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CONTOS/ SHORT-STORIES 01
A Orquídea
Assim
foram se passando os dias, a linda flor acompanhando meus humores e amores de
cada dia. Tão acostumada estava com a sua companhia que a teria esquecido. Mas
ela não permitiu. Eu sentia o tempo todo um leve desconforto, olhava sem parar
para a lapela. Queria verificar a todo momento se a orquídea estava torta ou
mal acomodada. Comecei a prestar atenção às reações da flor. Sentia que
murchava a cada amigo que me acarinhava, a cada homem que se aproximava. Acho
que foi por isso que passei a evitar gestos de afeto calorosos, antes tão
bem-vindos.
Em
seguida, comecei a ouvi-la. Custei a acreditar nisso, mas logo ficou evidente
que ela falava, sim. Como um pensamento inquieto dentro da minha mente, ela
passou a me dizer, baixinho, as suas queixas. Reclamava em sussurros da sua
infelicidade, do sofrimento que lhe causava a condição de apêndice na minha
lapela. Declarava, com desgosto, que me era completamente devotada. Mas eu não
retribuía esse imenso amor como deveria. Que eu a tratava com indiferença. Que
só tinha olhos para os outros. Cada vez mais incomodada, eu passava o dia
tentando consolá-la. Quanto mais carinho lhe dava, mais ela pedia. Eu não
tinha tempo para mais nada. Já nem sabia mais se gostava mesmo dela, apenas que
não podia abandoná-la. Ela precisava de mim, era tão frágil que a qualquer
momento poderia murchar... Morrer.
Foi
então que a orquídea desabrochou por inteiro. Começou a falar não apenas
para mim, mas para todos. Repetia tudo o que eu lhe dissera. Os meus
pensamentos. Sonhos. Visões. Até mesmo os meus medos. Normal, não é? Afinal,
ela me dedicara tanto amor... Era natural que me usasse como modelo. E todos a
consideraram brilhante. Talentosa. Reconquistou tudo o que eu perdera. Os amigos
que eu, ocupada com ela, deixara que se afastassem. E eu me sentia cada vez mais
exausta.
Ela
cresceu, expandiu-se para além da lapela ao qual estava pousada. Adquiriu um
rosto. Cortou os cabelos. Pintou os lábios. Agora, todos a chamam de Orquídea.
E, a mim, de sílvia. A sílvia da Orquídea. Vocês podem me ver, se prestarem
atenção. Murcha, solitária, na lapela que um dia foi minha e agora pertence
à Orquídea. Sim, eu murcho... Cada vez mais rápido. Não entendo como ela
sobrevivia tão bem na minha lapela. Só sei que eu não consigo fazer o
mesmo... Isto não passou despercebido à Orquídea. Ela pressente o fim desse
ciclo, pois há algum tempo está se preparando para partir.
Acho
que, logo, irá pousar com suavidade em alguma outra lapela...
(animação
JCN)
05 de maio de 2003