ALAN MOORE     Senhor do Caos  /   Lord of Chaos
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Entrevistas  /  Interviews


         LAERTE (ele mesmo, o pai dos "Piratas do Tiete")

                                                                                                                            por Jose Carlos Neves

Laerte fez cursos de técnicas de animação e desenho, e cursou faculdades de música  e jornalismo, sem se formar. Começou a publicar no jornal do centro acadêmico e colabora atualmente com diversos jornais e  revistas.
Premiado no Salão de Piracicaba, recebeu o Prêmio Angelo Agostini e o Troféu HQMix em todas as edições. Publica diariamente tiras na Folha deS. Paulo, escreve programas de TV, pinta quadros e o escambau. Tem seu web site oficial em pp.uol.com.br/laerte/index.php

- Vamos la´ seu Laerte Coutinho, Idade, onde nasceu e cresceu, estado civil, filhos, formação acadêmica e profissional e onde vive atualmente.

Tou com 52 anos, nasci e cresci até 1,69m em S. Paulo, casei três  vezes, separei as três, tenho três filhos e nunca me formei em Comunicações,USP.
Moro em S. Paulo.

-O quê e quando iniciou seu interesse pela Literatura, Quadrinhos e Cultura Pop em geral?

Foi de criança. Ler livros, ver filmes, quadrinhos, revistas, essas coisas me davam vontade de fazer igual, ou (penso hoje) de fazer a continuação daquilo que tinha me encantado. Era uma forma de não deixar acabar o encanto.

-Na infância você lia muito, tanto HQ quanto Literatura mainstream?  Pode citar autores e obras que o influenciaram?

Sim, sempre li muito, em casa tinha livro paca. Monteiro Lobato, claro, mas também Mark Twain, Sra. Leandro Dupré, Condessa de Ségur, muita adaptação juvenil dos dois Dumas, Victor Hugo, muita aventura. Também meus primeiros Machado de Assis, Lobato de adulto, Humberto de Campos, e poetas românticos. O que davam pra ler na escola eu gostava paca, também.
Quadrinhos, a gente tinha um dia na semana - sexta - em que podia comprar revistas, tínhamos uma verba específica. Eu lia de tudo,  Tarzan, bang-bang, Bidú, Pererê, Luluzinha, Brasinha, Disney. Lia muito quadrinhos de uns primos meus, coisas bem antigas, portanto. E também  de amigos, a gente fazia intercâmbio, e tal.

-Como se iniciou "profissionalmente" no gênero e qual foi sua primeira atividade? Porque o humor?

Porquê o humor, não sei dizer. É a minha praia, é onde me expresso melhor. Deve existir um motivo que a psiquiatria explique. Acabo sempre fazendo humor, mas de uma forma meio séria, entre aspas.
Comecei como profissa fazendo ilustração na Banas, uma revista de economia, em 73. Fui indicado pelo Markun e pela Diléa Frate, na época meus colegas na facú, e estagiando no mercado.
Depois trabalhei em mais economias, como Gazeta Mercantil e Valor, o  que é bem estranho, porque sou um tapado no assunto.

-O que e´ mais difícil, como criador, fazer rir ou chorar?

Pra meu jeito de trabalhar, fazer chorar é tão difícil quanto inútil.

-Sei que você - como eu e muitos outros desenhistas tupiniquins, por falta de escolas, por morar no interior,etc, "se iniciou" naqueles famosos livrinhos "how-to-do" da Ediouro (Como desenhar mulheres, Como desenhar expressões fisionômicas...). Aprendeu mesmo alguma coisa  neles, ou foi mais copiando Tarzan e que tais?
("Tarzan,por Jose Bene,ops, Joe Bennett)
Foi mais copiando Tarzan e que tais. Sendo que você citou bem - a maior dificuldade sempre foi desenhar garotas. A beleza feminina sempre foi muito mitificada e posta fora do alcance da visão do humor. Por isso que eu adoro quando desenhistas como o Glauco conseguem inserir o conceito de fêmea atraente dentro do mesmo padrão gráfico com que retratam o resto do mundo.

-E o famoso curso por correspondência da então emblemática Escola Panamericana de Arte? (eu fiz os do IUB e Ensino Técnico Paulista, mas nunca me esqueço mesmo são dos livros de Jayme Cortez).

Eu fiz um ano de EPA por correspondência, em 60 e tantos. Chamava-se Escola dos Famosos Artistas. Bolinhas, medidas, corpos com sete cabeças e meia, etc.

