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Entrevistas / Interviews
ESCRITORA GIULIA MOON
por José Carlos Neves
ser encontrados em muitos sites de fantasia, FC,
horror e vampirismo. Giulia atua como moderadora em dois grupos de escritores da
internet: Tinta Rubra e CryaContos. Participa também dos grupos de discussão
Adorável Noite e Fábrica de Letras. É co-editora do fanzine de literatura
fantástica FicZine. Participa do Projeto SLEV – Suruba Literária
Experimental Virtual, um grupo de escritores de Ficção Científica e Fantasia
que escreve sobre História Alternativa. Especialista em contos de terror,
escreve principalmente sobre vampiros, suas criaturas prediletas, embora não
desdenhe lobisomens, canibais, mortos-vivos, extra-terrestres, assombrações e
monstros em geral. Em suas histórias, tecla com delicadeza sobre assuntos
sombrios, pois, na sua opinião, o terror deve ser antes de tudo um exercício
de sutileza e inteligência.
Para ler alguns dos contos de Giulia Moon, acesse www.giuliamoon.com.br e aqui no site, Leia o conto "A Orquidea" (com animação de JCN)
- Giulia, o Moon certamente e´ um pseudônimo,
ne´? Qual o seu nome completo? Onde você nasceu, cresceu e vive atualmente? 
Na
verdade, meu nome real é Sueli Tsumori. Sou publicitária, diretora de arte,
formada pela FAAP. Sou paulistana, moro num mesmo bairro - Chácara Inglesa -
desde que nasci. Isso se reflete nos meus contos, que geralmente se passam em
ambientes urbanos.
Giulia
Moon é um nickname que criei para participar de grupos de discussão da
internet. "Giulia" é como um amigo italiano chamava a namorada, Júlia.
Gosto da maneira sensual dos italianos articularem as palavras, enchendo a boca
para pronunciar o "giu"... Por isso adotei esse nome. E o "Moon"
veio do meu fascínio pela lua e pela sua simbologia. A lua é a responsável
por marés, ciclos vitais, crenças antigas sobre a fertilidade, o renascimento
eterno e a dualidade de luz e sombra. E uma lua cheia, enorme, nascendo numa
noite estrelada é linda. Dá vontade de uivar...
Adotar
um nick foi também uma maneira de separar a publicitária da escritora
para mim mesma. A um profissional da área promocional, é exigido muito esforço
e dedicação, porque a competição é bastante acirrada. É comum dizermos que
precisamos matar um leão por dia para sobreviver. À noite, o período que
disponho para escrever, eu queria esquecer os leões e cuidar de seres mais
"amigáveis" como vampiros, lobisomens, sacis e outros monstros em
geral... Aí Giulia Moon entrou em cena.
- O quê e quando iniciou seu interesse pela
Literatura e Cultura Pop em geral? Na infância você lia muito? Pode citar
autores e obras que a influenciaram?
Meu
pai era um cartazista de cinema, profissão hoje em dia extinta. Ele era o
responsável pelos cartazes enormes expostos sobre as fachadas dos cinemas,
telas gigantes de tecido e madeira pintados à mão, mas de curta duração,
pois eram substituídas todas as semanas quando o filme saía de cartaz. Com meu
pai, aprendi a gostar de desenhar e a curtir cinema, mangás e livros. Ele
chegou ao Brasil com apenas 13 anos e, mesmo tendo dificuldade para ler em
português, era um grande devorador de livros e de histórias em
quadrinhos. Por sorte, herdei essa compulsão dele. Até hoje tenho a coleção
de revistas do Asterix e dos personagens Disney que eram do seu Kazuo, como o
chamavam os empregados do estúdio. Ele também comprava para mim os mangás, em
japonês. Li na adolescência escritores para adultos como A. J. Cronin,
Somerset Maugham, Pitigrilli, Stefan Zweig, xeretando nos livros dele. Hoje a
maioria desses autores estão esquecidos. Na época, não era exatamente o tipo
de literatura que eu apreciava, mas eu lia de tudo, desde livros de bolso,
fotonovelas e biografias até revistas de atualidades e enciclopédias. Li muito
e de forma desorganizada, misturando clássicos com HQ, com Ficção Científica,
com terror. Mas a minha preferência sempre recaiu sobre terror, policiais, FC,
romances históricos e fantasia. Tive fases em que lia obsessivamente tudo de um
determinado autor ou personagem, procurando nas bibliotecas e sebos. Passei por
isso com as aventuras de Arsène Lupin e de Sherlock Holmes, os policiais de
Agatha Christie, Ficção Científica de Isaac Asimov e Ray Bradbury, todos os
livros de Tolkien, toda a obra de Edgar Allan Poe e
Lovecraft e os romances de Érico Veríssimo. Depois, como queria ler mais
material de determinado tipo – fantasia e terror – comecei a criar as minhas
próprias histórias, desenhando mangás. Depois,
como o tempo livre foi diminuindo, comecei a escrever contos à mão, em
cadernos. Mas sem regularidade.

