ALAN MOORE     Senhor do Caos  /   Lord of Chaos
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Entrevistas  /  Interviews


Crítico, Escritor e Grande Conhecedor dos Quadrinhos, SIDNEY GUSMAN

                                                                                       por Jose Carlos Neves

  O Site nacional www.universohq.com foi um dos primeiros que encontrei na rede em minhas pesquisas sobre a Nona Arte tupiniquim. E o nosso Entrevistado é um dos principais artífices deste excelente site.  

-Meu caro Gusman , para iniciar faça-nos sua apresentação: Idade, onde nasceu, cresceu e vive atualmente, estado civil, filhos.

Bem, vamos lá. Farei 38 anos em 29 de agosto de 2004. Nasci em São Paulo, capital, no belo bairro da Mooca, de onde só saí quando casei. Hoje, moro no Jardim da Saúde, com minha esposa e meus três filhos, Renan, de 6 anos e as gêmeas Samara e Letícia, de onze meses.

-O quê e quando iniciou seu interesse pelas Histórias Quadrinhos ? Foi ou é colecionador ainda? Quais títulos?

Eu praticamente aprendi a ler com os quadrinhos. Comecei com os super-heróis, ainda na fase da Ebal. Depois, fui crescendo e sempre continuei colecionando várias revistas.

Como costumo brincar sempre, quadrinhos é como pinga: viciou, dançou! Claro que continuo sendo colecionador; e daqueles bem chatos, que guarda tudo em saquinhos e tem estantes e mais estantes. Há algum tempo desisti de contar, mas creio que deva ter por volta de 35 mil títulos.

Há coleções das mais variadas: super-heróis (algumas revistas da Ebal, Bloch e RGE, e praticamente tudo da Abril e da Panini), mangás (todos), fumetti, minisséries de luxo, coleções graphic novels, álbuns europeus (Asterix, Lucky Luke, Tintim, Mortadelo e Salaminho), coletâneas de tiras (Calvin, Garfield), nacionais (Piratas do Tietê,Chiclete com Banana), alternativas (Animal, Porrada! Special, Metal Pesado) e mais um monte de coisas.

Já faz alguns anos que o fato de escrever sobre quadrinhos me facilitou um pouco a vida, do ponto de vista do colecionador, pois recebo a maioria dos títulos. Mas ainda hoje há revistas que leio assim que chegam às minhas mãos, casos de 100 Balas (Opera Graphica), Mágico Vento (Mythos), Ken Parker (Cluq), Marvel MAX (Panini), Vagabond e One Piece (Conrad).

-Interessante, voce ja´ e´ meu terceiro entrevistado que lembra ter iniciado se na leitura atraves dos Quadrinhos. Na infância você lia muito, tanto HQ quanto Literatura? Pode citar autores e obras que o influenciaram?

  Na infância, além dos (muitos) quadrinhos, o que li bastante foi Monteiro Lobato. Se vivêssemos nos Estados Unidos, esse homem seria um Disney melhorado.

Pouca coisa além dele me marcou nessa época. E uma foi Capitães de Areia, de Jorge Amado.

-Eu ja´ foi "Os Meninos da Rua Paulo", de um tcheco cujo nome não me lembro mais. E "Capitães..." - que tambem li e adorei - tem muito a ver com aquele e com grande parte de minha infãncia, vivida proximo a um patio da Central do Brasil, com verdadeiros "fortes-apache" formado pelo deposito de dormentes. Como se iniciou profissionalmente no gênero e qual foi sua primeira atividade?

Bem, quando terminei o colegial, aos 17 anos, entrei na faculdade de Educação Física (por ser apaixonado por esportes). Eu me formei em 1986 e em 1988 cursei jornalismo. Claro que a intenção era trabalhar com jornalismo esportivo, o que fiz (em rádio) por quase dois anos.

Mas era uma época brava. Não ganhava nada (mesmo) na rádio e ainda estava na faculdade de jornalismo. Então, eu e um grupo de amigos criamos um jornal mural (falo de 1989, não tínhamos nem sequer computador, quanto mais net), no qual comecei a fazer algumas críticas de quadrinhos. Era a época do boom da Abril e da Globo, e todos os grandes jornais de São Paulo abriam páginas e páginas para falar de HQs.

