ALAN MOORE     Senhor do Caos  /   Lord of Chaos
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Entrevistas  /  Interviews


       A “ESCRITORA DOS VAMPIROS” MARTHA ARGEL

                                                                                                                por José Carlos Neves

 

El Tatio, Chile, a cerca de 5.000 m de altitude

  Embora já tivesse lido um conto da Martha, foi somente ao conhecê-la pessoalmente no III Salão do Livro, realizado aqui em Belo Horizonte em agosto de 2003, apresentada pelo amigo Roberto Causo é que, confesso, me interessei por sua literatura.

Consultada sobre a possibilidade desta Entrevista, a escritora, que é graduada em Biologia, gentilmente aceitou, comentando ainda: <...visitei sua página no Alan Moore; tem um excelente material; confesso que não sei nada sobre esse autor, e que na verdade o terror não é bem minha área, mas fiquei impressionada com o seu trabalho. parabéns! li a entrevista com o Darren Shan. não sabia que ele tinha publicados outros livros além da trilogia do assistente de vampiro, que adorei. é literatura juvenil, mas foge da babaquice do gênero. a entrevista com a Libby eu já tinha lido;li também a do Fábio Fernandes; o pouco contato que tive com ele sempre foi muito agradável. essa "exclusão" por parte do fandom, que ele menciona, eu por vezes também sinto, mas não chega a passar de um leve incômodo, uma vez que o fandom exclui muito mais gente do que inclui! aliás, você podia entrevistar dois desses "excluídos", a Flavia "Os Noturnos" Muniz e o André "Os Sete" Vianco, dois best-sellers de livros de vampiros, com várias reedições e milhares de exemplares vendidos, e inexplicavelmente ignorados pela mídia!> (

  - Martha, o Argel é sobrenome mesmo (qual origem?) ou pseudônimo? Onde você nasceu, cresceu e vive atualmente?

Argel é meu sobrenome por parte de mãe. É basco francês, proveniente de uma vila chamada Lecumberri, perto da fronteira com a Espanha e quase ao lado do Caminho de Santiago. Nasci, cresci e vivo em São Paulo.

  - O quê e quando iniciou seu interesse pela Literatura e Cultura Pop em geral? Na infância você lia muito? Pode citar autores e obras que a influenciaram?

Não saberia dizer onde ou quando comecei a me interessar pela Literatura em si. Sempre li muito, desde que fui alfabetizada, e lia de tudo. Tampouco sei dizer que autores podem ter me influenciado; acho que a maior influência vem da amálgama das centenas – ou milhares – de livros que li principalmente antes de entrar na faculdade. Consumia com voracidade toda a literatura juvenil que o tempo e a escola permitiam; quando tinha 12, 13 anos, eu procurava ler pelo menos um livro por dia, e era qualquer coisa mesmo, de romances cor-de-rosa a livros de arqueologia, passando por enciclopédias, poesia, aventuras de viagens, clássicos recontados e todo tipo de ficção. Minhas preferências eram aventura, romances policiais e livros de zoologia. Nessa época, quem mais me marcou, em termos de ficção, talvez tenham sido Júlio Verne e Agatha Christie. Mais tarde, quando tinha uns 20 anos, descobri a Ficção Científica e os thrillers do tipo Robert Ludlum e Alistair MacLean, e quando essa fase terminou cheguei no que gosto até hoje, a Fantasia e, de novo, os policiais. No momento, os autores que estou curtindo são o brasileiro Luiz Alfredo Garcia-Roza, o espanhol Arturo Pérez-Reverte, o português José Saramago e a estadunidense Sue Grafton.

  - O que a atraiu inicial e especificamente pela Literatura “mais sombria”, digamos assim? Algum autor e/ou obra em especial?

Por incrível que pareça, apesar de escrever muitos textos que beiram o Terror, nem este nem o Horror nunca me atraíram. Devo ter lido algo quando era adolescente, mas não me lembro. De uns anos para cá, me interessei pela literatura de vampiros, mas não exatamente pelos aspectos mais mórbidos. É a figura em si que me atrai, sua evolução desde a origem camponesa até a universalidade atual, as metáforas que permite. O interesse não veio a partir de leituras, e sim da percepção do potencial dessa vertente para a criação de textos.