- O que a atraiu inicial e especificamente pela
Literatura "mais sombria", digamos assim? Algum autor e/ou obra em especial?
O
que escrevo continua sendo em última instância aquilo que eu gosto de ler. E,
se levarmos em consideração que comecei a escrever regularmente há 3 anos
apenas, a minha maturidade como leitora supera de longe a da escritora. Sempre
gostei de ler contos de terror e, em livros que não são exatamente desse gênero,
as partes que me atraíam tinham elementos de terror. Não saberia explicar as
razões para isso, talvez elas estejam na mesma origem de meu fascínio pelos
vilões e por histórias sem finais felizes tradicionais. Sem dúvida, a sensação
de perigo e de medo é uma ótima fonte de diversão, e acho que é esse
friozinho no estômago e que me faz gostar do gênero.
Quanto
à escrita, fica até difícil citar uns poucos escritores. Começou com Poe, na
adolescência, quando percebi pela primeira vez como um texto poderia infundir
ao leitor um clima intenso de estranheza e ambigüidade, construindo cenários
sombrios e personagens perturbadores apenas jogando com as palavras certas num
ritmo determinado. Aprendi a admirar não apenas os seus textos sombrios como a
"Queda da Casa de Usher", mas também contos de um humor cruel e irônico,
como o "Barril de Amontillado". O meu conto preferido é o Gato Preto.
Uma maravilha de enredo, construção de clímax, estilo. E adoro gatos, seja
como personagem ou como animal elegante e misterioso que é.(arte
JCN)
Lovecraft
impressionou-me com a sua capacidade de colocar na cabeça do leitor um estado
de espírito peculiar, uma angústia e inquietação únicas. Os Chtulhu
causam essa angústia, pois parecem sempre fora do nosso alcance e de nossa
compreensão, separados pelo tempo, pela natureza completamente estranha à
humana. Ele criou algo realmente aterrador e original.
Stephen
King é o grande autor moderno de terror. Gosto mais de seus contos do que de
seus romances, embora ele tenha escrito os grandes livros de horror do século
XX. Há pérolas de observação sensível e sutil nos seus pequenos contos
sobre crianças, velhinhos e mulheres de meia-idade, trazendo essa classe de
costumeiros coadjuvantes para as luzes principais, transformando-os em
protagonistas de histórias inesquecíveis. Ele manipula todas as emoções do
leitor como um prestidigitador, desde o pavor puro até sentimentos mais doces
como a compaixão, a alegria, a nostalgia.
Não
poderia esquecer Bram Stoker, autor de Drácula, o
clássico dos clássicos vampíricos. Além de ter inovado o romance vampírico
acrescentando vários detalhes e aspectos criativos ao personagem do vampiros,
Stoker mostra a visão da vítima de forma real e angustiante, principalmente no
trecho inicial com Johnathan Harker no castelo do conde. (animação
p
E,
claro, a rainha dos escritores de vampiros, Anne Rice, que trouxe a modernidade
para os velhos nosferatus. Ela deu a cara definitiva aos vampiros
sedutores da literatura: Lestat, o vampiro por vocação, bem-resolvido,
predador e cruel, e Louis, o vampiro politicamente correto, arrependido e
desajustado à sua condição.
-E no cinema, o que você realmente gosta?
Gosto
de filmes que contam bem uma história. Pode ser tudo: uma aventura de terror,
de ficção científica, um romance, uma biografia, um anime. Mas tem que ser
uma peça eficiente de comunicação. Gosto de filmes como "Os
Outros", "O Sexto Sentido", "Pacto dos Lobos", "O
Homem que Queria Ser Rei", "O Senhor dos Anéis", "O Círculo",
"Laranja Mecânica", "Kagemusha", "Akira", "Drácula",
"Cowboy Bebop", "Planeta Selvagem", "Mortos de
Fome", "Los Angeles, cidade proibida", "Entrevista com o
Vampiro", "O Auto da Compadecida", "Central do Brasil",
“A Viagem de Chihiro” e mais uma montanha de títulos que não lembro agora,
mas vou sentir falta na lista, depois.
