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Entrevistas / Interviews
Se
Mozart Couto fosse o “Da Vinci das HQBs”, certamente Rodval
Matias seria o “Michelangelo”.
nascido aos 23 de novembro de 1953 - 5 dias antes que Alan Moore – nas revistinhas de
“aventura e fantasia” da saudosa editora Grafipar, do Paraná. ( As aspas são
para ressaltar que, na verdade, a grande maioria das revistas da editora que deu
guarida a veteranos e gerou toda uma ninhada de excelentes Quadrinistas, eram
mesmo pornográficas. “Era o que vendia” na época – e sempre – afinal,
como sempre justificaram o proprietário “turco” da editora e o mentor do
famoso “Clube de Quadrinhos Bico de Pena”, Cláudio Seto. Dessa forma, sob a
camuflagem de títulos pomposos de Ficção Cientifica, Fantasia Heróica,
Faroeste e Terror, os autores e artistas se viam obrigados mesmo a fazer estórias
eróticas – o que não deixou de ser uma importante forma de exercitarem-se na
“anatomia humana”, requisito sine qua
non de qualquer desenhista que se preze...)
Mas
voltando ao nosso Entrevistado, ele nasceu em Novo Horizonte, São Paulo, cidade
que fica entre Guaiçara, do Seto, e Borborema, do nosso outro “samurai”, o
Mestre Shimamoto.
Desenha
desde criança, além de pintar com maestria, na técnica do óleo sobre tela,
talento que o levou a ser um dos mais elogiados (e colecionados) capistas da
Grafipar.
Matias
sempre afirmou que pinta “aquilo que a fotografia não alcança”, mas nem
por isto de forma menos realista.
Já
o seu clássico traço nos Quadrinhos preto-e-branco (nos quais o desenhista e´
o único responsável pelo sucesso – ou não – da arte), representava um amálgama
dos de Alex Raymond, Al Willianson,
algo do Filipino Ruddy Nebres,
do John Buscema e mais alguns outros aclamados astros.
Tive
a oportunidade de conhecer Matias pessoalmente em seu “estúdio” da Vila
Anastácio em Sampa, nos anos 80, ocasião em que ele me emprestou alguns livros
do Burne Hogarth e me presenteou com uma bonita tela que até hoje enfeita o meu
“estúdio” –depois de compartilharmos um “pê-efe” na cantina da
esquina.
Com
o fim da editora paranaense, abalada mortalmente depois de heróica luta pelos
rotineiros sísmicos econômicos que por aqui grassavam,
continuei acompanhando a
arte de Matias
em algumas revistas da não menos
importante D-Arte, a editora paulista de Rodolfo Zala e cia., até finalmente
perde-lo de vista.
Soube
que tinha abandonado os Quadrinhos de vez, indo “garantir o pão” em plagas
mais alvissareiras, na Publicidade e Ilustração comercial.
Seu
nome figurou desde o início aqui no site em minhas “Procuras” e nos meus
regulares “updates de atualizações “.
Graças
ao amigo Mozart Couto, reato este importante contato e amizade, brindando a
todos os leitores com o papo que se segue.
-Estimado
Matias, para iniciar
complete sua apresentação: onde
vive atualmente? Continua casado? Filhos – além da Ana Paula? E no que
vem trabalhando especificamente?
R-Cara,
faz tanto tempo assim que não nos
falamos? Tenho quatro filhos…
Veja
bem que não fiquei só desenhando, senão a prole não teria aumentado assim.
Aliás, já tenho dois netos também.
Continuo
desenhando e pintando como nunca. Trabalho com quase todas as Editoras aqui de São
Paulo . E é muita pauleira, como se ainda estivesse fazendo HQ.
-O
quê e quando iniciou seu interesse pelos Quadrinhos?
R- Desde a infância tinha vocação pelo desenho e um interesse especial pelas revistas em quadrinhos. Lia muito Príncipe Valente, Flash Gordon, Batman, Zorro(bang-bang), Capitão América, Tarzan etc.Com 12, 13 anos já copiava bem esses personagens. Cheguei a copiar uma história completa de Tarzan. A liberdade de conduzir um personagem numa ação é fascinante . É isso que me atrai numa história em quadrinhos.
