ALAN MOORE     Senhor do Caos  /   Lord of Chaos
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Entrevistas  /  Interviews


     QUADRINISTA DA GERAÇÃO VECCHI, MANO

(Impossibilitado – por enquanto, pois não desisto fácil ! – de contatar o Mano, reproduzo aqui sua Entrevista feita por Ofeliano (de Almeida) para a revista MEDO, nº 2, Editora Maciota (provavelmente 1984)- . Se voce gosta de Graciliano Ramos ou vibrou com “Cidade de Deus”, esse cara é o seu Quadrinista! - JCN

Elmano Silva Santos. Mais conhecido como Mano. Teatrólogo, ator, poeta, orientador artístico, pintor, roteirista e desenhista de Quadrinhos. Talento reconhecido várias vezes através de premiações e aplauso público. Não foi à toda que centenas de cartas de leitores o elegeram o melhor autor de terror da extinta Editora Vecchi. Conosco, nesta Entrevista, que terminou lá pela madrugada, o homem que fez do demônio um justiceiro implacável.

OFELIANO: Mano, d´aonde provêm todo esse talento? Você tem pacto com o diabo?

MANO: Se tenho, alguém assinou por mim pois, não estou sabendo. E esse negócio de talento é muito relativo: eu gosto muito de criar e levo isso muito a sério. É preciso ter consciência do que se faz para poder se impor algo de seu, com personalidade, e não ficar fazendo só aquilo que te pedem para fazer.  Por ex.: lá, na Vecchi, logo que cheguei, o papo era que os leitores só queriam terror tipo Drácula e Lobisomem, e essas coisas; eu, ao contrário, tinha propostas de um terror mais real: eu queria desenhar o sertão nordestino e explorar toda violência nele existente. Daí,   foi difícil convencer o editor a aceitar minhas HQs, mas elas terminaram sendo publicadas. Mais tarde, após algumas publicações, sou chamado pelo editor para uma conversa “muito séria”: acontece que dezenas de leitores haviam escrito elogiando meus trabalhos e pedindo mais. Segundo o editor, eu era um fenômeno e ele passou a me encomendar cada vez mais páginas, dando-me total liberdade de criação.

É dessa consciência que eu falo: o artista deve lutar para impor seus valores.

O: Uma coisa que me impressionou de inicio nas suas estórias é que você colocou o demônio fazendo justiça. Certo que não é a Justiça Oficial, e sim uma revanche, uma chance de vingança, a justiça feita pelas próprias mãos, que é aquela que restaria na falta da Justiça mesmo.

M: Eu parti de um princípio: pode se definir um “Mundo Cão” onde só o Mal é capaz de vencer o Mal, porque o Bem já tornou-se fraco demais.

O: Falemos, então, da Sinhá Preta, sua maior criação em HQ. Quem acompanhou as aventuras dela na revista SPEKTRO deve ter sentido como eu: essa personagem é tão forte que parece de carne e osso; ela me remete direto às representações da Grande Mãe Arcaica, das civilizações antigas, e já muito estudada pela psicologia moderna.

M: na verdade, eu me baseei numa preta velha com quem convivi quando criança: ela era empregada lá em casa, diziam que ela tinha uns 90 anos e eu tinha um certo pavor dela porque ela gostava de dizer que ia me botar feitiço. O apelido dela era sinhá preta e, ao mesmo tempo que eu a temia, eu a admirava. Era uma figura fantástica, né?

Sabe como é que ela me contou ter visto um eclipse da Lua, certa vez?  Era de assombrar: ela contou que viu o eclipse, o Sol correndo arás da Lua e, de repente, apareceu Nossa Senhora e disse: “Pare” e parou o eclipse, e todas as coisas ficaram de cabeça para baixo, os bodes de pernas pro  ar, tudo. Eu era garoto e tentava imaginar tudo isso...

O: Você desenhou a origem da Sinhá Preta, que estamos publicando em capítulos, bem depois dela ter  ganho fama entre os leitores da SPEKTRO...

M: Exato. Esse projeto, que concluiu-se em 30 paginas contando toda a saga de seu nascimento, num navio negreiro, sua infância e aprendizado do catimbó, maia muito popular no Nordeste, e que aqui, no Sul, a gente poderia chamar de magia negra, bruxaria, seu casamento e vivências até a velhice,já na década de 20, já famosa e temida pelos senhores e pelo povo do cangaço, eu iniciei com intenção de publicá-la na SPEKTRO, mas a editora faliu e eu quase não tive ânimo de terminar os desenhos. O fechamento da Vecchi, que era o maior foco de produção de quadrinhos nacionais, até 1981, no Rio, me deprimiu demais e me deixou muito descrente quanto ao futuro dessa arte por aqui, no Brasil.  Só fui terminar essa HQ em 1983, ais côo um ato de sobrevivência espiritual, de resistência às forças que trabalham para destruir os quadrinhos entre nós. E desenhei a origem de Sinhá Preta com todo  carinho, pesquisando a história do Brasil em cada fase da biografia da personagem, de tal forma que se confundisse até com a vida real de gente famosa da época e com os fatos mais marcantes...    (foto: quadrinista Belga Hermman)

O: E da sua biografia, o que nos conta?

M: Bom, eu vim de Recife há 20 anos e minha formação era na área ed Contabilidade, onde trabalhei vários anos. Mas, a atração artística foi mais forte quando ganhei uma menção honrosa num salão de pintura e abracei de corpo inteiro a arte, desde o teatro (acabei de fazer uma ponta no programa de TV do Chico Anísio), até literatura e publicidade. A fiz orientação artística para crianças deficientes e foi uma experiência riquíssima... Mas , os quadrinhos são minha maior paixão, desde que eu tenha liberdade de fazer coisas realmente boas.

O: Um cara que escreve tão bem como você deve ter lido muito e vivido muito também...

M: Eu adoro bang-bang, desde os quadrinhos aos filmes de Sergio Leone. Claro, têm de ter qualidade.  Minha mais recente paixão são os trabalhos da dupla Hermman/Greg, mas na infância li muito Cavaleiro Negro, Ringo Kid, Daniel Boné...Li também muito Tico-Tico, Careta, da coleção do meu avô.  Mas, lia escondido pois meu pai só deixava ler José de Alencar.. também li escondido, com onze anos, todo Artur Conan Doyle, pois só me davam as Edições Maravilhosas, romances quadrinizados, onde descobri André Lê Blanc, que era fantástico (está hoje nos EUA). Nas ilustrações de Oswaldo Storni e Percival eu encontrei a paixão pelo desenho detalhado e bem pesquisado.

Eu nasci em Recife, mas vivi em Garanhuns, interior pernambucano, e depois, ainda mais longe. No que escrevo tem muito dessas lembranças, principalmente do meu avô, major Sinval, de Caruaru, que me contava historias que me fizeram gostar da região e tomar consciência de que aquilo era um outro mundo.

Também tive muita convivência com a natureza e os leitores que só conhecem meu trabalho de HQ/terror iriam espantar-se com minhas produções de fundo ecológico.

Qualquer hora dessas, espero poder publicá-las...                        (Arthur Conan Doyle)