ALAN MOORE     Senhor do Caos  /   Lord of Chaos
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Entrevistas  /  Interviews


         ARTISTA RODVAL MATIAS

                                                                                               por José Carlos Neves

Se Mozart Couto fosse o “Da Vinci das HQBs”, certamente Rodval Matias seria o “Michelangelo”. Deparei-me com o traço maravilhoso, preciso e elegante deste paulista nascido aos 23 de novembro de 1953  - 5 dias antes que Alan Moore – nas revistinhas de “aventura e fantasia” da saudosa editora Grafipar, do Paraná. ( As aspas são para ressaltar que, na verdade, a grande maioria das revistas da editora que deu guarida a veteranos e gerou toda uma ninhada de excelentes Quadrinistas, eram mesmo pornográficas. “Era o que vendia” na época – e sempre – afinal, como sempre justificaram o proprietário “turco” da editora e o mentor do famoso “Clube de Quadrinhos Bico de Pena”, Cláudio Seto. Dessa forma, sob a camuflagem de títulos pomposos de Ficção Cientifica, Fantasia Heróica, Faroeste e Terror, os autores e artistas se viam obrigados mesmo a fazer estórias eróticas – o que não deixou de ser uma importante forma de exercitarem-se na “anatomia humana”, requisito sine qua non de qualquer desenhista que se preze...)

Mas voltando ao nosso Entrevistado, ele nasceu em Novo Horizonte, São Paulo, cidade que fica entre Guaiçara, do Seto, e Borborema, do nosso outro “samurai”, o Mestre Shimamoto.

Desenha desde criança, além de pintar com maestria, na técnica do óleo sobre tela, talento que o levou a ser um dos mais elogiados (e colecionados) capistas da Grafipar.

Matias sempre afirmou que pinta “aquilo que a fotografia não alcança”, mas nem por isto de forma menos realista.

Já o seu clássico traço nos Quadrinhos preto-e-branco (nos quais o desenhista e´ o único responsável pelo sucesso – ou não – da arte), representava um amálgama dos de Alex Raymond, Al Willianson, algo do Filipino Ruddy Nebres, do John Buscema e mais alguns outros aclamados astros.

Tive a oportunidade de conhecer Matias pessoalmente em seu “estúdio” da Vila Anastácio em Sampa, nos anos 80, ocasião em que ele me emprestou alguns livros do Burne Hogarth e me presenteou com uma bonita tela que até hoje enfeita o meu “estúdio” –depois de compartilharmos um “pê-efe” na cantina da esquina.

Com o fim da editora paranaense, abalada mortalmente depois de heróica luta pelos rotineiros sísmicos econômicos que por aqui grassavam,  continuei acompanhando a arte de  Matias em algumas revistas da  não menos importante D-Arte, a editora paulista de Rodolfo Zala e cia., até finalmente perde-lo de vista.

Soube que tinha abandonado os Quadrinhos de vez, indo “garantir o pão” em plagas mais alvissareiras, na Publicidade e Ilustração comercial.                                                                                  (All Willianson)

Seu nome figurou desde o início aqui no site em minhas “Procuras” e nos meus regulares “updates de atualizações “.

Graças ao amigo Mozart Couto, reato este importante contato e amizade, brindando a todos os leitores com o papo que se segue.

-Estimado  Matias,   para iniciar complete  sua apresentação: onde  vive atualmente? Continua casado? Filhos – além da Ana Paula? E no que vem trabalhando especificamente?

R-Cara, faz  tanto tempo assim que não nos falamos?  Tenho quatro filhos…

Veja bem que não fiquei só desenhando, senão a prole não teria aumentado assim. Aliás, já tenho dois netos também.

Continuo desenhando e pintando como nunca. Trabalho com quase todas as Editoras aqui de São Paulo . E é muita pauleira, como se ainda estivesse fazendo HQ.

-O quê e quando iniciou seu interesse pelos Quadrinhos?

R- Desde a infância tinha vocação pelo desenho e um interesse especial pelas revistas em quadrinhos. Lia muito Príncipe Valente, Flash Gordon, Batman, Zorro(bang-bang), Capitão América, Tarzan  etc.Com 12, 13 anos já copiava bem esses personagens. Cheguei a copiar uma história completa de Tarzan. A liberdade de conduzir um personagem numa ação é fascinante . É isso que me atrai numa história em quadrinhos.

-Pode citar autores e obras que o influenciaram?

