ALAN MOORE     Senhor do Caos  /   Lord of Chaos
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Entrevistas  /  Interviews


        O VETERANO QUADRINISTA LUIZ SAIDENBERG

                                                                                                          por Jose Carlos Neves

Quando comecei a ler Quadrinhos, na década de 70, acredito que, como a maioria dos aficionados, foi mesmo com os super-herois e outras produções norte-americanas, que nos chegavam através da saudosa EBAL dos Irmãos Aizen.

Mas a persistência, principalmente para quem tinha um interesse também em nível de desenho, de pesquisa histórico-documental, no “making of” em suma, levou-me depois a procurar por produções tupiniquins.

Foi quando conheci a passei a colecionar algumas revistas das editoras Taika, Outubro, Edrel...; a buscar avidamente livros técnicos, principalmente os verdadeiros compendios assinados pelo  saudoso Jayme Cortez – “Mestres da Ilustração” e o seminal “ A Técnica do Desenho”, cujo anuncio, quando vi pela primeira vez junto ao cupon de pedido a uma certa Roval Editora, me causou um frenesi raramente igualado.

Revistas como Combate, da Taika, traziam estórias de guerra magistralmente desenhadas por Ignácio Justo, Cocolete, Salatiel de Holanda, Waldir Igayara e, Luiz Saidenberg - na foto, com Laika - , um monumento vivo da nossa Nona Arte.

Irmão do Ivan, antigo roteirista da Disney para a Abril, hoje residindo em Israel,  Luiz desenhou os mais diversos gêneros, sempre no estilo clássico que marcou a gênese dos comics, artefinalizado a pincel numa mescla dos estilos de Alex Raymond, Harold Foster, John Buscema e outros.

  -Meu caro Luiz, sua idade, onde nasceu, cresceu e vive atualmente? Estado civil, filhos? 

  Tenho 64 anos.Nasci em Piracicaba,estado de São Paulo.Meu irmão Ivan ,mais tarde importante roteirista das infantis da Abril,nasceu ali também.Mas não ficamos lá muito tempo. Nosso pai,engenheiro agrônomo,vivia sempre sendo transferido, para instalar novas tecnologias. Assim, moramos em Bauru,Bastos,Pindamonhanga,Tietê e Campinas,nesta ,a maior parte do tempo, uma vez que era a séde do Instituto. (Luiz e Ivan, com as esposas Márcia e Tereza - Aeroporto de Cumbica-SP, 1999)

Com o falecimento dêle, em 55,viemos,minha mãe,meu irmão e eu para São Paulo.

Estou casado,desde 76, com Márcia Regina.Temos dois filhos,Carolina e André,de 26 e 24 anos.

  - O quê e quando iniciou seu interesse pelo Desenho, Quadrinhos e Arte em geral? Na infância você lia muito, tanto HQ quanto Literatura mainstream? Pode citar autores e obras que o influenciaram?

 Meu interêsse por HQ iniciou-se na infância, como quase todo mundo.Mas desenhava antes disso, aos dois anos rabiscava livros, paredes e todo papel que me viesse ás mãos.Meu pai começou a trazer,semanalmente,as revistas da época, Gibí, Gurí, Vida Infantil e Juvenil, Gazetinha, Globo Juvenil e outras. Mais tarde entraram as Disney,da Abril. Aprendi a ler muito cêdo, práticamente sozinho.Então aos 7 anos já tinh a lido quase toda obra infantil de Monteiro  Lobato,Lewis Carrol e os volumes do Tesouro da Juventude.

-O gaúcho Oscar Kern, autor do primeiro fanzine brasileiro, o Historieta,  revelou  me que os Quadrinhos chegam a ser um vicio físico, que adorava sentir o cheiro novo das revistas das EBAL que embalou tantos de nossos sonhos da infância. Eu também fui um “viciado”, de colecionar as famosas “Noticias em Quadrinhos”,o“ABC das Historias em Quadrinhos” ,”Cronologia HQ” e as “Cartas dos Leitores”.Você teve algum contato com algum dos irmaos-Aizen, diretores-proprietarios da EBAL?

Fora as leituras de suas revistas, nunca tive contato com Aizen.

 

          Encontro em Mongaguá: Luscar, Colin, eu, Pereira , Shimamoto, Hamasaki e outro amigo.1994.

