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Entrevistas / Interviews
JÚLIO SHIMAMOTO, O MESTRE-SHIMA
por Ademir de Paula
Eu não podia me segurar de tanta emoção!
Estava lá em São Paulo, em um evento patrocionado pela loja Comix, quando, de
repente; me encontro com um simpático senhor,de traços orientais . Ninguém menos que o grande samurai dos quadrinhos
brasileiros,mestre da arte sequêncial, Júlio Shimamoto!
Foi realmente maravilhoso conhecê-lo pessoalmente,um sonho realizado.O lendário Shima,
de quem tanto acompanhei a carreira. Lembrei-me de suas HQs na saudosa editora D-Arte,
do Zalla, Vecchi,Bloch,Press- Maciota, fanzines,etc,etc,etc.Quem conhece HQ no Brasil
não têm dúvidas, Shimamoto é fera!Um artista de verdade,jamais estagnou seu
trabalho, sempre buscou o novo.Sempre procurou novos roteiros e novas definições
gráficas.Um autor,antes de tudo.Nada mais coerente da minha parte do quê mostrar
aqui um pouco da sua vida e da sua arte.Uma justíssima homenagem aquele que jamais abdicou de sua paixão pelo desenho e pelas
HQs.Dê também uma olhada na sessão artistas convidados e delumbre -se com os traços maravilhosos do
Shima.E aprecie esta entrevista:
-Entrevistador:Caro Shimamoto,você têm noção de que é um mito dos quadrinhos
nacionais?
Júlio Shimamoto:Não,não tenho.Sem demagogia,eu ainda estou aprendendo.
Agora,por exemplo,estou estudando para resgatar o estilo de capas dos livrinhos de bolso
(pocket books)americanos dos anos 40-60.No Brasil tivemos um grande mestre: Benicio,
ainda vivo.Ele arrebentava desenhando para os livrinhos da
Monterrey. A capa que fiz para o Musashi fez sucesso devido a selva de capas
digitalizadas.Usei tinta de parede Suvinil, recurso de operário,técnica de terceiro
mundo.Fiz a capa também para a "Múmia",um livro de HQ que Marco Aurélio
Luccheti está organizando com seu pai, roteirista e escritor Ruben Luccheti.Para a HQ"Mirabilia número 2",já
entreguei.A capa do" Musashi II"também está
pronta.Há encomenda para a capa de"Capitão Asa"que está sendo quadrinizada sob orientação do roteirista e jornalista Antero Leivas.Sobre mito,por
coincidência ,é assunto do primeiro episódio(de uma única página) do próximo
Musashi.
-Na infância,quais os personagens de HQ que você mais gostava?Quais os artistas
que mais te influênciaram?
Super-heróis e cowboys(este último,por eu ser caipira do interiorzão de São
Paulo, próximo ao Mato Grosso.E eu adorava cavalgar.Eu era fissurado nos dinâmicos traços de
Sid Shores (que influênciou Jack Kirby e John Buscema).Ele
desenhou Capitão América nos anos 40 e os cowboys Bill Dinamite e Cavaleiro
Negro,nos anos 50.A dinâmica dos meus traços têm DNA do estilo de Sid.
-Nos anos 60,houve aquele movimento de nacionalismo dos quadrinhos lá no
Sul;inclusive apoiado por Leonel Brizola.Isso não acarretou à vocês quadrinhistas
, problemas com a ditadura militar que se instalou no país após 64?
Indiretamente.As próprias editoras fecharam as portas para os militantes da
nacionalização de HQs,abrindo espaço apenas para aqueles que foram cooptados e
aceitaram desertar do movimento.Graças ao meu mentor Miguel F. Penteado, ex-sócio
da editora Outubro e ex-líder sindicalista dos profissionais gráficos,
consegui espaço profissional no campo dos livros didáticos.Já em 1964,um mês
antes da ditadura se instalar,entrei para a publicidade, com a indicação de ex-quadrinhistas
(ex- parceiros de estúdio) Lírio Aragão(já
falecido ) e Luiz Saindenberg, ambos já trabalhando na multinacional de propaganda McCan Erikson
.Problema com a ditadura militar tive no início dos anos 70(Governo general Médici),quando fui preso pela OBAN,órgão de repressão do exército e em seguida
entregue ao D.O.P.S.(Departamento de Ordem Política e Social),acusado de apoio logístico ao terror.Participei na verdade da lista de ajuda ao meu ex-patrão,que
tinha se exilado politicamente e estava com dificuldades no exterior. Anos de
chumbo, amigo.