R-Harold Foster com o Principe Valente, uma Obra Prima. Ficava horas olhando aqueles desenhos.  Alex Raymond autor de Flash Gordon. O seu traço a bico de pena me  hipnotizava. Comprava sempre dois livros do mesmo volume. Um  era para guardar, outro era para manusear  até gastá-lo. Também curti muito Jack Kirby, Neal Adams e John Buscema. Esses que citei foram minha fonte inspiradora para começar a desenhar.Além de Mezieres e Moebius.  Nessa época morava no interior do Paraná (Cruzeiro do Oeste), uma cidade pequena onde não tinha uma escola de desenho e minha situação econômica não permitia estudar por correspondência. O jeito foi praticar sozinho. Imagina a dificuldade!  Produzia quilos de rabiscos. Finalmente,  já morando em São Paulo conheci o trabalho do Frazetta. O traço dele  e o universo temático e mágico me encantou e mudou todo o meu conceito sobre desenho. A maneira como ele  recriou  as formas dando uma nova ordem para a arte me  tornou cativo. Criei  coragem e mudei de profissão. Pois na época eu trabalhava em Contabilidade. (Não tinha nada a ver.)

  -Eu sei que você é um cara místico.O que você pensa da Magia?

R- Não sou um místico de carteirinha que busca poções mágicas,  encantos  ou qualquer outra prática oculta. Entendo  que caminhamos todos para um ponto de equilíbrio. Não há poções mágicas para isso e sim “querer” chegar lá. Bem ou mal chegaremos no nosso destino. Existe uma lei  que rege tudo isso e impulsiona os homens para o esclarecimento. É a Lei do Progresso.

A Magia faz parte da cultura universal. Ela nasceu com o homen  que desde o princípio busca dominar os elementos. Ela está na poção que cura, nos encantamentos, nos rituais das religiões  primitivas…(arte de Ruddy Nebres)

-Sobre o atual estágio dos Comics no mundo, qual o futuro que voce antevê para a Nona Arte?

R-Creio que a HQ sempre manterá a mística e o fascínio que ela exerce em todos nós.

E seu futuro será sempre promissor, ainda mais agora com a ajuda do computador que possibilita uma infinidade de efeitos que antes eram muito difíceis de se conseguir na prancheta. Penso sim que a galeria de super heróis sofrerá grandes modificações  ou mesmo os temas abordados se sofisticará bastante pois o gosto do publico ou leitor que curte essa arte é cada vez mais exigente. A criança da minha época curtia muito as revistas da Disney ou mesmo os super-heróis que vendiam muito. Hoje o interesse não e tão grande.

O roteiro, ou o universo dessas histórias já não satisfaz a expectativa desse nosso mundo em transformação. Aliás, falo por mim… Passei a colecionar apenas os desenhistas.

Os álbuns de Alex Ross com ótima  qualidade artistica é uma tendência.

 -E no Brasil? -O quê voce acha que pode explicar o atraso brasileiro em relação, não digo aos EUA, mas à Europa, por exemplo, no que concerne a álbuns de qualidade (salvo raras exceções, é claro, como os de Mutarelli, Mestre Shima, Mozart Couto e uns poucos outros abnegados)?

R- No Brasil ,infelizmente (por enquanto) continuaremos a correr atrás. Tudo culpa do nosso infindável  problema econômico e também das editôras que não sabem dar o devido valor a essa arte. Paga-se muito pouco e o desgaste é muito grande para o artista.  Aqui não se consegue viver fazendo HQ . O artista brasileiro que quer vencer nesse campo tem que tentar lá fora. E temos muita gente de qualidade fazendo isso. Se tivéssemos alguém com boa visão empresarial  disposto a investir no artista brasileiro e pegasse essa produção e negociasse no exterior,  vendendo ou mesmo em forma de permuta,  aqueceria com isso o setor. Acho que daria certo porque mão de obra qualificada nós temos. Então falta tradição empresarial. Teríamos que ser vistos como parceiros também, pois criamos o produto e não usufruímos o lucro. (Arte: Rodal Matias)

-O quê, ao seu ver, poderia ser feito para mudar para melhor este quadro?

R-Não jogar a toalha…

-Mas falemos agora do teu reconhecido trabalho. Como você se interessou por desenho?

