ALAN MOORE     Senhor do Caos  /   Lord of Chaos
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Entrevistas  /  Interviews


Professora a Pesquisadora dos Quadrinhos, SôNIA BIBE LUYTEN

                                                                                                              por Jose Carlos Neves

Quando comecei a ler Quadrinhos nacionais a a me interessar pelos “bastidores’, procurando ler fanzines e saber mais sobre os aspectos técnico-culturais da Nona Arte (numa época em que ainda não era comum o termo “making of”), não me causava muita surpresa o fato de não termos representantes femininos entre os autores tupiniquins – a não ser a então “esquisita” apresentação nos créditos de raras HQs da Taika, Outubro, Edrel e outras saudosas editoras, de uma certa “Dolores Maldonado”, como roteirista a as vezes letrista.

Mas certa  vez, na antiga “feira hippie” da Praça da Republica, em Sampa, encontrei um fanzine intitulado QUADRECA, produzido pelos alunos da emblemática Escola de Comunicações e Arte-ECA da USP, que tinha um artigo analisando já naquela época ( há mais de 20 anos...) o verdadeiro fenômeno dos  mangás, os quadrinhos japoneses. O texto era assinado por Sônia Bibe Luyten....

Conforme a “apresentação formal” do ultimo FIQ-Festival Internacional de Quadrinhos, realizado aqui em Belo Horizonte: “Sônia Bibe Luyten é paulista e especialista em mangás, sendo autora de livros que discutem o comics. Foi professora na Escola de Comunicações e Artes da USP de 1972 a 1984. Em seguida, aumentou suas referências sobre HQ, dando aula nas universidades de Osaka e de Tokyo, no Japão, na Universidade de Utrecht, na Holanda e na Universidade de Poitiers, na França, onde conheceu outros gêneros de quadrinhos. Em seu trabalho, há uma preocupação com os artistas brasileiros. Sempre que pode, faz referências ao estilo dos desenhistas e à falta de visão e política das editoras nacionais. Em 1991, lançou o livro "Mangá, o Poder dos Quadrinhos Japoneses" (Editora Estação Liberdade/Hedra), que apresenta o mangá japonês como fenômeno de comunicação de massa, além de uma análise histórica  e cultural do gênero. Com origem numa tese da universidade, a obra de 250 páginas foi premiada num festival italiano e escolhido num projeto do Governo do Estado de São Paulo, que encaminha obras literárias para bibliotecas paulistas. Para a autora, além da exportação de trabalhos japoneses para o mercado editorial americano, os próprios japoneses também sofreram influência da forma  e do conteúdo ocidental. "Os mangás passaram por uma transformação no visual a começar pelas heroínas. Mudanças nos olhos e um aumento do busto: uma obsessão norte-americana!", afirma Luyten. Sobre a obra ,ainda, Alexandre Nagado, do site Omelete, escreveu: “Para quem gosta de mangá, para quem acha que mangá é apenas um monte de figuras de olho grande e cabelo espetado, ou para qualquer interessado em fenômenos de comunicação de massa, o livro é leitura obrigatória”.

Depois de alguma insistência de minha parte, Sônia conseguiu espaço em sua agitada agenda para responder `as minhas questões  a seguir.

Olá José Carlos, foi uma grata surpresa saber que você já me conhecia através da Quadreca. Bons tempos... Realmente aquela publicação (que existe até hoje) foi invenção minha – tanto a revista como o nome – Quadrinhos da Eca = QuadrECA . Como dava aulas de Histórias em Quadrinhos (desde 72)  achei que deveria haver um periódico para os alunos praticarem a pesquisa e também dar espaço aos desenhistas. E aquele número da Quadreca eu dediquei aos mangás que já havia começado a pesquisar. Mas vamos para as respostas senão eu escrevo tudo aqui.

1-Querida Sônia – o Bibe Luyten e´ de qual origem mesmo? Estado civil?  Filhos?

Vamos separar o Bibe do Luyten. O Bibe é nome de solteira e tem origem russa. O meu nome ainda tem um Di Monaco (por parte de mãe) que é italiano. O Luyten veio quando me casei e é de origem holandesa. Portanto sou casada e tenho 3 filhas.

2-O quê e quando iniciou seu interesse pelas Histórias Quadrinhos ?