  - E no cinema, o que você realmente gosta?

Sempre preferi as aventuras sem grandes complicações ou significados metafísicos. De uns tempos para cá, à medida que aumenta meu envolvimento com a escrita, tenho me desinteressado cada vez mais do cinema.

  - E na música? Algum gênero ou banda em especial?

Rock, em particular aquele universo dos anos 80, formado por Echo and the Bunnymen (o melhor!), The Cure, Smiths, U2, Tears for Fears. Música erudita, principalmente o barroco italiano e missas fúnebres. Moda de viola: Almir Sater, Ivan Vilela, Renato Andrade. World music, em especial coisas desconhecidas que vou encontrando durante as viagens. Para escrever, nos últimos anos minha trilha sonora tem sido recorrente: Echo, Björk, Cocteau Twins, U2, Cowboy Junkies, Enya, Enigma, Dead can Dance, além do barroco, uma certa dose de new age e uma pitada de bandas góticas.

  - Fale-nos sobre a gênese da “vampira Lucila” e seu romance de estréia, “Relações de Sangue”.  Alguma influência em especial, seja de outros livros, filmes, vivência?

Embora eu já me interessasse há dois ou três anos por vampiros, a Lucila nasceu por acaso, enquanto eu criava um conto cujo final exigia alguma criatura estranha. Podia ser qualquer coisa, um fantasma, um alienígena, um zumbi. Calhou de eu decidir que seria uma vampira. A partir do momento em que terminei o conto, no entanto, fiquei fascinada por ela e pela Clara, a narradora mortal. Relembrando minha paixão já antiga por histórias policiais, resolvi escrever um segundo conto, em que ambas se envolviam na procura por um assassino de mulheres vampirizadas. Á medida que escrevia, percebi que não seria um conto, mas um livro inteiro, e assim nasceu o RdS; como a Lucila, também sem premeditação. Influências? Ao menos uma, muito forte, a escritora estadunidense especializada em vampiros Laurell K. Hamilton, cujo estilo me encantava na época, pela velocidade e intensidade da ação, e pelo uso inteligente de sensualidade e violência. A influência talvez seja indireta, pois LKH serviu sobretudo como veículo para que eu descobrisse a linguagem e o ritmo narrativo dos romances noir.

  - Sua formação acadêmica em Biologia lhe empresta algum subsídio a sua Literatura?

Durante muito tempo eu mesma me perguntei isso. Não sei se é a formação científica em si que influencia minha escrita ou se é minha forma de pensar e de ver o mundo que me levou tanto à Literatura quanto à Biologia. Acho mais provável esta segunda hipótese. Encontrei textos meus de quando tinha oito, dez anos, e tudo o que considero mais característico de minha escrita está lá: o humor, a vertente fantástica, a escolha cuidadosa das palavras, a preocupação em surpreender o leitor com o desfecho. Nessa época eu escrevia aventuras, textos cômicos e crônicas sobre a natureza e meu dia-a-dia. Em resumo, tudo o que mais gosto de escrever, até hoje.

Mas sem dúvida, o treinamento no método e no rigor científico não podiam deixar de ter um efeito fortíssimo sobre a forma como escrevo, como de resto em toda minha vida e em minha visão de mundo. É difícil explicar, eu mesma demorei anos para entender como funciona, mas (1) basicamente crio e estruturo meus textos de um modo popperiano (criando hipóteses a partir de observações e tentando refutá-las); (2) sempre há um levantamento prévio de informações, que me permita situar o texto num contexto mais amplo; (3) uso linguagem precisa e clara, sem redundâncias ou excessos, como de praxe em artigos científicos; (4) sigo uma estrutura lógica que serve de fio condutor para o leitor, e que ajuda a prendê-lo ao texto. Todas essas são diretrizes da escrita científica que, curiosamente, muitos cientistas não conseguem seguir...