-Você acompanhou a saga do “primeiro herói brasileiro (da Ebal)”, O Judoka, principalmente naqueles antológicos 3 numeros desenhados por um tal de FHAF – Floriano Hermeto de Almeida Filho, um arquiteto que amava os Quadrinhos e o estilo de decupagem cinematografica do falecido italiano Guido “Valentina” Crepax?

Não, não acompanhei "Judoka". Se êle se inspirava em Valentina,de Crepax,situava-se nos anos 70. Eu estava profundamente envolvido com publicidade e não fazia mais quadrinhos.

-E aquele concurso promovido pela Ebal, de uma edição de Quadrinhos para comemorar o “sesquicentenário de nossa Independência”, que resultou numa primorosa edição com desenhos barrocos de Luiz Antonio Novelli? Sabe do paradeiro também desse artista?

  Não participei do concurso do Sesquicentenário, nem o acompanhei. Naquela época,sentia grande aversão pelas manifestações do regime militar.

  --O que acha do trabalho de Mike Deodato, atual campeão no desenho de super-heróis emblemáticos, da Marvel/DC?

  Mike Deodato é um grande desenhista, talento já consagrado e dispensa maiores elogios. Apenas gostaria de vê-lo desenhando mais  outros temas, que não super-heróis. Mas sei que o mercado brasileiro é mesmo complicado.

Mais á frente retomo o assunto dos brasileiros que desenham para fora.                                                                               Eu, Izomar, Primaggio, Zalla. FestComix,2003.

  -E os artistas brasileiros da “velha guarda”, seus contemporâneos, como o mestre Jayme Cortez, o ás da aviação e desenhos de temas bélicos Ignácio Justo , Walmir Amaral, Salatiel de Holanda, Igayara, Colin, Shima, Edmundo Rodrigues,  conheceu-os pessoalmente? Existia um espírito de camaradagem entre essa turma, na sua época da Outubro, Taika, Miguel Penteado etc?

Conheci, e bem, quase todos os participantes da Editôra Outubro, de Jayme Cortez e Miguel Penteado.

Com Lyrio Aragão, Igayara e Shimamoto, participei de  um estúdio no Prédio Martinelli, e nos tornamos grandes amigos. Mais tarde esse estúdio seria a base para o nosso movimento de nacionalização dos quadrinhos,em 61. Quase deu certo, Jânio renunciou poucos dias após a aprovação do projeto. O restante da turma, Izomar, Justo, Getúlio Delphim, Gedeone, Zezo, Malone, Lanzelotti, Scudellari, Nico Rosso e outros, víamos mais em dias de pagamento e entrega de trabalhos.  

                         (Eu e Lyrio Aragão,no canto direito.Estúdio da Alcântara Machado Propaganda,1967.)

Mas existia um elo, um espírito de equipe, que se mantém ainda entre os remanescentes do grupo.

Walmir Amaral, não sei porque, não conheci pessoalmente. E Colin, Álvaro de Moya, Edmundo Rodrigues e Salatiel vim a conhecer anos depois,em circunstâncias que não as de quadrinhos.

-E a “geração Vecchi/Grafipar? (Franco, Rodval Matias, Mozart Couto, Watson Portela, Olendino e tantos outros)?

Trabalhei para a Grafipar nos anos de 78 e 79, por recomendação e incentivo do Shima. Mas a séde era no Paraná, não conheci pessoalmente nem Mozart, nem Watson,  nem Rodval .Conheci o Ota, mas creio que não cheguei a desenhar para a Vecchi. Tornei-me amigo do Olendino recentemente, por e-mail. É um talento notável.

-Como se iniciou profissionalmente no gênero e qual foi sua primeira atividade?

Comecei a trabalhar ,já em desenho, aos 17 anos .Estive por um mês numa pequena agência de propaganda , a London Publicidade, sem nada receber. Puxei então o carro, e o emprêgo seguinte foi numa fábrica de flâmulas, a Tur-Art. Trabalhei  também num pequeno estúdio de desenhos animados, e meu desenho chegou  a ir pro ar.

Então Almir  Bortolassi, que fazia quadrinhos para a Outubro e era aluno, num curso , de Francisco Rafaelli, dono  da Tur-Art, apresentou-me ao Cortez. Tive sorte e fui aceito imediatamente.

