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Entrevistas / Interviews
por Jose Carlos Neves
Quando
comecei a ler Quadrinhos, na década de 70, acredito que, como a maioria dos
aficionados, foi mesmo com os super-herois e outras produções
norte-americanas, que nos chegavam através da saudosa EBAL dos Irmãos Aizen.
Mas
a persistência, principalmente para quem tinha um interesse também em nível
de desenho, de pesquisa histórico-documental, no “making of” em
suma, levou-me depois a procurar por produções tupiniquins.
Foi
quando conheci a passei a colecionar algumas revistas das editoras Taika,
Outubro, Edrel...; a buscar avidamente livros técnicos, principalmente os
verdadeiros compendios assinados pelo saudoso
Jayme Cortez – “Mestres da Ilustração” e o seminal “ A Técnica do
Desenho”, cujo anuncio, quando vi pela primeira vez junto ao cupon de pedido a
uma certa Roval Editora, me causou um frenesi raramente igualado.
Revistas
como Combate, da Taika, traziam estórias de guerra magistralmente
desenhadas por Ignácio Justo, Cocolete, Salatiel de Holanda, Waldir Igayara e,
Luiz Saidenberg - na foto, com Laika -
, um monumento vivo da nossa Nona Arte.
Irmão
do Ivan, antigo roteirista da Disney para a Abril, hoje residindo em Israel,
Luiz desenhou os mais diversos gêneros, sempre no estilo clássico que
marcou a gênese dos comics, artefinalizado a pincel numa mescla dos
estilos de Alex Raymond, Harold Foster, John Buscema e outros.
Com
o falecimento dêle, em 55,viemos,minha mãe,meu irmão e eu para São Paulo.
Estou
casado,desde 76, com Márcia Regina.Temos dois filhos,Carolina e André,de 26 e
24 anos.

Meu
interêsse por HQ iniciou-se na infância, como quase todo mundo.Mas desenhava
antes disso, aos dois anos rabiscava livros, paredes e todo papel que me viesse
ás mãos.Meu pai começou a trazer,semanalmente,as
revistas da época,
Gibí, Gurí, Vida Infantil e Juvenil, Gazetinha, Globo Juvenil e outras. Mais
tarde entraram as Disney,da Abril. Aprendi a ler muito cêdo, práticamente
sozinho.Então aos 7 anos já tinh
-O
gaúcho Oscar Kern, autor do primeiro fanzine brasileiro, o Historieta,
revelou me que os Quadrinhos
chegam a ser um vicio físico, que adorava sentir o cheiro novo das revistas das
EBAL que embalou tantos de nossos sonhos da infância. Eu também fui um
“viciado”, de colecionar as famosas “Noticias em Quadrinhos”,o“ABC das
Historias em Quadrinhos” ,”Cronologia HQ” e as “Cartas dos
Leitores”.Você teve algum contato com algum dos irmaos-Aizen,
diretores-proprietarios da EBAL?
Fora
as leituras de suas revistas, nunca tive contato com Aizen.
Encontro em Mongaguá: Luscar, Colin, eu, Pereira , Shimamoto, Hamasaki e outro
amigo.1994.
-Você
acompanhou a saga do “primeiro herói brasileiro (da Ebal)”, O Judoka,
principalmente naqueles antológicos 3 numeros desenhados por um tal de FHAF –
Floriano Hermeto de Almeida Filho, um arquiteto que amava os Quadrinhos e o
estilo de decupagem cinematografica do falecido italiano Guido “Valentina”
Crepax?
Não,
não acompanhei "Judoka". Se êle se inspirava em Valentina,de Crepax,situava-se
nos anos 70. Eu estava profundamente envolvido com publicidade e não fazia mais
quadrinhos.
-E
aquele concurso promovido pela Ebal, de uma edição de Quadrinhos para
comemorar o “sesquicentenário de nossa Independência”, que resultou numa
primorosa edição com desenhos barrocos de Luiz Antonio Novelli? Sabe do
paradeiro também desse artista?
Mike Deodato é um grande
desenhista, talento já consagrado e dispensa maiores elogios. Apenas gostaria
de vê-lo desenhando mais outros
temas, que não super-heróis. Mas sei que o mercado brasileiro é mesmo
complicado.
Conheci,
e bem, quase todos os participantes da Editôra Outubro, de Jayme Cortez e
Miguel Penteado.
