ALAN MOORE     Senhor do Caos  /   Lord of Chaos
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Entrevistas  /  Interviews


       EDITOR LEANDRO LUIGI DEL MANTO

                                                                                                                       por José Carlos Neves

  Desde o inicio da publicação de nosso zine Hiperespaço, o Del Manto  é “nosso conhecido”. Junto com Giovani Danilo Voltolini, Edgard Guimarães, Sérgio Figueiredo, Franco de Rosa, André Forastieri, Sérgio Codespoti, Jotapê Martins, Dario Chaves. Maurício Muniz e alguns outros abnegados editores, o nome de Del Manto se destacou sempre como o profissional à frente da publicação nacional de tantos heróis que embalaram nossos sonhos. Foram os caras que conseguiram transformar a verdadeira paixão pelas HQs em trabalho. Agora é torcer para eles nos ajudem a ter também uma produção que faça a diferença, pelo menos, no mercado do Mercosul, pois talento não nos falta.

  Caro Leandro, sua Idade, onde nasceu, cresceu e vive atualmente. Estado civil, filhos, formação acadêmica e profissional, por gentileza...

Tenho 38 anos. Nasci, fui criado e vivo em São Paulo, cidade que amo de verdade (apesar dos buracos, das enchentes e dos impostos!). Sou divorciado, sem filhos, jornalista e Editor.

  O que e quando iniciou seu interesse pela Literatura, Quadrinhos e Cultura Pop em geral? Na infância você lia muito, tanto HQ quanto Literatura mainstream? Pode citar autores e obras que o influenciou?

Meu pai foi o grande "culpado”. Ele trabalhava na Editora Abril (no setor que iria, depois, se tornar o que é hoje a Dinap) e sempre trazia as revistas, fascículos e livros para casa. Por isso, sempre tive contato com o mundo editorial desde que me conheço. Fui praticamente alfabetizado pela minha mãe com revistas em quadrinhos e cartilhas educacionais que a Editora Abril publicava na época. Então, tenho uma ligação muito forte com quadrinhos e livros desde pequeno. Mesmo quando era obrigado a ler aqueles livros “chatos” recomendados pela Escola, eu tentava compensar lendo os volumes da coleção “Clássicos da Literatura Juvenil” (Os Três Mosqueteiros, Robin Hood, Ivanhoé, A Ilha do Tesouro, Chamado Selvagem, Viagem ao Centro da Terra, 20.000 Léguas Submarinas e tantos outros). E, como fui criado em São Paulo, nunca tive muita liberdade de brincar na rua etc. Assim, sou fruto da geração “Vila Sésamo”, “Jonny Quest”, “Globo Cor Especial” e “Globinho”. Sempre assisti a muito desenho animado e programas de TV. Jonny Quest, por exemplo, foi o que despertou meu interesse por desenhar. Hoje sei que a TV, os quadrinhos e a literatura forjaram o que sou. O que mais sinto falta atualmente são de séries instigantes como Seres do Amanhã e bem-humoradas como Guerra, Sombra e Água Fresca, dois verdadeiros clássicos pra mim!

  Como se iniciou profissionalmente no gênero e qual foi sua primeira atividade?

Pode parecer que eu estou querendo “puxar sardinha”, mas o fanzine Hiperespaço contribuiu bastante nesse aspecto. Me lembro de uma matéria que falava sobre Dreadstar, de Jim Starlin. Todo aquele conceito da Igreja da Instrumentalidade, da Monarquia, da alta tecnologia lado-a-lado com magia me deixaram maluco! Fui atrás do que eu pude encontrar do material na Livraria Muito Prazer e adquiri a edição Dreadstar Annual # 01, com a história “The Price”, que contava a origem de Syzygy Darklock. A edição era toda pintada e fiquei fascinado com o material. Daí, me lembro que o Hiperespaço estava publicando tiras de Star Wars. E pensei: “Por que não?” Então, comecei a traduzir “The Price” e, em cima de fotocópias, dei início ao meu primeiro trabalho de edição: eu retocava com nanquim os fundos que tinham textos vazados (em negativo), refazia partes do fundo com gouache e colava os textos de balões e recordatórios. Era um trabalho insano! Tanto que acabei desistindo por causa do enorme tempo que eu perdia com aquilo... Mas isso tudo foi bem antes de eu sonhar em trabalhar profissionalmente com quadrinhos. Meu primeiro passo profissional nos quadrinhos foi trabalhando como Assistente de Produção na Redação de Quadrinhos Estrangeiros da Editora Abril. Lá eu aprendi o be-a-bá do que é fazer uma revista. Foi uma escola como nenhuma outra! Pouco tempo depois eu passei a Tradutor e comecei a editar alguns títulos. Peguei a fase de Crise nas Infinitas Terras já “caminhando” e mergulhei de cabeça na Espada Selvagem de Conan (acho que meu primeiro Editorial na ESC foi na edição # 29, quando me apresentei aos leitores como fã do cimério – e eu era mesmo!).

  Quando foi seu primeiro contato com o trabalho de Alan Moore e qual obra lhe causou algum impacto especial?

