de Francisco
Claudio Barros – JCN )
Depois, ao folhear exemplares das
revistas de RPG, DRAGÃO BRASIL e TORMENTA, do meu filho, descobri que o mesmo
era Editor-Assistente das mesmas.
Mais tarde soube que ele foi o co-criador dos
personagens da HOLY AVENGER, além
de roteirista, DJ, contista e
ex-professor de história em quadrinhos.
Tentei contata-lo
visando conseguir cópias do ensaio original de Moore, mas o site havia
“dado pau” e o máximo que pude fazer foi mencionar o artigo e o Link em meu
primeiro site (www.josecn.hpg.ig.com.br)
. Portanto, é com prazer agora que consigo entrevistar este paulistano que tem
sua “base-de-operação” na Lapa e, segundo sua própria “apresentação”
tem como “Manias estranhas: sair pulando pela sala quando ganha um campeonato
ou gritar palavrões para o computador quando perde (jogando Championship
Manager). Também tem a estranha mania de elaborar planos de conquista mundial sob o pseudônimo de Dr. Careca. “ Vamos lá.
-Trevisan , para iniciar faça-nos
sua apresentação: “J” e “M “de quê ? Idade, onde nasceu e
cresceu, estado civil, filhos, formação acadêmica e profissional.
TREVISAN: Nossa. Quanta coisa! Vamos lá. Meu nome completo é José Mauro
Trevisan por causa do escritor José Mauro de Vasconcelos, do qual meus pais são
fãs (irônico, huh?) e completo 28 anos em janeiro próximo. A abreviação vem
mais por sonoridade do que por qualquer outra coisa. Nasci e cresci no bairro de
Pirituba, em São Paulo, capital. Sou solteiro, formado em Publicidade e
Propaganda pela Faculdade Cásper Líbero, além de ter freqüentado o finado
curso de histórias em quadrinhos do SESC Pompéia durante dois anos.
Profissionalmente trabalho com RPG na editora Talismã (antiga Trama) há cerca
de oito anos. Também publiquei histórias curtas em quadrinhos e uma variedade
de contos, todos nas páginas da revista Dragão Brasil.
-O quê e quando iniciou seu interesse pela Literatura, Quadrinhos e Cultura em
geral?
TREVISAN: Leio desde pequeno, mas me lembro de um ponto crucial que me fez começar
a escrever. Além de adorar quadrinhos, sempre fui incentivado pela escola e por
meus pais. Depois de ler um livro infantil sobre dois coelhos detetives (sou
louco pra lembrar o título e caçar um exemplar!)
resolvi que escreveria minhas próprias histórias. Com 9 anos já
escrevia contos enormes nas aulas de redação. Foi nessa época que escrevi um
conto de pseudo-SCIFI em 42 páginas de caderno, o que impressionou bastante
meus pais e a diretoria da escola (mas não se iludam rapazes: a história era tão
rala quanto piscina de criança em prédio de apartamentos). Desde então não
parei mais.
-Na
infância você lia muito, tanto HQ quanto Literatura mainstream? Pode
citar autores e obras que o influenciaram?
TREVISAN: Cheguei a ter contato com Alice no País das Maravilhas, a versão
original mesmo, quando era bem pequeno. Mas minha primeira autora preferida foi Agatha
Christie. Lia dois livros por semana, no mínimo.
-Como se iniciou profissionalmente no gênero e qual foi
sua primeira atividade?
TREVISAN: Depois do curso do SESC montei um fanzine chamado Zine Insano, do qual
faziam parte alguns amigos (incluindo Evandro Gregório, que hoje desenha para
editoras americanas). Mostrei uma história curta para o Marcelo
Cassaro, editor da Dragão Brasil e ele gostou bastante. Depois disso
“empurrei” um conto chamado
“O Paladino e a Ladra”, que também agradou. À partir daí comecei a fazer
trabalhos freqüentes para a revista até me tornar Editor-Assistente.
-Quando foi seu primeiro contato com o trabalho de Alan Moore e
qual obra lhe causou algum impacto especial?
TREVISAN: Não me lembro bem, mas acho que foi a série Monstro do Pântano. Mas
a primeira a me impressionar foi A Piada Mortal. É uma história simples mas ao
mesmo tempo profunda com personagens que nem sempre são tratados com tanta
maestria. Foi a primeira vez que notei as técnicas de narrativa e estrutura que
viriam a me influenciar tanto.
-Qual trabalho do mago bardo de Northampton que você considera sua obra-prima e
porquê?