-E na musica? Algum gênero ou banda em
especial?
(manga por Giulia Moon)
Adoro
rock dos anos 60, principalmente Rolling Stones. Fora isso, gosto de todos os
estilos, inclusive clássicos e óperas. Há uma música de
Saint-Saëns, Danse Macabre, que estou usando para um conto ainda inédito.
Eu a adoro. Ultimamente tenho ouvido muito classic rock: Alice Cooper, Kiss,
Metallica, Alice in Chains, Live... É uma fase.
-Porque a atração especifica por vampiros? Você
encara o tema como uma metáfora, como mito, ou tem outra concepção?
Gosto
de vampiros porque são vilões ambíguos e sutis. Semelhantes aos seres humanos
na aparência e na inteligência, são a sua versão selvagem, sem controle, sem
moral. Escrever sobre vampiros é fascinante, pois estamos falando de criaturas
que contradizem alguns grandes tabus: não morrer, não envelhecer, caçar
o homem e cometer uma espécie de canibalismo, ao sugar o sangue humano. O
vampiro é tudo isso. Claro que depende de como você os usa na ficção. Os
meus vampiros são predadores. É assim que os trato e os apresento. São como
os leões e lobos, estão dentro de uma cadeia alimentar e os humanos são as
suas presas. Semelhantes aos humanos, têm sentimentos, neuroses, dúvidas e
humores instáveis. Como predadores, serão perigosos na maior parte do tempo.
Mas não são maléficos no sentido da moral. Eles apenas seguem o seu instinto
e satisfazem a necessidade básica de suprir a fome. Dentro dessa premissa,
descrevo as variações possíveis, contando histórias para divertir quem gosta
de levar alguns sustos. E não há susto maior do que saber que em algum lugar
um predador o está espreitando movido pelo desejo de comê-lo, não é?
-Alguma influencia de Anne
Rice?
Ah,
quem não tem? Anne Rice tirou o vampiro dos porões úmidos e castelos mofados
de filmes B e os trouxe para os palcos, para as estantes de bestsellers,
para a cabeceira dos intelectuais. Ela escreve com classe e de forma séria,
pesquisando e embasando historicamente seus enredos. Como todo escritor, não é
sempre que acerta, mas escreveu alguns clássicos de literatura vampírica de
valor inegável. Os livros Entrevista com o Vampiro, O Vampiro Lestat e A Rainha
dos Condenados são as suas obras-primas. Mas gostei também de O Vampiro Armand
e Pandora.
A
maior qualidade de Anne Rice foi ter descrito as emoções dos vampiros de forma
consistente e crível, fazendo com que o leitor passasse a senti-los, conhecê-los,
odiá-los. E a amá-los. Ela tem a minha admiração sincera por ter conduzido
os vampiros para esse mundo real. As Crônicas Vampirescas de Rice também
trouxeram um público novo, o feminino, para a literatura de terror.
Eu
escrevi o meu primeiro conto de vampiros, “A Dama Branca”, depois de ler O
Vampiro Lestat, que na minha opinião, é o melhor de todos. Os últimos
romances de Rice estão bem aquém da qualidade e impacto dos primeiros clássicos,
mas ela já tem um lugar cativo de respeito e admiração dos fãs de terror.
-Qual característica (ou conjunto delas) que
mais nos atrai aos vampiros? A imortalidade talvez?
O
que mais me atrai nos vampiros é a sua fome. O fato de nós, os humanos, sermos
sua fonte de alimento é algo que exerce um fascínio enorme em mim. A saciedade
da fome tem um significado intimamente ligado ao do apetite sexual. À satisfação
de carências emocionais. E, claro, à simplicidade do bem-estar mais básico e
também o mais universal: a sensação de um estômago cheio. O vampiro é um
ser eternamente carente e esfomeado, que procura nos outros a satisfação que não
encontra em si mesmo. E isso é uma procura sem fim, infelizmente. E nessa
procura o vampiro joga um jogo sado-masoquista de dominação e violência com
os humanos e com os de sua espécie. Mas esse apelo não é universal. Acredito
que para alguns a imortalidade seja um maior atrativo. Para outros, a juventude
eterna. Para outros ainda, a capacidade de se transformar em lobo ou névoa como
descreve Bram Stoker. O vampiro pode ser um monstro, um sedutor ou um herói com
superpoderes, depende do seu público. É um exemplo de produto bem acabado e
com mercado certo.