Que eu me lembre, foi com a história “Lição de Anatomia”, que, se não me engano foi na revista Novos Titãs em formatinho . Quando terminei de ler aquela pérola, vi que não tinha nada a ver com o que eu estava acostumado. Nada de super-heróis e feitos heróicos. Beirava o horror, mas não parecia aquelas histórias da Krypta. Era algo totalmente novo. Tinha um “quê” de literatura. Foi ali que começou o meu respeito e minha admiração pelo Moore. Depois, acho que os trabalhos dele que realmente me marcaram foram Watchmen e V de Vingança.

  Qual trabalho do mago bardo de Northampton você considera sua obra-prima e por quê?

Watchmen, sem dúvida. Para mim, é uma obra quase perfeita. A sintonia ideal entre história, narrativa, pesquisa e referência... O mais estranho para mim é que não considero Watchmen uma obra de super-heróis. Muito pelo contrário! É muito mais uma história policial que usa o cenário dos super-heróis. Acho que foi a maneira (muito esperta!) que Moore encontrou na época para escrever uma história policial. E quando li que se tratavam de personagens que Moore “resgatou” de outra editora (da extinta Charlton) eu pensei: “Esse Moore é completamente louco! Pegar personagens ‘esquecidos’ e fazer esta história maravilhosa!” Moore foi além do conceito de reformulação de personagens de quadrinhos. Foi quase um processo de transubstanciação! Watchmen não era simplesmente uma maxi-série que reformulava super-heróis antigos. Era como ter transformado chumbo em ouro. Eu já havia tido um exemplo disso com as histórias que ele escrevera para o Monstro do Pântano, mas Watchmen abordava conceitos muito mais amplos. Mesmo se deixarmos de lado o conteúdo referencial da história em si e focarmos nossa atenção apenas às técnicas narrativas que ele empregou em Watchmen, é impossível fechar os olhos. Capítulos fechando em closes, dando gancho para supercloses (uma técnica digna de um David Lynch), toda a seqüência não-linear do Dr. Manhattan na superfície de Marte (o momento mais genial e matemático da série toda), o capítulo da origem de Rorschach (a coisa mais assustadora que já li em quadrinhos!). É fantástico!

  A seu ver, quais foram as inovações mais importantes do autor? Especificamente sobre Watchmen – já apelidada de O Cidadão Kane da Nona Arte  – o que mais tem a nos dizer?

Acho que, com Watchmen, Moore fez mais mal do que bem para o mercado de quadrinhos. Watchmen é um dos pontos altos dos quadrinhos do final do século XX e acabou influenciando todo e qualquer novo quadrinhista contemporâneo. O problema é que a obra de Moore é tão espetacular que ainda não surgiu ninguém que conseguisse se igualar a ele. O que continuamos vendo é um monte de quadrinhistas frustrados e presunçosos que tentam a todo custo fazer algo no estilo de Watchmen e, desgraçadamente, se perdem em clichês e referências sem propósito algum. O próprio Frank Miller provou um pouco disso quando fez DK2, a sofrível e patética continuação de Dark Knight Returns. Miller fez algo tão bom com o Batman, que acabou ofuscado pela sua própria obra, pois o resultado de DK2 deixa muito a desejar. Então, o que posso dizer? Que Watchmen é um divisor de águas? Não. Pra mim, Watchmen é a muralha (ainda) intransponível de um dique que não deixa a água passar. Um autor que chegou muito perto da criatividade de Moore é Warren Ellis, com sua série Planetary, que tenta mapear a história secreta dos super-heróis no século XX. Fora ele, acho que estamos caminhando num imenso deserto...

  Você acha que ainda existe espaço para seres musculosos e com superpoderes, metidos em colantes, na verdadeira Cultura Pop, mais madura? Pergunto porque muitos fãs dos super-heróis, ao mesmo tempo que admiram Alan Moore, o detestam por considerar que ele praticamente destruiu o gênero com Watchmen. E você?

Acho que existe, sim. Nossa cultura, num todo, é bastante cíclica e sempre terá espaço para tipos musculosos superpoderosos que usam a cueca por cima da calça. E tenho minhas dúvidas quanto a Cultura Pop ter amadurecido. Acho que ela é temporal e muda de cara de acordo com os ciclos. Quanto ao Moore ter destruído o gênero “super-herói”, não acho que seja uma verdade. Mais do que isso, acho que ele deu um ultimato na maneira de se contar histórias em quadrinhos com super-heróis. Mesmo em materiais recentes do tipo, como a linha ABC (Tom Strong, Top Ten, Promethea), ele usa narrativas bastante simplistas sem querer oferecer algo com a qualidade de Watchmen. Nisso ele foi muito inteligente, ao não ter de competir com suas próprias obras anteriores. Um material que talvez possa ter “destruído” o gênero super-herói é Miracleman, que teve apenas quatro edições lançadas no Brasil no final dos anos 80. Nessa série ele nos dá uma visão do que seria um super-herói que resolve tomar a atitude derradeira e, realmente, tomar as rédeas do mundo. Um super-herói ditador!

  Você sabe que neste site, tudo praticamente gira em torno desse  cultuado autor e roteirista inglês , que ele foi o criador da obra From Hell  para os Quadrinhos, depois desperdiçada por Hollywood, e que ele, “para vencer a crise existencial dos 40 anos”, resolveu se tornar um mago. Estudou muito Aleister Crowley, Austin Osman Spare, participou de experiências e acontecimentos no mínimo “fora-do-script”, como ele gosta de descrevê-los. Você acredita na Magia, na Cabala e em outros desdobramentos, ou tenta também – como o James Randi tupiniquim, Padre Oscar Quevedo – “explicar tudo à luz da Parapsicologia”?