Um aspecto mais específico de minha formação acadêmica é o conhecimento biológico em si. Ainda tenho muita dificuldade em usá-lo nos textos, talvez porque a visão biológica está tão entranhada em meu cotidiano a ponto de me parecer extremamente banal. Sempre que possível tento colocar alguma informação científica no texto, mas sem deixar que isso soe a uma aula ou fique forçado. Me irrita profundamente a ficção que traz embutida uma lição sobre um tema que, na maioria das vezes, o autor sequer domina. Tenho alguns contos totalmente biológicos, mas nem por isso ininteligíveis (como muita FC hard por aí). No RdS, especificamente, a narração em primeira pessoa fica por conta da Clara, bióloga de formação, e aproveito isso para dar uma interpretação fora do convencional para as relações dela com os vampiros.

  - Quem são Christian Pinkovai e Roberto Paes, os artistas que ilustram seus escritos?

Conheci o Christian por meio do André Vianco e da editora Novo Século. Ele é o capista oficial do André, e é o responsável pela capa do “Relações de Sangue”. Ele tem um instinto incrível. Não tenho dúvidas de que tanto “Os Sete” do André quanto o meu RdS ganharam muitos leitores atraídos inicialmente pelas capas criadas pelo Christian.

O Bob Paes é um grande amigo, publicitário e web-designer, que na época era o dono da Writers, que publicou meus livros “Contos Improváveis” e “Olhos de Gato”, além da coletânea que organizei, “Lugar de mulher é na cozinha”.

A capa de meu último livro, “O vampiro de cada um”, uma edição de autor, foi feita por meu irmão Billy Argel, publicitário e diagramador visual. Aliás, o Billy é um artista incrível, pois além de pintar maravilhosamente, ainda é músico; ele foi guitarrista do Lobotomia, uma das bandas mais influentes no punk rock brasileiro.

 

    

Capas de Bob Paes

 

  

Capas de Christian Pinkovai (esq.) e de Billy Argel (dir.)

 

- Depois teve a continuação de “Relações...” com “Amores Perigosos”, não foi? Discorra sobre esse também e nos fale sobre a repercussão dessas obras.

O AP ainda está inédito, em parte porque ainda não me decidi a batalhar sua publicação, em parte por desinteresse da editora que publicou o RdS.

É difícil falar em “repercussão” de uma obra no Brasil, em que não existe mídia especializada e isenta para as manifestações culturais, e onde o nível de informação da população é extremamente baixo.

Não tenho dúvidas de que a vendagem do RdS se ressentiu, e muito, com a falta de empenho da editora na divulgação (aliás observada, de certa forma, também no caso do best-seller André Vianco, cujo sucesso se deve muito mais ao boca-a-boca do que de alguma eficiência por parte da assessoria de imprensa da editora). Dê uma navegada pelos blogs na internet e veja a reação dos adolescentes ao livro. Eles ficaram alucinados. Recebi dezenas de e-mails perguntando pela continuação e implorando por mais aventuras da vampira Lucila. Aliás, não foram só os mais jovens que curtiram. Tive retorno muito positivo de pessoas mais velhas, que incluiu pesquisadores em semiótica e profissionais ligados à cultura, ensino e literatura. Imagino como teria sido se a divulgação tivesse sido eficiente.

  - Além das coletâneas “Contos Improváveis” e “Olhos de gato”, você coordenou uma outra muito interessante: “Lugar de mulher é na cozinha”, formada por contos de Literatura Fantástica, Fantasia e Ficção Científica, escritos por doze autoras, sobre mulheres, cozinhas, coisas que mulheres fazem na cozinha e coisas que você jamais pensaria que uma mulher pudesse fazer na cozinha... Participaram deste apetitoso projeto: Liliana Medeiros, Ana Cristina Luz (de Portugal), Giulia Pierro, Nilza Amaral, Mariana Albuquerque, Neusa Ximenes, Fernanda Bohm, Maria Lúcia Perrone Passos, May Parreira e Ferreira, Adrana Simon, Viviane Scholtz e você. Como surgiu esse projeto, como você ficou conhecendo essas outras autoras e conseguiu arregimentá-las para a tarefa?

