ALAN MOORE     Senhor do Caos  /   Lord of Chaos
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Entrevistas  /  Interviews


Mestre  Messias de Melo

(Extraída do fanzine Quadrix n° 3, 12/08/84 –Apud Tablóide 2: Coleção Nossos Quadrinhos, set. 1995)

      O entrevistado dessa vez é o Mestre Messias, ou Manoel Messias de Melo, alagoano da capital, que nasceu em 16/08/1904, com quase oitenta anos, aposentado, e hoje curtindo muito sossegado seus quadros em sua casa no tranqüilo bairro de Santana em São Paulo.

            Desenhou semanalmente todas as 3 fases da Gazetinha e Gazeta Juvenil (1934 a 1950), fez AUDAX, O DEMOLIDOR com roteiros do Lindberg e Aruon, criou com seu irmão Judas o PÃO DURO, e séries coloridas, de páginas centrais de DICK PETER, JAMES HULL, PERDIDOS NO IGAPÓ E HISTÓRIA DO BRASIL.

            Além dos HQ, Messias desenhou centenas de ilustrações e capas à aquarela para a Gazetinha (que foi o primeiro núcleo de quadrinheiros de SP e um dos primeiros do Brasil, onde começaram Jayme Cortez, Cláudio de Souza, Zaé Jr. e outros).

            Durante 30 anos fez charges e ilustrações sobre futebol e esportes na Gazeta Esportiva, quadrinizou a adaptação de Cláudio de Souza do clássico “Robinson Crusoé”em um álbum hoje raríssimo.

            Também ilustrou uma série de álbuns sobre a História do Brasil para a Editora do Brasil, desenhou também histórias para o Jornal Espírita na década de 70, além de painéis para salões de carnaval, cartazes de rua para a corrida de São Silvestre, publicidade, estantes e finalmente a pintura.

            Messias de Melo, apesar de todos esses anos, sempre foi esquecido quando se fala de história das HQ nacionais, e seu trabalho roubado ou perdido.

            Essa entrevista é uma homenagem e uma nova descoberta desse incansável desenhista, e foi feita em 12/02/84 com a participação do Franco, do Davilson (desenhista que começou com o Messias) e o Worney.

— Fanzine QUADRIX—

QUADRIX: Como o senhor começou a desenhar?    (imagens do livro "A Técnica do   Desenho", de Jayme Cortez)

Comecei a desenhar desde criança em Maceió (Alagoas). Riscava nos muros, com aquele mofo era mais fácil, com um pau fazia aqueles desenhos dos políticos, Pinheiro Machado, Barão do Rio Branco e alguns artistas de cinema mudo, e quando minha mãe mandava comprar pão, o pessoal na padaria pedia para desenhar o Barão do Rio Branco, eu pegava o papel de embrulho e um lápis e desenhava e o pessoal achava parecido. — Desenha agora o Pinheiro Machado. E eu desenhava. E quando eu ia levar o pão e perguntava quanto era, o pessoal dizia: —Não é nada, leva, leva. E eu só ia naquela padaria. E fui crescendo, fazendo desenho aqui e acolá. Depois quando tinha uns 16 anos, entrei num curso do Prof. Lourenço Peixoto para aprender a desenhar com carvão, óleo, mas passei pouco tempo nesse curso. Depois fiz uma exposição com uns colegas, Luiz Silva que mora no Rio, Eurico Maciel e outros de Maceió.

QUADRIX: E seu trabalho no circo?

Comecei trabalhando no cinema em Maceió, no Odeon, no Floriano, no Delícia. Tinha 13, 14 anos.

QUADRIX: Fazia cartazes?

Não, os cartazes já vinham com os filmes, eles pregavam em uma tábua, e deixavam um espaço em branco em cima, embaixo e, às vezes, do lado. E eu escrevia com pincel o nome do filme, o nome dos artistas e “BREVE”, “AMANHÔ.

QUADRIX: Esse foi o seu primeiro trabalho profissional?

Foi (meu primeiro trabalho profissional) e logo depois meu pai morreu, na época da guerra, e a viúva, minha mãe, ficou com 17 filhos, e eu tive que trabalhar, fazendo letras no cinema. E naquele tempo todo cinema tinha palco, porque passava o filme, subia a tela e aparecia uma cantora ou outro artista, entre uma sessão e outra havia um espetáculo no palco e eu desenhava a figura dos artistas, mas eu era melhor pintor em matéria de letras.

QUADRIX: E seu trabalho no circo?