É o seguinte... Nossa existência toda é muito estranha! Vivemos no meio de uma série de paradoxos morais e políticos e o ser humano está se distanciando cada vez mais da Natureza e de seus instintos mais primários. Quando se tenta explicar algo apenas pelo prisma científico, fechamos muitas outras portas. Não dou as costas à Ciência. Acho que ela faz parte do desenvolvimento da Humanidade e está atrelada à nossa própria história. Mas sei que existem coisas que a Ciência não consegue explicar. Já presenciei muitas coisas estranhas e não encontrei explicação plausível, pelo menos, do ponto de vista científico. Acho que a Ciência é a grande religião do século XXI. Assim como as religiões que surgiram para nos dar conforto diante de eventos inexplicáveis, a Ciência está aí para servir de nova Bíblia. Questões como o Universo ser infinito (por definição!) só nos leva a crer que existe uma força maior que ainda não conseguimos entender muito bem. Aliás, você já parou pra pensar na facilidade com que afirmamos que o Universo é infinito? É quase o trecho de uma prece... Caramba! Como é que pode existir algo infinito?!?! E nós estamos flutuando numa coisa infinita? Pode existir algo mais estranho do que isso e sendo aceito com a maior facilidade? Eu acredito em muita coisa e sempre quero poder aprender mais. Procuro manter minha mente aberta e não virar ovelha...

  E From Hell? Você acha que Moore conseguiu atingir plenamente seu intento de forjar em uma HQ o caldeirão que nos preparou o Século XX, com toda sua paranóia, conspirações, contradições, horror e beleza?

Acho que isso seria pretensão demais... O tema paranóico da conspiração que, na minha opinião, reflete a segunda metade do século XX, é bem mais complexo e amplo. Acho, muito mais, que From Hell seguiu uma tendência literária, como muitas outras obras. O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco, é muito mais representativo desse movimento e acabou influenciando outras mídias, inclusive os quadrinhos. Mesmo assim, acho esta obra de Moore fabulosa. Ela só peca, talvez, pela arte de Eddie Campbell, que deixou a desejar. Fico imaginando a história sendo desenhada por David Lloyd (de V de Vingança). Aí, seria espetacular! Não engulo muito esse comentário de que o Campbell deu um charme vitoriano à série. Sejamos sinceros: o cara desenha muito mal!

  E a versão para o cinema agradou? Por quê?

Muito fraca, pois só esbarrou naquilo que Moore tinha a dizer.

  Leu o livro de estréia no mainstream de Alan Moore, A Voz do Fogo (Conrad, 2002)? O que achou?

Li, mas, sinceramente, não gostei tanto como eu achava que iria gostar. Meu desafio agora será ler em Inglês. Nessas horas sempre jogamos a culpa na tradução... Sei de amigos meus que leram no original e disseram que o texto é igualmente complexo e cansativo. Vamos ver...

  Te garanto que neste caso, a tradutora (Ludimila Hashimoto) fez um excelente (e elogiado) trabalho.Já li as duas versões.Sei que você tem uma formação eclética, se podemos definir assim. O que pensa da Magia?

A Magia está em todo lugar. Nas conseqüências, nos desencontros, nos passos que damos acertadamente ou não. Em tudo! Tenho absoluta consciência de que sou mais uma das inúmeras vítimas da tecnologia, pois simplesmente não consigo arranjar tempo livre para me dedicar às coisas em que eu gostaria de acreditar. Penso na Magia como uma porta que está sempre presente e aberta, só esperando a hora em que eu decida dar um chute no monitor do meu computador e mandar tudo à merda! Bem... Já deixei de usar relógio! Não sou mais escravo do tempo... Mas o caminho será longo. Só espero que a porta não se feche!

  E da obra  Big Numbers, a inacabada magnus-opus de Alan Moore, que, através da Teoria do Caos e seus Fractais, a vida de uma comunidade representando o macrocosmo tentaria explicar o próprio Universo?

Pois é... Eu era muito novo quando li aqueles dois números da série... Gostaria de ter a oportunidade de poder relê-los hoje. Lembro-me do sentimento de frustração que tive quando soube que a série não teria continuação. Não sei se chega a ser uma comparação um tanto forçada, mas foi a mesma sensação que tive ao ler O Castelo, a derradeira (e inacabada) obra de Kafka. Você acaba se perdendo nas possibilidades que se abriram com a história e chega a odiar o autor por ter feito aquilo conosco... Fica difícil dizer algo sobre uma obra sem-fim. E no caso do Moore eu nem me arrisco!

  Você acha que uma HQ tem a capacidade de abarcar tamanha complexidade e ser compreendida?

Por que não? Os quadrinhos são apenas uma maneira de se contar uma história. Não vejo por que Moore não teria conseguido isso.

Ainda nesta direção metafísica, qual é a sua concepção do Tempo? Considera-o a Quarta Dimensão do Espaço, como teorizou Einstein ou tem outra visão?