O LdM surgiu de repente. A frase do título me veio à mente e, como costuma acontecer, perguntei-me o que escreveria se tivesse de escrever algo com esse tema. Criei uma história hor-rí-vel, que felizmente não cheguei a pôr no papel, mas me ficou a dúvida: será que aquela era a única possibilidade? E será que diferentes pessoas criariam coisas semelhantes ou haveria vertentes múltiplas a serem exploradas? Comentei tudo isso com o Bob Paes, da Writers e para minha surpresa ele respondeu que se eu topasse coordenar a antologia, a Writers publicaria. Imediatamente entrei em contato com escritoras que eu já conhecia (e muitas não escritoras, também, que acabaram contribuindo com alguns dos melhores contos da coletânea), além de usar toda a facilidade de divulgação que a internet proporciona. Embora eu tenha acabado por conhecer em pessoa todas as integrantes do projeto, inicialmente todos os contatos foram feitos por e-mail. Funcionou muito bem. Foram seis meses de trabalho insano, mas o resultado foi, em minha opinião altamente suspeita, de excelente qualidade, e um marco na Literatura Fantástica Brasileira produzida por mulheres.

  - O que tem feito atualmente e quais seus novos projetos?

Ufff. Atualmente estou trabalhando em consultoria ambiental (meu ganha-pão) 24 horas por dia. O tempo que sobra dedico à literatura (rsrsrs).

É tanta coisa rolando ao mesmo tempo que nem sei a quais delas estou de fato me dedicando.

Primeiro, estou envolvida na divulgação dos livros já publicados, em especial o “O Vampiro de Cada Um" e, em menor escala (porque acho que isso competiria à editora), o “Relações de Sangue”. Participo de noites de autógrafos e eventos, faço contato com a mídia alternativa, voltada para pequenos grupos, gerencio o contato com os leitores, tento colocar em pontos de venda selecionados.

 

Sessão de autógrafos de “O vampiro de cada um” e “Relações de sangue”, durante O Grito, Primeiro Encontro de Vampiros e Terror (São Paulo, 2003)

  Segundo, na medida do possível, continuo produzindo material. O “Amores Perigosos” está virtualmente pronto e à disposição de alguma editora que se interesse, e estou trabalhando na pesquisa dos dois próximos livros, que encerram o que chamo de Crônicas Sangrentas. Tenho em vista duas ou três coletâneas temáticas e tenho tentado produzir contos que se encaixem nelas.

Terceiro, existem os projetos paralelos. Durante 2003 participei do “Café Literário”, um tablóide cultural produzido por uma cooperativa de escritores, em sua maioria poetas. Também ao longo deste ano, juntamente com a Giulia Moon lançamos o “FicZine”, um fanzine voltado para a literatura fantástica, que tem tido uma boa aceitação.

 

Lançamento do Café Literário 8, na praça Benedito Calixto (São Paulo, 2003).

 

Lançamento do FicZine no 0, durante o encontro 007/Highlander, na Comix (São Paulo): eu, Renato Azevedo e Giulia Moon (2003).

  Quarto, estou investindo na interface literatura-ciência e tenho apresentado inúmeros projetos de divulgação científica e educacionais, em diversos níveis e voltados para vários públicos. A maioria envolve a produção de livros.

Quinto, tento na medida do possível me manter presente e atualizada na comunidade de arte fantástica, contribuindo com contos para zines e sites, gerenciando minhas próprias páginas, me informando sobre a produção de outros escritores. Tento manter o maior número possível de canais abertos na internet. No momento estou reestruturando minhas páginas (“Martha Argel, aves, vampiros & tudo o mais”, “Lucila, a Vampira”, “Contos Fantásticos”, “JC, o Pingüim Viajante” e “O vampiro de cada um”), que em breve estarão reunidas em meu domínio próprio, mas tenho outros instrumentos de comunicação eletrônica, como o blog “Uma vampira em Sampa” (http://vampirapaulistana.blogspot.com) e a uma lista de distribuição de notícias (http://br.groups.yahoo.com/group/MarthaArgel). Mantenho, ainda, duas listas de discussão em ornitologia, a OrnitoBr, com quase 400 participantes, e a OrnitoBr Alternativa, de ornitohumor.