E era procurado pelos circos para desenhar cartazes. Pintava leão à minha moda. E me convidaram para viajar com um circo pelo interior de Alagoas, pagavam mais do que no cinema. Enquanto a gente é novo qualquer coisa é beleza, mas era duro!

Tinha que desmontar o circo, carregar tudo no vagão do trem, todo mundo trabalhava. Depois de um certo tempo, viagem daqui, viagem dali, trabalha lá, chegamos numa certa cidade e os donos do circo brigaram e fizeram um acordo, uma parte ficou como o Circo Europeu e a outra o Circo Rio de Janeiro e eu fiquei com essa parte. Ainda viajei para 2 ou 3 cidades depois larguei aquela porcaria e voltei para Maceió para trabalhar no cinema, estava cheio daquela vida chata.

QUADRIX: Antes da Gazeta, onde o senhor trabalhou?

Trabalhei em lojas fazendo cartazes para vitrines, na Casa Capital, na praça do Patriarca, depois na Casa Alemã na Rua Direita, mas foi o emprego mais rápido do mundo, porque no salão onde atendiam a freguesia tinha uma mesinha que reservaram para fazer cartazes com o preço para colocar na vitrine. Aí eu sentei comecei a fumar, mas o chefe da loja disse:

—Você não pode fumar, quando quiser vá no banheiro.

Eu respondi:

—Mas como vou trabalhar no banheiro? Eu fumo um cigarro atrás do outro! Aí eu vesti o paletó e fui embora!

QUADRIX: E quando começou na Gazeta?

Foi em 1933. Eu vim para São Paulo chamado pelo meu irmão Judas que trabalhava   como  jornalista   na Gazeta. Ele me arranjou um lugar como desenhista e fui vendo o trabalho dos outros, fui treinando, era na Gazeta Infantil, na rua Líbero Badaró, junto com o (jornal) Correio Paulistano.

QUADRIX: Já começou desenhando HQ?

A primeira história em quadrinhos que eu fiz foi o Pão Duro, que o Judas criou para mim, depois não me lembro se fiz mais alguma coisa na Gazeta Infantil e fazia alguma ilustração. Depois de muito tempo eles construíram o prédio na rua Cásper Libero, que na época era rua Conceição. Lá eles editaram a Gazeta Juvenil, mais ou menos em 1949, e houve duas fases.

QUADRIX: Com que trabalhava na época?

Tinha muita gente. O Jayme Cortez, o Lindberg, o Cláudio de Souza e o Zaé Jr.

QUADRIX: Gostava de fazer HQ?

Você sabe que quando se dedica a alguma coisa o cara gosta, principalmente eu que sempre tive esse espírito, essa pretensão de melhorar. Um camarada que se mete num oficio, numa arte, procura sempre fazer melhor que o outro, e com isso a gente vai aprimorando. Fazia com gosto (HQ).

QUADRIX: O senhor lia HQ?

Quando eu comecei não havia essas revistinhas. Era o Tico-Tico, com o Chiquinho e o Jagunço e algumas historietas. Aqui em São Paulo na Gazeta, que foi uma das primeiras a publicar histórias em quadrinhos, não tinha nada antes, depois com o tempo é que surgiram revistas com material americano e a gente procurava orientar, ver a evolução.

QUADRIX: O que era mais gratificante, fazer HQ ou charges de futebol?

Creio que era (mais gratificante fazer charges para) o futebol, menos dificuldade, porque o trabalho da história em quadrinhos exige muita concentração. O futebol era fácil, num instante.

QUADRIX: Quando surgiram as HQs americanas houve alguma apreensão, ou medo de roubar o mercado de trabalho?

Não (houve medo), porque o mercado não era grande coisa. Depois com o material americano é que despertou a vontade, a atenção da meninada. E a Gazeta Juvenil não era assim tão procurada, tinha seu público, mas o americano veio com toda a força e com material bom e mais barato.

QUADRIX: E o trabalho na Gazeta Esportiva?

Depois que fecharam a Gazeta Juvenil passei a trabalhar só para a Esportiva fazendo charges.

QUADRIX: Publicava diariamente?

Diariamente. E tinha alguns dias que o editor falava:

—Vão jogar Palmeiras e Coríntians, você faz uma com a vitória do Palmeiras, outra com o Coríntians e outra com o empate.

Eu tinha que fazer 3 charges em três horas mais ou menos.

QUADRIX: Cada time tem um símbolo, o Santos é um peixe, o Palmeiras é um papagaio. Chegou a criar algum símbolo?