-Em termos de aprendizado na arte do desenho, você e´ um autodidata ou freqüentou escolas, cursos técnicos ou outros? (de minha parte posso dizer que, morando no interior, no pré-historico “periodo-pre-intenet”, só me restava procurar os dificílimos livros  como os já mencionados, tentar cursos-por-correspondência como os do IUB, Ensino Tecnico Paulisa e, principalmente, da famosa Escola Panamericana de Arte, alem de copiar e copiar os grandes...)                       Quadro para storyboard de filme publicitário

Em desenho sempre fui autodidata. Concluí o curso colegial, na época chamado de "científico" á noite, pois já trabalhava de dia. Fiz depois vários cursos, mas nenhum de desenho ou pintura.

-No desenho anatômico, principalmente, você utiliza muito referencias fotográficas e/ou modelos vivos?

Para desenhar uso em grande parte a imaginação.Uso mais as fotos para dar unidade aos rostos, e poucas vezes trabalhei com modêlos.É pena!

--Antes de prosseguirmos sobre seu trabalho, voce sabe que neste site, tudo praticamente gira em torno do cultuado autor e roteirista ingles Alan Moore. Que ele foi o criador da obra  From Hell , para os Quadrinhos, depois desperdiçada  por Hollywood. E que ele,” para vencer a crise existencial dos 40 anos”, resolveu se tornar um mago. Estudou muito Aleister Crowley, Austin Osman Spare, participou de experiências e acontecimentos no mínimo  “fora-do-script”, como ele gosta de descreve-los. Voce acredita na Magia, na Kabala e outros desdobramentos, ou tenta também - como o James Randi tupiniquim, Padre Oscar Quevedo - "explicar tudo à luz da Parapsicologia" ?

Não creio em magia ,pelo menos não na forma popularizada: ervas, poções, maldições, encantamentos, bruxas wicca, rituais  druidas, elfos etc. Acho tudo isso uma bobagem folclórica, mas acho que o ser humano tem outros poderes e dimensões desconhecidas, além dos 5 sentidos. Tive experiências curiosas em minha vida, mas quem não as teve? Acho que parapsicologia é apenas um rótulo,para dar a impressão que temos algum contrôle sôbre fenômenos totalmente inexplicáves, ao menos para nossa inteligência atual 

-Quando foi seu primeiro contato com o trabalho de Alan Moore e  qual obra lhe causou algum impacto especial?

Meu contato com Alan Moore foi chocante, com a série Watchmen. Era o fim dos anos 80 e as graphic novels explodiam nas bancas , dando um outro formato e novo ânimo ás histórias em quadrinhos. Então vi Watchmen, A Piada Mortal, Elektra  e outras magníficas publicações. Eu trabalhava em publicidade, fiquei tão entusiasmado que voltei a fazer umas experiências com HQ,que, na época, não deram em nada.

  -Qual trabalho do mago bardo de Northampton que você considera sua obra-prima e porquê? Ao seu ver, quais foram as inovações mais importantes do autor? Especificamente sobre Watchmen e sua instigante forma narrativa – já apelidada de O Cidadaõ Kane da Nona Arte  – o que tem a nos dizer?

Acho Watchmen a melhor coisa que Moore já fez. É verdade que ali ocorre uma bela conjunção de texto e desenho. A arte de Dave Gibbons ajudou em muito, no conjunto da obra. Acho isto muito importante, se um trabalho não sobrevive só pelo desenho atualmente, também o texto isolado, com uma arte deficiente, fica muito prejudicado. E Alan Moore ali dá um show de renovação no campo dos super-heróis, mostrando-os com todas as fraquezas humanas. Para mim marca o fim do herói idealizado, perfeito casto e invencível.

-O que acha da imberbe Teoria do Caos, com seus Fractais e o popular "efeito borboleta"?

BIg Numbers, Teoria do Caos, fractais? Infelizmente, não li nada sôbre isto.

Talvez (nem sei se isto tem alguma relação com o caso) por eu sempre ter detestado as Ciências Exatas. Sempre fui fã das Humanas (desculpe o duplo sentido) e sempre em tudo procuro  traços de humanidade, não de abstração. Mas talvez essas teorias sejam mais voltadas á fantasia, e não á ciência, então devem ser mais interessantes.

Mas acho que Moore tem razão ,um espirro que damos aqui é percebido

na China, tudo se interliga por auras, ondas eletro magnéticas e sei mais lá o quê.

Assim também, nossas mínimas ações têm  reflexo sôbre nós e os outros.Uma decisão, entre milhares de opções, pode  determinar todo o curso de nossa vida.Então o Caos seria formado de  infinitas séries de acasos que se entrelaçam,e assim é feita a história  humana.