(Saint-Saens)
-Como ficcionista, ou seja, dotada de grande
imaginação, como você acha que seria realmente ser imortal?
Em algum ponto não seria tedioso?
É
o que muitos dizem e exploram na ficção. Eu mesma já fiz isso, pois assim
como os humanos, os vampiros também devem se entediar por motivos variados. Mas
não acredito nisso. Eu acho que ser imortal deve ser a coisa mais maravilhosa
do mundo. Ver o mundo mudando, os séculos passando, e saber que não é necessário
correr de forma neurótica para não perder a chance da sua vida amanhã, porque
terá o depois de amanhã, o depois de depois de amanhã, e depois, e depois...
Isso deve ser maravilhoso. Conhecer milhões de pessoas, tentar guardar uma
enormidade de lembranças na memória, ter medo de perder o passado, não o
futuro, seria uma experiência no mínimo bem instigante!
-Alem disto, somos todos sempre atraídos pelo
desconhecido, pelo que "há alem"...Sera´ que, ao sermos imortais, não
seriamos compelidos a sentir uma atração pela morte, pelo morrer, para saber o
"como seria"?
Bem,
não somos imortais, mas mesmo assim temos essa curiosidade sobre o que há após
a morte. Se houvesse a possibilidade de atravessar a porta do Além e voltar,
talvez fosse uma boa descoberta. Quem sabe, após viver muito – e coloque
muito – tempo, um imortal sentiria uma curiosidade mórbida sobre o assunto. E
tomara que haja algo realmente inesperado e original esperando do outro lado,
senão ele teria entrado na maior roubada do mundo!
-Quais são os seus métodos criativos para
escrever?
Apenas
escrevo. Nada de rituais. Nada de condições especiais. Apenas concentração,
uma frase inicial e tocar pra frente. Escrevo em frente à TV, no meu quarto, no
meio de uma multidão conversando. Não me importo, sou capaz de me concentrar
exclusivamente naquilo que estou fazendo. Quando comecei a escrever mais freqüentemente,
há 3 anos atrás, eu ia escrevendo e o enredo ia surgindo sem muito controle.
Produzia aleatoriamente, geralmente contos curtos. Hoje sou capaz de escrever
com um propósito definido, com o tom certo e o tamanho de texto exato. Mas
ainda prefiro escrever uma frase inicial e deixar as idéias fluírem. A única
coisa que preciso é de um computador. Não consigo mais escrever à mão.
-De onde tira suas idéias?
De
tudo. De uma frase, uma cor, um gesto, um momento do dia. Já escrevi um conto
inteiro porque a coloração vermelha-acinzentada do pôr-do-sol de um dia
nublado me fez pensar que seria incrível se você vislumbrasse, recortada sobre
aquele cenário, a silhueta de uma vampira caminhando diretamente para você. Já
tive algumas ótimas idéias observando o comportamento de formigas ou o ataque
dos leões num documentário do Discovery Channel.
-O que, da sua ficção, você extrai de sua própria
vivencia?
Acho
que tudo. Não sou uma mulher maravilhosa como Maya, a minha personagem vampira.
Nem tenho repentes de crueldade como eles. Mas sou uma boa observadora dos
detalhes da paisagem, dos gestos, das reações humanas. A maioria dos meus
contos tem São Paulo como cenário, embora muitas vezes isso não seja dito.
Alguns personagens têm traços de pessoas que conheço. Inclusive os seus
defeitos. Mas nenhum deles é 100% alguém. Vivo cada instante dos meus contos
na minha mente. Imagino como se fossem minhas as reações, os sentimentos mais
mesquinhos dos vilões. Não digo o mesmo quanto aos heróis, pois são raros na
minha ficção. A maior parte do que escrevo nasce da minha imaginação, mesmo.
Ela dá o toque final aos dados que a minha vivência recolhe do mundo real.
("Luar
de Vampiros", 2003 -10 Contos)
--Muitos escritores escrevem
para tentar lidar com a desordem emocional que ele (e todos nos ) vivemos
e nos encontramos. O que você pensa disto?
Como
dizia Hashi, uma estagiária coreana que trabalhava comigo: "cada um, cada
um..." Essa simplicidade traz uma grande verdade. Acho que cada escritor
deve encontrar a sua razão pessoal para se empenhar não só na escrita, mas em
qualquer atividade da sua vida. Eu escrevo para me divertir. Eu gosto de
escrever, de criar personagens, frases de efeito, diálogos engraçados. É um
verdadeiro prazer sentar-me na frente do computador e começar um novo conto.