Criei alguns (símbolos) com times do interior, eu criei talvez a macaca da Ponte Preta. Alguém deve ter dito que a Ponte é apelidada de macaca e eu fiz a figura.

QUADRIX: Chegou a fazer ilustrações para matérias ou política?

Política nunca. Tentei uma ou outra vez para a Gazeta. Ilustrações eu fiz para matérias do Judas, mais de uma vez para o aniversário da Gazeta, uma data social. O único desenhista da Gazeta era eu, porque quando entrei em 1933, o desenhista era o Belmonte e o Brito Charuto. Mas o nome dele era João Brito que veio de Paris, era de uma família aristocrática de Portugal e por questões políticas foi exilado. Depois conheceu o Cásper Libero em Paris, ele fazia a caricatura livre, engraçada. Era formidável.

QUADRIX: Ele chegou a fazer HQ?                               (Juca-Pato, famoso personagem do Belmonte)

Não, o Brito só fazia ilustrações da “Semana a Lápis”, que eram charges políticas.

QUADRIX: Chegou a trabalhar com o Belmonte?

Não trabalhei (com Belmonte), eu o conheci a distância, nunca tive contato com ele, quando entrei na Gazeta. Ele já tinha saído.

QUADRIX: Além da Gazeta, trabalhou em outra empresa ou como free-lancer?

Fiz como free-lancer, publicidade, trabalhei em outro jornal pelos lados do Brás, fazia uns desenhos. Era um jornal semanal, mais ou menos na década de 50. Pegava uns bicos sem muita responsabilidade, fazia decoração de carnaval, até três anos passados, de salões enormes. Zé, era um companheiro meu, pintor e decorador, me dizia:

— Messias, vamos preparar o carnaval no salão Banespa.

Ele trazia o papel e eu fazia em 3 ou 4 dias, toda a escala, painéis, vista geral do salão e não assinava. O Zé servia de intermediário.

QUADRIX: Então fazia de tudo?

Era eu, e nem era na parede, em principio era no papel de cenário, aquelas bobinas enormes. Media, cortava, colava, montava. O Zé supervisionava tudo. Depois de preparar o papel ou o pano, riscava a olho, não tinha esse negócio de medir, eu tinha facilidade e as figuras saíam boas. Pegava uma varinha de bambu com carvão amarrado na ponta, como se desenha na areia. Depois de contornar, vinha uma turma e preenchia com cor. Num dia terminava um painel e no outro começava outro. Em dez dias ou menos terminava um salão. Quando era grande demais pintava com vassoura. Eu gostava quando chegava o carnaval, era uma beleza. Mas depois com a idade, a pressão alta, não fiz mais.

QUADRIX: Esse trabalho de decoração, rendia mais que o trabalho no jornal?

Não rendia (mais que no jornal), mas valia a pena porque nessa época na Gazeta, tinha um ordenado de 3 mil cruzeiros, saía com um negócio desses com 30 mil. Era uma boa ajuda.

QUADRIX: Como desenvolveu o seu traço?

Eu peguei um traço bom naquela época em que trabalhava diariamente. A composição, o equilíbrio eu mesmo procurava e tem sido de muita valia para pintar quadros, porque na pintura precisa também saber colocar a figura, a perspectiva.

QUADRIX: Era muito rápido?

Sim (era muito rápido), às vezes em um período de três horas tinha que fazer três charges, letra e, na maioria das vezes, o texto também.

QUADRIX: Existia algum artista inspirador de seu trabalho?

No começo eu tive uma certa influência de J. Carlos, eu gostava muito do trabalho dele, mas nunca segui.

QUADRIX: Chegava a trabalhar mais de 10 horas por dia?

Trabalhava (até 10 horas por dia), mas não porque era obrigado. Eu tinha vontade de trabalhar. Varei a noite, muitas vezes, aqui em casa. Na Gazeta, só quando tinha aqueles painéis da Corrida São Silvestre. Varava pintando no pano figura de 10 metros. Trabalhei também em feiras de amostras, projetava estandes.

QUADRIX: Quando se aposentou da Gazeta?

Em 1975 (me aposentei). Trabalhei na Gazeta desde 1933.

QUADRIX: Tem guardado muito material original?

Nunca me interessei em guardar (material original), tanto que fazia e depois não sabia que fim dava. O editor não devolvia ou jogava fora ou dava para outros. Eu não tenho material nenhum.

QUADRIX: E que trabalho faz agora?