  - Sua ficção muitas vezes transpira um senso de absurdo e consegue falar de vampiros e vampirismo sem ser “dark”, sem ser “deprê”, concordas? Sabe explicar as causas, se as há?

Acho que é uma combinação de fatores. Esse “senso de absurdo” permeia praticamente toda a ficção que escrevo, e aparece mesmo em parte da não-ficção. Por outro lado, o clima lúgubre e deprê é apenas uma das maneiras de explorar a figura do vampiro. Talvez a mais explorada, por ser a mais tradicional. Não é difícil montar cenários diferentes onde situar os filhos das trevas.

  - Porque a atração específica por vampiros? Você encara o tema como uma metáfora, como mito, ou tem outra concepção?

Lembro-me do momento exato em que, pela primeira vez, considerei com alguma atenção a figura do vampiro. Eu estava exausta com a interminável análise estatística da tese e totalmente convencida, então como agora, de que a estatística tem muito menos relevância do que costumamos atribuir-lhe, pois não tem análise numérica que dê jeito em dados ruins. Comecei a imaginar exemplos de estatísticas manipuladas, usadas “para o mal”, e fui criando situações cada vez mais disparatadas até que cheguei à questão: conseguiria um vampiro manter-se despercebido na sociedade moderna, onde todo tipo de análise estatística é possível? Comecei a imaginar os comportamentos que poderia assumir para disfarçar a atividade predatória, por exemplo na São Paulo contemporânea. Esse é o tipo de especulação ao qual estava bem acostumada, uma vez que minha maldita tese foi sobre... comportamento alimentar de aves!

Eu diria, portanto, que desde o primeiro instante minha abordagem ao vampirismo é a da Ecologia Teórica. Bem longe de cenários góticos e banhos de sangue...

Costumo dizer que considero o vampiro como uma das metáforas mais completas da condição humana. Ele é a personificação das contradições humanas, e incorpora tudo o que tememos e nossos desejos mais sublimes. É monstro e é humano, repele e atrai, não está vivo mas jamais morrerá. O vampiro é o que somos, o que queremos ser e o que jamais seríamos. Não é por acaso que meu último livro se chama “O vampiro de cada um”. Numa análise isenta, todos somos vampiros.

  - Quais são os seus métodos criativos para escrever?

Pego uma idéia aleatória e exploro suas possibilidades, até as últimas conseqüências. O ponto de partida pode aparecer por acidente ou de propósito. O processo de exploração é uma compulsão. Sou maníaco-obsessiva.

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Não tenho uma fórmula para construir um conto. Depende de tantos fatores externos! Se tenho tempo, se estou às voltas com problemas insolúveis (normalmente estou), se atravesso uma fase criativa, se já estou trabalhando em outro texto...

Em geral tento montar o conto inteiro na cabeça antes de começar a escrever. A escrita em si normalmente é demorada e difícil, um verdadeiro parto. Sou minuciosa com a linguagem, a concatenação da ação, os diálogos, os detalhes, a ambientação, o clima que quero induzir no leitor...

Meus truques? Caminhadas, um bom vinho tinto, a música certa, MUITA pesquisa bibliográfica, uma bela e relaxante esticada no sofá da sala ou na rede da varanda. Entre outros.

  - De onde tira suas idéias?

Do dia a dia. Mais de vinte anos de registro e estudo do comportamento animal são um belo treino para a observação e análise de possibilidades.

  - O que, da sua ficção, você extrai de sua própria vivência?

Minha ficção está recheada de pequenos detalhes verídicos: locais onde estive, situações pelas quais passei, relatos de amigos e conhecidos. Uso muito minhas próprias emoções: ponho nos personagens as reações que eu teria se estivesse no lugar deles. As pessoas ao meu redor também são uma fonte riquíssima de informações. Misturo tudo com total liberdade: lembranças de infância podem estar mescladas a algum episódio ocorrido horas ou minutos atrás. Às vezes incorporo incidentes recém-acontecidos a textos já antigos mas ainda inéditos.