TREVISAN: Normalmente eu digo que há um empate técnico entre Watchmen e V de
Vingança. Mas V tem algo a mais pra mim. Em V, Moore ensina política sem que
você perceba que está aprendendo alguma coisa. É anarquia pura. Eu odeio política
e já li a série umas 10 vezes!
-Ao seu ver, quais foram as inovações mais importantes
do autor? Especificamente sobre Watchmen e sua instigante forma narrativa
– já apelidada de O Cidadaõ Kane da Nona Arte – o que tem a nos dizer?
TREVISAN: Watchmen é uma série perfeita. A história, o desenvolvimento dos
personagens, a narrativa. Tudo é extremamente equilibrado e funciona de maneira
impecável. É o tipo de obra que você precisa ler umas 20 vezes para começar
a perceber os pequenos detalhes. Watchmen, como Sandman, cresce e melhora
conforme você vai ficando mais velho: hoje quando a releio sou capaz de
encontrar referências e nuances que não percebi anos atrás. Conseguir isso
numa obra é extremamente difícil.
-E From Hell, você acha que Moore conseguiu atingir plenamente seu
intento de
forjar em uma BD o caldeirão que nos preparou o Século XX, com toda
sua paranóia, conspirações, contradições, horror e beleza?
TREVISAN: Hmm...vou ter que passar essa. Infelizmente
ainda não tive a oportunidade de ler From Hell.
- O que você achou da versão cinematográfica de From
Hell e o que espera da de Liga dos Cavalheiros extraordinários?
TREVISAN: Embora não tenha lido From Hell acho que da
pra opinar. Acho que o que aconteceu com os dois filmes foi algo meio parecido:
alguém da indústria cinematográfica leu as duas séries, gostou da idéia e
teve vontade de fazer filmes com o mesmo conceito. Pra evitar um processo por plágio,
os estúdios resolveram comprar os direitos e, à partir daí, tomar as
liberdades necessárias. Acho que foi isso. Não vi a Liga, mas parece bem claro
pelo trailler que eles sequer tiveram a intenção de fazer algo parecido com a
história contada no quadrinho.
-Ainda a propósito, o que você pensa da Magia?
TREVISAN: Geralmente não costumo tomar posições
absolutas sobre esse tipo de assunto...não posso dizer que acredito totalmente.
Mas também não duvido. Digamos que já tive uma ou outra experiência
razoavelmente mística...
-E de Big Numbers a inacabada magnus-opus,
a Teoria do Caos, os Fractais? Você acha que uma HQ tem a capacidade de abarcar
tamanha complexidade e ser compreendida?
TREVISAN: Acho que sim. O tema é absurdamente interessante. Sempre tive vontade
de escrever algo que englobasse a minha visão da teoria do caos. Sobre atos
pequenos e suas conseqüências em cadeia que vão se multiplicando e aumentando
de intensidade até resultar em algo extremamente distante do evento original.
Quem sabe um dia...
-Já leu alguma obra do filósofo-matemático soviético P.D.Ouspenski ou de seu
mentor, Gurdjief? O que pensa sobre elas?
TREVISAN: Hmmm...não. Tenho sérios problemas com filosofia e matemática. Uma
é pouco prática e a outra muito complexa. Pelo menos para a minha mente simplória.
-Quais
suas considerações sobre o Tempo? Você o pensa como a quarta dimensão do
espaço,como preconizado por Einstein ou tem uma outra visão?
TREVISAN: Vai ser meio complicado explicar...mas para mim o tempo parece uma
coisa maleável, em movimento. É engraçado como às vezes duas coisas que
aconteceram na mesma época parecem ter acontecido em épocas diferentes. Por
exemplo: vejo minha ex-namorada uma vez por ano, mas quando isso acontece parece
que não se passaram dois dias desde a última vez. Ao mesmo tempo sei que me
esqueci de várias pessoas que conheci semana passada. Às vezes o tempo se
embaralha na minha cabeça...talvez cada um perceba o tempo de uma forma
diferente... (eu disse que isso ia ser complicado!:)
-Como você imagina um objeto ( o famoso “Tesserato”) ou ser da 4ª Dimensão
se o mesmo pudesse aparecer em nossa realidade tridimensional?
TREVISAN: Acho difícil até imaginar um ser desses. Fico curioso em saber como
seria...que tipo de percepções teria, que tipo de comportamento. Isso dá o
que pensar.
-Pergunto isto porque, como escritor de RPG e tramas de Magia e Fantasia, você
parece ser um interessado leitor , também, de Filosofia e extrapolações científicas
e esotéricas. Estou certo?