Agora eu trabalho com quadros, mas não gosto muito de vender. Tenho pena quando levam um quadro. É como se fosse um filho.                                                     (desenho de J.Carlos)

QUADRIX: O trabalho com a pintura é diferente do trabalho gráfico?

O quadro é um trabalho (diferente do trabalho gráfico) que a gente faz com mais atenção, mais gosto, mais carinho. Essa poesia tá em mim.

            Terminada a entrevista, fomos visitar o atelier do Messias e ficamos impressionados com as formas e cores de suas telas. Cada uma tem uma pequena história, um sabor diferente, enfim, um conjunto de surpresas.

            Obrigado, Messias!

MESSIAS DE MELO (1904-1994):

            28 de setembro de 2003 é data comemorativa dos 70 anos de criação do Tutú e sua turma: Tito e Totó. Foi o primeiro personagem publicado daquele que é considerado um dos maiores nomes dos quadrinhos nacionais, o alagoano Messias de Melo.

            Manoel Messias de Melo, pintor e caricaturista, e seu irmão, Agnelo Rodrigues de Melo, mais conhecido pelo pseudônimo de Judas Isgorogota, a partir de 28 de setembro de 1933, com a história “O Tutú tinha uma pose”, ingressaram no mundo das histórias em quadrinhos brasileiras, o primeiro deles desenhando e o outro escrevendo os textos das histórias (em versos) dando assim começo à série divulgada através da edição infantil de A Gazeta, de São Paulo.

            A Gazeta de São Paulo já lançara, em 5 de setembro de 1929, sua edição infantil, que prosseguiu com interrupções e diversos períodos como A Gazetinha. Em 14 de setembro de 1933 teve prosseguimento uma nova fase, da qual participaram Manoel Messias e seu irmão. Em 5 de outubro de 1933, uma nova história da dupla surgia, também em versos: “Uma aventura na África”. Entretanto, a glória de Messias como talentoso desenhista de aventuras na Gazeta aconteceu somente a partir de 22 de outubro de 1936, na série de histórias do Capitão Blood. Em seguida (2 de dezembro de 1936), “Sherlock Holmes - A prisioneira do subterrâneo”, numa adaptação de Armando Brussolo, dando prosseguimento com “O raio da morte”, “A conquista das esmeraldas”, “Os três mosqueteiros”, “A roda da lua” e “O Conde de Monte Cristo”, entre outras. Em 1948, já denominada A Gazeta Juvenil, Messias desenhou “Os adoradores do Sol”, que tinha como personagem principal o detetive Dick Peter, criação de Jerônimo Monteiro.

Manoel Messias de Melo foi o maior profissional de HQs que já surgiu em Alagoas, reconhecido internacionalmente como “o mais produtivo desenhista brasileiro de quadrinhos” de sua época. Segundo o estudioso de quadrinhos Álvaro de Moya, Messias de Melo era “um dos mais prolíficos desenhistas, chegando a manter 3 páginas em cada número da revista tri-semanal (A Gazeta). E mantinha a qualidade...” 

            Ele pintou cartazes para circos mambembes e cinemas de Maceió e São Paulo. criou personagens como o Pão Duro, Gibimba, Audaz, o Demolidor e outros. Ilustrou, para a revista Gazeta Juvenil, diversos clássicos da literatura mundial, como O Máscara de Ferro, Robinson Crusoe, Os Miseráveis e vários outros.

            Mais tarde, trabalhando para a Gazeta Esportiva, criou inúmeros personagens símbolos dos clubes, tais como, o Santo do São Paulo F.C., o Periquito do Palmeiras, a Macaca (Ponte Preta), o Menino Travesso (Juventus), o Mosqueteiro (Corinthians). Paralelamente a essas atividades, desenvolveu com maestria um trabalho de pintura a óleo e mais tarde tinta acrílico.

            Messias de Melo foi um criador de grande versatilidade. Com certeza, não é tarefa fácil fazer todo o inventário de sua obra; o seu trabalho como pintor muralista foi destruído pela Fundação A GAZETA (onde trabalhou por mais de 40 anos), e que também negligenciou a preservação do acervo de desenhos originais de charges, caricaturas e ilustrações. Messias era um eterno experimentalista, e seu grande senso de curiosidade impelia-o sempre a buscar novos estilos e ferramentas. Pintura a óleo, e depois acrílico, pintura muralista, gravuras, pincel seco, estudos a lápis, ilustração infantil, caricaturas e charges esportivas, histórias em quadrinhos, foram todas áreas artísticas dominadas por ele. Até o cinema e a fotografia, em uma época na qual essas artes eram consideradas puro entretenimento, foram alvos do olhar investigativo de Messias.