Com
Lyrio Aragão, Igayara e Shimamoto, participei de
um estúdio no Prédio Martinelli, e nos tornamos grandes amigos. Mais
tarde esse estúdio seria a base para o nosso movimento de nacionalização dos
quadrinhos,em 61. Quase deu certo, Jânio renunciou poucos dias após a aprovação
do projeto. O restante da turma, Izomar, Justo, Getúlio Delphim, Gedeone, Zezo,
Malone, Lanzelotti, Scudellari, Nico Rosso e outros, víamos mais em dias de
pagamento e entrega de trabalhos.
(Eu e Lyrio Aragão,no canto direito.Estúdio da Alcântara Machado
Mas
existia um elo, um espírito de equipe, que se mantém ainda entre os
remanescentes do grupo.
Walmir
Amaral, não sei porque, não conheci pessoalmente. E Colin, Álvaro de Moya,
Edmundo Rodrigues e Salatiel vim a conhecer anos depois,em circunstâncias que não
as de quadrinhos.
-E a “geração Vecchi/Grafipar? (Franco,
Rodval Matias, Mozart
Couto, Watson Portela, Olendino e tantos outros)?
Trabalhei
para a Grafipar nos anos de 78 e 79, por recomendação e incentivo do Shima.
Mas a séde era no Paraná, não conheci pessoalmente nem Mozart, nem Watson,
nem Rodval .Conheci o Ota, mas creio que não cheguei a desenhar para a
Vecchi. Tornei-me amigo do Olendino recentemente, por e-mail. É um talento notável.
-Como
se iniciou profissionalmente no gênero e qual foi sua primeira atividade?
Comecei
a trabalhar ,já em desenho, aos 17 anos .Estive por um mês numa pequena agência
de propaganda , a London Publicidade, sem nada receber. Puxei então o carro, e
o emprêgo seguinte foi numa fábrica de flâmulas, a Tur-Art. Trabalhei
também num pequeno estúdio de desenhos animados, e meu desenho chegou
a ir pro ar.
Então
Almir Bortolassi, que fazia
quadrinhos para a Outubro e era aluno, num curso , de Francisco Rafaelli, dono
da Tur-Art, apresentou-me ao Cortez. Tive sorte e fui aceito
imediatamente.
-Em
termos de aprendizado na arte do desenho, você e´ um autodidata ou freqüentou
escolas, cursos técnicos ou outros? (de minha parte posso dizer que, morando no
interior, no pré-historico “periodo-pre-intenet”, só me restava procurar
os dificílimos livros como os já
mencionados, tentar cursos-por-correspondência como os do IUB, Ensino Tecnico
Paulisa e, principalmente, da famosa Escola Panamericana de Arte, alem de copiar
e copiar os grandes...)
Quadro para storyboard de
filme publicitário
Em
desenho sempre fui autodidata. Concluí o curso colegial, na época chamado de
"científico" á noite, pois já trabalhava de dia. Fiz depois vários
cursos, mas nenhum de desenho ou pintura.
-No
desenho anatômico, principalmente, você utiliza muito referencias fotográficas
e/ou modelos vivos?
Para
desenhar uso em grande parte a imaginação.Uso mais as fotos para dar unidade
aos rostos, e poucas vezes trabalhei com modêlos.É pena!
--Antes de
prosseguirmos sobre seu trabalho, voce sabe que neste site, tudo
praticamente
gira em torno do cultuado autor e roteirista ingles Alan Moore. Que ele foi o
criador da obra From Hell , para os
Quadrinhos, depois desperdiçada por
Hollywood. E que ele,” para vencer a crise existencial dos 40 anos”,
resolveu se tornar um mago. Estudou muito Aleister Crowley, Austin Osman Spare,
participou de experiências e acontecimentos no mínimo “fora-do-script”, como ele gosta de descreve-los. Voce
acredita na Magia, na Kabala e outros desdobramentos, ou tenta também - como o James
Randi tupiniquim, Padre Oscar Quevedo - "explicar tudo à luz da
Parapsicologia" ?
Não
creio em magia ,pelo menos não na forma popularizada: ervas, poções, maldições,
encantamentos, bruxas wicca, rituais druidas,
elfos etc. Acho tudo isso uma bobagem folclórica, mas acho que o ser humano tem
outros poderes e dimensões desconhecidas, além dos 5 sentidos. Tive experiências
curiosas em minha vida, mas quem não as teve? Acho que parapsicologia é apenas
um rótulo,para dar a impressão que temos algum contrôle sôbre fenômenos
totalmente inexplicáves, ao menos para nossa inteligência atual
-Quando foi seu
primeiro contato com o trabalho de Alan Moore e
qual obra lhe causou algum impacto especial?
