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Entrevistas / Interviews
(por Tom Georgoulias para www.frontwhelldrive.com
- 2002– adaptado livremente por
Jose Carlos Neves)
Na ultima vez que falei com Rudy
Rucker, a sua coleção de não-ficção Seek! e o romance de Ficção
Cientifica Saucer Wisdom estavam apenas começando a aparecer nas
prateleiras das livrarias.
Desde então, o Dr. Rucker tem "brincado" com
um kit de programação de video-games chamado The Pop Framework,
mas sem relegar o gênero literário que tanto
aprecia.
Na verdade, o Dr. Rucker precisara´ de pelo menos
quatro escaninhos nas prateleiras para expor suas ultimas crias: o altamente
cientifico Software Engineering and Computer Games (“Engenharia de
Programas e Jogos de Computador”); o novo romance de FC sobre a
pluridimensionalidade do universo Spaceland (“Mundo Espacial”); o
romance histórico As Above So Below (“Assim no Céu como na Terra”)
e a nova edição de The Hacker and The Ants (“O Hacker e as
Formigas”) todos eles programados para este ano de 2002.
Atrás dele certamente estarão também um monte de pais
anônimos se indagando
porque nem as tarefas escolares
mais pesadas de seus filhos , não
conseguem afasta-los dos video-games.
Aqui esta´ o que o Dr. Rucker tem a dizer sobre
pesquisas de ciências da computação, programação de games e o que e´
realmente necessário para se produzir um filme freeware para a internet:
Frontwheeldrive: Quais os tipos de pesquisas
extrapolativas da computação ( Celular Automata, Fractais, Vida
Virtual, etç) com as quais o Sr. esta envolvido no momento?
Rudy Rucker: Nestes últimos anos, eu apliquei todas as minhas energias na pesquisa de programação de jogos para computador. Atualmente este e´ com certeza um dos campos de pesquisa e trabalho dos mais excitantes e promissores, que combina muita coisa que aprecio: imagens de realidade virtual, algorítmicos de vida artificial, Inteligência Artificial, arte computadorizada, atitude das ruas, Física simulada e a obsessão por escrever um código de criptografia que realmente rode velozmente.
No entanto, pessoalmente, já estou pronto para
abandonar minhas ferramentas de programação. Praticamente esgotei as minhas
reservas no desenvolvimento do meu programa Pop Game Framework, para o
meu livro Software Engineering and Computer Games. Tive que trabalhar
muito mais do que eu esperava e, na verdade, escrever Ficção Cientifica e´
muito mais fácil e divertido .Tudo o que você precisa e´ descrever uma vez só
a idéia inicial, a matriz, e extrapolar o restante a partir daí. Se
durante o desenrolar da estória, aparece algum “problema”, simplesmente
volte la´ na matriz e altere algumas palavras. O que chamo de Ciclos de rápidas
revisões! O aspecto de “construir uma catedral a partir de um palito de
dentes” que determinava a arte da programação
já e´ coisa do passado
Atualmente
eu tenho ministrado ainda cursos de
graduação e acompanhado mestrandos no desenvolvimento de suas teses na
Universidade Estadual de San Jose-SJSU . Isto significa que eu posso tentar
incentivar os estudantes a programar coisas que eu gostaria de ver. Inclusive,
um projeto interessante que estou envolvido justamente agora e´ o de um aluno
que esta´ ampliando o meu Pop Game Framework para usar quatro dimensões.
.
Nos já temos invasores da 4ª Dimensão
bem legais e eu espero que
ele possa brindar-nos também com um Pacman quadridimensional.
Qualquer dia desses eu vou incita-los a acrescentar um Automato Celular ao Pop, de um jeito que poderemos então surfar numa “onda de Automatos Celulares”.
Também gostaria ver mais da Teoria do
Caos aplicado
nos joguinhos.
F: Agora que Stephen
Wolfram acaba de lançar o seu esperado livro
A New Kind of Science (“Uma nova especie
de ciência”) que aborda complexidade e automatos celulares, como você
acha que seu efeito-multiplicador ira´ afetar o campo dos Automatos Celulares (AU)?
R: Seria realmente um tiro-no-braço. Inclusive ate´
mesmo cogitei de pegar uma carona no sucesso do livro de Wolfram e escrever algo
na mesma linha, mas descobri que já era tarde demais. O que não deixou de ser
um alivio...
O que eu realmente quero fazer hoje e´ escrever FC.
Quanto aos AU optei por ser apenas um dos menos conhecidos de seus
popularizadores.
Mas e´ uma “Pergunta Sagrada”, esta.
Eu li o livro de Wolfram um vez, rapidamente,
mas o apreciei bastante. Muitas daquelas idéias já me eram familiares,
baseadas em coisas que ele escrevera nos anos 80, só que agora ele
aprofundou-as consideravelmente e foi muito bem sucedido na sua exemplificação.