Depoimentos

Ruy Perotti

Em fax de 25jul 1994, 10h53

              Meu primeiro contato com Messias de Mello, indiretamente, é claro, foi quando aos 10 anos de idade ganhei um livro de Histórias da História do Brasil quadrinizado por ele. Já manifestando um interesse muito grande por quadrinhos e ilustrações, fiquei deslumbrado com o brilhante traço do mestre, ...nessa ocasião nem sequer imaginava um dia conhecê-lo pessoalmente. Dez anos depois, após ter-me iniciado profissionalmente na Editora Brasil América do Rio de Janeiro, transferi-me para São Paulo (1958) e por força das circunstâncias fui trabalhar como assistente de "layoutman" numa pequena agência de Propaganda (Real Publicidades) frustrado por não conseguir de imediato fazer quadrinhos em São Paulo com a turma que batalhava pelo quadrinho nacional: Jayme Cortez, Waldir Igayara, Maurício de Souza, Isomar, etc... Ainda levado pelas circunstâncias do mercado, acabei me iniciando na base do pioneirismo, na produção de desenho animado para comerciais.

            Tornando-me sócio da então Lynce Fimes, depois Lynxfilm, especializei-me na criação e produção de filmes animados comerciais e organizei para a Lynxfilm o primeiro estúdio de animação em termos profissionais do país. Foi por essa época, início de 1960, que conheci o Daniel Messias, filho do Mestre Messias, que também na base do pioneirismo desvendava os segredos da animação num pequeno estúdio montado nos fundos da sua casa, em Santana. O Daniel trabalhava em dupla com Ely Barbosa e os dois acabaram contratados pela Lynxfilm como animadores. Foi por esta ocasião que durante esporádicas visitas à casa do Daniel pude conhecer melhor o Messias de Mello já em vias de se aposentar do jornal "A Gazeta". Tímido, sisudo, mas atencioso e educado, o Mestre chegou a mostrar-me muitos dos

seus trabalhos em sua casa, incluída a pintura a óleo, à qual tem se dedicado nos 'últimos anos. Foi influenciado por ele que ao participar do projeto de lei para nacionalização dos quadrinhos apresentei propostas inteiramente "nacionalistas", com desenho sério e cômico abordando temas da História do Brasil. Há muitos anos não vejo o Messias de Mello, mas mantenho contatos esporádicos com o Daniel, seu filho, que se tornou um dos mais importantes autores de produtores de animação do país. Apesar do seu temperamento fechado, Messias de Mello influenciou direta e indiretamente toda uma geração de profissionais que se inspiraram no seu traço para progredirem em suas carreiras.

CRONOLOGIA

                                    Manoel Messias de Melo

  1904 - 16 de agosto de 1904, nasce em Maceió, Alagoas.

  1918 - Com 14 anos, trabalhou como aprendiz do pintor suíço José Mercoli, na exposição da Paz, na Praia de Maceió, hoje Avenida da Paz.

  1920 - Inicia estudos com o professor Lourenço Peixoto. 

1922 - Trabalha como pintor de tabuletas no cinema Delícia, do Sr. René Tiririca.

1923 - Viaja com o Circo Europeu, como pintor de cartazes e outros serviços.                                          

1925 -  O Circo Europeu dividiu-se em dois, na Bahia. Ficou ligado à parte que se denominou Circo Rio de Janeiro e alguns meses depois desligou-se dessa empresa, retornando a Maceió.

1926 - Entrou para a empresa cinematográfica de César Pinto e Paurilio, sempre pintando cartazes e cenários, sem descuidar da pintura artística.

           Participa do 1° Salão do Instituto de Belas Artes Rosalvo Ribeiro, no grupo dos artistas independentes de Maceió.

1927 - É chamado por seu irmão Judas Isgorogota (Agnelo Rodrigues de Melo) para São Paulo, onde vai a bordo do vapor “Itapuhy”, em 15/10, passando a trabalhar como pintor de cartazes no Magazine "A Capital".

1928 - Volta a Maceió, onde continua sua atividade nas artes plásticas, freqüentando as aulas do mestre Lourenço Peixoto, ao lado dos colegas Luís Silva, Eurico Maceió, o poeta Carlos Paurilio e outros.