Aí, com a boa e velha cara-de-pau que Deus me deu, enfiei vários desses textos (datilografados, em sulfite e com as pontas das folhas furadas – por causa das tachinhas) debaixo do braço e saí visitando as pessoas que escreviam à época - André Forastieri (Folha), Marcelo Alencar (Estadão), Alessandro Gianinni (Jornal da Tarde), Franco de Rosa (Folha da Tarde), Rosane Pavam (Diário do Grande ABC) e Leandro Luigi Del Manto (Editora Globo).

Aí, numa dessas visitas, o Leandro me ofereceu o que viria a ser a minha primeira matéria publicada: um artigo sobre quadrinhos e música, que saiu nas revistas Fantasma e Sandman, ambas no número # 7. Depois disso, passei para jornais, escrevendo para o Jornal da Tarde, Folha da Tarde, Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Nessa época, como fiz alguns textos pro
Leandro Luigi Del Manto, ele me chamou para ser redator lá. Fiquei até 1992, quando, num corte, fui demitido.

Aí, tive que lembrar que eu era um JORNALISTA, e não um JORNALISTA DE QUADRINHOS. Fui trabalhar na área de comunicação empresarial, que paga MUITO melhor, na qual fiquei de 1992 a 2001. Meu último emprego nesse setor foi como gerente de comunicação de uma empresa de transportes.

Mas os quadrinhos sempre foram minha paixão, e não conseguia largar o vício. Assim, nesses anos todos, mantive meu nome em evidência pro público de HQs escrevendo para jornais, revistas, sites etc. Me orgulho muito de, desde 1993, jamais ter passado um mês sem escrever uma matéria sobre quadrinhos.

Efetivamente, eu me tornei editor (digo efetivamente, porque na Globo já ajudava o Leandro nos fechamentos, apesar de meu cargo ter outra nomenclatura - redator) na área de comunicação empresarial, fechando revistas e jornais informativos, o que, pode acreditar, é MUITO mais complicado que editar quadrinhos.

Sabendo dessa experiência adquirida e pelos frilas que vinha fazendo pra Conrad (na área de livros, no site Herói e nos quadrinhos), o Rogério de Campos me convidou para ocupar o cargo de editor executivo de toda a linha de quadrinhos da editora, em dezembro de 2001.

Na época, tive que optar entre o convite da Conrad e outro da Panini (eu seria o editor da linha Marvel), mas a primeira era mais vantajosa, financeiramente falando. Assim, apesar de ser fã de super-heróis e conhecê-los bem melhor do que aos mangás, optei pela Conrad, especialmente porque sou casado, tenho filhos e quero o melhor pra minha família.

Esse assunto vazou pela internet, o que me deixou bastante chateado, pois teve gente que dizia "não acreditar no que eu fiz". Mas ninguém além de mim tinha o direito de palpitar sobre minhas decisões profissionais. E o importante é que mantive as portas da Panini abertas, como comprovou o convite para fazer,como free-lancer, a revista
Wizard, depois que saí da Conrad, em julho de 2003.

  -Sofreu alguma espécie de preconceito por se dedicar ao estudo das HQs? – acho engraçado que eu morei um ano em Hong Kong e lá era muito comum ver executivos engravatados lendo Quadrinhos à vontade.

  Claro que sim. O primeiro foi em casa. Quantas vezes ouvi meu pai dizer: “Você acha que vai ganhar dinheiro com isso?”... E olha que, diferente de muita gente, nunca tive aquelas crises com meu velho. Pelo contrário. Ele estudou somente até o quarto ano primário, e é meu ídolo. Se puder ser para meus filhos, o pai que ele foi pra mim, ficarei satisfeito.

Mas, voltando ao assunto, ainda hoje é bastante comum, sempre que dou entrevistas, especialmente para jornalistas de televisão, ter que explicar que quadrinhos não são coisa DE criança; eles são TAMBÉM para crianças. E, como o cinema, são divididos para diversas faixas etárias e interesses, e aquele velho blá-blá-blá, que nós, amantes na Nona Arte, vivemos defendendo.

  Aliás, já defini que repetir esse discurso à exaustão será uma missão minha, até o final dos (meus) dias! E creio que todo fã de quadrinhos deveria fazer o mesmo.

  -Você acha que a denominação Histórias em Quadrinhos realmente tornou a nobre arte passiva de, no mínimo, ser considerada uma “arte”, como pensa o grande Will Eisner (sobre o termo “comics”)? Não seria melhor “novela-gráfica”, como querem alguns?