Inclusive eu estou escrevendo, embora bem devagar, uma longa resenha do
livro para a American
Mathematical Monthly , e espero usa-lo também num novo curso que vou dar na
SJSU na primavera de 2003.
Seria prematuro adiantar mais alguma coisa agora.
John Updike uma vez comparou críticos a “porcos numa
barraquinha de tortas”. Temos aqui um calhamaço que tomou 20 anos do seu
genial autor para escreve-lo e nos -
os “críticos” - queremos resumi-la a comenta-la
em rapidas pinceladas? “Hum, hum,
tem gosto de ameixas...”
F: Já que seu desejo e´ focar agora em escrever FC ,
como você vê o gênero atualmente?
R:
Um escritor de FC não e´
necessariamente a melhor pessoa
para se indagar isto. Na verdade, o que eu tenho focado atualmente e´ o meu
pequeno jardim. Não leio muitas outras obras do gênero – embora não possa
deixar de destacar Bill Gibson, o pouco-conhecido Terry Bisson,
e Paul di
Filippo, que escrevem estorias maravilhosas.
Marc Laidlaw deveria voltar
a escrever, mas acho que ele foi engolido pela industria de jogos
- ele trabalha na Valve, perto de Seatle, desenhando linhas de
armazenamento para jogos como Half-Life. Embora se possa dizer também
que ele simplesmente “mudou de midia” .
Mas de minha parte, não considero nenhuma outra area
mais rica do que escrever FC.
Num romance você pode fazer o que quiser e nem tem de
se preocupar com orçamentos astronomicos para os efeitos-especiais. Você pode
usar uma linguagem magnífica. Você não tem que se preocupar com Produtores.
Seus leitores podem reler sua obra quantas vezes quiserem, pular paginas, ir e
voltar na leitura...E´ uma mídia fantástica
Tenho ate´ uma vaga ideia de que estamos para inaugurar uma nova corrente de escritores de FC; tivemos a Idade-do-ouro, nos anos 40; a “new wave” nos 60; Ciberpunk nos 80 ...Então já esta´ na hora de termos a FC dos 00.
Só que eu não estou por ai a ler as revistas e os
romances dos estreiantes, portanto,
não sou o cara certo para responder sobre isto.
Mas, só para não deixar passar em branco, li um amador
recentemente, que merece ser acompanhado de perto, Cory
Doctorow, com o seu “Down
and Out in the Magic Kingdom” – publicado pela
Tor Books neste outono.
Ele
pode com certeza ser um dos formadores de corrente, por reaver certas noções
que ainda considero fundamentais na FC; por exemplo, suas personagens estão
on-line todo o tempo, através de implantes, coisa que realmente
me choca por sua avassaladora, assustadora
e eminente plausibilidade.
Porque assustadora?
O que você acharia de ser submetido a spams, musica-ambiente,
telemarketing, anúncios políticos, vírus digitais, e vigilância eletrônica
24 horas/ 7 dias da semana?
F: Seu livro Software Engineering and Computer Games
esta´ saindo agora pela Addison Wesley . Você considera os vídeo-games um
instrumento eficaz no ensino de ciencias da computação ?
R: Sim,sim, absolutamente. Ter estudantes programando
jogos eletrônicos e´ com certeza a
melhor forma de ensina-los programação , computação gráfica, design de softwares, etc.
Eu sempre gostei de Fotografia e tenho uma câmera excelente, uma Leica M4, com a qual estou sempre tirando fotos. Uma vez precisei de um novo par de lentes para ela e para minha grande surpresa, quando fui compra-los, constatei que um monte de gente estava “colecionando” suas Leicas, guardando-as em caixas herméticas de vidro,etc...Para mim, uma câmera foi feita pra fotografar...
Da mesma forma que um kit de ferramentas de programação
, como o Visual Studio ou o JDK foram feitos para escrever programas –
e não para ser um item de colecionador, junto com suas diversas versões; ou
para ser discutido; ou comparado a outros softwares. Eles existem para serem
usados.Ponto final.
Programar jogos suscita um monte de desafios que faz com
que você tenha de programar pra caramba.
Para tirar fotos, você precisa de um “alvo” que
realmente te desperte o interesse. Para aprender a escrever, você também
precisa ter um assunto sobre o qual você gostaria de escrever. E, para aprender
programação , você precisa de algo que você gostaria de programar.
E e´ muito fácil para qualquer estudante se
entusiasmar para desenhar um joguinho. Ate´ os deveres-de-casa se tornam
atraentes. O jogo funciona ou não? E´ jogavel ou não?