Meu
contato com Alan Moore foi chocante, com a série Watchmen. Era o fim dos anos
80 e as graphic novels explodiam nas bancas , dando um outro formato e novo ânimo
ás histórias em quadrinhos. Então vi Watchmen, A Piada Mortal, Elektra
e outras magníficas publicações. Eu trabalhava em publicidade, fiquei
tão entusiasmado que voltei a fazer umas experiências com HQ,que, na época, não
deram em nada.
Acho
Watchmen a melhor coisa que Moore já fez. É verdade que ali ocorre uma bela
conjunção de texto e desenho. A arte de Dave Gibbons ajudou em muito, no
conjunto da obra. Acho isto muito importante, se um trabalho não sobrevive só
pelo desenho atualmente, também o texto isolado, com uma arte deficiente, fica
muito prejudicado. E Alan Moore ali dá um show de renovação no campo dos
super-heróis, mostrando-os com todas as fraquezas humanas. Para mim marca o fim
do herói idealizado, perfeito casto e invencível.
-O que acha da imberbe Teoria do Caos, com seus Fractais
e o popular "efeito borboleta"?
BIg
Numbers, Teoria do Caos, fractais? Infelizmente, não li nada sôbre isto.
Talvez
(nem sei se isto tem alguma relação com o caso) por eu sempre ter detestado as
Ciências Exatas. Sempre fui fã das Humanas (desculpe o duplo sentido) e sempre
em tudo procuro traços de
humanidade, não de abstração. Mas talvez essas teorias sejam mais voltadas á
fantasia, e não á ciência, então devem ser mais interessantes.
Mas acho que Moore tem razão ,um espirro
que damos aqui é percebido
na China, tudo se interliga por auras,
ondas eletro magnéticas e sei mais lá o quê.
Se se ligarem com um milímetro de
diferença, a história será totalmente diferente. Num plano maior,galáxias se
chocam e expandem,seus fragmentos
voam pelo infinito, como espermatozoides capazes
de gerar vida,em muitos lugares. O Caos está vivo a pulsa de
inúmeras possibilidades.Está respondida a pergunta?
Mas
não precisamos ir tão longe, para sentir a relatividade do tempo. Basta
estarmos num lugar totalmente novo
e interessante para sentirmos o tempo de forma diferente .Dez minutos parecem
uma hora, um dia vira uma semana. É a nossa consciência alerta, como de uma
criança vendo o mundo pela primeira vez.
E
ao passo que envelheço, sinto os anos correndo mais rápidos. Os gregos
chamavam o tempo de Crhonos, e o imaginavam devorando seus filhos, nós humanos.
Creio que o tempo nasceu com o universo, e o acompanha em sua louca expansão,
rumo a dimensões desconhecidas.
-Bela resposta! Qual dos
trabalhos que tem visto atualmente – HQs, ilustrações, esculturas,
maquetes, etc – que julga
pelo menos promissor?
Sempre
procuro acompanhar as boas exposições de arte, adoro escultura ,desde que
tenha expressão poderosa e dinâmica,
desde Rodin a Henry Moore. Nos quadrinhos tenho gostado do trabalho de Marcello
Quintanilha ,Fábio Moon e Gabriel Bá. São muito promissores .Mutarelli também
melhora,de quadro a quadro.
Nos
que fazem heróis pra fora deve ter muita gente boa, mas os nomes se perdem na
pasteurização da obra.
-Voce acha que ainda
existe espaço para super-herois “bombados” nos Quadrinhos ou os mesmos são
so mesmo “para crianças”?
Os
super heróis fazem mais sentido para nossos irmãos do norte, poderosos donos
do mundo.
Aqui,
temos é sub heróis. Aliás, os
verdadeiros heróis dos quadrinhos brasileiros são seus próprios autores!
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document.write(barra);
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Brincadeiras
á parte, acho que super herói é coisa de adolescente. A não ser que, como em
Watchmen e Mad, haja na coisa um espírito crítico. E agora
estão conseguindo um bom espaço no cinema, com seus super-
Nunca
sofri nenhuma discriminação por ter feito quadrinhos, mesmo durante a ditadura
militar. E olhem que , nessa época, eu trabalhei em agências multinacionais,
isto depois de ter participado do movimento pela nacionalização dos
quadrinhos.
-E o seu irmão, o não
menos conhecido Ivan, o que faz hoje em Israel? Abandonou de vez os Quadrinhos?
Meu
irmão Ivan mora,já há 15 anos, em Israel. Quando saiu daqui não tinha
nenhuma perspectiva de novos trabalhos. Foi para lá tentar editar, escrever e
desenhar, mas encontrou um panorama bem pior que o nosso, totalmente
dominado pelas publicações americanas. Depois de dedicar-se a várias
atividades, aposentou-se e agora pensa em retornar ao Brasil.