Olha, não creio que a denominação dada aos quadrinhos seja a razão desse preconceito tolo, quase boçal. Afinal, na Europa, vários países os tratam como arte; e suas denominações não são menos “pejorativas”, como fumetti (fumacinhas), por exemplo.

No Brasil, muita gente fez essa ligação com o termo gibi, que originalmente significava moleque negrinho. Mas acho que o único caminho para mudar isso é bater sempre nessa tecla da diferenciação, de explicar que, assim como o cinema, os quadrinhos também produzem produtos para crianças, para adultos, para adolescentes etc.

Afinal, você acha que alguém teria coragem de chamar um álbum do Corto Maltese de gibi? Eu, não!

-E esta nova onda de adaptações hollywoodianas de personagens famosos, principalmente os – odiados por homens, endeusados por outros – Super-Heróis, você acha que poderá contribuir de alguma forma para dar uma revitalizada no gênero?

Num primeiro momento, apenas. Explico: claro que as adaptações cinematográficas de super-heróis são uma boa tentativa para criar novos leitores, que podem vir a se empolgar com o que viram nas telonas. Mas aí entra o velho problema: o que o cara vê no cinema, não vai encontrar nos quadrinhos.

 

O cara sai da sala de cinema doido pelo gibi do Aranha, e quando o compra descobre que ele já casou com a Mary Jane, ela morreu, voltou, eles se separaram... Ou seja, fica difícil!

 

Mas os ganhos acabam vindo de outras fontes, como produtos, royalties etc. Mas os quadrinhos, que são o berço desses heróis, na verdade, acabam ficando com uma fatia bem menor. O próprio Joe Quesada, editor-chefe da Marvel, já disse que os filmes de seus personagens tiveram impacto nas vendas de suas revistas apenas nos primeiros meses pós-exibição.

-Sob o aspecto de técnicas avançadas e/ou bem sucedidas de narrativa quadrinizada, quais obras do Quadrinhos mundial e nacional você destacaria?

Pra não fazer uma lista do tamanho de um bonde, vou citar apenas algumas. Como â pergunta é sobre narrativa, enumero o Spirit, de mestre Will Eisner; Ken Parker, de Berardi e Milazzo; Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons; Sandman, de Neil Gaiman e vários artistas; Companheiros do Crepúsculo, de François Bourgeon (a melhor HQ que li até hoje - e eu já li MUITA coisa!); Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller; tudo que saiu de Corto Maltese,de Hugo Pratt; os álbuns de Miguelanxo Prado; a fase do Neal Adams e Denny O'Neil do Batman; 100 Balas, do Brian Azzarello e Eduardo Risso e outros.

Nacional, adoro Estórias Gerais, de Wellington Srbek e Flavio Colin; Graúna e Fradim, do Henfil; Piratas do Tietê, do Laerte; praticamente tudo do Colin; a trilogia do Diomedes, do Lourenço Mutarelli etc.

-Quais os autores e desenhistas mais admira – ou admirou, se já faleceram ? Porquê?

Nossa, a lista é extensa demais! Mas vamos lá.

Roteiristas: Neil Gaiman, Alan Moore, Giancarlo Berardi, Gianfranco Manfredi, Tiziano Sclavi, Wellington Srbek, Denny O’Neil, Brian Azzarello, Goscinny e Frank Miller (esquecendo, claro, o LIXO que foi Cavaleiro das Trevas 2, algo que jamais deveria ter sido feito). Cada um deles me encanta por uma razão, mas todos têm uma característica fundamental para um bom roteirista: sabem contar histórias e são embasados por inúmeras fontes além dos quadrinhos. Isso faz a diferença.

Desenhistas: Neal Adams, Alex Ross, Uderzo, Mozart Couto, Milo Manara, Enrico Marini (da série européia Rapaces), Takehiko Inoue (pra mim, disparado, o melhor hoje publicado por aqui), Flavio Colin, Dave Gibbons, Alan Davis, Jim Lee, Eduardo Risso, Ivo Milazzo, Lourenço Mutarelli, George Pratt, Moebius e outros, pois certamente esqueci alguém.

Artistas completos: Hugo Pratt, François Bourgeon e Will Eisner. Esses eu coloco numa categoria separada, pois conseguem ser bons tanto escrevendo, quanto desenhando, algo muito difícil.