            Quem gosta de quadrinhos isso já vem desde pequeno, lendo e saboreando as histórias. Sempre tive quadrinhos em casa para ler. Mas meu interesse começou de uma forma interessante. Quando estava na Faculdade de Jornalismo (sou formada pela Cásper Líbero) trabalhava numa agência de notícias – Associated Press – como jornalista e tradutora. Na minha classe eu tinha uma amiga que trabalhava no Jornal da Tarde ( do grupo do Estado de São Paulo) que era tradutora de HQ. Como ela ia se casar e rodar o mundo de moto com o futuro marido, pediu-me para ficar em seu lugar neste período que, na verdade, durou quatro anos. Comecei  a traduzir os Peanuts, A.C., Zé do Boné (Andy Capp) e outros. Justamente por estar traduzindo comecei a comprar livros sobre quadrinhos para saber mais sobre os autores que traduzia, como eram as histórias e assim começou meu interesse.

3-Na infância você lia muito, tanto HQ quanto Literatura? Pode citar autores e obras que o influenciaram?

            Eu lia muito na infância. Tanto quadrinhos como livros. Minhas leituras foram feitas a partir de Bibliotecas infantis  ou em casa.

Na infância li tudo de Monteiro Lobato, na adolescência tudo que havia sobre ficção científica – até hoje tenho a Coleção “Argonauta” acredito que cerca de  300 livrinhos que eram editados em Portugal e logo me acostumei as terminologias lusitanas como “fato espacial” que era o traje dos astronautas, etc.  Gostava muito também de ler livros sobre determinados personagens históricos.

Lia desde pequena  tudo que dizia respeito a teorias sobre fenômenos não explicáveis (do tipo: se os moais – estátuas gigantes da Ilha Páscoa – eram nativas mesmo ou houve contato extraterreno para seu transporte de um lugar para outro na ilha! Ou então sobre as teorias sobre a Atlântida, o continente desaparecido, além de certos enigmas de imensas estradas no Peru e Bolívia que só podem ser vistas a uma razoável distância aérea.)

Outra leitura constante desde a adolescência: romance policial de autores como  Edgar Allan Poe, Agatha Christie,  Simenon . O romance policial, muitas vezes desprezado pela crítica literária, é o melhor exercício para um roteiro cativante. Até hoje continuo ler sem interrupção. Por  gosto mesmo pois o enigma é uma das grandes chaves para bons roteiros (seja qual for ele: HQ, cinema, literatura).

Quanto aos quadrinhos eu, desde criança, nem precisava comprar: meu pai sempre os trazia. Na época (década de 50 e 60) as opções foram: Disney,  Ziraldo,  Burne Hogarth, Alex Raymond, Lee Falk, Hergé, Uderzo, Gosciny, Dante Quiterno,  Quino   entre outros.  Os gêneros foram se delineando: aventura, ficção científica, temas brasileiros (em a Turma do Pererê) histórias policiais, etc. Não havia HQ para meninas aqui no Brasil como no Japão. Selecionava então algumas histórias para rapazes que me agradavam além de  Maurício de Sousa que entrou para meu repertório com a Turma da Mônica  destacando-se até agora o gôsto pelo Chico Bento, o personagem  que mais me agrada deste universo. (W.Disney)

Estas leituras – livros e quadrinhos na infância e adolescência  – foram grandes pilares na minha formação e despertaram-me e motivaram-me para o mundo interior e exterior, viajar muito e apreciar bons roteiros em qualquer modalidade: da literária, quadrinística ou  cinematográfica    

-E que pilares! Tambem tenho ate´hoje a "colecção Argonauta", embora incompleta.Com as traduções, então, você  se iniciou profissionalmente no gênero? Qual foi sua próxima atividade?

Já como estudante de Jornalismo  comecei a trabalhar em jornal como repórter. Na área de Quadrinhos o início foi a tradução e, logo depois  já fui convidada pela Universidade de São Paulo na ECA em 1972 a dar aulas sobre HQ – curso que dei início e se mantém até hoje na Universidade, atividade esta que se consolidou e permaneço até hoje.