-Os roteiros dele eram
detalhados, para instruir ao
desenhista sem deixar margens para “erros”, ou eram apenas scripts curtos?
Teria ainda uma “amostra” para nos enviar? (seria um verdadeiro documento
histórico a figurar na seção própria aqui do
site!)
Os
roteiros dêle sempre foram bem detalhados, ás vezes com desenhos esboçados,
para melhor compreensão do desenhista. Não tenho, de momento, nenhum exemplo.
(Previews de
"Masamune2".
-Pena, pois parecem-se
com a forma de roteirizaçao do velho Moore. Voce ainda tem coleção de antigos
gibis? Qual ou quais considera seus maiores tesouros e porque?
Tenho
alguns gibís antigos, mas muita coisa se perdeu, com as mudanças na minha
vida. Tenho algumas cópias de trabalhos meus, da Editôra Outubro, enviadas por
Shima e Olendino. Do tempo da Grafipar tenho os originais. Recentecemente, o
amigo Canini deu-me um exemplar de "A História do Cooperativismo"(1962),que
eu havia feito em Porto Alegre. O melhor de meus arquivos são os maravilhosos
álbuns do Flash Gordon de Raymond, publicados pela EBAL. Parece que a Ópera
Graphica vai reeditá-los em breve.
-Nesta biblioteca tem
também livros sobre Quadrinhos? Quais os mais interessantes e seus autores
Tenho
alguns livros de HQ, muita coisa ficou pela vida. De Álvaro de Moya, os antológicos
Shazam;
Anos
50, 50 anos ; Literatura em Quadrinhos no Brasil, de Moya, Cyrne, Ota e Naumin
Aizen. Little Nemo, de Windsor Mc.Kay; com muito carinho ,o "A Técnica do
Desenho", de Jayme Cortez, verdadeiro retrato
Acabei de terminar a segunda
parte de "Na Trilha de Masamune", história de samurai que se estende
á Espanha do século dezessete. Então, neste ano ,pretendo vê-la publicada.
Ainda não sei o que fazer depois no Brasil é
-Tenho
acompanhado Masamune, pois sou apaixonado pela cultura japonesa, seu folclore de
samurais e ninjas, xoguns e que tais. Acabei, inclusive, de ler justamente agora
os dois calhamaços de quase 1.000 paginas cada, Musashi, do Eiji
Yoshikawa (Estação Liberdade), o “Jorge Amado do Japão “.
Do que você já fez, o que você considera o seu melhor trabalho e
porque?
Meu
melhor trabalho é sempre o último já feito. Sou muito crítico comigo mesmo,
o que fiz ontem e estava achando bom , hoje já parece fraco. Isto é positivo,
sinal de que continuo aprendendo.
-Quais
foram os eventos mais importantes que já ocorreram em sua vida?
Na
minha vida, meu casamento e o nascimento de meus filhos. Em quadrinhos, marco
como extraordinários meu início na Outubro, o movimento de nacionalização, o
Prêmio Ângelo Agostini que recebi em 2002, sinal de que não me haviam
esquecido , e a volta ás HQ com "Masamune
-E
atualmente, o que lhe e´ realmente imprescindível, seminal?
Imprescindível
é não perder a velha chama , não se abater pelos percalços do mercado.
Como diz a doutrina Zen, talvez seja mais importante o caminho percorrido
que o resultado final, que muitas vezes não depende de nós .E tentar viver
cada instante da vida, com a mesma paixão.
-O
que você acha que acontece com a consciência após a morte?
Acho
que a consciência se esvai com a
morte, desaparece para dar lugar ao novo. Nossa imortalidade é assegurada pelos
nossos filhos.
-Voce
acha que a “sede” do nosso “espírito” – ou essência, ou anima, o
nome que se dê - se encontra na mente? Ou tudo não passa de um aperfeiçoamento
fantástico de uma verdadeira “maquina orgânica” com seus ilimitados neurônios
e suas ligações sinápticas?
Não
creio que a "anima" esteja apenas na mente. Está em todo o nosso
corpo, e ainda além.
Temos
interações eletromagnéticas com os outros e todo o universo .Não somos
entidades isoladas, tudo é interdependente.
E temos ainda outras ligações,
ás vezes totalmente inexplicadas
-O que você acha que
é a consciência em si?
A
consciência talvez seja nossa mente alerta, em algum lugar do cérebro
,recebendo informações do corpo todo
e do meio ambiente. Como um radar, sondando o espaço infinito e o próprio
centro da Terra.
-Voce sempre batalhou
arduamente por um autêntico Quadrinho nacional. Ele existe?