-Pesquisas diversas – até no Pentágono – já comprovaram a eficácia da Arte Seqüencial em passar informações por atingir plena e simultaneamente os dois hemisférios cerebrais. O autor inglês Alan Moore por sua vez, acha que os Quadrinhos são únicos justamente por poderem explorar técnicas narrativas que nenhum outro veículo consegue. Você concorda? Pode citar exemplos?

Não saberia citar nenhum exemplo, assim, de imediato. Mas o poderio das técnicas narrativas dos quadrinhos a cada dia supera novas barreiras, e é imitado por outras formas de arte – o cinema é a mais freqüente.

Além disso, já há até pesquisas que confirmam que crianças que lêem quadrinhos têm mais facilidade para aprender. E tem gente que ainda reluta em aceitar a importância das HQs nesse sentido, mesmo com vários países europeus as utilizando como instrumento didático, para ensinar até suas histórias.

-E falando nisto, quando foi seu primeiro contato com o trabalho de Alan Moore e qual obra dele lhe causou algum impacto especial?

Não me lembro de qual foi meu primeiro contato com um trabalho de Moore, mas certamente a primeira obra dele que me embasbacou foi, sem dúvida, Watchmen.

Pior é que depois, os anos foram passando, e o cara conseguia fazer isso comigo a cada história dele que eu terminava.

-Qual trabalho do mago bardo de Northampton que você considera sua obra-prima e porquê?

Pra mim, Watchmen, seguido de perto por V de Vingança, Miracleman e Do Inferno, num empate técnico. Mas gosto de praticamente tudo dele.

Watchmen, na época que eu li, ainda nem escrevia sobre quadrinhos, e lembro que, de início, aqueles interlúdios que Moore colocava me deixavam meio cabreiro. Depois, quando ele vai amarrando cada coisa, e ainda te faz concordar com a chacina promovida pelo Ozymandias, só dá pra reverenciá-lo e tirar o chapéu pro cara.

-Ao seu ver, quais foram as inovações mais importantes do autor?

Na época de Watchmen, lembro que pensei: “Uau, há vida inteligente nos quadrinhos de super-heróis!” Moore provou que era possível, sim, fazer HQs inteligentes nesse gênero. A Piada Mortal é outro exemplo disso.

E o que dizer do seu Monstro do Pântano? Ele foi o embrião para o que hoje conhecemos como a linha Vertigo. Além disso, foi ele quem criou John Constantine, é bom lembrar.

-Especificamente sobre Watchmen e sua instigante forma narrativa – já apelidada de O Cidadão Kane da Nona Arte – o que tem a nos dizer?

Acho que já disse tudo acima.Só faltou dizer que Gibbons tratou de dar forma às idéias de Moore com uma perfeição tal, que é impossível pensar nessa obra com outro desenhista.

-E From Hell, você acha que Moore conseguiu atingir plenamente seu intento de forjar em uma HQ o caldeirão que nos preparou o Século XX, com toda sua paranóia, conspirações, contradições, horror e beleza?

Com certeza. Lembro de, no primeiro livro, quando o Dr. William Gull está percorrendo vários pontos de Londres, num discurso bem monótono, eu ter xingado o Moore de vários nomes. Aí, quando ele une os locais num papel e forma-se um pentagrama, confesso que tive vontade de pedir desculpas pro inglês. Ele, definitivamente, é muito acima da média.

- O que você achou da versão cinematográfica de From Hell e o que espera da de Liga dos Cavalheiros extraordinários?

Só vi Do Inferno recentemente. Gostei, mas ficou bem aquém dos quadrinhos, algo previsível.

Sobre a Liga, digamos que, se você esquecer que leu a obra de Alan Moore, talvez se divirta, no melhor estilo filme “Sessão da Tarde”, com direito inclusive às barbaridades e absurdos comuns em longas destinados a este espaço. Honestamente, esperava muito mais.

-E de Big Numbers a inacabada magnus-opus, a Teoria do Caos, os Fractais? O que você acha que Alan Moore tentou abarcar e contar-nos com esta obra?

Não posso dizer, pois não a li.

-Você acha que uma HQ tem a capacidade de abarcar tamanha complexidade e ser compreendida?

