser humano. Nunca aprendi tanto como com esta série. E foi um momento mágico
também. Tive a sorte de estar rodeado de pessoas que gostavam igualmente do título
e também não mediram esforços para manter a revista sendo publicada, apesar
de todas as interrupções e problemas que ocorreram. Além disso, tive o prazer
e a honra de conhecer o escritor da série: Neil Gaiman. É um sujeito
verdadeiramente especial!
Sem
dúvida. O preconceito existe e não é pequeno. Ele vai desde aquela expressão
de desdém quando alguém descobre que você é Editor de Quadrinhos e não
Editor de Arte de uma revista de informação até a questão salarial. Mas
posso dizer uma coisa: tendo editado tudo o que editei até hoje, me sinto muito
mais apto a exercer a profissão de Editor de qualquer publicação do que seria
se eu tivesse sido Editor de uma revista “séria” e tivesse que assumir uma
revista em quadrinhos. Quando se edita quadrinhos é preciso que você pesquise
muito e esteja apto a lidar com uma diversidade enorme de estilos e temas. E sou
muito grato a esse aprendizado que os quadrinhos me deram e continuam dando. Eu
lido muito bem com esse tipo de preconceito. É mais ou menos a mesma postura
que temos quando alguém está falando uma tremenda besteira e você escuta tudo
se divertindo do ridículo da situação. Tenho consciência do meu trabalho e
minha intenção é ser fiel a ele e aos meus leitores. O que os outros acham ou
deixam de achar não me interessa. Ponto.
Na “segunda-geração” da revista Wizard-Brasil, no número de estréia - e único, ao que me consta – foi anunciada uma entrevista inédita com o mago ermitão de Nothampton, conduzida, se não me falha a memória novamente, pelo músico Thomas Pappon. Sabe por onde as gravações desta entrevista? Alguma chance de a nova Wizard vir a publica-la?
Mythos). Tive participação na segunda tentativa da Wizard pela Hangar 18, quando a revista foi produzida pela Pandora Books Editora (da qual fui um dos sócios fundadores). Não tenho mais ligação alguma com a
Pandora, mas nós realmente havíamos feito uma entrevista com o Moore (através de um amigo nosso que morou um certo tempo em Londres). A mesma nunca saiu das fitas cassetes. Acredito que o Maurício Muniz (da
Pandora) tenha esta entrevista. Seria bom conversar com ele.
Sim,
muitas obras. Temos o segundo volume de A Liga Extraordinária, Promethea, Tom Strong e Top Ten para este ano. O primeiro da leva será A Liga. Os demais terão suas datas de lançamento definidas em
breve.
Uau!
Que notícia boa! Já valeu esta Entrevista.O que tem feito
atualmente e quais seus novos projetos?
Tenho
feito muitas coisas e, se tudo der certo, e eu não perder a sanidade antes,
finalmente tirarei alguns projetos da gaveta e farei com que cheguem às
prateleiras. Pra mim, projetos não têm nome. Prefiro batizá-los quando
estiverem deixando de ser projetos. Se tem algo que aprendi nesses anos todos é
a manter os segredos em segredo. Já tive muitas decepções nesse sentido por
falar de idéias antes de elas se tornarem reais... Então, tudo ao seu tempo.
Tenho
visto pouquíssimos fanzines ultimamente. E sinto muita falta disso! O tempo,
para mim, anda cada vez mais curto e eu não consigo mais ler tudo aquilo que
gostaria. Sobre os quadrinhos nacionais, acho que os autores estão finalmente
ganhando mais espaço e respeito na mídia. Para mim, o Flávio Colin sempre será
um mestre eterno dos quadrinhos. Só sinto muitíssimo que toda uma geração não
tenha tido acesso ao talento deste mestre que se foi. Hoje eu sou fã mesmo de
Lourenço Mutarelli e Fernando Gonsales. E você não sabe como tem sido
prazeroso para mim poder finalmente editar os materiais desses dois
quadrinhistas aqui pela Devir. O Lourenço é uma das pessoas mais geniais e
humildes que conheço. Nenhum elogio seria capaz de fazer jus ao talento dele. O
Gonsales é outro artista genial que não se deixa levar por estrelismos e
continua mantendo a qualidade de seus trabalhos.