-Como reconhecido pelo Prof. Valdomiro Vergueiro, você também foi vitima de alguma espécie de preconceito por se dedicar ao estudo das HQs? (Burne Hogarth)

            Se esta atividade está cercada de preconceito hoje imagine em 1972 quando me lancei a dar este primeiro curso regular de HQ na universidade. Fazer pesquisa sobre HQ na década de 1970 num Mestrado e Doutorado - não havia orientador para isto. Até hoje meus colegas não me olham com bons olhos. Não é a parte nobre de um currículum universitário de graduação e muito menos de Pós-Graduação. As pessoas podem até lhe respeitar em função de seu bom desempenho e reconhecimento na área mas não é um olhar de admiração.  No momento de  fazer qualquer corte na academia é por aí se vê o conceito de que o estudo de Histórias em Quadrinhos é considerado “supérfluo”.

-Aliás, você acha que a denominação Histórias em Quadrinhos realmente tornou a nobre arte passiva de, no mínimo, ser considerada uma “arte”, como pensa o grande Will Eisner (sobre o termo “comics”)?  Não seria melhor “novela-gráfica”, como querem alguns?

            Quando a terminologia foi implantada em cada país, recebeu denominações diferentes pois elas refletiam vários momentos:  a produção voltada para o público infantil, seu gênero (cômico,  daí comic strips) e suas características (fumetti – os balõezinhos) e não algo relacionado a Arte. Das terminologias existentes em várias línguas cada uma reflete algo: bande dessinée na França ou bandas desenhadas em Portugal; lian huan hua (em chinês – histórias encadeadas),  mangá  (desenhos irreverentes), strip verhalen em holandês (histórias em tiras) e até que histórias em quadrinhos , em português reflete que são histórias contadas em quadros.  Para os americanos é que precisava mudar era o conceito mesmo: de comics para arte seqüencial , como Wil Eisner batizou,  foi um grande passo. Novela gráfica  é uma terminologia parcial, não reflete tudo que se faz na categoria de HQ.

-E especificamente, porque a atração pelos mangás?

Um bom pesquisador é aquele que está atento ao que ocorre enquanto tendência. O mangá na década de 1970 para mim era um grande enigma enquanto pesquisadora de HQ dentro do contexto maior de Comunicação. A pergunta era: por que vendem tanto? Por que a editoração dos mangás é diferente da ocidental? Por que a divisão editorial por faixa etária e sexo? Foram estas as perguntas que me moveram a iniciar uma pesquisa enquanto professora do Curso de HQ na ECA/USP. Com um grupo de alunas – a maioria descendente de japoneses – foi dado o primeiro passo no Brasil e no mundo – para se estudar o mangá. Buscava respostas para o fenômeno que se consolidava no Japão nas décadas de 1970 e 80. Não havia bibliografia alguma com exceção de uma obra no Brasil:” A técnica universal  das Histórias em Quadrinhos” de Fernando Ikoma que apresentava os grandes mestres como Shimamoto, Cláudio Seto influenciados pelo mangá .

Desta forma, o resultado desta pesquisa preliminar foi publicado na “Quadreca” na década de 1970.

Nesta época nem pensava ou sonhava ir para o Japão. Tanto é que no meu Mestrado – por falta de orientador na área de HQ – dediquei-me a outro assunto. E os mangás,   por algum tempo, ficaram ainda na fase de consultas e pesquisas por conta própria até o ano de 1984.

  -Como aconteceu de você vir a ministrar aulas – também – no Japão, Holanda a França?

      No ano de 1984 partia para o Japão. Não para estudar mangá nem pesquisar. Fui convidada a dar aulas na Universidade de Estudos Estrangeiros de Osaka num convênio que existia  entre a Universidade de São Paulo e esta universidade japonesa. Candidatei-me mas não foi fácil. A condição de mulher  que iria como “arrimo-de-família” não era muito bem vista no Japão naquela época.  Mas fui aprovada e fui com toda a família, três filhas pequenas (3, 7 e 9 anos) e meu marido que também foi mas na posição de pesquisador convidado do Museu de Etnologia de Osaka para formar um núcleo de pesquisas sobre Cultura Popular brasileira. Meu contrato era de dois anos.  Alunos e direção da universidade pediram-me para ficar mais um.  Uma vez no Japão resolvi retomar minha pesquisa  iniciada e publicada na Quadreca sobre os mangás. Afinal estava lá e, portanto, aprofundei-a, fiz pesquisas, consultei mais bibliografia, participei de inúmeros festivais como  há hoje no Brasil, fiz entrevistas com os grandes da área e voltei ao Brasil em 1989 com todo este material e defendi meu doutoramento. A tese foi enviada para Lucca na Bienal de HQ da Itália e ganhei o primeiro prêmio da melhor tese acadêmica consolidando-se assim, o primeiro estudo acadêmico sobre mangá no mundo.