Por isso, mesmo quando chego tarde do trabalho, não consigo ir para cama sem
trabalhar um pouco nos meus contos. E às vezes continuo a escrever até de manhã.
Para mim, escrever é lazer, não é terapia.
-O
que tem feito atualmente e quais seus novos projetos?
Estou
trabalhando ativamente na divulgação do meu primeiro livro de contos, "Luar
de Vampiros", em eventos góticos e encontros com os leitores e fãs de
terror. Estou também concluindo dois novos livros de contos, reunindo os meus
textos inéditos do último ano. Um, só com contos de vampiros, traz algumas
aventuras inéditas da personagem Maya e do seu mordomo Stephen, combinação
que fez bastante sucesso no “Luar de Vampiros”. O outro livro também é de
contos, com a participação de diversas criaturas malvadas: fantasmas,
monstros, canibais e até dragões e princesas.
Tenho participado de um grupo literário coordenado por
Rogério Amaral de Vasconcellos, que se dedica à elaboração de um universo
baseado em História Alternativa: a SLEV
- Suruba Literária Experimental Virtual. É um grupo de escritores e
ilustradores do Brasil inteiro produzindo um ótimo FC. Já existem vários títulos
em formato ebook à disposição dos leitores para download no site
respeitando-se as características e o estilo de cada autor. Baseado neste
universo da Slev, estou escrevendo pela primeira vez algo mais longo, que vai
dar origem, se tudo der certo, ao meu primeiro romance, ainda sem nome.
A
convite de Marco Bourguignon e Rogério Amaral de Vasconcellos, editor e
co-editor da Scarium
Megazine, estou participando como jurada do II Concurso Scarium de Contos e
Ilustrações, uma iniciativa que visa revelar novos talentos - e há muitos -
na área da fantasia, FC e terror.
Com
a parceria de Martha Argel, autora do romance
de vampiros "Relações de Sangue" e do livro de contos "O
Vampiro de Cada Um", estou editando um fanzine dirigido à ficção de
terror, FC e fantasia: o FicZine. Tivemos o nº Zero, o Um e agora já estamos
elaborando o nº 2. Para quem quiser conhecer o FicZine nº Um, ele está disponível
para download no meu website: http://www.giuliamoon.com.br/. A sua
versão em papel está saindo também como encarte do Scarium Megazine.
E
tem também o meu
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Claro
que isso tudo à noite e nos fins-de-semana, pois trabalho na minha agência, a
Companhia Ativadora de Negócios, normalmente, em jornadas diárias de 10 horas,
em média.
-Sua ficção muitas vezes transpira um senso de
absurdo e consegue falar de vampiros e vampirismo com eficiência, ou seja,
"suspender a descredibilidade" - qualidade que, com certeza, é
imprescindivel a todo escritor de gênero principalmente - Sabe explicar as
causas, se as há ?
Quando
você escreve dentro de um universo ficcional específico, precisa seguir as
leis desse universo. Por exemplo, estabeleci um critério de determinadas
características e limitações para os vampiros e, sempre dentro desse critério,
vou contando a minha história. O resto é deixar as emoções fluírem. E
transmiti-las aos leitores. Basta ter um pouco de bom-senso e a capacidade de
levar o
leitor pela mão, caminhando lado a lado com ele, sem se tornar um autor
chato e superpoderoso. Temos que nos lembrar que estamos falando a pessoas que
batalham duro no seu dia-a-dia, que vão abrir o seu livro na sua hora de
descanso e querem ter uma experiência rica e interessante durante a leitura. E
não aos críticos ou aos outros escritores. Ao respeitar os critérios mesmo
dentro de um mundo fictício, você ganha a confiança do leitor. E ele vai
aceitar jogar o seu jogo, embarcando junto na sua fantasia.
("O Grito", Encontro de Vampiros, 2003)
Pessoalmente?
Acho que a morte de meu pai em 1992, que mudou profundamente a minha maneira de
ver a vida. E a morte. Literariamente falando, houve a descoberta dos grupos de
discussão de escritores em 2000, que me fez começar a escrever regularmente e
mostrar o meu trabalho para um público vasto e interessante: os internautas.
Mas acho que o grande acontecimento até hoje foi o lançamento do meu livro “Luar
de Vampiros” no ano passado. Esse acontecimento serviu como um marco na
minha vida, servindo para mim mesma como um divisor de águas. A partir daí
tive realmente a consciência de que sou mesmo uma escritora.