Vou tentar entrevistar o
Muito
se falou sobre não existir espaço para os autores nacionais publicarem seus
trabalhos. Isso tem uma parcela de verdade, mas, de uns tempos para cá, acabou
virando desculpa para aqueles que não tinham talento. Hoje, acho que o grande
problema é a falta de profissionalismo dos quadrinhistas. Tudo mundo chega com
uma pasta de trabalhos debaixo do braço querendo ser “pop star”, sem a
menor humildade. Todo mundo se acha um Alan Moore ou um Jim Lee da vida... Mas o
que falta à grande maioria dos autores é saber fazer a coisa certa! Não
adianta ficar copiando o estilo deste ou daquele autor. Os
desenhistas deveriam
se preocupar em entender o estilo de um determinado artista e, a partir daí,
buscar o seu próprio estilo. E isso vale para os roteiristas também. O maior
problema de quem escreve quadrinhos hoje é ler apenas quadrinhos! Caramba!
Busquem referências em outras coisas. Leiam mais livros e jornais. Não se
prendam só aos quadrinhos! Se quiser escrever quadrinhos, é preciso ter uma
cultura mais ampla e variada. O mercado está aí e quem for bom de verdade irá
encontrar seu espaço, desde que levado pelo autor com seriedade humildade.
De
todos eles, tive maior contato com o Colin e o Igayara. O Colin, pelo fato de
idolatrá-lo como fã de quadrinhos. Cheguei a conhecê-lo muito rapidamente num
desses eventos de quadrinhos, mas, infelizmente, foi algo bastante formal. Ele
jamais soube o quanto eu admirava seu trabalho. Com o Igayara foi diferente.
Tive o prazer de trabalhar com ele, mesmo que por pouco tempo, na Editora Abril.
Vou contar uma passagem da minha primeira semana de trabalho na Abril... Logo no
primeiro dia, me pregaram uma peça. Comecei a trabalhar como Assistente de
Produção, algo como um office-boy interno, aquele cara que xeroca as páginas
de quadrinhos que vão para os tradutores ou carimba os diagramas antes das páginas
produzidas irem para a gráfica etc. Pois bem, naquela correria toda do primeiro
dia, pediram que eu fosse cobrar do Igayara uma tal máquina de carbono branco.
Acontece que o Igayara era o Diretor Editorial e eu um cara que carimbava páginas...
Então, fui até o andar onde ele trabalhava e pedi à secretária dele pra
falar com ele. Já sabendo da “pegadinha”, o Igayara mandou que eu entrasse
na sala e me sentasse numa cadeira ali perto. Tomei um chá de cadeira de quase
uma hora. Daí, todo bravo e sério, ele me perguntou o que eu queria dele. Putz!
Gelei e tremi na base. Pensei que seria despedido logo no primeiro dia de
trabalho... Quando disse que precisava da tal máquina de carbono branco, ele não
agüentou e caiu na gargalhada. Eu não sabia se ria também ou me escondia,
pois não entendi nada. E ele veio até mim, todo paternal, dando tapas nas
minhas costas e se desculpando, dizendo que a máquina tinha quebrado, mas, ele
podia trazer no dia seguinte uma caixa com pó de retícula... Ele me acompanhou
para fora da sala rindo bastante e eu sem entender nada. Quando voltei à Redação
e disse que a máquina havia quebrado, mas que o Igayara poderia trazer pó de
retícula, o andar veio abaixo. Todo mundo começou a gargalhar. E eu ali, com
cara de sola de sapato... Depois, conforme fui me entrosando mais com o pessoal,
finalmente, descobri que a máquina de carbono branco e o tal pó de retícula são
coisas que não existem, mas têm sido usadas pra pregar peças nos novatos há
tempos... Com o passar dos anos acabei conhecendo melhor o Igayara
profissionalmente, mas sempre guardarei na memória este primeiro contato.
E a “2ª geração”,
a turma da Grafipar/Vecchi (Seto,
Rodval Matias, Ofeliano, Ota, Vilachã, Ikoma,
Kussumoto, Watson, Mozart
Couto...)?
Sempre
admirei muito o trabalho de todos eles. E só os conheci porque comecei a
procurar outros tipos de quadrinhos além dos americanos que encontrávamos com
tanta facilidade nas bancas. Eles, de certa maneira, abriram minha mente para
outros gêneros de HQs e me ensinaram a valorizar os autores nacionais.
Putz!
Sem querer me gabar, tenho muitas coisas legais e dignas de inveja, mas a edição
de que mais me orgulho é uma edição capa dura colorida do Spirit autografada
pelo Will Eisner. Talvez a edição em si nem seja tão significativa, mas a
ocasião em que ele autografou o livro, sim.