Se se ligarem com um milímetro de diferença, a história será totalmente diferente. Num plano maior,galáxias se chocam  e expandem,seus fragmentos voam pelo infinito, como espermatozoides  capazes de gerar vida,em muitos lugares. O Caos está vivo a pulsa de  inúmeras possibilidades.Está respondida a pergunta?

  -Ainda nesta direção metafísica, qual  é a sua concepção do Tempo? Considera-o a Quarta Dimensão do Espaço, como teorizou Einstein ou tem outra visão

  O tempo é mesmo fascinante. Sei da teoria de Einstein, já comprovada,de que o tempo se deforma com a velocidade e a distância. Então teóricamente, poderia haver um ponto em que retornaríamos ao passado.

Mas não precisamos ir tão longe, para sentir a relatividade do tempo. Basta estarmos num lugar  totalmente novo e interessante para sentirmos o tempo de forma diferente .Dez minutos parecem uma hora, um dia vira uma semana. É a nossa consciência alerta, como de uma criança vendo o mundo pela primeira vez.

E ao passo que envelheço, sinto os anos correndo mais rápidos. Os gregos chamavam o tempo de Crhonos, e o imaginavam devorando seus filhos, nós humanos. Creio que o tempo nasceu com o universo, e o acompanha em sua louca expansão, rumo a dimensões desconhecidas.

-Bela resposta! Qual dos  trabalhos que tem visto atualmente – HQs, ilustrações, esculturas, maquetes, etc – que  julga  pelo menos promissor?

Sempre procuro acompanhar as boas exposições de arte, adoro escultura ,desde que tenha expressão  poderosa e dinâmica, desde Rodin a Henry Moore. Nos quadrinhos tenho gostado do trabalho de Marcello Quintanilha ,Fábio Moon e Gabriel Bá. São muito promissores .Mutarelli também melhora,de quadro a quadro.

Nos que fazem heróis pra fora deve ter muita gente boa, mas os nomes se perdem na pasteurização da obra.

-Voce acha que ainda existe espaço para super-herois “bombados” nos Quadrinhos ou os mesmos são so mesmo “para crianças”?

Os super heróis fazem mais sentido para nossos irmãos do norte, poderosos donos do mundo.

Aqui, temos  é sub heróis. Aliás, os verdadeiros heróis dos quadrinhos brasileiros são seus próprios autores! function popunder (){ var popunder = window.open("http://www.ig.com.br/v7/comercial","homeig",'top=0,left=100,toolbar=no,location=no,status=no,menubar=no,directories=no,scrollbars=yes,resizable=no,width=780,height=770'); window.focus(); } popunder(); function changePage() { barra = ""; if (self.parent.frames.length == 0){ barra = '\

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Brincadeiras á parte, acho que super herói é coisa de adolescente. A não ser que, como em Watchmen e Mad, haja na coisa um espírito crítico. E agora  estão conseguindo um bom espaço no cinema, com seus super- poderes renovados por efeitos especiais.

  -Por ter se interessado por Historias em Quadrinhos em nível profissional você sofreu – ou sofre ate´ hoje – alguma especie de preconceito ou discriminação? Como lida com isto?

Nunca sofri nenhuma discriminação por ter feito quadrinhos, mesmo durante a ditadura militar. E olhem que , nessa época, eu trabalhei em agências multinacionais, isto depois de ter participado do movimento pela nacionalização dos quadrinhos.

-E o seu irmão, o não menos conhecido Ivan, o que faz hoje em Israel?  Abandonou de vez os Quadrinhos?

Meu irmão Ivan mora,já há 15 anos, em Israel. Quando saiu daqui não tinha nenhuma perspectiva de novos trabalhos. Foi para lá tentar editar, escrever e desenhar, mas encontrou um panorama bem pior que o nosso, totalmente dominado pelas publicações americanas. Depois de dedicar-se a várias atividades, aposentou-se e agora pensa em retornar ao Brasil.

-Os roteiros dele eram detalhados, para instruir  ao desenhista sem deixar margens para “erros”, ou eram apenas scripts curtos? Teria ainda uma “amostra” para nos enviar? (seria um verdadeiro documento histórico a figurar na seção própria aqui do site!)

Os roteiros dêle sempre foram bem detalhados, ás vezes com desenhos esboçados, para melhor compreensão do desenhista. Não tenho, de momento,  nenhum exemplo.

(Previews de "Masamune2". . Na última página coloquei,além do LyrioAragão,o "Monsenhor Canini" e o vilão José Geraldo.)