Não tenho muita simpatia pelo escritor “livresco”, aquele que trabalha basicamente em cima da bagagem que acumulou como leitor de outros autores. Dificilmente ele vai criar algo original.

Nesse ponto minha atuação profissional se torna um tesouro incalculável no que diz respeito à atividade literária. Nas viagens de trabalho, passo por uma quantidade incrível de situações insólitas. Muitas delas são tão bizarras que não há como aproveitar na ficção, pois os leitores achariam extravagantes demais! Essas eu transformo em crônicas: tenho um livro inédito, “O dia em que fui um cadáver”, só de causos verídicos. O que mais aproveito são as pequenas experiências: como é atravessar a rua numa cidade que não é a sua, ou percorrer um supermercado duma cidade pequena, ou a sensação de estar sozinha num lugar distante, que pode ser a floresta amazônica, uma cidade européia ou o deserto patagônico. Acho que uma das peculiaridades de minha escrita vem justamente dessa composição: eventos inesperados inseridos num cenário quase fotográfico criado a partir da experiência pessoal, e descritos com a técnica de quem estuda comportamento animal.

Em Lisboa, com Fernando Pessoa (2001)

  - Muitos escritores escrevem para tentar lidar com a desordem emocional que ele (e todos nos) vivemos e nos encontramos. O que você pensa disto?

Nunca fiz análise e nunca tentei aprimorar meu auto-conhecimento. Quem sabe também eu, no fundo, no fundo, busque na escrita uma forma de alívio para minhas mais profundas questões existenciais. Sei lá.

O que posso dizer é que a escrita é uma coisa perigosa. Muitos leitores que nunca vi na vida me analisaram através do RdS. Isso só não me assusta porque faço o mesmo com os autores que leio. Além do mais, embora não possa controlar tudo o que escrevo, costumo embutir em meus personagens uma série de armadilhas para despistar o leitor. A narradora do RdS é um exemplo. Costumo dizer que Maria Clara Baumgarten é uma mistura de coisas que sou com coisas que gostaria de ser e coisas que jamais seria. Tente o leitor descobrir qual é qual.

Agora, em muitos contos é deliberado, e resolvo na ficção situações que gostaria de resolver na realidade. Em alguns casos, minha intenção fica mais do que evidente.

  - Quais foram os eventos mais importantes que já ocorreram em sua vida?

Casamento, separação, a morte do pai. A primeira viagem internacional sozinha. Entrar na USP, sair da USP, entrar na pós-graduação e me mudar (temporariamente) para outra cidade, sair da pós-graduação 16 anos depois. Dois ou três desafios grandes vencidos e o que isso representou para minha auto-estima.

  - E atualmente, o que lhe é realmente imprescindível, seminal?

Minhas maiores conquistas: o respeito como profissional e o reconhecimento da competência. A independência econômica. A liberdade de poder largar tudo e ganhar o mundo, se me der na telha.

- Vou mencionar alguns autores “darks” e se você já leu algo deles, comente, por favor: Clive Barker, Poppy Z. Brite, Neil Gaiman, H.P. Lovecraft, Poe, Machen, Ramsey Campbell, Anne Rice e o popular Stephen King.

Li alguma coisa de Poe, mas não sou de forma alguma uma expert na sua obra. Acho interessante dentro do contexto histórico da literatura, por ter contribuído para o estabelecimento de gêneros literários muito populares até hoje, como o Terror e a narrativa policial. Um conto dele que me marcou muito foi “A carta roubada”. Muito do que escrevo hoje tem a ver com esse relato, que reflete muito bem um dos fundamentos não apenas de minha escrita, mas de minha forma de encarar o mundo e até mesmo de minha atuação científica. Posso usar palavras do Saramago para explicar: “É bem certo que as pessoas vivem ao lado dos prodígios, mas dos prodígios não chegam a saber nem a metade, e sobre a metade conhecida o mais comum é enganarem-se.” É isso: o maravilhoso e o prodigioso estão onde menos esperamos, ao nosso redor, e via de regra somos incapazes de perceber isso. Para mim, esse é o espírito do conto do Poe, e é o motivo pelo qual gosto tanto dele.