R- Sempre me interessei por desenho. Desde a infância vivia rabiscando, criando figuras... Acho que o meu início não foi diferente de qualquer outro artista, tirando esse ou aquele detalhe. Como disse no início, o fato de morar longe de um grande centro dificultou e até atrasou o meu desenvolvimento artístico. Aprender sozinho fez com que desenvolvesse vícios difíceis de abandonar. Quando você tem um mestre ou mesmo um bom livro que lhe forneça dados técnicos ajuda muito. Mas esse era o meu desafio. Pratiquei muito e sempre acreditei que ia vencer.

- Frequentou alguma escola ou é auto-didata? Quais suas maiores influências?

R- Logo que cheguei em São Paulo, inicio de 1974, frequentei alguns meses uma escola de desenho de Olavo Pereira, na Av.Angélica. Mas não consegui levar adiante. Tinha dificuldade de me adaptar ao rítmo da cidade grande.

-A influência do mestre-dos-mestres,o Frank Frazetta, é notória, mas lembro-me que você me mostrou um livro de um outro pintor pré-frazetiano, me dizendo então “aqui  é onde até o Frazetta bebeu água’. Foi o Maxfield Parrish ou Howard Pyle ? Sei que mostrava aquelas maravilhosas “marinas” de navios piratas em batalha com outros galeões ou contra a fúria do mar...

R-São dois caras muito bons que nasceram no século 19.  Howard Pyle e Heinrich Kley. Tenho a impressão que Pyle pintava com muita facilidade, já Kley usava sua pena  para dar movimento e graça as figuras. Dá para perceber claramente a influência desses artistas na obra do Frazetta.

-O que recomenda para desenhistas novatos em termos de aprendizagem, principalmente desenho da figura (anatomia), luz-e-sombra, perspectiva e composição artística?

R-Para quem tá começando é muito importante uma boa orientação, seja numa escola de desenho com um mestre, ou com bons livros, aprendendo teoria e prática.

Copiar bastante o o trabalho de quem admira, (Acho que todo mundo começa assim).

Usar fotos para estudar luz e sombra… E praticar  muito, claro!  Os macetes todos a gente aprende exercitando.

-Como se deu o seu “debut” nos Quadrinhos? Foi na Grafipar? Obteve um feedback imediato, ou demorou um pouco?

R-Sobrevivia na época(1977) trabalhando em contabilidade. A noite desenhava.Fiz então dois projetos  de história em quadrinhos, um sobre Zumbi dos Palmares outro a Invasão Holandesa e ofereci para Adolfo Aizen da Ebal. Um mês depois recebi a resposta sobre o seu interesse em publicar a Invasão Holandesa. Foi a maior emoção da minha vida. Como vê, não demorou nada. Meu segundo trabalho tinha sido vendido. Não sei o que aconteceu com Zumbi…  devia estar muito ruim aquilo. ("Escambo", de Rodval Matias)

-Aquelas telas formidáveis, você mandava para eles e depois recebia de volta? Ainda possui seu “acervo”?

R- Muita coisa se perdeu. Apesar de o Seto ter um enorme carinho com o nosso trabalho. Outras destruí , pois não curto muito aquele início.

Já o trabalho que fiz para as editoras didáticas não peguei quase nada de volta.

-Ainda mantém contato com aquela turma genial ou não?

R-Perdi o contato com o pessoal. Sei apenas do Rogério Soud, do Bonini ,Gustavo Machado e do Mozart. (Queria saber do Seto, nosso Honorável Samurai.)

-É, a filha dele, a gentil Mayumi, entrou em contato, mas o "samurai" continua um ermitão, ai que me parece... Quais dos seus trabalhos você julga mais importantes e porque?

R-Já no final daquele movimento todo da Grafipar fiz um trabalho muito bom sobre Bandeirantes,  para a Bélgica junto com o Júlio Emílio Braz (na foto, com o famoso quadrinista belga Hermann). Foram três histórias e eles publicaram duas apenas. O tema é apaixonante. O Júlio pesquisou muito bem o período e eu estava dando a minha alma naquele projeto, mas…

-Este trabalho para o Exterior foi através do Artecomix , outro agente, ou direto com as editoras?

R-Foi direto com o agente belga.

-Como é o relacionamento  com os editores estrangeiros?O pessoal pagacorretamente?

R- Recebi  tudo direitinho.

-E aqui no Brasil?

R- Nunca levei um calote de ninguém. E faço votos que continue assim.