Agora você está exigindo muito de mim... Sou apenas um leitor de quadrinhos! Mas vamos lá! Acho que todo mundo tem sua própria versão do que é o Tempo. Pra mim, esse conceito seria melhor explicado através de linhas que, talvez tenham partido de um único fio pendurado na Aurora do Tempo. Cada linha emergente seria uma linha temporal paralela que, por um motivo ou outro (uma viagem no tempo, por exemplo), segue um determinado rumo. Sou um sonhador que gosta de acreditar que as viagens no tempo são possíveis. Assim, toda vez que alguém do futuro volta no tempo, ele dá origem a uma nova linha e assim por diante. Sei que minha teoria tem seus furos, mas nada que não possa ser explicado numa mesa de bar!

  O físico britânico Stephen Hawking também considera o tempo como um sólido, onde tudo está se passando simultaneamente. Portanto, se pudéssemos “ser examinados” por um ser “fora do tempo”, ele nos veria como uma gigantesca centopéia, com milhares de pernas, braços e cabeças se esticando, desde um bebê até um velhinho, por todos os lugares – e tempos – por onde já passamos (mais ou menos como Kubrick tentou visualizar no antológico final de seu 2001). Como você imagina um ser ou objeto (como o Tesserato) da Quarta Dimensão, se pudesse aparecer a nós, pobres materializações tridimensionais que somos?

Hummm... Esta é difícil, hein? Mas vamos lá! Acho que não conseguiríamos ver muita coisa simplesmente pelo fato de pertencermos a dimensões diferentes. Da mesma forma que não conseguimos “ver” ondas de calor e outras de frequências diferentes, acho que não veríamos algo concreto. Se fosse possível, creio que veríamos apenas relances de imagem... Blinks, por assim dizer. Seriam imagens tão rápidas e aceleradas em sua forma que passariam quase despercebidas. Mas foi curioso você citar a visão que um ser fora do tempo tem de nós... É mais ou menos o que o Moore descreve no conto “Allan e o Véu Rasgado”, da Liga Extraordinária.

  Você acha que nossa incapacidade de “enxergar dimensões mais elevadas” é um problema relacionado unicamente à nossa condição humana ou também envolveria algum aspecto espiritual – na falta de um termo mais “neutro”?

Quero acreditar que seja por causa do condicionamento ao qual somos levados desde que nascemos. Somos “ensinados” a não dar ouvidos ou enxergar determinadas coisas. É como eu disse: somos vítimas e escravos da tecnologia. Assim, a possibilidade da Magia é quase uma maneira de escapar do sistema em que vivemos. É quase uma declaração do tipo: “eu forjo o destino e não estou preso a ele.”

  Você acha que as nossas limitações cognitivas atualmente são tecnológicas, filosóficas ou epistemológicas?

Tecnológicas, sem dúvida! Hoje quase não há mais espaço para uma postura empírica, pois a evolução chegou a um ponto em que não existem brechas para tanto. Estamos cada vez mais condicionados a aceitar o que a Ciência nos dita. Deixando o maniqueísmo de lado, a base do código binário, o “sim” e o “não”, rege o que aceitamos ou não. Se existe algo mais limitador do que isso, eu desconheço.

O que acha da imberbe Teoria do Caos, com seus Fractais e o popular "efeito borboleta"?

Muito tem se falado sobre o tal “Efeito Borboleta”, mas, ironicamente, ninguém parece levar a questão a sério. Num plano mais abrangente, poderíamos simplificar da seguinte maneira: nada pode ser analisado separadamente. Cada vez que alguém abre uma torneira e a deixa aberta, a água que está sendo desperdiçada ali provocará alguma reação, se não naquele momento, num futuro indeterminado. É tudo uma questão de consciência. E me desculpe se usei uma exemplo tão simples como o da água, mas isso é um problema que estamos vivendo na cidade de São Paulo já há alguns anos e ninguém dá muita atenção a isso. Hoje, você ouve sobre a preocupação mundial a respeito da falta de água no Globo. Então, o que falta para o ser humano abrir os olhos e realmente enxergar com mais seriedade o papel que ele tem no Universo? Prefiro pensar nessas teorias como pequenos lembretes de coisas que deveriam ser óbvias. Mais uma vez, essas teorias disso ou daquilo só reforçam mais a idéia da necessid

ade do ser humano em querer explicar as coisas, de achar algum responsável, ou uma força maior...

  Como acha que esta teoria pode ser aproveitada por exemplo em algum enredo – HQ ou literário?

Na verdade, ela já foi aproveitada em algumas histórias do Planetary escritas por Warren Ellis. O conceito do Multiverso, com múltiplas realidades paralelas coexistindo numa estrutura parecida com um “snowflake”. Sei que muita gente nem esbarrou na complexidade disso, mas o conceito está lá. Basta ter interesse suficiente para pesquisar em cima. Esse material será lançado pela Devir este ano na forma de livro, reunindo as quatro primeiras histórias de Planetary e a cultuada história preview de 8 páginas que tenta recontar a origem do Hulk através da Física Quântica. É bastante curioso o fato de Ellis se equiparar ao Moore em termos de qualidade de texto e de história. No entanto, se Moore caminha pelo lado da Magia, Ellis segue um rumo totalmente diferente: o da Ciência. São dois pesos numa mesma balança de criação.

  Como começou seu interesse por editoração, o que tem feito e o que considera de melhor que já editou?