            Voltei ao Japão novamente e  fiquei lá até 1991 também dando aulas em outras universidades: em Toquio e Tsukuba.

            Em 1991 fomos todos para  a Holanda a partir de um convite para meu marido ser Reitor numa Universidade e eu em 1993 fui convidada a lecionar na Universidade Real de Utrecht onde permaneci por alguns anos e, depois em 1998 e 1999 na França, na Universidade de Poitiers fiz meu pós-doutoramento  e também lecionei nesta universidade.

-Como os Quadrinhos são encarados nesses paises primeiro-mundistas, em nível acadêmico?

            De um lado de forma bastante séria e, de outro ainda preconceituosa. O lado sério é que quando resolvem fazer algo é para valer. Nós no Brasil temos pesquisadores e profissionais com idéias muito avançadas mas pouca infra-estrutura para concretizá-las. Um exemplo: na ECA/USP onde lecionei na área de HQ  iniciamos o primeiro curso regular de HQ , formamos a primeira gibiteca em ambiente universitário mas  pouca estrutura de apoio para sermos reconhecidos mundialmente e recursos financeiros para fazer algo. Quando vi em vários países estas  gibitecas, centros de pesquisa, etc ficava triste pois já havíamos feito muito antes e sem recursos e lá  estas  instituições são esplendorosas.

            O preconceito ainda existe por parte de pedagogos e pais em função da popularização das idéias norte-americanas do pós-guerra (divulgadas pelo livro “A sedução dos inocentes”) que correu o mundo com ecos na Europa e Oriente e também no Brasil. Levou tempo até a imagem das HQs mudasse e não fosse encarada como  bode expiatório dos  desvios psicológicos das crianças. 

-Eu residi por um ano em Hong Kong a me espantava, realmente, como as pessoas  - ate´ jovens yuppies de terno-a-gravata – liam quadrinhos normalmente nas praças, no  metrô etc. Como você justificaria o real preconceito contra o gênero no Brasil? (Uderzo)

           

n>No Brasil temos uma cultura oral. Se você pega um metrô ou ônibus há poucas pessoas lendo, seja lá o que for: livros, HQ, jornal. As pessoas conversam entre si ao invés de ler. Na Europa a grande maioria lê nos transportes públicos – mais livros do que quadrinhos mas está lendo, eles tem o hábito de leitura.

No Japão lêem livros e também quadrinhos não havendo preconceito quanto ao tipo de leitura. Eu também fui algumas vezes para Hong Kong e pude observar isto até mesmo comparando este hábito com os japoneses. Outro fator é que no Japão o mercado editorial de HQ está direcionado para faixas etárias e, portanto, os adultos tem sua fatia garantida (hábito este que o cidadão já começou desde a infância) e torna-se natural ler quadrinhos  em sua fase adulta.

-Outra curiosidade: desde meu primeiro contato com os mangás, me impressionou também a exploração, mesmo naqueles destinado ao publico infantil,  de temas ate´ hoje “tabus” em quadrinhos tupiniquins – e mesmo no Ocidente – como incesto, iniciação sexual e escatologia explicita (ainda hoje tenho um daqueles calhamaços japoneses com uma HQ que mostra crianças se enfrentando com fezes, aparecendo os órgãos genitais,etc. Naquela época pelo menos, vilões nunca morriam nem nas HQs, nem nos desenhos animados ocidentais – quem poderia imaginar o Tio Patinhas fuzilando um dos Irmãos Metralha ? Já nos desenhos japoneses – os animes – Ultra-Man cortava o monstro inimigo ao meio, com um golpe de karatê.  Você, que residiu um tempo no Japão, e militou justamente nesta área, como explica este fato?

            É preciso considerar três pontos para entender este assunto: Primeiro: estudar a cultura oriental – principalmente a japonesa  – para poder entender aquilo que chamamos de “tabus” e “violência”.