-E atualmente, o que lhe e´ realmente
imprescindível, seminal?
Ler
mais, ver mais, ouvir mais e conversar mais com pessoas interessantes, e,
principalmente, divertir-me muito mais com isso. Escrever, para mim, tem que ser
assim. Eu já sou uma profissional reconhecida em outra área, dura e estafante.
Para levar avante uma segunda ocupação, só se for para ter muito prazer com
isso. Esta condição está muito clara na minha cabeça.(Festa
Gotica, Monica Virgo, Giulia,Paulo Casrtro e Seckmeth)
- Acha que a nossa Literatura de gênero tem
evoluído? Quais autores - tanto de ficção quanto de fato, ensaístas, críticos,
etc - você considera dignos de nota?
Peço
licença para me ater ao gênero que melhor conheço: a de terror, fantasia e FC.
Acho que há, sob o manto do anonimato de milhões de internautas produzindo
material inédito, gratuito e de qualidade discutível, uma grande massa de
gente com um talento surpreendente para a literatura de fantasia e ficção.
Essa massa vai explodir na mídia logo. Não vai ter como segurar. Foi através
da internet que conheci Martha Argel e começamos uma ótima parceria, trocando
informações e experiências. Nos grupos Tinta Rubra e CryaContos aparecem
muitos escritores de grande talento que estão se aprimorando no trato com o público
e afiando suas armas para batalhar o seu lugar no mercado: Adriano
Siqueira,
Paulo Castro, Richard Diegues, Mônica Virgo, M. Tetsuo, Raul Tabajara, Simone
Nardi, só para citar alguns. Foi também pela internet que conheci a Slev, o
grupo experimental coordenado pelo Rogério Amaral de Vasconcellos que reúne
bons escritores de FC ainda desconhecidos pelo grande público como o próprio
Rogério, Ernesto Nakamura, Ricardo Caceffo, Gabriel Bozano, Cláudia Furtado e
muitos outros. A cada instante surgem novos grupos e novos sites de
literatura. O espaço virtual está sendo muito bem aproveitado pelos novos
talentos como mercado de teste antes do vôo definitivo.
Nas
livrarias, é evidente o sucesso de Andre Vianco, que mesmo sem captar muita
atenção da mídia especializada, é um fenômeno de vendas. Os seus livros de
vampiros proporcionam diversão com muita ação em enredos movimentados e com
ótimos achados criativos. O público adora o André. E isso é um ótimo sinal
para nós todos que queremos uma parte desse mercado.
-Vou
mencionar alguns autores "darks" e se você já leu algo
deles,comente, por favor:
Acho
que já comentei sobre a maioria desses autores nas questões anteriores.
Desses, destaco sem dúvida Neil Gaiman - é um dos meus favoritos. A sua
capacidade de tecer narrativas extraordinárias unindo as imagens à prosa é
notável. Eu adoro toda a série Sandman. São verdadeiras obras-primas, que
espelham bem um horror desencantado e macabro, de ótimo efeito.
Clive
Barker é um gênio do horror explícito e sem meias-medidas. Ele cutuca as
cenas mais pérfidas e cruéis com a frieza de um cirurgião. A sua prosa tem,
apesar disso, um ritmo único, seco e eficiente, muito bom de ler. Eu gosto
muito do seu estilo, tenho vontade de escrever algo assim.
Andei
também lendo alguns contos de Algernon Blackwood, um autor do início do século
XX, pouco comentado aqui no Brasil, que me encantou pela prosa envolvente e
delicada e a capacidade de criar o medo a partir de elementos muito sutis como o
vento, os ruídos, a paisagem e pequenos objetos. Especializado em contos, como
eu, sabe conduzir o timing da narrativa sem perder a fluência e o ritmo.
O seu conto “Os salgueiros” é um grande clássico.
Para
quem gosta de vampiros, recomendo a leitura de “A Última Vampira” de
Whitley Strieber, autor também de “Fome de Viver”. Uma narrativa envolvente
para uma premissa criativa sobre a origem dos vampiros e da sua convivência com
os humanos.
-A atração pelo mórbido e´ intrinseca aos
seres humanos, Mas acho que os escritores principalmente, tem essa faceta mais
aguçada. Quais seriam as causas?