-Uma coisa que me intriga: adepto do desenho realista, sei inclusive  que você  apreciava a arte de Norman Rockwell, como veio a desenvolver este estilo caricato, de chargista mesmo? Foi uma forma quase que  compulsória para "entrar no mercado" (pois como diz o amigo quadrinista Olendino Mendes em sua entrevista, no Brasil e´ ate´chique falar "cartunista",  ou "chargista", mas "quadrinista" praticamente ninguém conhece nem respeita...Coisa de criança...)?

Eu curtia muito o Norman Rockwell, e curto até hoje. Era meu objetivo desenhar (e pintar) como ele. Mas nunca tive disciplina e paciência  para um trabalho meticuloso como o dele.
Afora isso, também tive sempre minhas metas humorísticas, talvez mais próximas de um resultado satisfatório pro estabanado que eu sempre fui.
Agora, não se esqueça que o Rockwell era uma espécie de chargista, ou
cartunista, naquelas ilustrações dele (ver abaixo)
Não concordo com o Olendino. Às vezes me apresento como autor de história em quadrinhos (é mais claro que quadrinista), e desperto interesse e animação, mesmo entre pessoas que conhecem pouco os autores e os títulos.
Já falar em charge e cartum só dá em círculos iniciados.
Acho que, em qualquer caso, existe respeito, sim, quando a pessoa localiza o de que se trata.

-Mas você pinta quadros, ne´? São em estilo realista ou abstrato?Quais os pintores que admira?

Só fiz umas telas. Sào apenas experiências com acrílico. Nada convincente.

-Voce que conviveu com eles, fale-nos um pouco dos irmãos Caruso, Luis Ge e Xalberto.

Puxa, eles tão vivos ainda! Brincadeira.  O Paulo é um dos maiores doces que eu conheço, um agitador de eventos, um convidador de amigos, entre eles grandes mancões como eu. Ele e o irmão têm esse benefício/prejuizo de desenharem ambos otimamente. O que faz com que sejam citados quase sempre em dupla. É injusto com a importância individual de cada um, acho.
No tempo do Balão eles tinham papéis bem diferentes, por exemplo. O Paulo desenhava umas fantasias mais quadrinhísticas; é dele uma  história com Deus, por exemplo, que está nas raízes dessa série que eu faço na Folha. Tem um cartum dele, um cobrador com a cabeça tetraface, que também me embalou pra criar o Homem-Catraca. Ele podia viver de me cobrar royalties.
O Chico tinha um apelo de chargista mesmo, desenhava os amigos nas histórias, desenhava o Riviera, as baladas.
Luiz Gê é a alma editorial do Balão, como foi da revista Circo (quando ele viajou, ficamos eu e o Toninho Mendes - dono da editora Circo - tentando tocar a revista, mas não deu). Sempre achei uma loucura o desenho dele, eu achava que só europeu desenhava daquele jeito.
O Xis também era uma loucura, mas em outro sentido. Com ele o Balão fechava o espectro da linha editorial da época: fantasia psico-social, retratos urbanos, impacto gráfico, delírios alucinógenos.
Só não sei o que eu estava fazendo aí no meio.

-E a velha guarda do Pasquim? (O Millor inclusive me concedeu uma entrevista tambem, limitada a 10 perguntas, mas ate´ agora, necas de respostas... Infelizmente.)

(Sinto muito dar peso à fama de procrastinadores que temos…)
Conheci o pessoal do Pasquim primeiro por lambê-los à distância, tentar imitá-los, e tentar entrar no Pasquim, claro.
Depois conheci alguns pessoalmente em 75, quando fui ao Rio pedir que eles desenhassem pombas da paz, numa iniciativa da Cúria Metropolitana de S.Paulo no sentido da resistência contra a ditadura. Foi aí que estreitei amizade com o Henfil e o Fortuna, principalmente, apesar de ter amor pelo Jaguar e pelo Ziraldo.
É que com o Henfil vivi um período muito frutífero de trabalho em S. Paulo e com o Fortuna participei da revista O Bicho, e também do jornalismo sindical.
                                                                              
(Chico Caruso)
- Mas voltando aos quadrinhos, sei que você não aprecia super-herois. Mas e seu herói, o Guimba, como ele era e porque não foi publicado  (pelo menos ate onde eu sei)?

Eu aprecio super-heróis, sim! Se disse o contrário alguma vez,  desculpe,isso às vezes (muitas vezes, até) acontece.
Guimba é um personagem que criamos eu e um amigo, o Benauro, há mutos anos, no embalo de um audiovisual que estávamos fazendo.
Mas sempre tive problema com a idéia de desenvolver a história pra valer. Não tinha muita confiança no meu traço, e não me resolvia por nenhuma alternativa.
Cheguei a fazer uns desenhos iniciais. Chegamos a esboçar um capítulo inicial.
Não sei dizer porque a coisa não fluiu, assim no duro não sei. Falta de grana? Tempo? Pique?
Talvez ainda role.
Ainda gosto dele. É um avesso do Tarzan. Um gorila que é criado pelos humanos, e se comporta como humano. Tem uns poderes também.