Tenho ministrado minhas aulas no curso de Criação de Sotware na SJSU dessa maneira já por uma década, período em que aproveitei também para desenvolver o meu Pop e deixar os alunos se valerem dele para criarem jogos de forma mais fácil e rápida. Estou muito orgulhoso do meu programa, atualmente já utilizado como codigo de uma centena de jogos – tenho os melhores dele prontos para fazer download.
O programa Pop e´ inteiramente OO; basicamente você
simplesmente edita um arquivo para descarregar alguns sistemas e pronto, você já
tem o seu jogo: Pacman,
Asteroids, 3D Defender, Airhockey,
Soccer, qualquer um . Eu utilizei padrões
a UML para obter o design correto. E, graficamente falando, eu desenhei-o
de uma forma que você pode rodar o jogo dentro de uma janela do Windows, ao invés
de usar a tela cheia – o que eu sempre considerei moralmente errado.
Você pode usar tanto os gráficos do Windows, quanto o
OpenGL; alterna-los e´ um verdadeiro exemplo de como se usar os “padrões-ponte”.
Ta´ tudo la´ no livro. E eu, como já disse, mais nunca volto a escrever um
livro desses...Foi uma quantidade insana de esforço e só espero que sua
comercialização compense tudo
isto.
F: Acabei
de ler estes dias Spaceland, a sua ultima FC,
sobre um yuppie do Vale do Silício, que e´ convidado a visitar a Quarta Dimensão
. O livro não só engatilhou o clima do boom das “ponto.com” como
também descreve de forma extremante convincente a quarta dimensão, sem deixar
de ser divertido. O que o levou a escreve-lo?
R: O livro
foi inspirado em Flatland,(“Mundo
Plano”) o clássico do abade inglês Edwin
Abbott, de 1884, na verdade um conto, e um
romance, sobre uma personagem bi-dimensional chamada QuadradoA e suas
dificuldades para entender a 3ª Dimensao.
Nossa situação e´ similar: nos somos criaturas
tridimensionais, tentando entender a
quarta dimensão. . A idéia e´ a de que podemos formular analogias entre
QuadradoA e nos próprios. A quarta esta´ para a terceira, assim como esta esta´
para a segunda. Graças a Abott eu acabei escrevendo dois livros de não-ficção
sobre a 4ª Dimensão, concluindo depois que já era tempo de fazer a 4ª
Dimensao figurar num romance realista.
Eu chamei o protagonista de Joe Cube (“Zé Cubo”) e
tentei mostrar em Spaceland como as coisas se aparentariam se eu pudesse
viajar para dentro da 4ª Dimensão. Ninguém avançou muito nesta noção antes
de mim.
Flatland começa em 31 de dezembro de 1999,
quando uma Esfera das “dimensões superiores
“(a terceira) atravessa o
“Mundo Plano” (Flatland).
Então, quando esse dia realmente chegou, eu, que esperava que alguma coisa acontecesse mesmo, que uma criatura da 4ª Dimensão penetrasse a nossa realidade tridimensional, o nosso mundo, no que eu considero que seria realmente o “Apocalipse”, a “revelação” , tive que me contentar com uma estória sobre isto que eu mesmo escreveria.
Outra coisa que pretendi com Spaceland era
explorar ficcionalmente o ambiente do Vale do Silício, onde eu cresci e vivo ,
como já havia feito antes em The
Hacker and The Ants.
O livro deu certo e tem vendido bem.
Inclusive, todas as minhas anotações de pesquisa para
escreve-lo, estão no meu site. The Hacker and the Ants será relançado
agora pela Four Walls Eight Windows, desta vez com uma capa produzida
pela companhia de design de minha
filha Geórgia, a www.pinkdesign.inc de
Nova Iorque.
Na área de cinema, a
Phoenix Pictures comprou ha 10 anos os direitos de meu livro “Software”,
que depois eles acabaram substituindo pelo “O Sexto Dia”, com Arnold
Swarzenegger, explorando desaforadamente todos os meus conceitos, inclusive o
yuppie e cientista maluco chamado Drucker – uma corruptela de Dr.Rucker -, mas
deixemos isto pra la´. Agora mesmo acabo de assinar outro contrato, desta vez
com a Directed Evolution
Networks, de Seattle, para produzir um filme baseado em “Freeware”,
outro dos meus livros da serie “Ware”.
Sem falar que o diretor Mark Mitchell, do Brooklyn, também
esta´ interessado em produzir um filme de meu “Master of Space and Time”
(“Mestre do Espaço-Tempo”).
A esperança e´ sempre florescente em nosso coração.
F: Mas o que você espera de um filme baseado nos “Ware”?
O que você gostaria de ver? Os efeitos alucinógenos das drogas, a cidade-lunar
Einstein, a narrativa extremamente ágil do romance, tudo isto produziria
visuais intensos, correto?