Segundo: Verificar dentro da produção de mangás  os autores que realmente usam a violência por não saber usar técnicas de ação.

Terceiro: Na vasta produção de mangá, examinar o que vem exportado para o Ocidente. Nem sempre é o melhor e sim aquilo que fez sucesso lá, depois fez sucesso nos Estados Unidos e Europa. O Brasil não tem escolha própria para determinar o que quer importar da produção japonesa pois está atrelado aos mercados europeus e norte-americanos e com todo um esquema de merchandising e publicidade.

            Do ponto de vista da cultura oriental o que chamamos de “violência” está atrelado ao ponto de vista histórico, artístico, etc. No Japão nunca se escondeu as grandes batalhas, a luta dos samurais, as revoltas do povo tanto na literatura como na Arte.

Nossos livros escolares, ao contrário, nos educam com a mentalidade de que tudo foi feito pacificamente no país. Nossos livros são hipócritas. Se pegarmos , por exemplo, o período da escravidão quantas torturas, quanto abuso sexual em crianças, mulheres e homens, quanta atrocidade foi feita? Onde podemos ler isto? As vezes quando se visita antigas fazendas tradicionais brasileiras quem conta isto é a própria arquitetura da época: as senzalas, os locais e instrumentos de torturas. Isto não é violência? Isto não é abuso sexual ? Depois tome os índios como exemplo; quanta dizimação, quanto abuso sexual, quantas atrocidades.... é só estudar um pouco e desistir da hipocrisia que vamos imediatamente analisar com outros olhos o “outro” e nós mesmos.

-Será que a repressão sexual, o tradicionalismo chauvinista a ate´ mesmo a “atração pela morte”, como uma “saída redentora” – e´ notório o fato de ate´mesmo crianças se suicidarem no Japão, por terem saído-se mal em exames escolares – poderia explicar esse fenômeno cultural?  Não seria contraditória eles serem um povo tão pudico, não afeito a expressar emoções, e explorarem o contrario em suas formas de entretenimento?

           Cada uma de suas afirmações daria um tratado sociológico para explicar e é preciso  compreender uma sociedade para analisar sua forma de entretenimento.  Os estrangeiros nos vêem como uma sociedade libertina a partir do carnaval – é o que chega no exterior pelas imagens. Nos vêem como uma país que extravasa suas emoções pelo futebol como um ópio para esquecer a pobreza. Mas cada um de nós se enquadra nisto? Claro que não. Nem toda mulher brasileira é libertina e nem todo homem que gosta de futebol é um alienado. É preciso, para um estrangeiro, estudar muito a fundo a sociedade brasileira para entender sua forma de entretenimento.

            No Japão há um código moral, social e religioso que fundamenta a vida dos cidadãos. Muitas vezes no mangá vemos  aquilo que eles são,  que gostariam de ser ou até que não são. Suicídios de jovens que não passam nos exames reflete a preocupação de alguns (não são todos que  não passam nos exames e cometem suicídio) o desapontamento causado pela vida de sacrifício das mães para verem os filhos  prosseguirem  bem sucedidos na vida. Além do mais o Cristianismo condena o suicídio dizendo que quem tira a vida vai para o inferno. Na religião oriental suicidar-se é uma qualidade, um ponto de honra ou melhor fazer algo para não desonrar alguém na família, no reino, na sociedade em que vive.

-E´verdade. Sou mesmo um apaixonado pela cultura japonesa do "bushido", o código do guerreiro, sua arte marcial e o Zen. Inclusive ate´construi para mim uma replica da famosa Katana, a espada samurai (www.josecn.hpg.ig.com.br/katana.htm  ). E o “fenômeno-Ninja”, tão em voga no Ocidente, (veja o best-seller de Eric vanLustbader) ate´contemporaneamente, como você observou a exploração desse verdadeiro mito folclórico no próprio pais-do-sol-nascente? Seriam os “ninjas” para eles, algo como os nossos “cangaceiros”?

            Acho que os cangaceiros estão mais para Robin Hood do que para os ninjas..

-Como você explica o fato de os desenhistas japoneses (os mais populares pelo menos) representarem em seus quadrinhos personagens de olhos grandes, raramente sendo figurativamente realistas em estilo? Alguma espécie de auto-afirmação, do desejo de parecer ocidental?