-Voce chegou a piratear uma HQ do Richard McGuirre ? publicado pela seminal RAW, do Spiegelman. Qual foi ela e o que tinha de tão especial?

Não lembro bem - era a história de "um canto"? Se sim, parece que esse moço na verdade é músico, e só fez essa história. É uma história  genial, só digo isso. Genial e original.
Eu pirateei porque eles nunca responderam as cartas que eu mandei.
Pirateei o Harvey Pekar também, pelo mesmo motivo.

-Quando foi seu primeiro contato com o trabalho de Alan Moore e qual obra lhe causou algum impacto especial?

Olha, eu sou ruim com nomes, troco muitos.
Acho que o primeiro contato foi o Watchmen. O primeiro e o melhor.
Depois disso acho que li coisas legais dele, mas também umas meio chutadas, como uma que ele fez pra uma série futurista aí. Quer dizer, sempre é de nível, mas acho que de vez em quando ele, como todo mundo, manda menos.

-Qual trabalho do mago bardo de Northampton que você considera sua obra-prima e porquê?

Acho que é o Watchmen, se é que esse mardo bago é o Alan Moore. Não gosto muito de ficar incensando ninguém.
Watchmen é uma puta história contada de um jeito maravilhoso. Pena que não virou filme. Ou sorte, pensando melhor (olha o que fizeram com o Demolidor…)

-Ao seu ver, quais foram as inovações mais importantes do autor? Especificamente sobre Watchmen e sua instigante forma narrativa ? já apelidada de O Cidadaõ Kane da Nona Arte ? o que tem a nos dizer?

De novo, não gosto de ficar mitificando nada. Acho que é um trabalho muito, muito bom. Mas não fico falando essas coisas nem do Cidadão  Kane.

-Voce acha que ainda existe espaço para seres musculosos e com super-poderes, metidos em colantes, na verdadeira Cultura Pop, mais madura? Pergunto porque muitos fãs dos super-heróis, ao mesmo tempo que admiram Alan Moore, o detestam por considerar que ele praticamente destruiu o gênero com Watchmen. E você?

Acho que o espaço pros malhadões com malha diminui, sim. Mas tampouco sei se existe isso de "verdadeira Cultura Pop". Existe?

-E From Hell, você acha que Moore conseguiu atingir plenamente seu intento de forjar em uma HQ o caldeirão que nos preparou o Século XX, com toda sua paranóia, conspirações, contradições, horror e beleza?

Acho que você tá jogando muita areia nesse caldeirãozinho, não…?
Sinto-me inseguro de fazer julgamentos tão categóricos.
Você vai acabar deixando o Alan vermelho.

- Sei que você tem uma formação ecletica, se podemos definir assim.O  que pensa da Magia?

Magia??
Calma aí, meu ecletismo é 110…

-E da obra Big Numbers a inacabada magnus-opus de Alan Moore, quais  são as suas considerações, se chegou a ler os dois únicos números publicados?

Inda não li.

-Ainda nesta direção metafísica, qual é a sua concepção do Tempo?
Considera-o a Quarta Dimensão do Espaço, como teorizou Einstein, ou tem
uma visão pessoal?

(musiquinha de espera)

-Como você imagina um ser ou objeto (como o Tesserato) da Quarta Dimensão? (se pudesse aparecer-nos, pobres materializações tridimensionais que somos )

(sua ligação é muito importante para nós; dentro de instantes iremos
atender)

-Já leu as obras do matemático-filósofo soviético P.D. Ouspenski? Ou do
seu mentor, Gurdjief?

(nossos funcionários não estão autorizados a pedir sua senha)

-Voltando aos seus trabalhos, o que você fez que considera o melhor até agora?

Ah, oi.
Acho que foi a Noite dos Palhaços Mudos, ou a Insustentável Leveza do Ser.

- Mas " A Insustentavel..." nao e´ do Kundera? ...ah, deixa pra la´. Por ter se interessado por Historias em Quadrinhos em nível profissional e acadêmico, você sofreu ? ou sofre ate´ hoje ? alguma especie de preconceito ou discriminação? Como lida com isto?

Não, não, pelo contrário. As pessoas me respeitam e até mitificam um tanto.

-E atualmente, o que tem produzido?

Tiras, principalmente, mas também umas páginas (pro Folhateen e pra revista Outracoisa, do Lobão); estou voltando às histórias em alguns projetos editoriais novos, e tenho uns projetos meus e em parceria pescando patrocínio e viabilidade, em teatro, cinema e tevê.