R: Eu gostaria realmente de ver assistir algo
grandioso nas telas grandes, estilo Blade Runner ou Matrix, protagonizado
por Johnny Deep, Mat Dillon e Heather Locklear. Em efeitos-especiais, seria o
maximo ver os técnicos
colocarem autômatos-celulares dentro da pele dos “moldies”
- não seria muito difícil assim de fazer; eu mesmo estou tentando a
fazer uma “demonstração “: o jeito mais “low-tech” seria simplesmente
usar projetores computadorizados para projetar AC sobre atores em colantes
emborrachados brancos.
Mas detestaria ver violência gratuita; alias, este foi ao meu ver, um dos pontos fracos de Blade Runner, a matança no final. Quando na verdade, o original de K.Dick, o clássico “Sonham os Andróides com Carneirinhos Elétricos”, era todo embasado em noções de empatia, generosidade e humanidade. Mas o que o pessoal de Hollywood gosta e sabe fazer mesmo e´ matar gente e animais e explodir coisas...
Eu mesmo vi “Software” passar por uma dezena
de roteiros, nenhum deles que eu tivesse permissão para palpitar, e no final,
quase sempre as estórias resultaram completamente
ilógicas.
E e´ patente que o mínimo que se pode exigir de um
filme de Ficção cientifica,e´ que
seja plausível, que tenha consistência do inicio ao fim.
Não entendo porque isto e ´ tão difícil dos produtores entenderem. Será que eles não se
importam? Acham que o espectador não
vai perceber? Caramba, se eles podem torrar de 20 a 100 milhões de dólares
numa mega-produção , o que
custaria contratar um escritor profissional de FC para ser pelo menos um
“consultor”, para tapar os buracos do roteiro?
Mesmo Matrix , que eu gostei muito, tem vários
“furos”. O mais patético deles
e´ as maquinas precisarem dos corpos das pessoas, mantidos em casulos, como
bateria. Não e´dificil concluirmos que manter todas aquelas pessoas
enclausuradas custaria muito mais energia do que a obtida de seus sistemas
nervosos. Um escritor de FC facilmente inventaria que “Não e´ energia elétrica
que estamos gerando a partir daquelas pessoas, mas sua energia psionica a qual
armazenamos numa câmera de ressonância quântica
para sua posterior conversão em eletricidade.”
Bem, no final das contas, qualquer filme que eles
fizerem baseado em meus livros, será bem-vindo, principalmente por causa da
grana e da divulgação maciça que minhas obras receberão.
Elas continuarão intactas como tais, faça Hollywood o que
fizer ..
F: Pra finalizar, o que você esta´ escrevendo ou
fazendo agora?
R: Acabo de concluir um novo romance histórico, sobre o
pintor Flamengo Peter Bruegel, entitulado “As Above, So Below
“(“Assim no Ceu, como Na Terra”), lançado pela Tor Books. Acho que e´
minha obra-prima. Não e´ FC, e´ verdade, mas Bruegel sempre me fascinou. Sua
pintura inicial, retratando o inferno, tem muito de FC, e as
posteriores, representando cidadãos comuns, tem algo de extremo
realismo. Ele sempre mostra em seus quadros cenas mundanas, suas paisagens
tresandam um profundo senso de divindade cósmica intrínseco ao mundo –
embora nenhum deles nunca foi exposto em igrejas. A sua maestria técnica e´insuperavel.
E´ o meu cara e gostaria muito de escrever como ele pintava.
Como a vida dele
não foi bem documentada, eu
tive de partir para uma espécie de transrealismo reverso, deduzindo-a
a partir de suas pinturas.
Também estou escrevendo um extenso romance de FC com o
titulo provisório de “Flek and the Elixir” e talvez ainda leve um
ano para conclui-lo. E´ um épico, que trata de biotecnologia num tom mais
leve, mais pro-adolescente e jovens.
Imagino uma apresentação de orelha mais ou menos assim “O ano e´ 3003 e as plantas carnívoras e animais são maravilhosos, embora só existam agora no maximo um dúzia de espécies. A própria natureza foi “McDonaldizada”. Esta´ nas mãos de Frek Huggins, um rapazote da calma e preguiçosa Middleville se aventurar pelas galáxias em busca de um elixir para restaurar a nossa biosfera. Pelo menos foi o que lhe revelou a recomendou um peixe-espada alienígena. Mas será que se pode confiar em alienígenas? ...”
Obs.: Levando-se em conta os obstáculos de comunicação
impostos pelas barreira lingüística e culturls,
alguma coisa sempre acaba se perdendo
na tradução. Mas toda alteração foi promovida embuido do propósito
de ser fiel ao significado pretendido pelo autor. / Considering the
communications obstacles posed by language and cultural