Os olhos grandes vem  com certeza, de um lado, de uma influência ocidental que teve grande impacto no jovem Tezuka Osamu: Walt Disney.  Tezuka, grande admirador dos desenhos  de Disney aliou também a outra influência nipônica (conforme relatou para mim em uma entrevista) que foi o teatro feminino de Takarazuka onde as atrizes maquiavam seus olhos para parecerem maiores sob a luz dos refletores. Isto tudo ocorreu após a II Guerra onde a presença dos “gaijins” norte-americanos era maciça e se quiser ir mais além – pairava no inconsciente coletivo japonês.

-E esta nova onda de adaptações hollywoodianas de personagens famosos, principalmente os – odiados por uns, endeusados por outros – Super-Heróis, você acha que poderá contribuir de alguma forma para dar uma revitalizada no gênero?

Se alguns acham que sim, não vou discordar. Apenas acho que toda adaptação  ou uma tradução intersemiótica de um código para outro deve ser bem feita para não decepcionar o público. Se você vai assistir um filme de Hulk, Homem Aranha, deve ir ao cinema preparado para assistir um filme e não  tentar ver nele uma adaptação dos quadrinhos. O filme tem um código específico, os quadrinhos outro. Isto é valido também para as adaptações de romances para filmes. São poucos os diretores que conseguem suplantar o impacto da primeira mídia. Num livro você constrói o personagem a partir das descrições do autor. Ao ver o filme se decepciona. Isto é só o começo para não falar das redundâncias.

O aspecto positivo é mostrar para as novas gerações que não tiveram a oportunidade de ler estas histórias mostrar o personagem em outra mídia, o cinema.

                                                  (GIF animado de Jose Carlos Neves, com escultura em resina)

-Quais os autores e desenhistas mais admira – ou admirou, se já faleceram ? Porquê?

Eu reservo para mim as minhas preferências.... e são muitas....

-Pesquisas diversas – até no Pentágono – já comprovaram a eficácia da Arte Seqüencial  em passar informações   por atingir plena e simultaneamente os dois hemisférios cerebrais. Outras dão conta de que a escrita ideogramatica japonesa – originada na ainda mais bonita chinesa – também por transmitirem simultaneamente um som e um conceito pictórico, justificariam o enorme sucesso dos Quadrinhos naqueles paises. O autor inglês Alan  Moore por sua vez, acha que os Quadrinhos são únicos justamente por poderem   explorar técnicas narrativas que nenhum outro veículo consegue. Você concorda com estas duas teorias? Pode citar exemplos de obras que as corroborariam?

Vamos por partes.  A eficácia dos HQs em passar informações é imensa (não precisa do Pentágono para referendar isto) e se deve a inúmeros fatores sem estarem ligados aos hemisférios cerebrais. Escrevi um livro que fala sobre a eficácia das HQs e seu uso na Propaganda, Publicidade, livro didático, etc.

             Desta forma o que Alan Moore diz está mais coerente e que é o que penso também pois o segredo está justamente nas imensas possibilidades de exploração das técnicas narrativas onde o leitor absorve por inúmeros fatores o conteúdo da mensagem.

            Os exemplos de HQs que se utilizam de personagens conhecidos do público é de grande eficácia pois o leitor – ao se identificar com seu heróis – vai incorporar a mensagem que ele está transmitindo – seja ela de caráter publicitário ou propagandístico de qualquer natureza (ideológico, político, religioso, etc). Desde os primórdios dos quadrinhos tem se utilizado isto para vender idéias e produtos. É extremamente eficiente.

-Mas no caso da primeira teoria, porque em outros paises que também usam escrita ideogramática, os Quadrinhos não são uma forma de comunicação de massa poderosa?

Na China onde é a matriz da escrita ideogramática as HQ também são uma imensa forma de comunicação de massa. Estive também na China continental (duas vezes em Pequim e uma em Shangai) e dá para ver o imenso público que tem. Foram também usadas na época de Mão Tse Tung como a forma mais eficaz para difundir a Revolução. Veja no site do universohq na seção de colunas que tenho um artigo só sobre a China. Na Índia o sucesso das HQs é comparável aos mangás e assim por diante. O Brasil só tem os olhos voltados para certas produções e desconhece o resto do mundo.