Como eu contei antes, tudo começou com uma matéria sobre o Dreadstar no Hiperespaço... e o resto é história... Já editei muitos quadrinhos nesses anos todos e gosto de pensar que aprendi sempre um pouco mais a cada trabalho que caía nas minhas mãos. Posso não ter sido bem-sucedido em alguns como eu gostaria, mas podem ter certeza de que sempre me empenhei muito em fazer um bom trabalho. Tenho carinho por muitas obras de quadrinhos que editei, mas acho que uma delas sempre irá se destacar das outras: a série Sandman. Foi um material que exigiu muito de mim como profissional e como ser humano. Nunca aprendi tanto como com esta série. E foi um momento mágico também. Tive a sorte de estar rodeado de pessoas que gostavam igualmente do título e também não mediram esforços para manter a revista sendo publicada, apesar de todas as interrupções e problemas que ocorreram. Além disso, tive o prazer e a honra de conhecer o escritor da série: Neil Gaiman. É um sujeito verdadeiramente especial!

  Por ter se interessado por Historias em Quadrinhos em nível profissional e ser um acadêmico, você sofreu – ou sofre até hoje – alguma espécie de preconceito ou discriminação? Como lida com isso?

Sem dúvida. O preconceito existe e não é pequeno. Ele vai desde aquela expressão de desdém quando alguém descobre que você é Editor de Quadrinhos e não Editor de Arte de uma revista de informação até a questão salarial. Mas posso dizer uma coisa: tendo editado tudo o que editei até hoje, me sinto muito mais apto a exercer a profissão de Editor de qualquer publicação do que seria se eu tivesse sido Editor de uma revista “séria” e tivesse que assumir uma revista em quadrinhos. Quando se edita quadrinhos é preciso que você pesquise muito e esteja apto a lidar com uma diversidade enorme de estilos e temas. E sou muito grato a esse aprendizado que os quadrinhos me deram e continuam dando. Eu lido muito bem com esse tipo de preconceito. É mais ou menos a mesma postura que temos quando alguém está falando uma tremenda besteira e você escuta tudo se divertindo do ridículo da situação. Tenho consciência do meu trabalho e minha intenção é ser fiel a ele e aos meus leitores. O que os outros acham ou deixam de achar não me interessa. Ponto.                   

Na “segunda-geração” da revista Wizard-Brasil, no número de estréia  - e único, ao que me consta – foi anunciada uma entrevista inédita com o mago ermitão de Nothampton, conduzida, se não me falha a memória novamente, pelo músico Thomas Pappon. Sabe por onde as gravações desta entrevista?  Alguma chance de a nova Wizard vir a publica-la?  

Hoje, eu sou Editor de Quadrinhos da Devir Livraria e não tive qualquer envolvimento com esta nova versão da Wizard Brasil (que está sendo publicada pela Panini e produzida pela 
Mythos). Tive participação na segunda tentativa da Wizard pela Hangar 18, quando a revista foi produzida pela Pandora Books Editora (da qual fui um dos sócios fundadores). Não tenho mais ligação alguma com a Pandora, mas nós realmente havíamos feito uma entrevista com o Moore (através de um amigo nosso que morou um certo tempo em Londres). A mesma nunca saiu das fitas cassetes. Acredito que o Maurício Muniz (da Pandora) tenha esta entrevista. Seria bom conversar com ele.

  E da Devir? Alguma obra do mago em preparação?

Sim, muitas obras. Temos o segundo volume de A Liga Extraordinária, Promethea, Tom Strong e Top Ten para este ano. O primeiro da leva será A Liga. Os demais terão suas datas de lançamento definidas em breve.

 Uau! Que notícia boa! Já valeu esta Entrevista.O que tem feito atualmente e quais seus novos projetos?

Tenho feito muitas coisas e, se tudo der certo, e eu não perder a sanidade antes, finalmente tirarei alguns projetos da gaveta e farei com que cheguem às prateleiras. Pra mim, projetos não têm nome. Prefiro batizá-los quando estiverem deixando de ser projetos. Se tem algo que aprendi nesses anos todos é a manter os segredos em segredo. Já tive muitas decepções nesse sentido por falar de idéias antes de elas se tornarem reais... Então, tudo ao seu tempo.

  Continua acompanhando os fanzines? Acha que os nossos Quadrinhos têm evoluído? Quais autores você considera dignos de nota?

Tenho visto pouquíssimos fanzines ultimamente. E sinto muita falta disso! O tempo, para mim, anda cada vez mais curto e eu não consigo mais ler tudo aquilo que gostaria. Sobre os quadrinhos nacionais, acho que os autores estão finalmente ganhando mais espaço e respeito na mídia. Para mim, o Flávio Colin sempre será um mestre eterno dos quadrinhos. Só sinto muitíssimo que toda uma geração não tenha tido acesso ao talento deste mestre que se foi. Hoje eu sou fã mesmo de Lourenço Mutarelli e Fernando Gonsales. E você não sabe como tem sido prazeroso para mim poder finalmente editar os materiais desses dois quadrinhistas aqui pela Devir. O Lourenço é uma das pessoas mais geniais e humildes que conheço. Nenhum elogio seria capaz de fazer jus ao talento dele. O Gonsales é outro artista genial que não se deixa levar por estrelismos e continua mantendo a qualidade de seus trabalhos.