Sem
dúvida, mas quero crer que ela está perdendo a força. É impossível negar
que a Image chamou a atenção dos leitores novos para os quadrinhos. Mas uma
boa história em quadrinhos não se faz apenas com desenhos. É preciso ter
conteúdo. E a “Geração Image” pecou justamente por isso. Bad girls
curvilíneas com pernas extremamente longas e caras com músculos que não
existem na anatomia humana chamam a atenção, mas não seguram um leitor. Neil
Gaiman, por exemplo, provou que uma boa história pode ser contada com
desenhistas de estilos diferentes e, ainda assim, conquistar um público. O
talento de Paolo Eleuteri Serpieri é indiscutível,
mas seu apelo nos quadrinhos é o erótico. O cenário de ficção científica
é só uma desculpa para mostrar a voluptuosa Drunna semi-nua desfilando entre
monstros gosmentos e mutantes. Hoje, acho que a ordem do dia é a diversidade.
Nunca houve tantos estilos diferentes sendo publicados simultaneamente como
agora. Os anabolizados e as curvilíneas sempre estarão presentes, mas de uma
maneira quase medíocre, pois o padrão de beleza do final do século XX e início
do século XXI é a perfeição.
Sobre o Serpieri, BTW, o
que você pensa do desenho anatômico
dele, , principalmente em termos do uso da iluminação bi-lateral que ele faz e
também de sua arte-final em traços cruzados, de diversas formas, para
interpretar os vários tons de sombreamento no desenho?
Serpieri
é muito bom e um dos poucos a usar hachuras no sombreamento de seus desenhos.
É um caso raro de alguém da velha escola européia que ainda causa impacto no
mundo todo. Além do mais, ele sabe desenhar mulheres como ninguém!
Experiências
até do Pentágono, comprovaram a eficácia expressiva dos Quadrinhos em
transmitir qualquer idéia por atingir, através do somatório sinérgico de
imagens com texto, os dois hemisférios cerebrais. Será isso, talvez, que
explique o grande sucesso do gênero nos paises do Oriente (China, Japão e Coréia,
principalmente), já que seus alfabetos ideogramáticos (os caracteres
representam imagens e não sons) têm o mesmo efeito? Conhece algum estudo
abalizado sobre o assunto? A propósito (e exemplificando!), vários manuais de
utilização e manutenção de armamentos e equipamentos militares, e ate´ uma
certa “cartilha de ação guerrilheira” em “republiquetas
latino-americanas” da CIA (eu tenho um exemplar) são produzidos justamente em
forma de Historias em Quadrinhos.
A
história em quadrinhos sempre foi tratada como um sub-gênero artístico, mas,
quem lida com ela sabe que há muito mais por trás desse rótulo. Quem mais tem
lutado para a valorização dos quadrinhos é o mestre Will Eisner,
principalmente, através de seu livro maravilhoso Quadrinhos
e a Arte Seqüencial. Nesses últimos meses, tenho trabalhado na edição
de outro livro de Eisner que será lançado em breve pela Devir e ajudará levar
os quadrinhos mais a sério: Narrativa
Gráfica.
Nele, os quadrinhos são tratados quase como uma ciência e comparados a
outras mídias igualmente importantes para a expressão humana, como o cinema e
o teatro.
Já
disseram que o livro em papel acabaria por causa dos livros digitais que podem
ser lidos no computador ou em palmtops. Já afirmaram também que o rádio
cairia em desuso por causa do advento da televisão, ou que o cinema acabaria
com o teatro, ou a internet decretaria o fim da televisão... Nada disso
aconteceu. É claro que surgirão meios alternativos de se fazer quadrinhos, e
quase todos eles estão relacionados aos avanços cada vez mais assustadores da
informática. Mas, no fim, os quadrinhos em papel continuarão sendo produzidos
e lidos da mesma forma que os livros.
Serão
os grandes vícios da Humanidade, certamente. Sexo virtual, bate-papos virtuais,
produtos virtuais, dinheiro virtual, roubos virtuais... O que mais será
virtual. Talvez o próprio ser humano. Me assusta um pouco pensar em quão
impessoal o ser humano pode se tornar através da tecnologia digital. É quase
como em Admirável Mundo Novo, de Aldous
Huxley. Uma civilização presa a valores patéticos e fúteis que se
esquece cada vez mais do que é ser humano. Não vejo esse avanço com bons
olhos. Estou muito mais para Doze Macacos do
que para Jornada nas Estrelas...