-Você concorda que, depois de uma onda iniciada, ao meu ver, na Image, o desenho de super-heróis tem optado por uma arte mais realista – em termos de visual e não de temática.Melhor explicando: seres de músculos anabolizados impossíveis não são realistas. Mas sua representação no papel,  quase sempre iluminados por no mínimo duas fontes de luz – uma mais forte e no lado oposto a esta, outra mais fraca, ou de luz rebatida, torna as figuras mais realistas, mais tridimensionais, se me entende – como faz Dale Keown e  principalmente o italiano Paolo “Druuna”Serpieri. Concorda que existe esta tendência?  (no desenho à lápis de cor abaixo, que fiz copiando do mestre Serpieri, fica bem claro o lance das duas fontes luminosas vindas de direções opostas)

R- Caramba, bicho! Não sei se entendi. Mas parece que sim… Os super-heróis  possibilitam essas “viagens” anatômicas e  os novos recursos gráficos ajudam a dar mais realismo,  já que o personagem não está preso as mesmas leis físicas que nós mortais,  juntando tudo isso a necessidade de criar novos padrões, os super-heróis de portes até bizarros ficam normais. Talvez seja um truque inteligente dos autores na tentativa de minimizar essa diferença gritante entre o leitor e sua criação. Como fica bonito e todo mundo segue o design, passa a ser uma tendência.

-Seria este novo jeito de desenhar mais elaborado, uma forma de concorrer mais à altura com a computação gráfica, na qual as figuras, eu costumo dizer, são mais reais do que o real? Você também já trabalha com Arte Digital? Somente “aperfeiçoando”o que desenhou antes no papel, ou já cria totalmente no PC? Qual programa considera o melhor para isto e porque

R- O trabalho feito no computador fica fantasticamente artístico se você usar as ferramentas certas. Senão fica artificial. As últimas versões do Photoshop oferecem boas texturas. Eu particularmente gosto do Painter. Ainda não sei usar todos os seus recursos, mas ele  me possibilita realizar uma arte parecida com a da prancheta. Procuro evitar o trabalho “lisinho” do Photoshop.

Hoje uso a prancheta apenas para desenhar. A arte-final faço toda no computador.

Resisti um pouco mas a textura que se consegue com o Painter fez com que eu me rendesse a arte digital. Como já disse ainda estou conhecendo os  recursos desse programa fantástico. Uso um Mac-G4, 466 de velocidade  e 625 de me

mória  RAM .

Só que uma técnica influencia a outra. Com certeza o trabalho feito na prancheta sofre a influência do computador.

Quando falei em trabalho fantasticamente artístico, me referia ao trabalho de  Craig Mullins. Quem não conhece e quiser dar uma expiada,  entra no site www.goodbrush.com e verá coisas lindas não só dele mas também de outros caras.                                                (Lápis de Rodval Matias)

-E falando nisto, o que acha do desenho do  Paolo Eleuteri Serpieri – e sua inigualável Druuna – principalmente em termos anatômicos e de artefinalização, com aqueles traços finos à pena, hachureando para representar a iluminação mencionada acima, e simultaneamente acompanhado a superfície – como os wire-frames da computação gráfica – que passa a idéia de volume, de tridimensionalidade com grande maestria?

R- Também gosto do trabalho do Serpieri. E sua personagem Druuna é uma bela miragem. Sabendo fazer, a técnica com hachuras fica muito bom como vemos no seu trabalho. Quem puder ter acesso ao restante da sua obra vai ter uma grata surpresa. Ele produziu outros temas com a mesma beleza.

 

                                                   (Ilustração comercial de Rodval Matias) 

-Sobre os fanzines, nos quais , parece, quase todos nós brasileiros começamos você acha que eles ainda têm espaço neste novo mundo de Internet?

R- Sim. Principalmente agora com a internet.

-Continua lendo Quadrinhos? Pensa em “voltar”?

R- A situação hoje é diferente daquela época. Tá complicado… A vontade de fazer HQ nunca acabou.

No ano 2000 ilustrei a Carta de Caminha pela da Editora FTD. Era um sonho antigo que realizei. Hoje faria álbuns como esse. (Uma preciosidade: "A presa", uma HQ de Rodval Matias e Mozart Couto - fifícil é distinguir quem fez o quê)

-Finalizando,amigo, forneça-nos o URL do seu Site e teça suas considerações sobre o nosso.

R- Foi  muito bom conhecer o seu site. Ver as entrevistas do pessoal da nova e da velha guarda. Explorar as páginas do Frazetta e curtir.

Meu site ainda em formação: http://www.rodvalmatias.com.br

Quem sabe ainda vamos comer outro “pê-éfe  juntos.      

-Obrigado, Amigo.

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