Quadrinho
nacional?
Existe, graças
aos esforços de alguns abnegados. Mas é um campo minado, nem tanto para os
desenhistas cômicos, como Ziraldo, Maurício, Angeli, Laerte, Fernando Gonzales.
Estes se consagraram com tiras diárias, em sua maioria; vendem bem , então são"publicáveis".
Mas se vamos para um estilo mais realista, o ar fica rarefeito, as oportunidades
escasseiam e ainda mais o dinheiro. Então vemos o Shimamoto, Mozart, Watson,
Mutarelli, lutando uma batalha desigual e injusta com os heróis americanos.
Também o grande Colin, que morreu
com problemas financeiros. Pra piorar, temos a onda dos mangás, uma verdadeira
"tsunami", varrendo nossas praias e o interior. Além dos mangás
japoneses, temos mangazeiros nacionais no Piauí, em Goias. "Escolas de
mangá"em toda parte. Espero que seja uma onda passageira e logo desapareça.
Era só o que faltava!
-O que você acha que
dificulta para o quadrinista brasileiro sobreviver de sua arte? Falta de talento
ou de mercado?
Talento
não falta, no Brasil. Para o mercado melhorar, talvez só mesmo uma lei de
obrigatoriedade para uma pequena porcentagem de material nacional . Foi o que
tentamos no governo Jãnio. Quase deu certo.
Talvez
seja o momento de retomar esta bandeira, já que temos um governo dito
"nacionalista"
De
contrário,como vencer a esmagadora concorrência estrangeira? Se somos bons ,
temos demostrar isto.
-
Você acha que o nosso artista
“se vende” quando passa a publicar no Exterior, nos EUA principalmente,
adequando-se ao estilo e mudando até mesmo de nome?
Não,
não acho que estejam vendendo sua alma. É um trabalho como qualquer outro, há
um mercado, encomendas, corre dinheiro. E aqui, no Brasil, não. Então, acho
que os "Joe","Bob" e "Luke" estão certos, apenas
acho que não deveriam ficar só nisto e sim
fazer, mesmo nas horas vagas, um trabalho mais pessoal, voltado ás nossas
coisas, se possível.
-Quais
dos nossos autores você julga mais em condições de produzir uma obra de fôlego?
Creio
que todos que já citei poderiam fazer trabalhos de longo curso, e alguns já o
fizeram.
-Como o leitor
interessado pode adquirir seus Quadrinhos e livros, quais os que estão disponíveis?
"Na
Trilha de Masamune" pode ser comprada nas livrarias e bancas conveniadas á
Livraria Comix e, felizmente, agora também na Livraria Cultura.
-Quais sites da web
você visita com freqüência?
Tenho
visto os sites UniversoHQ, o mais completo; o www.teorletal.hpg.ig.com.br,
do Olendino, brilhante e voltado mais aos quadrinhos nostálgicos dos anos 60;
o rico alanmooresenhordocaos; o
Omelete e outros.
-Qual foi a experiência
mais louca que você já experimentou na vida?
Tive,
coincidências ou não, experiências de transmissão de pensamento. Uma vez até
consegui um bom emprêgo
assim, eu estava pensando obssessivamente nos caras e
êles me chamaram. Tiveram de me procurar, nem sabiam em que agência eu estava.
Bom,não? Se a vida fôsse sempre
assim...
-Qual foi o sonho mais
louco que você já teve?
Sonho
raramente, mas quando sonho é pra valer. Fantasia mistura-se com
realidade, falo em línguas estrangeiras. Há muitos anos atrás, estava
em situação complicada, profissional e emocionalmente.
Sonhei
então que flutuava no espaço escuro, até encontrar uma nave, também
negra,silenciosamente orbitando algum planeta. Deslizei para dentro da cabine,
era escura, cheia de instrumentos, e apertada, se ajustava a mim como uma
segunda pele, até me identificar
mesmo com a própria nave. E pior, se eu fizesse um movimento em falso, ou
apertasse um botão errado, tudo explodiria. Quase fiz uma HQ , com esse tema.
- Militando há tanto
tempo “no ramo” você pode dizer que valeu – ou vale – a pena?
Com
certeza. Se não financeiramente, com certeza como uma bela experiência de
vida. Os quadrinhos foram a ferramenta de abertura para toda minha vida
profissional, o início de boas amizades, que perduram até hoje.
Quando
comecei,era jovem e pouco sabia da vida. Os quadrinhos foram o início de tudo.
Posso dizer que toda minha vida foi determinada em função dêles.
o!
-Valeu, Saidenberg! Verdadeira lição de vida.