Tudo
que é proibido ou perigoso exerce um fascínio irresistível. É como olhar
para baixo no alto de um prédio e imaginar-se caindo. Ou pegar um canivete
afiado e ter vontade de passar o dedo pelo seu fio. A morte e a violência são
exatamente isso. O perigo, o medo, o proibido. Nos escritores, essa capacidade
de tecer hipóteses é mais aguçada, talvez por isso eles externem mais essa
atração. Mas acho que todo mundo tem esse sentimento em maior ou menor grau.
(Andre Vianco e Adriano Siqueira)
Por
exemplo, estou lendo um livro ótimo que se chama Histórias Perversas do Coração
Humano. O autor, Milad Doueihi, é professor do Departamento de Língua Francesa
da Universidade de Baltimore e o livro fala sobre as histórias sórdidas,
misteriosas e estranhas do coração - o órgão. Principalmente sobre o costume
perverso de se devorar corações dos desafetos ou dos inimigos... Trata de
lendas, da mitologia, casos verídicos e literatura sobre o tema. Não é
interessante constatar que existe um público para um livro tão específico e tão
macabro?
-Você também se sente atraída pelos serial
killers por exemplo, pelo que se passa na mente de um desses psicopatas?
Sim
e não. Teria que ter algum elemento fantástico para despertar o meu interesse.
Explicar atos escabrosos sob a luz de uma deformidade psicológica não me
atrai, por si só.
-Entao não
deixe de ler a Entrevista com a "caçadora de serial-killers" Ilana
Casoy. Você sabe que neste site, muita coisa praticamente gira em torno do
cultuado autor e roteirista inglês Alan Moore. Que ele foi o criador da obra
From Hell , para os Quadrinhos, depois desperdiçada
por Hollywood. E que ele," para vencer a crise existencial dos 40
anos", resolveu se tornar um mago. Estudou muito Aleister Crowley, Austin
Osman Spare, participou de experiências e acontecimentos no mínimo
"fora-do-script", como ele gosta de descreve-los. Você
acredita na Magia, na Cabala e outros desdobramentos, ou tenta também - como o
James Randi tupiniquim, Padre Oscar Quevedo - "explicar tudo à luz da
Parapsicologia" ?
Acho
que todo mundo aqui conhece Alan Moore e o admira. Suas histórias intrigantes
elevaram a leitura de HQ à condição de uma atividade tão sofisticada quanto
a da leitura de grandes clássicos.
Quanto
à necessidade de vivenciar a experiência de se tornar um mago, é uma decisão
inerente ao ser humano Alan Moore, não o escritor ou personalidade pública.
Com certeza, isto deve ter lhe proporcionado experiências fantásticas. Cada
escritor tem maneiras diferentes de encontrar a sua inspiração. A minha preferência
durante a criação de um conto é apresentar o inexplicado, não o de explicá-lo.
Qualquer explicação, seja de um mago ou de um parapsicólogo, se aceita, traz
um conforto psicológico que nem sempre tem lugar numa narrativa de terror.
Gosto de deixar a dúvida no ar. Costumo pesquisar sobre Magia, ou rituais
antigos, ou mesmo sobre biologia ou ciências médicas para encontrar elementos
para compor o conto. O que procuro não é explicar algo, mas explorar
possibilidades.
(Animação de JCN)
- O que pensa da Magia?
É
um ótimo tema para ficção de terror. A simbologia da Magia sempre me atraiu,
é um universo rico e misterioso por si só. Mas como um elemento a mais do
inexplicado a ser explorado. Respeito os que se dedicam a esse estudo; sou, como
disse, favorável a cada um aproveitar o seu tempo para estudar e se dedicar a
assuntos que sejam do seu interesse e com total liberdade. Não seria diferente
com Magia.
-Voltando aos seus escritos, o que você fez que
considera o melhor até agora?
Em
se tratando de satisfação pessoal, sem dúvida os contos do meu livro “Luar
de Vampiros”. Reuni no livro um apanhado da minha trajetória como contista até
2003, mesclando contos antigos com novos. A boa recepção dos leitores,
destacando tanto os primeiros contos que escrevi quanto os últimos, foi a
melhor coisa que eu poderia esperar. Mas estou convencida que os novos contos
que estou reunindo para o próximo livro estão mais maduros e mais eficientes.
O que eu espero, mesmo, é sempre poder apontar o último e o mais recente como
a minha melhor obra. Isso significa que estou sempre na ascendente, não é
mesmo? Acho que é uma ambição que devo cultivar.
-O que pensa que acontece com a consciência após
a morte?
Não
tenho a mínima idéia. Essas questões, por enquanto, não são importantes
para mim. Só espero que a morte não extinga tudo, pois acho o tempo de vida de
um ser humano comum curto demais para tudo o que gostaria de fazer.
