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Artigos  /  Articles


VIDA APÓS A MORTE

  O Grande Enigma: Nos limites do mais teimoso mistério da vida

Os que “voltam”falam das sensações agradáveis envolvendo experiências luminosas fora do corpo 

                                                                         por Luiz Carlos Lisboa

     No famoso trecho de Hamlet em que Shakespeare fala do “ser ou não ser”, ele define a morte, talvez o mais teimoso dos mistérios da vida como “o país desconhecido cuja fronteira nenhum viajante jamais atravessou”. Mais certo que isso é só o fato de que o homem desejou conhecer o que existe além dessa fronteira que é o seu limite, não apenas porque é próprio da natureza humana vencer desafios e decifrar enigmas, como porque a morte é muito importante uma vez que é única coisa certa  no futuro de todo homem vivo.

     Alguns raros santos, heróis e poetas falaram  de uma viagem rápida para além da vida até jardins e paisagens abençoadas, ou a um certo lugar sombrio que chamam “o mundo dos mortos”, como Maomé e Dante. Após sua morte na cruz, Jesus Cristo teria descido ao Inferno nos três dias que seguiram à Paixão, antes de aparecer a alguns discípulos e de subir para junto do Pai. Em vida, segundo os Evangelhos, ressuscitou um homem morto havia quatro dias, Lázaro, que viveu depois uma longa vida.

     São Paulo descreve, em sua segunda Epístola aos Corínthios, uma visita que lhe foi dada fazer ao que chamou de “terceiro céu”, onde ouviu “palavras inefáveis, como ao homem não é dado a dizer”. De um modo diferente, entre os gregos lendários, Orfeu conseguiu chegar ao  mundo dos mortos e de lá trazer a mulher amada que morrera da picada de uma serpente, e que afinal perdera novamente porque não soube trazê-la de volta ao mundo dos vivos da forma como lhe havia recomendado Hades, guardião do Inferno. Hércules não fez por menos, quando para realizar um dos seus célebres 12 trabalhos entrou à força no reino infernal e de lá voltou são e salvo.

     Imagem invertida

     Nos estudos que fez sobre os xamãs da Sibéria, principalmente os de grupos altaicos, goldes e iuraques, para os quais o outro mundo é uma imagem invertida deste, Mircea Eliade deteve-se longamente nos êxtases dos exorcistas que diziam visitar as placas celestiais e infernais. Quando voltaram a si afirmavam estar ressuscitando, depois de ter percorrido longos corredores, planícies e pastagens, observado terríveis tempestades e ter falado com pessoas já mortas.

     Eliade detalha os transes durante os quais xamãs da Ásia Central, do Alasca e da Colúmbia Britânica no Canadá, afirmavam estar visitando o mundo dos mortos. Durante essas sessões, os reflexos do sacerdote pareciam cessar completamente.

     Neles não eram notados sinais de vida, como respiração ou pulsação, durante o tempo em que permaneciam inconscientes. Entre os axumauí e os altai, o xamã afirma que desce ao Inferno para buscar a alma do doente às portas da morte, percorrendo o “itinerário subterrâneo dos defuntos”, como dizem os xamãs das tribos iumas. Certos êxtases descrevem estados e reações em tudo semelhantes ao que a medicina moderna ocidental chama de coma e morte clínica.

     Os siberianos e norte-americanos daquelas culturas afirmam que esse estado difere totalmente da morte e o chamam de “mutação”.

     Na Malásia e na antiga Indonésia, a “barca dos mortos” é um elemento da mitologia funerária. Alguns exorcistas conseguem navegar nela e voltar à margem do rio onde estão os vivos. Na Melanésia o xamã dorme ao lado do morto para guiá-lo pelos caminhos do outro mundo e, ao acordar, conta como o finado foi recebido no Além pelos que morreram antes dele. Esses mitos de acompanhamento e os da barca sobreviveram hoje em culturas diferentes como as do Bornéu e do norte do Japão.

     O Rig Veda, um dos quatro livros sagrados fundamentais do Bramanismo, fala de “viagens celestes” feitas por homens que na aparência morreram e que depois retornaram à vida para dar conselhos e transmitir fé e esperança aos vivos.