-Pode
citar autores e obras que o influenciaram?
R-Harold
Foster com o Principe Valente, uma Obra Prima. Ficava horas olhando aqueles
desenhos. Alex Raymond autor de Flash
Gordon. O seu traço a bico de pena
praticar sozinho. Imagina a dificuldade! Produzia quilos de rabiscos. Finalmente,
já morando em São Paulo conheci o trabalho do Frazetta.
O traço dele e o universo temático
e mágico me encantou e mudou todo o meu conceito sobre desenho. A maneira como
ele recriou
as formas dando uma nova ordem para a arte me
tornou cativo. Criei coragem
e mudei de profissão. Pois na época eu trabalhava em Contabilidade. (Não
tinha nada a ver.)
R-
Não sou um místico de carteirinha que busca poções mágicas,
encantos ou qualquer outra
prática oculta. Entendo que
caminhamos todos para um ponto de equilíbrio. Não há poções mágicas para
isso e sim “querer” chegar lá. Bem ou mal chegaremos no nosso destino.
Existe uma lei que rege tudo isso e
impulsiona os homens para o esclarecimento. É a Lei do Progresso.
A
Magia faz parte da cultura universal. Ela nasceu com o homen que
desde o princípio busca dominar os elementos. Ela está na poção que cura,
nos encantamentos, nos
rituais das religiões primitivas…(arte
de Ruddy Nebres)
-Sobre
o atual estágio dos Comics no mundo, qual o futuro que voce antevê para a Nona
Arte?
R-Creio
que a HQ sempre manterá a mística e o fascínio que ela exerce em todos nós.
E
seu futuro será sempre promissor, ainda mais agora com a ajuda do computador
que possibilita uma infinidade de efeitos que antes eram muito difíceis de se
conseguir na prancheta. Penso sim que a galeria de super heróis sofrerá
grandes modificações ou mesmo os
temas abordados se sofisticará bastante pois o gosto do publico ou leitor que
curte essa arte é cada vez mais exigente. A criança da minha época curtia
muito as revistas da Disney ou mesmo os super-heróis que vendiam muito. Hoje o
interesse não e tão grande.
O
roteiro, ou o universo dessas histórias já não satisfaz a expectativa desse
nosso mundo em transformação. Aliás, falo por mim… Passei a colecionar
apenas os desenhistas.
Os
álbuns de Alex Ross
com ótima qualidade artistica é uma tendência.
-E
no Brasil? -O quê voce acha que pode explicar o atraso
brasileiro em relação, não digo aos EUA, mas à Europa, por exemplo, no que
concerne a álbuns de qualidade (salvo raras exceções, é claro, como os de
Mutarelli, Mestre Shima, Mozart Couto e uns
poucos outros abnegados)?
R-
No Brasil ,infelizmente (por enquanto) continuaremos a correr atrás. Tudo culpa
do nosso infindável problema econômico
e também das editôras que não sabem dar o devido valor a essa arte. Paga-se
muito pouco e o desgaste é muito grande para o artista.
Aqui não se consegue viver fazendo HQ . O artista brasileiro que quer
vencer nesse campo tem que tentar lá fora. E temos muita gente de qualidade
fazendo isso. Se tivéssemos alguém com boa visão empresarial
disposto a investir no artista brasileiro e pegasse essa produção e
negociasse no exterior, vendendo ou
mesmo em forma de permuta, aqueceria
com isso o setor. Acho que daria certo porque mão de obra qualificada nós
temos. Então falta tradição empresarial. Teríamos que ser vistos como
parceiros também, pois criamos o produto e não usufruímos o lucro.
(Arte: Rodal Matias)
-O
quê, ao seu ver, poderia ser feito para mudar para melhor este quadro?
R-Não
jogar a toalha…
-Mas
falemos agora do teu reconhecido trabalho. Como você se interessou por desenho?
R-
Sempre me interessei por desenho. Desde a infância vivia rabiscando, criando
figuras... Acho que o meu início não foi diferente de qualquer outro artista,
tirando esse ou aquele detalhe. Como disse no início, o fato de morar longe de
um grande centro dificultou e até atrasou o meu desenvolvimento artístico.
Aprender sozinho fez com que desenvolvesse vícios difíceis de abandonar.