1930 - Numa festa do Instituto de Belas Artes Rosalvo Ribeiro, uma aluna de escultura recebia das mãos do presidente da comissão julgadora a medalha de ouro, como prêmio pelo melhor trabalho do ano. Essa artista chamava-se Eurídice de Araújo Sampaio.

1931 - Na Igreja Matriz de Maceió, Messias e Eurídice contraem matrimônio e viajam para São Paulo. Messias volta a trabalhar como desenhista e vitrinista.

1933 - Messias ingressa na Gazeta, de Casper Libero, e, ao lado de Judas Isgorogota, Belmonte, Nino Borges e João Brito.

           Em 28 de setembro, a história “O tutu tinha uma pose”, com texto em versos de autoria de seu irmão Agnelo e desenhos de Messias, estréia na nova fase do caderno infantil da Gazeta, iniciada a 14 de setembro de 1933 (a primeira fase iniciou-se em 5 de setembro de 1929). Os personagens da história de Messias e Agnelo eram Tutu, um garoto negro, Tito, seu amigo branco e Totó, um cachorrinho.

           Em 5 de outubro, saiu outra história dos irmãos Melo, chamada “Uma aventura na África”.

1935 - Viaja para Porto Alegre para trabalhar na decoração do Pavilhão de São Paulo, na Exposição Farroupilha.

1936 -  Menção honrosa no Salão Paulista de Belas Artes.

           Inicia-se o período das grandes histórias de aventuras de Messias, começando com “O Capitão Blood”, de 22 de outubro, e “Sherlock Holmes e a Prisioneira do Subterrâneo” (2 de dezembro).

1937 - Além dos trabalhos e histórias em quadrinhos na "A Gazeta Juvenil", dedica-se à arte decorativa de "stands", projetando e decorando exposições da Água Branca. Suas atividades deste período são registradas pelo livro "Quadrinhos para Quadrados".

1946 - Participou do Núcleo Bernadelli, no Rio de Janeiro, no edifício da Escola Nacional de Belas Artes, com Menezes, Miguel Torres e outros.

1948 - Messias desenhou “Os adoradores do Sol”, que tinha como personagem principal o detetive Dick Peter, criação clássica de Jerônimo Monteiro. Ilustrou também, com texto de Judas Isgorogota e Armando Brússolo, as histórias “O Trotamundos”, “Bascomb” e outros.

1953 - 1° Prêmio no Concurso de Cartazes para o 4° Centenário de Santo André da Borda do Campo.

1954 - Trabalhou na Exposição do 4° Centenário da Cidade de São Paulo, no Ibirapuera.

1960 - Ilustrou para Editora do Brasil “Histórias da Nossa História”, em 5 volumes.

1967 - XXVI Exposição Coletiva da Associação Paulista de Belas Artes, na Galeria Prestes Maia.

           - Participou da Fourth Intemational Salon of Cartoons 1967 em Montreal, Canadá.

1975 - Diploma de Pioneiro na História em Quadrinhos, de Avaré, São Paulo.

1976 - Grande Medalha de Ouro e Prêmio Aquisição, no “II Salão Nacional do Jornalista” na cidade de Santos, São Paulo, onde expôs junto com Armando Sendim, Wega, Rubens Yanelli, Manezinho Araújo, como convidados especiais.

           - Medalha de Prata, no 1° Salão da “SASPBAA” na Galeria Prestes Maia — Salão Almeida Júnior.

1977 - Procurado pela TV2 para entrevista documentária para arquivos do Departamento de Arte da TV2 Cultura - S. Paulo.

           - Homenageado com o prêmio "TICO-TICO" no 3º Congresso Internacional de Histórias em Quadrinhos, em Avaré, SP.

           - Mantém quadros permanentemente na Dan Galeria.

1979 - Aposenta-se aos 65 anos, 45 dedicados à Fundação Cásper Libero, publicando na Gazetinha e na Gazeta Esportiva Ilustrada. Passa a dedicar-se quase que exclusivamente à pintura.

1984 - Agraciado com o trofeu "NHÔ QUIM" da Associação de Quadrinhistas e Cartunistas (AQC) de São Paulo, por ocasião do Dia Nacional de Histórias em Quadrinhos, em 31 de janeiro.

1994 - Homenageado como "Mestre dos Quadrinhos", no Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos, pela AQC, em Janeiro.

           -16 de agosto, completa 90 anos de idade.

           - Morre aos 18 de outubro.

(Matéria possível graças `a colaboração do quadrinista Emerson Magalhães www.napalmcomics.com