-Shima,lembro que entre o final dos anos 70 e começo dos 80,você criou,para a
Vecchi ,incríveis histórias de samurais;lutas de samurais fantasmas,coisas deste
tipo.Já pensou em falar com o Ota,ou com outra pessoa,para republicar estas HQs
em coletâneas de luxo?
Você pegou este período?Pois é,por enquanto ainda não há nada de concreto neste
sentido.A "Ópera Gráfica"deu prioridade ao livro"Volúpia",com as HQs eróticas
produzidas neste período,por ser tema de fácil apelo comercial.
-Qual o melhor desenhista e o melhor roteirista brasileiro de quadrinhos na sua
opinião?
Não vacilo,o melhor desenhista é Flávio Colin,na frente léguas de distância.Já o
melhor roteirsta, depende muito do gosto de cada leitor.Da velha guarda,têm Rubens Luchetti,Ataíde Braz,Júlio Emílio Braz.Nos anos 70 -80 destacaram-se Luiz
Antônio Aguiar e Nelson Pradella(este último,o maior de todos).Hoje,têm o Mutarelli(excelente desenhista e ótimo roteirista).
-Que material você costuma usar para fazer seus trabalhos?
Nada de importados.Papel Chamex ou Report para xérox,tinta preta e branca látex
Suvinil para paredes(raramente nanquim)e pincel nacional Tigre.Tudo terceiro mundo.Há excessões para a peninha(não se fabrica no país).
-Ultimamente o gênero mangá vêm fazendo um sucesso absurdo,tanto nas bancas como
nas séries de TV.Qual a sua teoria sobre este sucesso?
Acho que o mangá vêm fazendo sucesso aqui e no exterior por ser um tanto
diferente dos congêneres produzidos pelos estúdios americanos de animação como
Hanna & Barbera.Os mangás usam temáticas com doses de violência,próprios para a
faixa etária juvenil.E também têm um apelo irresistível,oferecem na maioria das
vezes os filmes de graça para as emissoras,em troca de exploração exclusiva do
merchandising(bonecos aticulados,naves,carros,etc).
-Já chegou a fazer storyboard para TV ou cinema?
Para comercias de TV,desde 1964 até 1998.Para o cinema ,nunca topei,apesar de convidado diversas vezes.Fazer
storyboards para o cinema empata-se um período de tempo longo,sem contar as vezes de reajustes ou mudanças de cenas conforme a
instabilidade criativa do diretor.E o trabalho não é remunerado tão bem quanto o
feito para comercias de TV ou cinema.
-Shimamoto,você chegou a publicar em outros países?
Pirateado,no México e na Bolívia.
-Qual a HQ que você mais sente orgulho de ter feito,e qual a que mais chocou os
leitores?
Engraçado,o meu orgulho por um trabalho têm duração efêmera.Dura no máximo vinte
dias,depois disso só percebo os inúmeros defeitos,e fico ruminando sobre um possível trabalho futuro do qual possa me orgulhar de novo,para me decepcionar
algum tempo depois.Sempre recebi muitas cartas de estímulo,mas lembrar-me de
qual HQ causou mais impacto ou choque nos leitores é um esforço inútil.Acho mais
prático lembrar-me de um filme de impacto ou um livro,e até mesmo de um quadro,
do que de uma HQ que eu tenha feito.
-Na época da Vecchi,havia aquele terror urbano;com roteiros geralmente do
Ota, situado em favelas do Rio de Janeiro.Era uma forma de aliviar a violência que já era enorme nos anos oitenta e hoje é totalmente incontrolável?
Acho que o Ota buscava roteiros calcados do cotidiano por comodismo,inspirados nos
noticiários de TV e jornais.Como Hollywood costuma fazer:Guerra fria , serial-killer,terrorismo,narco -tráfico,etc,etc.Experimente ligar a TV
comum, ou a cabo,e visitar uma vídeo -locadora.
-Soube que você criou uma HQ chamada a maldição do AI-5,fale sobre ela.
O roteiro era dos cartunistas Nani e Guidacci,ambos colaboradores assíduos do
Pasquim.Fiquei um pouco receoso na época,devido a minha ficha de ex- preso
político,quando morava em São Paulo.Um dos motivos de minha mudança para o Rio
de Janeiro foi por isso.Já pensou ser preso como reincidente?
-O que vêm a ser o projeto "Gurilândia",que você produziu e aguarda publicação?
Esse projeto não saiu do papel.Era um gibi sobre o mundo dos adultos e seus
conflitos.Guerra,corrupção,sexo e crimes,mas interpretados por crianças.Iria chocar na
época. Hoje não.Meninos e meninas servem ao tráfico de drogas e sexo,e portam armas mortais como gente grande.Na época,
eu tinha essa visão premonitória,só que não previa que isso ocorresse em tão curto espaço de tempo.