Agora, se por um lado Poe influiu em minha escrita num sentido amplo, quase filosófico, a contribuição de Anne Rice para meu trabalho tem um sentido mais pragmático e específico. Essa autora foi capaz de um feito impressionante. Com um único livro, “Entrevista com o vampiro”, lançado em 1976, ela alterou radicalmente a essência e o significado do vampiro, um personagem ficcional que há décadas estava presente na cena artística mundial e na imaginação popular. Anne Rice conseguiu transformar em herói cativante aquele que até então fora um vilão sem profundidade. Confesso que não sou fanática pela obra dela; gosto muito de EcV, de “O Vampiro Lestat” , de “A Rainha dos Condenados”, mas em sua produção vampírica posterior não encontro a aventura e a intensidade que procuro, ao menos não na dose que gostaria. Nos livros mais recentes, a ação dos vampiros está diluída em meio a intermináveis ensaios sobre a cultura, arte e história, em especial italianas. São temas que adoro, mas prefiro aprender sobre eles em tratados especializados... e ilustrados. De qualquer forma, além de ter me ajudado a entender a figura do vampiro contemporâneo em si, a obra da Rice foi fundamental para definir algumas das diretrizes de minha escrita. Aprendi muito com a leitura crítica de seus livros, em particular de “A hora das bruxas”, e descobri macetes que acabei incorporando à meus textos.

  - A atração pelo mórbido é intrínseca aos seres humanos, mas acho que os escritores principalmente, tem essa faceta mais aguçada. Quais seriam as causas?

Meu interesse pelo mórbido é unicamente como instrumento de trabalho.

- Você sabe que neste site, muita coisa praticamente gira em torno do cultuado autor e roteirista inglês Alan Moore. Que ele foi o criador da obra From Hell , para os Quadrinhos, depois desperdiçada por Hollywood. E que ele,” para vencer a crise existencial dos 40 anos”, resolveu se tornar um mago. Estudou muito Aleister Crowley, Austin Osman Spare, participou de experiências e acontecimentos no mínimo “fora-do-script”, como ele gosta de descrevê-los. Você acredita na Magia, na Cabala e outros desdobramentos, ou tenta também - como o James Randi tupiniquim, Padre Oscar Quevedo - "explicar tudo à luz da Parapsicologia" ?

 Meu contato mais próximo com Aleister Crowley foi a visita que fiz à Boca do Inferno, em Cascais, Portugal, onde ele simulou sua morte com a conivência de Fernando Pessoa. Tirei uma bonita foto do JC, meu Pingüim Viajante, junto à placa comemorativa do evento. Não sei nada sobre Magia ou Cabala. Até o momento não tenho tido dificuldade em manter meu ceticismo no lugar.

  - Você acha que as nossa limitações cognitivas atualmente são tecnológicas, filosóficas ou epistemológicas?

Nenhuma das anteriores. Biológicas, estruturais e intrínsecas, fruto das limitações do modelo original sobre o qual a evolução tem agido. A dupla mutação gênica / seleção natural é poderosíssima, mas não faz milagres.

- O que acha da imberbe Teoria do Caos, com seus Fractais e o popular "efeito borboleta"?

Sinceridade? Como bióloga de campo, acho tudo uma linda teoria, mas sou calejada com modelos perfeitos, utópicos e inúteis na vida real. Tanto que tenho uma certa fama no meio ornitológico por minha profunda desconfiança quanto à ecologia “de gabinete”. Pegue as teorias mais geniais e tente aplicar no meio do mato. Na tese de mestrado de um amigo meu, a bela modelagem que ele tentava comprovar foi destruída por um único sabiá alucinado que, para defender seu ninho, espantava dos arredores todas as outras aves. Modelos são muito bons como exercício mental. Anos atrás, lendo um livro sobre o Caos, o autor alertava que a Ecologia era complexa demais para ser entendida por essa teoria. Na mesma hora perdi o interesse pela coisa. Sou um tanto pragmática.

- Como acha que esta teoria pode ser aproveitada por exemplo em algum enredo literário?