Quando você tem um mestre ou mesmo um bom livro que lhe forneça dados técnicos
ajuda muito. Mas esse era o meu desafio. Pratiquei muito e sempre acreditei que
ia vencer.
-
Frequentou alguma escola ou é auto-didata? Quais suas maiores influências?
R-
Logo que cheguei em São Paulo, inicio de 1974, frequentei alguns meses uma
escola de desenho de Olavo Pereira, na Av.Angélica. Mas não consegui levar
adiante. Tinha dificuldade de me adaptar ao rítmo da cidade grande.
-A
influência do mestre-dos-mestres,o Frank
Frazetta, é notória, mas lembro-me
que você me mostrou um livro de um outro pintor pré-frazetiano, me dizendo então
“aqui é
onde
até o Frazetta bebeu água’. Foi o Maxfield Parrish ou Howard Pyle ? Sei que
mostrava aquelas maravilhosas
“marinas” de navios piratas em batalha com outros galeões ou contra a fúria
do mar...
R-São
dois caras muito bons que nasceram no século 19.
Howard Pyle e
Heinrich Kley. Tenho a impressão que Pyle pintava com muita facilidade,
já Kley usava sua pena para dar
movimento e graça as figuras. Dá para perceber claramente a influência desses
artistas na obra do
Frazetta.
-O
que recomenda para desenhistas novatos em termos de aprendizagem, principalmente
desenho da figura (anatomia), luz-e-sombra, perspectiva e composição artística?
R-Para
quem tá começando é muito importante uma boa orientação, seja numa escola
de desenho com um mestre, ou com bons livros, aprendendo teoria e prática.
Copiar
bastante o o trabalho de quem admira, (Acho que todo mundo começa assim).
Usar
fotos para estudar luz e sombra… E praticar
muito, claro! Os macetes todos a gente aprende exercitando.
-Como
se deu o seu “debut” nos Quadrinhos? Foi na Grafipar? Obteve um feedback
imediato, ou demorou um pouco?
R-Sobrevivia
na época(1977) trabalhando em contabilidade. A noite desenhava.Fiz então dois
projetos de história em
quadrinhos, um sobre Zumbi dos Palmares outro a Invasão Holandesa e ofereci
para Adolfo Aizen da Ebal. Um mês depois recebi a resposta sobre o seu
interesse em publicar a Invasão Holandesa. Foi a maior emoção da minha vida.
Como vê, não demorou nada. Meu segundo trabalho tinha sido vendido. Não sei o
que aconteceu com Zumbi… devia
estar muito ruim aquilo. ("Escambo",
de Rodval Matias)
-Aquelas
telas formidáveis, você mandava para eles e depois recebia de volta? Ainda
possui seu “acervo”?
R-
Muita coisa se perdeu. Apesar de o Seto ter um enorme carinho com o nosso
trabalho. Outras destruí , pois não curto muito aquele início.
Já
o trabalho que fiz para as editoras didáticas não
peguei quase nada de volta.
-Ainda
mantém contato com aquela turma genial ou não?
R-Perdi
o contato com o pessoal. Sei apenas do Rogério Soud, do Bonini ,Gustavo Machado
e do Mozart. (Queria saber do Seto, nosso Honorável Samurai.)
-É,
a filha dele, a gentil Mayumi, entrou em contato, mas o "samurai"
continua um ermitão, ai que me parece...
R-Já
no final daquele movimento todo da Grafipar fiz um trabalho muito bom sobre
Bandeirantes, para a Bélgica junto
com o Júlio Emílio Braz
(na foto, com o famoso quadrinista belga Hermann).
Foram três histórias e eles publicaram duas apenas. O tema é apaixonante. O Júlio
pesquisou muito bem o período e eu estava dando a minha alma naquele projeto,
mas…
-Este
trabalho para o Exterior foi
através do Artecomix , outro agente, ou direto com as editoras?
R-Foi
direto com o agente belga.
-Como
é o relacionamento com os editores
estrangeiros?O pessoal pagacorretamente?
R-
Recebi tudo direitinho.
-E
aqui no Brasil?
R-
Nunca levei um calote de ninguém. E faço votos que continue assim.