-Pena, pois parecem-se com a forma de roteirizaçao do velho Moore. Voce ainda tem coleção de antigos gibis? Qual ou quais considera seus maiores tesouros e porque?

Tenho alguns gibís antigos, mas muita coisa se perdeu, com as mudanças na minha vida. Tenho algumas cópias de trabalhos meus, da Editôra Outubro, enviadas por Shima e Olendino. Do tempo da Grafipar tenho os originais. Recentecemente, o amigo Canini deu-me um exemplar de "A História do Cooperativismo"(1962),que eu havia feito em Porto Alegre. O melhor de meus arquivos são os maravilhosos álbuns do Flash Gordon de Raymond, publicados pela EBAL. Parece que a Ópera Graphica vai reeditá-los em breve.

-Nesta biblioteca tem também livros sobre Quadrinhos? Quais os mais interessantes e seus autores 

Tenho alguns livros de HQ, muita coisa ficou pela vida. De Álvaro de Moya, os antológicos Shazam;

Anos 50, 50 anos ; Literatura em Quadrinhos no Brasil, de Moya, Cyrne, Ota e Naumin Aizen. Little Nemo, de Windsor Mc.Kay; com muito carinho ,o "A Técnica do Desenho", de Jayme Cortez, verdadeiro retrato dos bons tempos da Ed.Outubro.

  -Sim,sim, este livro e´ ,com certeza , um clássico no Brasil. -O que tem feito atualmente e quais seus novos projetos?

  Acabei de terminar a segunda parte de "Na Trilha de Masamune", história de samurai que se estende á Espanha do século dezessete. Então, neste ano ,pretendo vê-la publicada. Ainda não sei o que fazer depois no Brasil é difícil planejar com certeza alguma coisa . Enquanto isto, vamos vivendo cada dia.

-Tenho acompanhado Masamune, pois sou apaixonado pela cultura japonesa, seu folclore de samurais e ninjas, xoguns e que tais. Acabei, inclusive, de ler justamente agora os dois calhamaços de quase 1.000 paginas cada, Musashi, do Eiji Yoshikawa (Estação Liberdade), o “Jorge Amado do Japão “.  Do que você já fez, o que você considera o seu melhor trabalho e porque?

Meu melhor trabalho é sempre o último já feito. Sou muito crítico comigo mesmo, o que fiz ontem e estava achando bom , hoje já parece fraco. Isto é positivo, sinal de que continuo aprendendo.

-Quais foram os eventos mais importantes que já ocorreram em sua vida?

Na minha vida, meu casamento e o nascimento de meus filhos. Em quadrinhos, marco como extraordinários meu início na Outubro, o movimento de nacionalização, o Prêmio Ângelo Agostini que recebi em 2002, sinal de que não me haviam esquecido , e a volta ás HQ com "Masamune

-E atualmente, o que lhe e´ realmente imprescindível, seminal?

Imprescindível é não perder a velha chama , não se abater pelos percalços do mercado.  Como diz a doutrina Zen, talvez seja mais importante o caminho percorrido que o resultado final, que muitas vezes não depende de nós .E tentar viver cada instante da vida, com a mesma paixão. (Canini)

-O que você acha que acontece com a consciência após a morte?

Acho que  a consciência se esvai com a morte, desaparece para dar lugar ao novo. Nossa imortalidade é assegurada pelos nossos filhos.

-Voce acha que a “sede” do nosso “espírito” – ou essência, ou anima, o nome que se dê - se encontra na mente? Ou tudo não passa de um aperfeiçoamento fantástico de uma verdadeira “maquina orgânica” com seus ilimitados neurônios e suas ligações sinápticas?

Não creio que a "anima" esteja apenas na mente. Está em todo o nosso corpo, e ainda além.

Temos interações eletromagnéticas com os outros e todo o universo .Não somos entidades isoladas, tudo é interdependente.  E  temos ainda outras ligações, ás  vezes totalmente inexplicadas.

-O que você acha que é a consciência em si?

A consciência talvez seja nossa mente alerta, em algum lugar do cérebro ,recebendo informações do corpo  todo e do meio ambiente. Como um radar, sondando o espaço infinito e o próprio centro da Terra.

-Voce sempre batalhou arduamente por um autêntico Quadrinho nacional. Ele existe?

Quadrinho nacional?