-A sua ascendência é japonesa,assim como grande parte de suas histórias se passam
no Japão.Já visitou alguma vez o Japão,ou pensa em visitar para ,entre outras
coisas buscar inspiração?
Não.E nunca tive vontade de conhecer nenhum outro país.Não gosto de me ver em
situações de desconforto físico ou logístico em terras estrangeiras.Mas ainda
acalento um sonho de rodar em um jipe o Brasil de ponta a ponta,explorando o seu
recôndito,conhecendo suas peculiaridades humanas e geográficas.
-Você sempre foi um artista de vanguarda,buscando novos caminhos tanto na
narrativa como nos desenhos,por isso eu acho que seu trabalho têm paralelo com o
de Frank Miller. O que acha do trabalho dele,principalmente em"Ronin"?
Vou confessar que não gosto de Frank Miller,a não ser no início de seu trabalho
com o Demolidor,que deu uma oxigenada na maneira de narrativa gráfica e de texto
no universo de super-heróis Detestei "Ronin",mas aplaudo seu grande mérito em ter
descoberto"Lobo Solitário",um gekigá(não mangá)
japonês,uma obra-prima inconteste.
-O que acha do mercado atual de HQs no Brasil?
Há uma grande efervescência,com muita espuma,com parcos resultados
comerciais. Pouquíssimas editoras estão fazendo dinheiro,na verdade.Viver com
exclusividade de quadrinhos não passa de um mero sonho delirante.Mas HQ é como
droga,quem experimenta se vicia .Eu,por exemplo.
-Que conselho daria para quem está começando?
Que o quadrinho vicia,sobretudo para quem faz.Então,mesmo avisado,quem quiser
embarcar neste universo encantado,então que vá fundo,sem se intimidar e nem chorar com as dificuldades que com certeza lhe virá esbarrar.
-Explique esta sua nova técnica de HQs em bexigas.
Foi mero capricho meu,quando me disseram que só computador permitia efeitos de
distorção dos desenhos.Quis provar,e provei que conseguia efeitos similares utilizando a superfície de bexigas abertas.Desenho normal num papel fino(tipo
vegetal)e com o auxílio de caixa de luz decalco o traço sobre a textura da
bexiga e arte-finalizo com tinta.Depois repuxo-a como quiser e copio numa xérox.
Simples,baratinho,com menos de 20 centavos.Quanto custa uma bexiga?Agora,um micro com programa,scanner,impressora e mais não sei o que
custam mais que cem reais,claro. (Clique na imagem acima
para vê-la ampliada e ler o texto)
-A nova geração de quadrinhistas brasileiros é visivelmente influênciada por
mangás e super-heróis,e desconhece o trabalho de artistas como Jayme
Cortez.O
que acha disso?
Não vejo problema nenhum nisso.A evolução da arte é dinâmica como o mundo.Eu
próprio me angustio em procurar novos meios de fazer meus HQs.Se hoje todo mundo
desenha e pinta com Photoshop e ficam parecendo clones um do outro,eu uso tinta de parede látex e revisito décadas precedentes quando dominavam os
pocket- books,para resgatar técnicas.Quem sabe,um desses "mudernos" quando quiser
parecer diferente dos colegas, também volte ao passado e estude os trabalhos de
Jayme Cortez.O homem sempre está em busca do diferente.Você pode gostar do Frank
Miller ou John Buscema,mas vai detestar desenhar igualzinho a eles,concorda?Ninguém quer ser mera cópia de alguém,por ser orgulhoso,como todo
ser humano que se preze.
-O seu álbum Musashi teve 1000 exemplares lançados.Acha que as HQs de qualidade
correm o risco de tornarem-se um produto de elite?
Como os cineastas,os quadrinhistas têm 2 opções:Fazer um trabalho de arte ou
comercial (que tenha grande retorno financeiro).É questão de escolha motivado pela compulsão de cada um.Fazer para a elite ou para as massas,ambos são muito
difíceis.O editor de revistas ou o produtor de filmes,estes sim,têm que pensar
só em lucros, pois lidam com custos e gastos.Sem lucro não há motivação por
questão de ordem prática.
-Fale sobre seu trabalho na revista "Medo",do Ofeliano.
Fiz a HQ "Neurose" inspirado num personagem estressado por uma profissão estressante.Ele passa a ter dupla personalidade e sofre a paranóia de que um
sócio estaria planejando tomar-lhe a sua identidade,digo, ocupar seu lugar,na
vida particular e na profissional.