-Como surgiu a oportunidade ("de ouro"!) de vir a escrever pra televisão? Em termos formais, o que e´ diferente?

Foi convite do Cláudio Paiva. Que também me ensinou o que pôde, nesses anos todos.
O diferente, basicão, é que papel é espaço e tevê é tempo.
O humor depende do que chamamos tempo, mas na verdade significa ritmo.
No papel e na tevê (cinema também) esse ritmo tem que ser alcançado de
modo diferente.
Fora outra coisa super importante: na tevê, cinema, teatro, o trabalho  é coletivo.

-Voce sempre batalhou arduamente por um autêntico Quadrinho nacional. Ele existe?

Cara, não sei dizer. Nem sei se batalhei tão arduamente assim. Não se esqueça que eu chupei muito, franceses, italianos, americanos, japas e argentinos.

- O que você acha que dificulta para o quadrinista brasileiro  sobreviver de sua arte? Falta de talento ou de mercado?

Mercado, acho. No Brasil isso é muito desorganizado, caótico, infernal.
Difícil as pessoas despontarem com calma e florescerem com graça.

-Como um dos expoentes da nossa produção cultural, também considera que o nosso artista "se vende" quando passa a publicar no Exterior, nos EUA principalmente, adequando-se ao estilo e mudando até mesmo de nome?

Acho que tudo bem, mesmo. Se a praia do cara é essa, não tem nada de errado, imoral ou coisa assim. Independente disso, acho que existem criadores com significado maior em relação à cultura nativa.

-E a sua militância política, deu uma esfriada com a  chegada ao poder, finalmente, da esquerda?

Já tinha esfriado bem antes.
Há muito tempo minha segurança de dar opinião, seguir e cagar regras, virou farelo.

-So´pra dar uma cutucada, pois considero ainda cedo para isto, o que  ta´ achando do governo Lula? Cara, aqui em BH tem advogado e arquiteto em fila de dobrar quarteirão para candidato a um emprego de gari...

Eu amo pessoalmente o Lula, porisso sou suspeito e parcial sempre em
relação a ele.
Feita essa ressalva, acho que a reforma da Previdência saiu torta. Eu não teria votado a favor, não. Inda bem que não sou deputado.
Feita esse reparo, também acho que esse desemprego é foda; mas eu não esperava que fosse cair por enquanto.

-Como o leitor interessado pode adquirir seus Quadrinhos e livros,  quais os que estão disponíveis,etc?

Bom, dá pra comprar pela rede, na editora Devir [www.devir.com.br ] e na
Olho d'Água [www.olhodagua.com.br]. Nessa última estão os três livros-coletânea do personagem Deus.

-Experiencias ate´do Pentágono, comprovaram a eficácia expressiva dos Quadrinhos em trasmitir qualquer idéia por atingir, através do  somatório sinérgico de imagens com texto, os dois hemisférios cerebrais. Sera´ isto talvez que explique o grande sucesso do gênero nos paises do Oriente (China,Japão,Coréia principalmente), já´ que seus alfabetos ideogramaticos (os caracteres representam imagens e não sons) tem o mesmo efeito? Conhece algum estudo abalizado sobre o assunto? - a propósito e exemplificando, vários manuais de utilização e manutenção de armamentos e equipamentos militares, e ate´ uma certa "cartilha de ação guerrilheira" em "republiquetas latino-americanas" da CIA (eu tenho um exemplar) são produzidos justamente em forma de Historias em  Quadrinhos.

Não conheço muito a teoria, ou as teorias, mas parece fazer sentido. Da minha experiência posso dizer que me alfabetizei lendo quadrinho, e que até hoje a palavra ASSECLAS vem junto com a cara do João Bafodeonça.

-O prolífico estudioso americano dos comics, Scott McCloud  ("Desvendando
os Quadrinhos"
) tem procurado apontar novos caminhos que esta arte maravilhosa podera´ seguir. E você, qual futuro antevê para a nona  Arte?
Saira´ do papel e existira´ so digitalmente, incorporando técnicas do cinema e se metamorfoseando quase num desenho animado, ou são únicos, universais e eternos como sempre foram?

Não me ponha em mesas de debate! Não sustento nem um minuto nesse ringue.
Acho que quadrinho no papel nunca vai deixar de existir. mesmo que esse papel seja uma tela líquida, e as imagens apareçam seguindo um comando cerebral.
O que seria maravilhoso.

-Militando há tanto tempo "no ramo" você pode dizer que valeu  ou vale a pena?

Sim, vale a pena!!
Grana mesmo não dá, mas é muito tesão.

Obrigado, Amigo.