Apesar da Teoria do Caos ser uma abordagem inútil em minha vida prática, é um recurso bem interessante para a ficção.

Por coincidência, neste momento estou trabalhando num conto em que menciono en passant as tais borboletas batedoras de asas. É uma rápida citação, só para rejeitar a idéia. Essa refutação, porém, aplica-se apenas ao contexto do conto. Muito tempo atrás escrevi uma história com abordagem diametralmente oposta, calcada na dependência hipersensível das condições iniciais que vem a ser a base da Teoria do Caos.

Como ponto de partida para a ficção, é um terreno muito fértil.

- Na ficção estrangeira, nota-se que muitas cidades que servem de palco às estórias, se transformam quase em lugares míticos (New York de Paul Auster, New Orleans de Teneesse Willians , o Cairo de Naguib Mahfouz ...). Na minha modesta ótica, no entanto, acho que nenhum autor brasileiro conseguiu ainda esta proeza. E você, o que pensa disto?

Não conheço a obra desses autores. Como já disse em algum lugar aí atrás, para mim o prodigioso (não necessariamente sobrenatural ou inexplicável) está por toda parte e em nosso dia-a-dia. São Paulo é meu palco preferido para situar relatos fantásticos, justamente por me parecer tão banal. Minha hipótese de trabalho é que o mundo é um lugar muito interessante. Se sou capaz de convencer os leitores disso, compete a eles avaliarem.

- Voltando aos seus escritos, o que você fez que considera o melhor até agora?

Minha tese de doutorado. Depois de oito anos de trabalho, consegui relacionar certos padrões comportamentais das aves de minha área de estudo (uma mata litorânea no Espírito Santo) com um evento geomorfológico ocorrido na região uns 6.000 anos atrás. Melhor do que qualquer ficção científica!

Considerando só a ficção, meu romance inédito, “Amores Perigosos”. Além de ser o texto mais longo que já escrevi, tem uma trama bem mais intrincada do que o “Relações de Sangue”, e fiquei muito satisfeita com o desenvolvimento psicológico dos personagens. Um deles foi criado em cima de uma pesquisa que teve início em 1998. Considero-o o texto ficcional mais elaborado que já criei (o que não quer dizer que seja difícil de ler ou de entender).

  --E fora do globalizado eixo EUA/Inglaterra, quem atualmente está fazendo a diferença?

 Leio muitos autores fora desse eixo (na maioria italianos, argentinos e espanhóis), mas não tenho a mínima idéia se são conhecidos ou se têm seguidores; apenas topei com eles ao acaso.

 -Quais sites da web você visita com freqüência?

Navego muito pouco. Vou atrás de informações específicas, quando preciso delas, e nesses casos raramente uso páginas brasileiras; em geral consulto material de instituições estadunidenses ou européias. Uso demais o Google para pesquisas, leio as manchetes na página de abertura do IG e visito os blogs de alguns amigos.

  - Qual foi a experiência mais louca que você já experimentou na vida?

Costumo ser meio imprudente quando viajo e já me meti em muitas situações perigosas. Nunca aconteceu nada de grave. Me arrisquei na Amazônia, na Mata Atlântica, no Mato Grosso, na Bolívia.

Mas acho que a idéia mais idiota foi cruzar os Andes no inverno: 4.700 m de altitude, neve caindo, pista coberta de gelo e nosso veículo sem correntes. Fomos o último veículo que conseguiu atravessar antes que o passo fechasse por quase uma semana.

 

Passo de Jama, Chile, a 4.700 m de altitude (2002).

- Qual foi o sonho mais louco que você já teve?

Ir para Timor Leste para escrever um livro bilíngüe, tétum-português, sobre as aves do país e sua relevância na cultura popular.

  - Obrigada, Martha, por dividir conosco um pouco do seu precioso tempo.

Eu é que agradeço, José Carlos, pelo espaço que abriu para que eu falasse um pouco sobre minha obra. Espero que as respostas tenham estado à altura de suas perguntas inteligentes e interessantes. E aproveito para dar os parabéns por seu trabalho e pela profundidade e seriedade com que sua página aborda a obra de Alan Moore e tudo o que se relaciona a ela.