-Realmente. No  estagio que fiz  em Hong Kong, em 1987,  comprovei muito do apelo e ampla disseminação dos "manhua" (como eles denominam os Quadrinhos em Cantonês), presenciando varias vezes , como já afirmei, ate "yuppies" engravatados de Armani, lendo gibis no metro - sem falar no monte de gibis também que eu via nas lixeiras publicas, como algo descartável....Quando foi seu primeiro contato com o trabalho de Alan Moore e  qual obra dele lhe causou algum impacto especial?

Foi o V de Vingança (com desenho de David Lloyd) e me causou grande impacto pois tendo a França como cenário no século XXI, através de seu personagem incógnito, provoca a segunda Revolução Francesa.

-So´uma correção, na verdade a estória se passa na Inglaterra "pos-armagedon-nuclear" num "futuro não muito distante". Qual trabalho dele  você considera sua obra-prima e porquê?

Acredito que seja Watchmen pois fez uma junção inédita: super-heróis com uma faceta européia e o uso apropriado da  metalinguagem. 

-Ao seu ver, quais foram as inovações mais importantes do autor? Especificamente sobre Watchmen e sua instigante forma narrativa – já apelidada de O Cidadaõ Kane da Nona Arte  – o que tem a nos dizer?

Alan Moore soube construir bem seus personagens, tem uma imaginação poderosa que o leitor pensa ser tudo realidade pois documenta tudo. Além de sua narrativa ser comparada ao Cidadão Kane também o comparam a James Joyce. Outro autor a este nível é Al Capp (da década de 1940) que soube dar uma dimensão realista da sociedade americana através da sátira e do uso da língua inglesa. Outro ponto importante sobre Alan Moore é que deu uma nova dimensão ao quadrinho adulto com HQs de altíssima qualidade abrindo um novo mercado para a Nona Arte.

-E From Hell, você acha que Moore conseguiu atingir plenamente seu intento de forjar em uma BD o caldeirão que nos preparou o Século XX, com toda sua paranóia, conspirações, contradições, horror e beleza?

      Com toda certeza... (Quino)

-Voltando aos seus trabalhos, o que você fez que considera o melhor até agora?

Gostei de escrever todos os livros e artigos que já produzi mas cada um deles refletiu um momento de minha carreira. “O que é Histórias em Quadrinhos” foi feito numa linguagem acessível que me deu muito prazer pois minha formação é em Jornalismo e gosto de escrever simples e direto. (A Editora Brasiliense já me pediu uma nova versão atualizada e será lançada posteriormente). “Histórias em Quadrinhos e Leitura Crítica” foi o momento de formar opinião junto a pais e professores pela seleção de artigos de meus ex-alunos do Curso de Pós-Graduação da ECA/USP na década de 1980. “Mangá, o poder dos quadrinhos japoneses” é um livro de saiu do coração, da vivência, tem alma e foi pioneiro . Não me arrepende de ter insistido em pesquisar isto numa época que em as pessoas nem sabiam o que era  mangá e confundiam até  o nome com manga (fruta). Escrevi inúmeros artigos tanto para jornais  como para revistas especializadas. Atualmente estou muito feliz  escrevendo para o público da internet no site universohq . Na internet a leitura do que você escreve pode ser acessada desde por um garoto, um fã ou por um pesquisador que quer ter uma informação mais profunda. Portanto é um desafio.

-    O que tem escrito atualmente? Algum novo projeto profissional?

Tenho me dedicado ao uso de HQ  como instrumento didático (em livro com o cartunista Jal). E como recurso e auxiliar na propaganda, publicidade, etc. Já iniciei estes estudos de forma pioneira na década de 1980 e os retomo agora com muito mais vigor. Escrevi um artigo recentemente a ser publicado em uma revista acadêmica ressaltando a importância dos quadrinhos no Terceiro setor. Tenho explorado a pesquisa de quadrinhos de países com grande produção mas que não são conhecidos no Brasil (como da Índia).

Atualmente tenho orientado muitas teses pois são estes alunos que vão dar uma nova dimensão ao estudo de HQ no Brasil. Quanto mais estudos melhor. Só assim alcançaremos um nível de excelência, de uma bibliografia especializada e o Brasil se lançar para o mundo. Falta ainda muito subsídio por parte das universidades e órgãos de pesquisa do Brasil que não se interessam absolutamente por isto . Considero isto uma falta de visão muito grande por parte da intelectualidade brasileira.