TREVISAN: Pode parecer estranho...mas não. Nunca fui muito teórico. Gosto de
pesquisas, mas apenas como um pequeno ponto de partida. Gosto de fazer minhas próprias
extrapolações científicas e basear minhas histórias em suposições filosóficas
fora do circuito acadêmico. No final das contas, sem querer o que você pensou
de bobeira acaba se encaixando no que um filósofo disse há 50 anos atrás e
você nem sabe disso! É um método caótico, mas é como eu gosto.
-Em termos de Roteiros para Quadrinhos especificamente, qual considera o melhor
que já escreveu e porquê?
TREVISAN: Existe uma história curta de 4 páginas desenhada pelo Gregorio
chamada Happy Hour. Foi publicada numa Dragão Brasil ou Só Aventuras. Não me
lembro exatamente. É uma das minhas favoritas porque escrever um história de 4
páginas é bem difícil. Você tem pouquíssimo espaço para apresentar a
trama, criar empatia com o personagem e fechar o enredo de modo satisfatório.
Acho que em Happy Hour tudo se encaixou perfeitamente. O final sarcástico,
quase trágico caiu como uma luva.
-Como você desenvolve seus roteiros digamos assim, passo-a-passo, para que também
o roteirista amador possa “se situar”nesta questão? E quais recomendações
passaria a um iniciante?
TREVISAN: Sou do tipo que evita se meter no que o desenhista vai fazer. Por isso
evito me envolver na diagramação. Dou poucos detalhes. Em geral descrevo os
personagens e divido a história em “cenas”. À partir dessa descrição o
desenhista tem a liberdade de desenvolver a história como bem entender. Assim,
se o quadrinho envolve um batalha dentro de uma igreja abandonada o que eu faço
é anotar alguma referência do tipo:
“Personagem 1 e 2 brigam dentro de uma igreja abandonada. Vários bancos já
estão revirados, no teto há buracos por onde passam os raios da lua, os
vitrais foram apedrejados há muito tempo e algumas imagens de santos resistem
em seus pedestais como fantasmas rachados.”
À partir daí fica à cargo do desenhista desenvolver as cenas e os ângulos.
Esse é o modo como eu gosto de fazer mas nem sempre é possível Quando há um
número de páginas definido é dever do roteirista fazer essa divisão pra
facilitar o trabalho do ilustrador e ter uma noção de espaço para que a história
não fique corrida ou lenta demais. Ainda estou treinando este método.
Quanto aos iniciantes. O importante é ler. Não só quadrinhos, mas literatura
também. E quando digo literatura não é o que os outros dizem que literatura
é: leia o que te interessar. Eu sou fã de Stephen King
e aprendi a escrever diálogos através dos seus livros, mesmo com os
pseudo-intelectuais metendo o pau nas histórias do cara. Ao mesmo tempo sou
fascinado por Shakespeare. O bom quadrinhista tem que saber absorver o melhor de
tudo: desde o manga até a novela da Globo.
-Sobre leituras específicas, o que já leu e o que recomenda? – digo em
termos de “técnicas de roteirização”, como os conhecidos livros Roteiro,
de nosso Doc Comparato.
TREVISAN: O melhor ate hoje foi On Writing. Existem coisas muito legais na
Internet também...as colunas que o Warren Ellis costumava escrever contém
dicas bem
interessante. No momento estou lendo “ Como Resolver Problemas de Roteiro”,
do Syd Field.. Outra leitura importante são os
livros do Scott McCloud “Desvendando os Quadrinhos”
e “Reinventing the Comics”, além da obra-prima “Quadrinhos e Arte Seqüencial”
do papa Will Eisner.
-Sobre RPG o que você acha que explica esta verdadeira “febre”que envolveu
tanto os jovens e crianças
principalmente – e às vezes at;é com resultados funestos, como o grupo de
jogadores que assassinou uma colega aqui no Interior de Minas, seguindo as
“regras”de um jogo ?
TREVISAN: A Febre do RPG aconteceu no início dos anos 90 e depois disso o
mercado estabilizou. Somos um dos poucos numa posição razoavelmente confortável.
O RPG é
um meio de entretenimento que permite que você vá além do quadrinho, da
literatura e do cinema no sentido de vivenciar a experiência. Quem nunca viu
Star Wars e quis ser o Han solo ou o Luke Skywalker? O RPG te permite isso e é
esse fator é que fascina tanto. A história dos assassinatos foi uma exploração
sensacionalista. No final das contas o assassino sequer sabia o que era RPG.
Acho que como em qualquer coisa, o exagero também pode causar prejuízos, mas
até hoje não ouvi nenhum depoimento verídico de um caso extremo como esses.