-Você não têm vontade de criar nada para o público infantil?
Não.Desde a infância li pouca revista infantil.Passei minha infância no sertão
hostil,onde jagunços e posseiros viviam em conflitos,trocando tiros e provocando
mortes.Meu próprio pai que administrava fazenda foi tocaiado e safou-se com vida
por milagre.
-Você chegou a colaborar com o"Pasquim"?
Sim.Sobretudo com ilustrações para matérias escritas por José Mouserrat,
diretor de criação e redator com quem eu trabalhei numa agência de publicidade.
-Shima,você já fez a adptação para os quadrinhos do
seriado "Carga Pesada".Fale sobre este trabalho.
Foi um lançamento da editora Globo,quando ainda se chamava "Rio Gráfica".Foi
cancelado após os primeiros números.O primeiro saiu com a explêndida quadrinização de
Ivan Wasth Rodrigues(autor da arte da"História do Brasil I e
II"da Ebal e "Casa grande e Senzala",agora relançada à cores digitalizadas pelo
Hélcio Noguchi(falecido recentemente ) .O segundo número coube a mim.O terceiro,
do Colin,não saiu.Fiz ainda o quarto , que também acabou engavetado.Foi uma pena,pois era um trabalho melhor.
-Gosta de televisão?
Nem um pouco.
-Qual sua opinião sobre o trabalho "O Lobo Solitário"?
Verdadeira obra-prima.Inimitável,quanto ao desenho e ao roteiro.Sem dúvida,o
personagem é inspirado no Miyamoto Musashi,com colagens de um ou outro samurai que realmente existiu.O Ito Ogami é um persongem denso,que segue seu destino com
seu filho Daigoro,pronto para cruzar a qualquer momento a fronteira do inferno.
-Luta alguma arte marcial?
Na infância pratiquei Yawara(ancestral do Jiu-Jitsu)e fiz Karatê na juventude.O
Aikidô,quando tinha mais de 30 anos.Minha frustação é não ter praticado Kendô(esgrima),já que papai aprendera de seu tio,instrutor de esgrima em um
quartel do exército em Wakayawa, Japão.
-Esportes?Futebol,já jogou?
Só peladas,por ser perna-se-pau eu vivia sendo escalado como goleiro.Vivia com
os joelhos esfolados.Continuo fazendo ginástica caseira.
-Fale sobre Cláudio Seto,o que acha do trabalho dele ser conhecido só por
poucos ?
Como quadrinhista,pouco acompanhei sua carreira,já que na época da Edrel eu me
dedicava totalmente à publicidade.Só na época da editora Grafipar,conheci seu
talento de quadrinhista e editor.Reconheci nele também qualidade de roteirista versátil de bom nível.Ele tinha um temperamento retraído,pouco dado a
publicidade,esse deve ser o motivo de sua pouca notoriedade.
-Mande um recado para os fãs.
Prestigiem o quadrinho nacional.Num mercado tomado por importados,o quadrinhista
brazuca é um verdadeiro cruzado,um autêntico super-herói,um doido que nada contra a correnteza.Merece alguma atenção dos patrícios por isso.
10 Reflexões
Cite um filme que o emocionou.
Um filme que assisti em um cinema de Borborema,(onde nasci) aos 9 anos ,numa
Semana Santa: "Jesus de Nazaré".E não sou religioso.
Qual sua música preferida?
Gosto de ouvir som instrumental,sobretudo flauta e violino (massageia meus tímpanos).
Fale sobre uma grande história em quadrinhos.
"Príncipe Valente",de Hal Foster.
Um grande livro.
"O continente",de Érico Veríssimo,o primeiro da trilogia "O tempo e o vento",que
trata da saga gaúcha.
Quem é melhor,Walt Disney ou Mauricio de Souza?
Walt Disney,um imigrante espanhol de Mérida, que comeu o pão que o diabo amassou
e venceu nos States.Fonte:"Eu sei tudo",revista que vinha de Portugal. Seu pré-nome era José Maria,adotou o pseudônimo que o consagraria
mundialmente.Pouquíssima gente sabe disso.
Will Eisner ou Frank Miller?
Will Eisner,disparado.
Steven
Spielberg ou Frederico Fellini?
Fico com os dois,com vantagem a Fellini.
Passado ou futuro?
Futuro,mas checando o passado,para não repetir erros.
Brasil ou Japão?
Brasil,mas sem esquecer parte da cultura que herdei de meu pai japonês.
Qual lugar do mundo gostaria de conhecer?
Nenhum fora do Brasil.Curioso,né? Acho que seria incrível morrer viajando e
conhecendo o país onde você nasceu.