-Sobre os nossos Quadrinhos,  o que acha que falta para nossa  produção ser alavancada de vez? Será que seria bons roteiros – pois bons desenhistas nós temos até para exportação, não é?

            A partir do momento em que  os roteiristas e desenhistas brasileiros começarem a olhar para dentro  e não para fora teremos uma produção boa. No Brasil se copia muito o que se faz no estrangeiro. Nunca alcançaremos nada e nem chegaremos a lugar nenhum com isto. A partir do momento que a inspiração for baseada  aqui dentro do país (mesmo de forma subjetiva) a produção será alavancada.

            É preciso termos um pouco mais de auto-estima, rever os livros escolares que só contaram  mentiras sobre nossa História provocando de um lado desprezo pelo povo que nos formou (índios, negros, estrangeiros) e  por outro, dimensionar melhor aquilo que os vencedores pontuaram como verdadeiro. As guerras, revoltas, revoluções tudo isso foi mal contado nos livros de História...

-"Cidade de Deus" que o diga, assim como vários "romances históricos excelentes que tivemos na ultima década...

        ... Além disso é preciso que os editores apostem a partir de uma produção  mais constante. O país vive atravessando crises econômicas e não temos uma produção regular. Temos excelentes produções em todas as décadas desde que produzimos HQ no Brasil mas não é constante.

            A crítica e os jornais brasileiros devem dar muito mais espaço ao nacional. Com isto vamos criando uma memória daquilo que produzimos. Todos os países do mundo fazem isto: formam os seus leitores, incentivam dão subsídios para leitura.

A pesquisa sobre HQ deve ser incentivada (já temos um bom começo) e depois publicada. Precisamos de muito mais livros sobre HQ no Brasil.

-Quais suas considerações sobre o trabalho de desenhistas nacionais de projeção, como o Mestre Mozart Couto, o velho samurai Shima, o conhecido Mike Deodato, o inovador Mutarelli, o nosso outro mineirinho Marcelo Lellis, e os não tão em voga na área comercial, Rodval Matias, Watson Portela, Mano  e Olendino Mendes?

Considero todos de um excelente nível e foram estes que arregaçaram as mangas e fizeram tudo isto que apontei acima. Tiveram a coragem de ousar não só nos temas como também no desenho abrindo as portas para uma outra dimensão no quadrinho brasileiro.

-Voce conhece e mantém algum contato com outros dos nossos poucos experts em HQ, Moaci Cyrne, Álvaro de Moya, Cagnin e Dagomir Marquesi?

Mantenho contato com todos eles e participamos de muitas palestras, muitos encontros e premiação em Salões de Humor e HQ. Mas está crescendo o número de experts  nesta área. Há muita gente boa despontando por aí que está a favor dos quadrinhos.

-Como docente da ECA, pode nos dizer para onde foi esse pessoal todo que estudou Quadrinhos ali? Para a Publicidade? TV? Largou tudo e f

oi ser comerciante, concurso público ou algo do gênero?

Enquanto docente da ECA (de 1972 a 1984) na cadeira de HQ que estava dentro do Curso de Editoração muitos alunos foram trabalhar em editoras – também de HQ – e outros entraram para a docência e outros ainda seguiram com a pesquisa. Hoje os alunos tem outro perfil, estão mais conscientes do que querem (quando optam por Quadrinhos) e todos procuram um lugar ao sol. E há espaço para todos. Minha opinião é que devemos estar todos unidos em prol de um objetivo comum que é fomentar a pesquisa, dar subsídios aos desenhistas, promover salões, concursos e incentivar pais e professores a serem aliados dos quadrinhos.

-Finalizando, Professora, o  que achou de nosso modesto Site e quais as suas sugestões para aperfeiçoa-lo?  

Quero dar os parabéns pela sua iniciativa com estas entrevistas. São pessoas como você que estão fazendo algo em prol dos quadrinhos e divulgando o pensamento de vários pesquisadores.

-Muito obrigado, Professora Sonia, por compartilhar conosco um pouco dos seus vastos conhecimentos e disponibilizar parte de seu precioso tempo.