Gosto
de pensar que ela transmuta em algo novo, levando alguma parcela de aprendizado
a um novo invólucro. Uma energia que não se perde jamais, mas que se soma a
outras para formar algo melhor.
Nem
me atrevo a fazer uma lista aqui, pois são muitos. A maioria deles é
relacionada ao meu trabalho, ou seja, a quadrinhos. Mas navego bastante, seja
para ver quais novas fotos de Marte estão no site da NASA ou qual é a lista
dos mais procurados pelo FBI... A internet é uma poderosa ferramenta de informação
nos dias de hoje e podemos encontrar qualquer tipo de dado nos sites mais
inesperados.
Sou
Editor de Quadrinhos e minha vida é bastante pacata... Mesmo assim, a coisa
mais louca (ou irritante!) que aconteceu comigo foi um incidente no estilo
daquele filme “Depois de Horas”, em que o protagonista tem uma madrugada de
cão e não consegue voltar pra casa, por mais que tente. Comigo foi mais ou
menos a mesma coisa... Eu saí da faculdade bem tarde da noite e... Greve de ônibus
na calada da noite!!! E eu, claro, com o dinheiro contado pra condução, sem
uma folha de cheque, minha família estava viajando e ninguém que pudesse dar
carona... Situação ótima! Só sei que acabei entrando no meio de uma multidão
que fez uma barreira na Av. 23 de Maio e acabamos forçando um ônibus a parar e
nos levar, pelo menos, até o Centro da cidade. Chegando lá, cruzei com todo
tipo de gente, da mais bêbada até a mais perigosa... Cheguei até uma estação
de Metrô e consegui pegar o último trem para o Terminal Santana. O vagão em
que eu entrei estava quase vazio, mas entrou um sujeito que parecia a Carmem
Miranda de tão colorido e saltitante. Claro que, de todos os assentos vagos, o
sujeito tinha que sentar do meu lado... Sorte minha que a moçoila ficou na dela
e não tentou nada! Só sei que foi uma série de desesperos e situações
absurdas naquela noite, que foi a mais longa da minha vida. Depois de andar
muito e pegar algumas caronas, consegui chegar em casa são e salvo, mas puto da
vida!!!
Na
verdade foram dois. O primeiro, sem entrar muito em detalhes (pois o sonho é
muito longo mesmo), é um duelo de espadas que tenho com um arlequim. O maldito
se move feito uma marionete, mas me vence, perfurando meu coração com um
afiado florete. Automaticamente, eu caio no chão feito um boneco que tem suas
cordas cortadas e o arlequim começa a rir sem parar. Brrrrr... O outro é mais
tenebroso! Eu entro no calabouço de um castelo negro de pedras e, após vencer
vários adversários nas masmorras úmidas e escuras, abro uma porta de ferro
carcomido. Dentro do salão úmido e mal iluminado, vejo vários artefatos místicos,
mas todas as minhas atenções são voltadas para uma chave de ferro toda
adornada. Por algum motivo, eu sei que ela é a de todo o mal que existe. Quase
como um zumbi, eu a pego com a mão direita e, imediatamente, ela e todo o meu
braço começa a arder em chamas. Sinto uma dor lancinante e vejo, em desespero,
enquanto meu braço todo começa a queimar, mostrando a carne sendo assada e
consumida pelo fogo místico e os ossos pretejando. A dor fica cada vez mais
insuportável, mas, mesmo assim, não consigo largar a tal chave, que brilha
feito ferro em brasa. Então, não agüentando mais de dor, começo a gritar
e... claro... acordo suando frio!
Isto
dá um game, ou pelo menos enredo de RPG...Quais
foram os eventos mais importantes que já ocorreram em sua vida?
Difícil
essa... Profissionalmente, acho que foi ter conhecido Neil Gaiman, um dos
escritores mais talentosos da minha geração, e o editor italiano Sergio
Bonelli, um verdadeiro embaixador dos quadrinhos no mundo todo e um ser humano
único. Com o Gaiman, aprendi que humildade é o que diferencia alguém
realmente talentoso de alguém que se julga ser. Com Bonelli eu aprendi a
respeitar os leitores e a amar o seu trabalho, não importando a quem você deva
responder.
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Sem dúvida, tem valido a pena. Só não terá mais valor para mim quando não houver mais nada que eu possa aprender. Quando você se especializa em uma determinada área, muita gente comete o erro de pensar que você sabe tudo sobre aquele assunto. Não existe mentira maior! Quando estamos aprendendo, é sinal de que estamos vivos. Então...