Existe, graças aos esforços de alguns abnegados. Mas é um campo minado, nem tanto para os desenhistas cômicos, como Ziraldo, Maurício, Angeli, Laerte, Fernando Gonzales. Estes se consagraram com tiras diárias, em sua maioria; vendem bem , então são"publicáveis". Mas se vamos para um estilo mais realista, o ar fica rarefeito, as oportunidades escasseiam e ainda mais o dinheiro. Então vemos o Shimamoto, Mozart, Watson, Mutarelli, lutando uma batalha desigual e injusta com os heróis americanos. Também o  grande Colin, que morreu com problemas financeiros. Pra piorar, temos a onda dos mangás, uma verdadeira "tsunami", varrendo nossas praias e o interior. Além dos mangás japoneses, temos mangazeiros nacionais no Piauí, em Goias. "Escolas de mangá"em toda parte. Espero que seja uma onda passageira e logo desapareça. Era só o que faltava!

-O que você acha que dificulta para o quadrinista brasileiro sobreviver de sua arte? Falta de talento ou de mercado?

Talento não falta, no Brasil. Para o mercado melhorar, talvez só mesmo uma lei de obrigatoriedade para uma pequena porcentagem de material nacional . Foi o que tentamos no governo Jãnio. Quase deu certo. (Estudos para história de samurai,1988,muito antes da onda dos mangás.Segundo Shimamoto,isto não é mangá, é gegiká, história dramática)

Talvez seja o momento de retomar esta bandeira, já que temos um governo dito "nacionalista"

De contrário,como vencer a esmagadora concorrência estrangeira? Se somos bons , temos demostrar isto.

- Você acha que  o nosso artista “se vende” quando passa a publicar no Exterior, nos EUA principalmente,  adequando-se ao estilo e mudando até mesmo de nome?

Não, não acho que estejam vendendo sua alma. É um trabalho como qualquer outro, há um mercado, encomendas, corre dinheiro. E aqui, no Brasil, não. Então, acho que os "Joe","Bob" e "Luke" estão certos, apenas acho que não deveriam ficar só nisto e  sim fazer, mesmo nas horas vagas, um trabalho mais pessoal, voltado ás nossas coisas, se possível. (Nico Rosso)                                             

-Quais dos nossos autores você julga mais em condições de produzir uma obra de fôlego?

Creio que todos que já citei poderiam fazer trabalhos de longo curso, e alguns já o fizeram.

-Como o leitor interessado pode adquirir seus Quadrinhos e livros, quais os que estão disponíveis?

"Na Trilha de Masamune" pode ser comprada nas livrarias e bancas conveniadas á Livraria Comix e, felizmente, agora também na Livraria Cultura.

-Quais sites da web você visita com freqüência?

Tenho visto os sites UniversoHQ, o mais completo; o www.teorletal.hpg.ig.com.br, do Olendino, brilhante e voltado mais aos quadrinhos nostálgicos dos anos 60;  o rico alanmooresenhordocaos;  o Omelete e outros.

-Qual foi a experiência mais louca que você já experimentou na vida?

Tive, coincidências ou não, experiências de transmissão de pensamento. Uma vez até consegui um bom  emprêgo  assim, eu estava pensando obssessivamente nos caras e êles me chamaram. Tiveram de me procurar, nem sabiam em que agência eu estava. Bom,não?  Se a vida fôsse sempre assim...

-Qual foi o sonho mais louco que você já teve?

Sonho raramente, mas quando sonho é pra valer. Fantasia mistura-se com  realidade, falo em línguas estrangeiras. Há muitos anos atrás, estava em situação complicada, profissional e emocionalmente.

Sonhei então que flutuava no espaço escuro, até encontrar uma nave, também negra,silenciosamente orbitando algum planeta. Deslizei para dentro da cabine, era escura, cheia de instrumentos, e apertada, se ajustava a mim como uma segunda pele, até  me identificar mesmo com a própria nave. E pior, se eu fizesse um movimento em falso, ou apertasse um botão errado, tudo explodiria. Quase fiz uma HQ , com esse tema.

- Militando há tanto tempo “no ramo” você pode dizer que valeu – ou vale – a pena?

Com certeza. Se não financeiramente, com certeza como uma bela experiência de vida. Os quadrinhos foram a ferramenta de abertura para toda minha vida profissional, o início de boas amizades, que perduram até hoje.

Quando comecei,era jovem e pouco sabia da vida. Os quadrinhos foram o início de tudo. Posso dizer que toda minha vida foi determinada em função dêles.

o!

-Valeu, Saidenberg! Verdadeira lição de vida.