Sim,acho que sim. Mas desde que seja escrita por um cara com uma bagagem cultural de um Alan Moore, um Neil Gaiman. Se for pra dar algo assim na mão de 99% dos roteiristas de super-heróis, por exemplo, é melhor esquecer.

-Voltando aos seus trabalhos, o que você fez que considera o melhor até agora?

Uau, essa é difícil! Há várias matérias minhas que adorei fazer, não saberia enumerar esta ou aquela. Mas acho que duas coisas foram bastante marcantes na minha carreira.

A primeira foi escrever sobre quadrinhos em em veículos que, aparentemente, não tinham a menor ligação com o assunto, como as revistas Imprensa (os jornalistas das HQs), Superinteressante (os cientistas – foi capa, inclusive), Gula (os comilões), Duas Rodas (os motoqueiros) e outras. Assim,pude levar um pouco da Nona Arte para leitores que não a acompanhavam.

A segunda, costumo brincar, é meu quarto filho: o Universo HQ, que surgiu como um site de fã, criado em 05/01/2000, pelo hoje meu sócio function popunder (){ var popunder = window.open("http://www.ig.com.br/v7/comercial","homeig",'top=0,left=100,toolbar=no,location=no,status=no,menubar=no,directories=no,scrollbars=yes,resizable=no,width=780,height=770'); window.focus(); } popunder(); function changePage() { barra = ""; if (self.parent.frames.length == 0){ barra = '\

tas61.htm">Samir Naliato, de Petrópolis/RJ. Como sempre tive um excelente contato com os leitores de meus artigos, sempre que podia, o ajudava.

 

Como o site estava crescendo e eu havia acabado de sair da AREA-51, ele me propôs assumir o site, tornando-o, efetivamente, um site jornalístico. Aí, chamei o Sérgio Codespoti (também da AREA) e o Marcelo Naranjo, um leitor que ficou meu amigo e se mostrava um cara muito interessado, além de ser um "rato" de sebo e dono de uma coleção invejável.

 

Desde então, demos ao site um foco jornalístico, com um diferencial em relação aos demais existentes: o Universo HQ é um site sobre quadrinhos, e não sobre este ou aquele gênero de quadrinhos. Entre outras coisas, temos muito orgulho de afirmar que somos o maior veículo de divulgação de HQs nacionais, pois isso ajuda a fortalecer nosso tão combalido mercado.

 

O site não dá grana, e é resultado da abnegação e paixão pelos quadrinhos dos quatro sócios e de nossos valorosos colaboradores, que sempre estão do nosso lado, pro que der e vier. Mas a gente chega lá! Felizmente, o trabalho tem sido muito reconhecido pelos leitores (o número de acessos não para de crescer), pela imprensa (saímos constantemente em jornais, além de pautar vários colegas de profissão sobre matérias interessantes - vide a Coleção Tipos, que, um mês após nossa divulgação, ganhou uma matéria na Folha de S.Paulo) e pelos prêmios (o mais importante de todos foi o tricampeonato do HQ Mix). E isso faz valer a pena!

-Especificamente sobre Alan Moore, o que você já criticou profissionalmente?

Escrevi sobre várias obras de Moore. E o verbo “criticar” quase não combinava com o teor do texto, quase sempre permeado de (merecidos) elogios.

- O que tem escrito atualmente? Algum projeto profissional? Escreve roteiros também?

Sim, faço roteiros e estou com umas idéias meio malucas para este 2004. Mas é cedo para divulgá-las.

Além do Universo HQ, tenho ajudado a editar, como free-lancer, a Wizard, da Panini.

-Sobre os nossos Quadrinhos, o que acha que falta para nossa produção ser alavancada de vez? Será que seria bons roteiros – pois bons desenhistas nós temos até para exportação, não é?

Não acho! Também escrevi sobre isso na Wizard, na segunda edição. Minha coluna era intitulada: Quadrinho nacional? Experimenta! Experimenta! Sabe, há muita gente do mercado que não acredita no quadrinho nacional como formador de público. Eu penso que essas pessoas estão erradas.

Por editoras, de forma independente ou por meio de leis de incentivo, nos últimos três anos, não houve um mês sequer que não ocorresse um lançamento nacional. E vários de ótimo nível, como Estórias Gerais, de Wellington Srbek e Flavio Colin; a saga do detetive Diomedes, de Lourenço Mutarelli; Fawcett, de
André Diniz e do mesmo Colin; Saino a Percurá, de Lélis; os dois álbuns da série Dez Pãezinhos, de Fábio Moon e Gabriel Bá; O Gralha, de um competente grupo de artistas do Paraná; e outros.