  Vou tentar entrevistar o Gonsales. Já o "Muta" não procurei porque já li muitas entrevistas dele na web, em material impresso e até na "GloboNews". O Cara realmente é genial!. O que você acha que dificulta para o quadrinhista brasileiro sobreviver através da sua arte? Falta de talento ou de mercado?

Muito se falou sobre não existir espaço para os autores nacionais publicarem seus trabalhos. Isso tem uma parcela de verdade, mas, de uns tempos para cá, acabou virando desculpa para aqueles que não tinham talento. Hoje, acho que o grande problema é a falta de profissionalismo dos quadrinhistas. Tudo mundo chega com uma pasta de trabalhos debaixo do braço querendo ser “pop star”, sem a menor humildade. Todo mundo se acha um Alan Moore ou um Jim Lee da vida... Mas o que falta à grande maioria dos autores é saber fazer a coisa certa! Não adianta ficar copiando o estilo deste ou daquele autor. Os desenhistas deveriam se preocupar em entender o estilo de um determinado artista e, a partir daí, buscar o seu próprio estilo. E isso vale para os roteiristas também. O maior problema de quem escreve quadrinhos hoje é ler apenas quadrinhos! Caramba! Busquem referências em outras coisas. Leiam mais livros e jornais. Não se prendam só aos quadrinhos! Se quiser escrever quadrinhos, é preciso ter uma cultura mais ampla e variada. O mercado está aí e quem for bom de verdade irá encontrar seu espaço, desde que levado pelo autor com seriedade humildade.

  E a turma de “veteranos”, inclusive os que já se foram para o andar de cima, você conheceu o trabalho deles (Cortez, Colin, Igayara, Lyrio Aragão, Getulio Delphin, Salatiel de Holanda, Cocolete, Justo, Zala, Talo, Rosso e tantos mais)? Quais você mais apreciou e por quê?

De todos eles, tive maior contato com o Colin e o Igayara. O Colin, pelo fato de idolatrá-lo como fã de quadrinhos. Cheguei a conhecê-lo muito rapidamente num desses eventos de quadrinhos, mas, infelizmente, foi algo bastante formal. Ele jamais soube o quanto eu admirava seu trabalho. Com o Igayara foi diferente. Tive o prazer de trabalhar com ele, mesmo que por pouco tempo, na Editora Abril. Vou contar uma passagem da minha primeira semana de trabalho na Abril... Logo no primeiro dia, me pregaram uma peça. Comecei a trabalhar como Assistente de Produção, algo como um office-boy interno, aquele cara que xeroca as páginas de quadrinhos que vão para os tradutores ou carimba os diagramas antes das páginas produzidas irem para a gráfica etc. Pois bem, naquela correria toda do primeiro dia, pediram que eu fosse cobrar do Igayara uma tal máquina de carbono branco. Acontece que o Igayara era o Diretor Editorial e eu um cara que carimbava páginas... Então, fui até o andar onde ele trabalhava e pedi à secretária dele pra falar com ele. Já sabendo da “pegadinha”, o Igayara mandou que eu entrasse na sala e me sentasse numa cadeira ali perto. Tomei um chá de cadeira de quase uma hora. Daí, todo bravo e sério, ele me perguntou o que eu queria dele. Putz! Gelei e tremi na base. Pensei que seria despedido logo no primeiro dia de trabalho... Quando disse que precisava da tal máquina de carbono branco, ele não agüentou e caiu na gargalhada. Eu não sabia se ria também ou me escondia, pois não entendi nada. E ele veio até mim, todo paternal, dando tapas nas minhas costas e se desculpando, dizendo que a máquina tinha quebrado, mas, ele podia trazer no dia seguinte uma caixa com pó de retícula... Ele me acompanhou para fora da sala rindo bastante e eu sem entender nada. Quando voltei à Redação e disse que a máquina havia quebrado, mas que o Igayara poderia trazer pó de retícula, o andar veio abaixo. Todo mundo começou a gargalhar. E eu ali, com cara de sola de sapato... Depois, conforme fui me entrosando mais com o pessoal, finalmente, descobri que a máquina de carbono branco e o tal pó de retícula são coisas que não existem, mas têm sido usadas pra pregar peças nos novatos há tempos... Com o passar dos anos acabei conhecendo melhor o Igayara profissionalmente, mas sempre guardarei na memória este primeiro contato.

  Hilário. Mas também já passei pelo "batismo de foca", no meu "primeiro emprego" na redação do - saudoso - O Jornal de Montes Claros; os repórteres veteranos me pediram para ir na sala das máquinas e trazer a "Linotipo"(...é, naquela época, idos de 1975...ainda se usava linotipos). Denecessário contar que quando cheguei lá e pedi ao "operador", ele se levantou de cima de um verdadeiro "trator de aço", que era inclusive chumbada ao solo e me disse: "É toda sua,Pode pegar e levar..."

E a “2ª geração”, a turma da Grafipar/Vecchi (Seto, Rodval Matias, Ofeliano, Ota, Vilachã, Ikoma, Kussumoto, Watson, Mozart Couto...)?

Sempre admirei muito o trabalho de todos eles. E só os conheci porque comecei a procurar outros tipos de quadrinhos além dos americanos que encontrávamos com tanta facilidade nas bancas. Eles, de certa maneira, abriram minha mente para outros gêneros de HQs e me ensinaram a valorizar os autores nacionais.