- Dostoyevski escreveu que na ficção, a consciência
das personagens devem interagir e se debater até somente com as consciências
das outras personagens, ficando o autor totalmente "de fora". Como
pensa que um conto ou romance deve ser, formalmente falando, para atingir esse
objetivo?
Há
alguns autores que fazem questão de exibirem suas próprias personalidades nas
suas obras, os seus personagens nada mais são do que facetas de si mesmos,
espelhando a moral, a ideologia - e as limitações, eu receio - do criador. Na
verdade, eu não poderia afirmar qual é a forma ideal da escrita, mas a maneira
em que me sinto mais confortável ao escrever é tentar colocar-me na pele de
cada personagem e esquecer nesses momentos quem sou, ou no que eu acredito como
certo ou errado. Nunca julgar, apenas tratar com absoluta imparcialidade cada
personagem e ir desenvolvendo determinadas premissas da forma mais natural possível,
deixando para cada leitor o seu próprio julgamento. Cada escritor não é
apenas um, mas milhões. Um número infinito de personagens vivendo e nascendo
ininterruptamente na sua mente, tornando a sua escrita mais original e
produtiva. Somos uma legião, como diz a Bíblia...
-Quais sites da web você visita com freqüência?
O
site que mais utilizo é a Google. Lá eu pesquiso sobre tudo, para compor cenários,
personagens, história. Visito também o Yahoogrupos para dar manutenção aos
grupos que modero. Claro que o meu blog “O
Santuário da senhorita Moon” e o meu website www.giuliamoon.com.br são as minhas
paradas obrigatórias de todos os dias. Como tenho pouco tempo disponível,
tenho navegado de forma bem prática, só indo a um site se tenho necessidade de
alguma informação.
-Qual foi a experiência mais louca que você já
experimentou na vida?
Não
sei se foi a mais louca, mas a mais engraçada foi em San Francisco, quando
descobri nos classificados de um jornal de variedades o anúncio de um tour
vampírico pela cidade. Começava na frente da catedral às 20 horas da noite.
Claro que fui lá conferir. Uma mulher com uma capa preta e trazendo na mão um
candelabro de velas com luzinhas nas pontas – acesas com pilhas - apareceu no
horário. Tinha mais uns cinco turistas que apareceram para conhecer o San
Francisco vampírico. Ela andou por alguns locais próximos contando com caras e
bocas uma História Alternativa sobre a fundação da cidade através das
intervenções de antigos clãs de vampiros. Era inverno e a noite estava gelada
e ventando muito. Minha irmã e uma amiga desertaram no meio caminho, me
deixando sozinha com a minha teimosia. Agüentei firme até o final do tour,
que terminou num bar com um brinde de bloodmary. Foi divertido ao final
das contas. Mas bem trash.
-Qual foi o sonho mais louco que você já teve?
Infelizmente
não costumo lembrar dos sonhos. Gostaria de lembrar de todos, mas às vezes os
esqueço logo que acordo. Só fico com aquela impressão esquisita na cabeça.
Um dos poucos sonhos que me recordo era uma cena curta, mas bem bonita. Era uma
festa numa mansão do início do século e os convidados, todos vestidos de
branco, circulavam no jardim cheio de flores de tons pastéis. Era umas seis da
tarde, com o sol já quase no ocaso. Uma música clássica, suave, era executada
por um quinteto de cordas. E, no centro do jardim, 3 onças estavam sentadas
sobre um pedestal de mármore rosado. Uma era toda branca, outro era uma onça
pintada e a terceira, uma pantera negra. E os convidados serviam-se da carne
delas, cortando nacos de suas ancas com garfos e facas de prata. Elas, embora
vivas, não pareciam se importar. Rosnavam e agitavam as caudas, mas continuavam
ali, sendo devoradas aos poucos, sem esboçar reação.
-Caramba!
Ja´ imaginei aqui uma cena destas pintada simltaneamente por Frazetta e Simon
Bisley. Tem alguma pergunta que não foi feita mas que, por você ter algo
realmente interessante a acrescentar, você gostaria de responder?
Ufa!
Foi a entrevista mais longa que já respondi. Não me ocorre nada no momento,
mas estou à disposição para quaisquer esclarecimentos.
-Obrigada,
Giulia, por dividir conosco um
pouco do seu precioso tempo.
Eu é que agradeço, José Carlos, pelo espaço concedido. Espero que os seus leitores tenham curtido a entrevista. Foi divertido.