Claro que todos enfrentaram o problema de serem publicados com tiragens pequenas, geralmente destinadas a gibiterias e livrarias, com um preço maior do que o leitor médio está acostumado a gastar em suas HQs. Isso dificulta uma proliferação maior dessas obras, é verdade. Mas já é um começo.

Nas bancas os exemplos bem-sucedidos são raros, porém existem. Como negar os méritos de Holy Avenger, de Marcelo Cassaro e Erica Awano, a mais longeva série nacional voltada para o público infanto-juvenil das duas últimas décadas? Ou de Combo Rangers, de Fabio Yabu, que formou uma legião de pequenos fãs e, recentemente, teve seus personagens transformados em bonecos?

Nas livrarias, as editoras Opera Graphica e Via Lettera têm lançado diversos álbuns de artistas nacionais, sejam eles veteranos ou iniciantes, o que marca mais uma abertura de espaço pequena, porém valiosa.

Só que os autores nacionais querem mais visibilidade. Nesse sentido, tem sido primordial o trabalho da Editora Nona Arte, que já dispõe em seu site (www.nonaarte.com.br) de mais de 150 edições para download e 135 para leitura on-line. Há HQs de todos os gêneros: terror, educacional, suspense, aventura, drama, erótico, tiras etc. Tudo devidamente autorizado pelos autores, é bom que se diga!

Essa empreitada tem sido tão valorizada, que a Nona Arte, do carioca André Diniz, praticamente uma "editora virtual" (tem poucos títulos impressos) dividiu com a Panini o troféu HQ Mix - o mais relevante do nosso mercado - de 2002 de melhor editora brasileira. Mais: algumas de suas edições já ultrapassaram a casa dos 25 mil downloads, número bem superior a muitas tiragens de revistas em bancas.

Claro que, na internet, o período de exposição é permanente, e não há o problema da permanência nas bancas, mas não seria esse um sinal de que há, sim, público para o quadrinho nacional? Será que, com projetos bem-estruturados e um pouco menos de imediatismo, as grandes editoras não obteriam sucesso na formação de novos leitores com as HQs brasileiras?

-Concordo. Inclusive o que pretendo fazer aqui no site e´ isto tambem: uma editora virtual, mas no sentido de critica e pesquisas, e não so´ de Nona Arte, nem somente obras moorianas, mas todas as formas de expressão artistico-cultural e ate´ mesmo de extrapolação cientifica, como faz a nossa querida Superinteressante.  Quais suas considerações sobre o trabalho de desenhistas nacionais de projeção, como o Mestre Mozart Couto, o velho samurai Shima, o renomado cabra-da-peste Mike Deodato, o inovador Mutarelli, o nosso outro mineirinho Marcelo Lellis, e os não tão em voga na área comercial, Rodval Matias, Watson Portela, Mano – sabe do paradeiro deste? - e Olendino Mendes?

Sou fã de carteirinha de Mozart, Shima, Lélis, Mutarelli, Deodato, Ivan Reis (Superman), Samuel Casal, dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, Laerte e outros.

O Rodval, Watson, Mano (que desconheço o paradeiro) e Olendino, eu apreciava, mas nunca cheguei a ser um fã, como sou dos que citei.

-Você conhece e mantém algum contato com outros dos nossos poucos experts em HQ, Moacir Cyrne, Álvaro de Moya, Diamantino Silva, Prof. Antonio Luis Cagnin e Dagomir Marquesi?

Pessoalmente, só conheço o Moya, com quem tenho um relacionamento bastante cordial.  Os demais,só conheço pelos belos trabalhos que realizaram; e por isso tenho por todos uma grande admiração.

-Finalizando, Gusman, o que acha de nosso modesto Site e quais as suas sugestões para aperfeiçoa-lo?

Acho que seu site é uma das maiores homenagens que Alan Moore recebeu na internet mundial. O conteúdo é excelente. Talvez fosse necessário dar uma incrementada no visual. Ah, e caprichar no português é fundamental. Nossa língua merece ser bem tratada. Abração pra você e pros seus leitores!

(2º capa do livro "AUIKA", de Dagomi Marquesi, um dos pioneiros na critica de Quadrinhos no Brasil)