  O que você tem em coleção, que considera mais valioso e por quê?

Putz! Sem querer me gabar, tenho muitas coisas legais e dignas de inveja, mas a edição de que mais me orgulho é uma edição capa dura colorida do Spirit autografada pelo Will Eisner. Talvez a edição em si nem seja tão significativa, mas a ocasião em que ele autografou o livro, sim.

  Você concorda que, depois de uma onda iniciada, ao meu ver, na Image, o desenho de super-heróis tem optado por uma arte mais realista – em termos de visual e não de temática? Melhor explicando: seres de músculos anabolizados impossíveis não são realistas. Mas sua representação no papel, quase sempre iluminados por no mínimo duas fontes de luz – uma mais forte e no lado oposto a esta, outra mais fraca, ou de luz rebatida, torna as figuras mais realistas, mais tridimensionais, se me entende – como faz Dale Keown e  principalmente o italiano Paolo “Druuna” Serpieri. Concorda que existe esta tendência?

Sem dúvida, mas quero crer que ela está perdendo a força. É impossível negar que a Image chamou a atenção dos leitores novos para os quadrinhos. Mas uma boa história em quadrinhos não se faz apenas com desenhos. É preciso ter conteúdo. E a “Geração Image” pecou justamente por isso. Bad girls curvilíneas com pernas extremamente longas e caras com músculos que não existem na anatomia humana chamam a atenção, mas não seguram um leitor. Neil Gaiman, por exemplo, provou que uma boa história pode ser contada com desenhistas de estilos diferentes e, ainda assim, conquistar um público. O talento de Paolo Eleuteri Serpieri é indiscutível, mas seu apelo nos quadrinhos é o erótico. O cenário de ficção científica é só uma desculpa para mostrar a voluptuosa Drunna semi-nua desfilando entre monstros gosmentos e mutantes. Hoje, acho que a ordem do dia é a diversidade. Nunca houve tantos estilos diferentes sendo publicados simultaneamente como agora. Os anabolizados e as curvilíneas sempre estarão presentes, mas de uma maneira quase medíocre, pois o padrão de beleza do final do século XX e início do século XXI é a perfeição.

  Sobre o Serpieri, BTW, o que você pensa do desenho anatômico dele, , principalmente em termos do uso da iluminação bi-lateral que ele faz e também de sua arte-final em traços cruzados, de diversas formas, para interpretar os vários tons de sombreamento no desenho?

Serpieri é muito bom e um dos poucos a usar hachuras no sombreamento de seus desenhos. É um caso raro de alguém da velha escola européia que ainda causa impacto no mundo todo. Além do mais, ele sabe desenhar mulheres como ninguém!  

Experiências até do Pentágono, comprovaram a eficácia expressiva dos Quadrinhos em transmitir qualquer idéia por atingir, através do somatório sinérgico de imagens com texto, os dois hemisférios cerebrais. Será isso, talvez, que explique o grande sucesso do gênero nos paises do Oriente (China, Japão e Coréia, principalmente), já que seus alfabetos ideogramáticos (os caracteres representam imagens e não sons) têm o mesmo efeito? Conhece algum estudo abalizado sobre o assunto? A propósito (e exemplificando!), vários manuais de utilização e manutenção de armamentos e equipamentos militares, e ate´ uma certa “cartilha de ação guerrilheira” em “republiquetas latino-americanas” da CIA (eu tenho um exemplar) são produzidos justamente em forma de Historias em Quadrinhos.

A história em quadrinhos sempre foi tratada como um sub-gênero artístico, mas, quem lida com ela sabe que há muito mais por trás desse rótulo. Quem mais tem lutado para a valorização dos quadrinhos é o mestre Will Eisner, principalmente, através de seu livro maravilhoso Quadrinhos e a Arte Seqüencial. Nesses últimos meses, tenho trabalhado na edição de outro livro de Eisner que será lançado em breve pela Devir e ajudará levar os quadrinhos mais a sério: Narrativa Gráfica. Nele, os quadrinhos são tratados quase como uma ciência e comparados a outras mídias igualmente importantes para a expressão humana, como o cinema e o teatro.

  O prolífico estudioso americano dos comics, Scott McCloud (“Entendendo os Quadrinhos”) tem procurado apontar novos caminhos que esta arte maravilhosa poderá seguir. E você, qual futuro antevê para a Nona Arte? Sairá do papel e existirá só digitalmente, incorporando técnicas do cinema e se metamorfoseando quase num desenho animado, ou são únicos, universais e eternos como sempre foram?

Já disseram que o livro em papel acabaria por causa dos livros digitais que podem ser lidos no computador ou em palmtops. Já afirmaram também que o rádio cairia em desuso por causa do advento da televisão, ou que o cinema acabaria com o teatro, ou a internet decretaria o fim da televisão... Nada disso aconteceu. É claro que surgirão meios alternativos de se fazer quadrinhos, e quase todos eles estão relacionados aos avanços cada vez mais assustadores da informática. Mas, no fim, os quadrinhos em papel continuarão sendo produzidos e lidos da mesma forma que os livros.

  Como você imagina a Informática e a tecnologia digital em geral, daqui a dez anos?

