ALAN MOORE     Senhor do Caos  /   Lord of Chaos
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CONTOS/ SHORT-STORIES 01


                              A Orquídea

                                                    Giulia Moon

  Ela estava ali, esplêndida e delicada, na minha lapela. Surgiu de repente e isso, confesso, pareceu-me um pouco estranho. Mas por que não usá-la? Uma coisa graciosa como aquela... Todo mundo notava o novo adereço. “Sílvia”, diziam, “que bela orquídea, tão viva e fresca”. “Combina com a sua pele, Sílvia”. “É delicada e gentil como você, Sílvia”. A orquídea da Sílvia.

Assim foram se passando os dias, a linda flor acompanhando meus humores e amores de cada dia. Tão acostumada estava com a sua companhia que a teria esquecido. Mas ela não permitiu. Eu sentia o tempo todo um leve desconforto, olhava sem parar para a lapela. Queria verificar a todo momento se a orquídea estava torta ou mal acomodada. Comecei a prestar atenção às reações da flor. Sentia que murchava a cada amigo que me acarinhava, a cada homem que se aproximava. Acho que foi por isso que passei a evitar gestos de afeto calorosos, antes tão bem-vindos.

Em seguida, comecei a ouvi-la. Custei a acreditar nisso, mas logo ficou evidente que ela falava, sim. Como um pensamento inquieto dentro da minha mente, ela passou a me dizer, baixinho, as suas queixas. Reclamava em sussurros da sua infelicidade, do sofrimento que lhe causava a condição de apêndice na minha lapela. Declarava, com desgosto, que me era completamente devotada. Mas eu não retribuía esse imenso amor como deveria. Que eu a tratava com indiferença. Que só tinha olhos para os outros. Cada vez mais incomodada, eu passava o dia tentando consolá-la. Quanto mais carinho lhe dava, mais ela pedia. Eu não tinha tempo para mais nada. Já nem sabia mais se gostava mesmo dela, apenas que não podia abandoná-la. Ela precisava de mim, era tão frágil que a qualquer momento poderia murchar... Morrer.

Foi então que a orquídea desabrochou por inteiro. Começou a falar não apenas para mim, mas para todos. Repetia tudo o que eu lhe dissera. Os meus pensamentos. Sonhos. Visões. Até mesmo os meus medos. Normal, não é? Afinal, ela me dedicara tanto amor... Era natural que me usasse como modelo. E todos a consideraram brilhante. Talentosa. Reconquistou tudo o que eu perdera. Os amigos que eu, ocupada com ela, deixara que se afastassem. E eu me sentia cada vez mais exausta.

Ela cresceu, expandiu-se para além da lapela ao qual estava pousada. Adquiriu um rosto. Cortou os cabelos. Pintou os lábios. Agora, todos a chamam de Orquídea. E, a mim, de sílvia. A sílvia da Orquídea. Vocês podem me ver, se prestarem atenção. Murcha, solitária, na lapela que um dia foi minha e agora pertence à Orquídea. Sim, eu murcho... Cada vez mais rápido. Não entendo como ela sobrevivia tão bem na minha lapela. Só sei que eu não consigo fazer o mesmo... Isto não passou despercebido à Orquídea. Ela pressente o fim desse ciclo, pois há algum tempo está se preparando para partir.

Acho que, logo, irá pousar com suavidade em alguma outra lapela...                                              (animação JCN)

05 de maio de 2003