-Alan Moore fala muito do Ideaspace, onde tudo é possível e tudo pode
acontecer, justamente aquele “espaço mental” em que, segundo único, se tem
um lugar onde deuses e demônios existem e atuam incondicionalmente e com
certeza, seria nele. Poderia se dizer que a realidade virtual também seria um
desses espaços, mas a VR também é criado na mente. Não seria o RPG um beco
– ou subterrâneo – da Ideaspace? Algumas práticas do RPG não se
coadunam, ao seu ver, com alguns rituais de Magia, que poderiam alterar de
alguma forma, ainda que inofensiva, a consciência ou a psique dos praticantes?
Elabore sobre isto. Será muito interessante.
TREVISAN: Eu acho que não. Vejo o RPG como um exercício conjunto de
criatividade, um entretenimento como jogar futebol ou videogame. Não mais que
isso. Alguns vêem como arte. Outros como um ritual maligno. Sou bem simplista
nesse caso. O RPG é uma evolução das brincadeiras de criança. Garotos
brincando de polícia e ladrão na deixam de estar jogando uma forma primária
de RPG. Meninas brincando de casinha também. Para mim RPG é só isso: diversão.
-E Atualmente, o que tem escrito? Algum projeto profissional?
TREVISAN: Na maior parte do tempo produzo material de RPG, mas tenho tentado
resgatar algum tempo para os quadrinhos. Estou envolvido na arte seqüencial
desde muito antes de me interessar por RPG, mas hoje as pessoas me conhecem
apenas por causa do meu trabalho com o jogo. É uma vergonha.
Tenho alguns projetos, como SPY (uma série contínua meio humor, meio ficção
científica anos 50 e espionagem)e High Falls (sete histórias sobre o cotidiano
de sete moradores de um prédio de apartamentos) que eu espero encaminhar ano
que vem. Além disso, devo escrever um especial de Holy Avenger.
- Sobre os nossos Quadrinhos, o que acha que falta para nossa
produção ser alavancada de vez? Será que seria bons roteiros – pois
bons desenhistas nós temos até para exportação, não é?
TREVISAN: O grande problema é que não existe um
mercado de quadrinhos. Existe um punhado de heróis tentando publicar a qualquer
custo. E só. Como você disse, desenhistas bons nós temos bastante, mas
roteiristas bons são bem raros. E isso atrapalha. A mania de alguns desenhistas
de acharem que sabem fazer roteiro também não ajuda muito (é o que eu chamo
de síndrome dos anos 90). Há uma tradição no Brasil de se ignorar o
roteirista. Na maioria das editoras o pagamento pra esse tipo de profissional
nem é previsto no orçamento e, se o é, trata-se de uma quantia ínfima (e
mesmo o pessoal envolvido com arte não ganha grande coisa). Quando digo que
escrevo quadrinhos os leigos perguntam se sou eu que “coloco as palavras nos
balões”. Muita gente acredita que fazer quadrinhos é desenhar. E não é.
Acho que esse é um dos problemas mais graves que enfrentamos. O resto está um
pouco além de nossas forças. Coisas como situação financeira do país,
disposição das editoras, etc,etc,etc....
-Quais suas considerações sobre o trabalho de desenhistas nacionais de projeção,
como o Mestre Mozart Couto, o velho samurai
Shima, o inovador Mutarelli, o nosso outro mineirinho Marcelo Lellis, e os não
tão em voga na área comercial, Rodval Matias,
Watson Portela, Mano – sabe do paradeiro deste? -
e Olendino Mendes?
TREVISAN:
Quando eu comecei a me envolver com HQ parte desse povo era o Olimpo do
quadrinho nacional. Época de Porrada Special e outras revistas. Mas o mercado
é tão estranho que hoje em dia esses caras, que deveriam estar no auge, com
status de super-star, estão no mesmo patamar de muita molecada que começou
agora. Tudo isso porque o mercado de quadrinhos brasileiro é obrigado a seguir
o que é vendável pra se manter vivo e não tem um histórico de preservar seus
medalhões. É lógico que todo mundo respeita o Shima, o Watson
e o Mozart, mas você não vê uma editora correndo atrás dos caras pra
oferecer um título mensal como acontece nos Estados Unidos com os artistas que
produziam na mesma época.
-O que achou de nosso modesto Site e quais as suas sugestões para aperfeiçoa-lo?
TREVISAN: O site é bem completo, o que me chamou a atenção logo na primeira
vez. Particularmente achei o máximo a idéia de colocar alguns trechos dos roteiros
originais. Foi no mínimo instrutivo. Espero que você possa continuar com o
bom trabalho que vem desenvolvendo até aqui.
-