Serão os grandes vícios da Humanidade, certamente. Sexo virtual, bate-papos virtuais, produtos virtuais, dinheiro virtual, roubos virtuais... O que mais será virtual. Talvez o próprio ser humano. Me assusta um pouco pensar em quão impessoal o ser humano pode se tornar através da tecnologia digital. É quase como em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Uma civilização presa a valores patéticos e fúteis que se esquece cada vez mais do que é ser humano. Não vejo esse avanço com bons olhos. Estou muito mais para Doze Macacos do que para Jornada nas Estrelas...

  O você acha que acontece com a consciência após a morte?

Gosto de pensar que ela transmuta em algo novo, levando alguma parcela de aprendizado a um novo invólucro. Uma energia que não se perde jamais, mas que se soma a outras para formar algo melhor.

  Quais sites da web você visita com freqüência?

Nem me atrevo a fazer uma lista aqui, pois são muitos. A maioria deles é relacionada ao meu trabalho, ou seja, a quadrinhos. Mas navego bastante, seja para ver quais novas fotos de Marte estão no site da NASA ou qual é a lista dos mais procurados pelo FBI... A internet é uma poderosa ferramenta de informação nos dias de hoje e podemos encontrar qualquer tipo de dado nos sites mais inesperados.

  Qual foi a experiência mais louca que você já experimentou na vida?

Sou Editor de Quadrinhos e minha vida é bastante pacata... Mesmo assim, a coisa mais louca (ou irritante!) que aconteceu comigo foi um incidente no estilo daquele filme “Depois de Horas”, em que o protagonista tem uma madrugada de cão e não consegue voltar pra casa, por mais que tente. Comigo foi mais ou menos a mesma coisa... Eu saí da faculdade bem tarde da noite e... Greve de ônibus na calada da noite!!! E eu, claro, com o dinheiro contado pra condução, sem uma folha de cheque, minha família estava viajando e ninguém que pudesse dar carona... Situação ótima! Só sei que acabei entrando no meio de uma multidão que fez uma barreira na Av. 23 de Maio e acabamos forçando um ônibus a parar e nos levar, pelo menos, até o Centro da cidade. Chegando lá, cruzei com todo tipo de gente, da mais bêbada até a mais perigosa... Cheguei até uma estação de Metrô e consegui pegar o último trem para o Terminal Santana. O vagão em que eu entrei estava quase vazio, mas entrou um sujeito que parecia a Carmem Miranda de tão colorido e saltitante. Claro que, de todos os assentos vagos, o sujeito tinha que sentar do meu lado... Sorte minha que a moçoila ficou na dela e não tentou nada! Só sei que foi uma série de desesperos e situações absurdas naquela noite, que foi a mais longa da minha vida. Depois de andar muito e pegar algumas caronas, consegui chegar em casa são e salvo, mas puto da vida!!!

  Qual foi o sonho mais louco que você já teve?

Na verdade foram dois. O primeiro, sem entrar muito em detalhes (pois o sonho é muito longo mesmo), é um duelo de espadas que tenho com um arlequim. O maldito se move feito uma marionete, mas me vence, perfurando meu coração com um afiado florete. Automaticamente, eu caio no chão feito um boneco que tem suas cordas cortadas e o arlequim começa a rir sem parar. Brrrrr... O outro é mais tenebroso! Eu entro no calabouço de um castelo negro de pedras e, após vencer vários adversários nas masmorras úmidas e escuras, abro uma porta de ferro carcomido. Dentro do salão úmido e mal iluminado, vejo vários artefatos místicos, mas todas as minhas atenções são voltadas para uma chave de ferro toda adornada. Por algum motivo, eu sei que ela é a de todo o mal que existe. Quase como um zumbi, eu a pego com a mão direita e, imediatamente, ela e todo o meu braço começa a arder em chamas. Sinto uma dor lancinante e vejo, em desespero, enquanto meu braço todo começa a queimar, mostrando a carne sendo assada e consumida pelo fogo místico e os ossos pretejando. A dor fica cada vez mais insuportável, mas, mesmo assim, não consigo largar a tal chave, que brilha feito ferro em brasa. Então, não agüentando mais de dor, começo a gritar e... claro... acordo suando frio!

 Isto dá um game, ou pelo menos enredo de RPG...Quais foram os eventos mais importantes que já ocorreram em sua vida?

Difícil essa... Profissionalmente, acho que foi ter conhecido Neil Gaiman, um dos escritores mais talentosos da minha geração, e o editor italiano Sergio Bonelli, um verdadeiro embaixador dos quadrinhos no mundo todo e um ser humano único. Com o Gaiman, aprendi que humildade é o que diferencia alguém realmente talentoso de alguém que se julga ser. Com Bonelli eu aprendi a respeitar os leitores e a amar o seu trabalho, não importando a quem você deva responder.

  E atualmente, o que lhe é realmente imprescindível, seminal?

s="MsoNormal">Os amigos. Acho que, no final de tudo, a maior riqueza que alguém pode ter na vida é a amizade verdadeira.

  Militando há tanto tempo “no ramo”, você pode dizer que valeu – ou vale – a pena?

Sem dúvida, tem valido a pena. Só não terá mais valor para mim quando não houver mais nada que eu possa aprender. Quando você se especializa em uma determinada área, muita gente comete o erro de pensar que você sabe tudo sobre aquele assunto. Não existe mentira maior! Quando estamos aprendendo, é sinal de que estamos vivos. Então...

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