-Você
concorda que, depois de uma onda iniciada, ao meu ver, na Image, o desenho de
super-heróis tem optado por uma arte mais realista – em termos de visual e não
de temática.Melhor explicando: seres de músculos anabolizados impossíveis não
são realistas. Mas sua representação no papel,
quase sempre iluminados por no mínimo duas fontes de luz – uma mais
forte e no lado oposto a esta, outra mais fraca, ou de luz rebatida, torna as
figuras mais realistas, mais tridimensionais, se me entende – como faz Dale
Keown e principalmente
o italiano Paolo “Druuna”Serpieri. Concorda que
existe esta tendência?
R-
Caramba, bicho! Não sei se entendi. Mas parece que sim… Os super-heróis
possibilitam essas “viagens” anatômicas e os novos recursos gráficos ajudam a dar mais realismo,
já que o personagem não está preso as mesmas leis físicas que nós
mortais, juntando tudo isso a
necessidade de criar novos padrões, os super-heróis de portes até bizarros
ficam normais. Talvez seja um truque inteligente dos autores na tentativa de
minimizar essa diferença gritante entre o leitor e sua criação. Como fica
bonito e todo mundo segue o design,
passa a ser uma tendência.
-Seria este novo jeito de desenhar mais elaborado, uma forma de concorrer mais à altura com a computação gráfica, na qual as figuras, eu costumo dizer, são mais reais do que o real? Você também já trabalha com Arte Digital? Somente “aperfeiçoando”o que desenhou antes no papel, ou já cria totalmente no PC? Qual programa considera o melhor para isto e porque
R-
O trabalho feito no computador fica fantasticamente artístico se você usar as
ferramentas certas. Senão fica artificial. As últimas versões do Photoshop
oferecem
boas texturas. Eu particularmente gosto do Painter. Ainda não sei usar todos
os seus recursos, mas ele me
possibilita realizar uma arte parecida com a da
Hoje
uso a prancheta apenas para desenhar. A arte-final faço toda no computador.
Resisti
um pouco mas a textura que se consegue com o Painter fez com que eu me rendesse
a arte digital. Como já disse ainda estou conhecendo os
recursos desse programa fantástico. Uso um Mac-G4, 466 de velocidade
e 625 de me
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Só
que uma técnica influencia a outra. Com certeza o trabalho feito na prancheta
sofre a influência do computador.
Quando
falei em trabalho fantasticamente artístico, me referia ao trabalho de
Craig
-E
falando nisto, o que acha do desenho do Paolo Eleuteri Serpieri – e
sua inigualável Druuna – principalmente em termos anatômicos e de
artefinalização, com aqueles traços finos à pena, hachureando para
representar a iluminação mencionada acima, e simultaneamente acompanhado a
superfície – como os wire-frames da
computação gráfica – que passa a idéia de volume, de tridimensionalidade
com grande maestria?
R-
Também gosto do trabalho do Serpieri. E sua personagem Druuna é uma bela
miragem. Sabendo fazer, a técnica com hachuras fica muito bom como vemos no seu
trabalho. Quem puder ter acesso ao restante da sua obra vai ter uma grata
surpresa. Ele produziu outros temas com a mesma beleza.
(Ilustração comercial de Rodval Matias)
-Sobre
os fanzines, nos quais , parece,
quase todos nós brasileiros começamos você acha que eles ainda têm espaço
neste novo mundo de Internet?
R-
Sim. Principalmente agora com a internet.
-Continua
lendo Quadrinhos? Pensa em “voltar”?
R-
A situação hoje é diferente daquela época. Tá complicado… A vontade de
fazer HQ nunca acabou.
No
ano 2000 ilustrei a Carta de Caminha pela da Editora FTD. Era um sonho antigo
que realizei. Hoje faria álbuns como esse.
-Finalizando,amigo,
forneça-nos o URL do seu Site e teça suas considerações sobre o nosso.
R-
Foi muito bom conhecer o seu site.
Ver as entrevistas do pessoal da nova e da velha guarda. Explorar as páginas do
Frazetta e curtir.
Meu
site ainda em formação: http://www.rodvalmatias.com.br
Quem sabe ainda vamos comer outro “pê-éfe juntos.
-Obrigado, Amigo.
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