     O papa Gregório Magno, santo da Igreja, colecionou no século 6 todos os relatos que pôde encontrar de pessoas que morreram ou pensaram ter morrido e por qualquer circunstância milagrosa retornaram à vida, como quem acorda de um sonho. Em nosso tempo, Carol Zaleski, teólogo de Harvard, encontrou depoimentos semelhantes entre povos antigos e os reuniu em seu livro Outherworld Journeys. Nele descobre-se que gregos, romanos, egípcios e orientais não somente afirmaram ter morrido e em seguida retornado à vida, como garantem que depois dessa experiência deixaram de temer a morte como antes. Para eles, e ainda hoje essa convicção sobrevive no Oriente, a morte seria uma viagem que teria por fim a recuperação da “verdadeira natureza” do viajante.

     Em 1975, o psiquiatra Raymond Moody Jr. reuniu em livro experiências de pessoas que tendo cruzado os umbrais da morte por alguns instantes – a verdade é que foram consideradas mortas pelos que as assistiam, médicos e enfermeiros experimentados – tiveram depois reavivadas suas funções vitais e puderam dar um depoimento sobre o que acontecera com elas naqueles instantes em que se supôs estivessem mortas. A orientação do médico que colheu seu depoimento foi para que não tirassem conclusões mas apenas relatassem.

     Quase-morte

     O livro de Moody Jr. Vida depois da Vida, despertou enorme interesse do grande público e de parte dos médicos. Foi a partir dele que se passou a falar em “near death experience” (NDE), experiência de quase-morte. A NDE não deve ser confundida com fenômenos paranormais como os descritos por outros autores, inclusive por Shirley MacLaine em seu livro mais famoso Out on a Limb. Tratava-se, no caso da quase-morte, do estudo experimental de fenômenos que ocorriam com algumas raras pessoas na iminência da morte, ou segundo certos autores imediatamente após ela, e que mais tarde eram relatados pelos próprios sobreviventes.

     O que sempre pareceu extraordinário nessas experiências é que alguns dos seus sintomas se repetiam com uma insistência desconcertante desde que começaram a ser recolhidos em depoimentos e registros por observadores, fossem eles médicos ou não. Praticamente todos falavam na sensação do desprendimento do próprio corpo descrita pelo agonizante ou pelo quase-morto. Também comum era um zumbido que cada depoente descrevia a seu modo, e a referência inevitável de um túnel escuro ao fim do qual havia uma luz brilhante.

     Mais tarde, o médico Melvin Morse também reuniu em livro uma sucessão de depoimentos do mesmo tipo, Closer to the Light – Learning from the Children (Mais Perto da Luz – Aprendendo com as Crianças), então recolhidos entre os pequeninos que escaparam de acidentes ou de enfermidades graves.

     A espontaneidade das narrativas e a forma cautelosa com que foram conduzidas as entrevistas, com o apoio e a assistência de médicos e psicólogos de crianças, deram grande peso aos resultados obtidos pelo dr. Morse.

     Katie foi encontrada boiando de rosto para baixo numa piscina da Associação Cristã de Moços, em sua cidade. Ninguém sabe quanto tempo ela ficou inconsciente, nem se teria batido na borda da piscina. Sem reflexos, o Dr. Morse conseguiu trazê-la de volta à vida, após cateterização arterial. O pai da menina sugeriu uma roda de orações em torno do seu leito. Duas enfermeiras e um terapeuta permaneceram à sua cabeceira.

     Três dias depois, os testes neurológicos da menina indicavam uma recuperação plena. Quando interrogada, na presença de sua mãe e de outras pessoas, Katie identificou os médicos e auxiliares que cuidaram dela nos primeiros momentos, quando ainda estava inconsciente. Mas o que causou espanto foi o que contou a seguir: depois de “voar” por dentro de um túnel, uma jovem alta e bela que ela “soube” chamar-se Elizabeth veio ao seu encontro e com ela visitou sua casa na vida real, onde estavam seus irmãos e a sua mãe, nos momentos que precederam a comunicação do acidente.

     Katie descreveu um dos irmãos estudando e a mãe na cozinha, preparando o almoço, deu detalhes de como se vestiam e dos movimentos que fizeram então dentro de casa. Tudo foi confirmado depois por eles.

     “As crianças não mentem’, diz Raymond Moody Jr. que fez o prefácio dessa obra de Morse. “E elas contam quase todas as mesmas coisas quando morreram.” “A morte é uma província do médico”, continua ele, “mas os médicos não se sentem a vontade com o assunto porque ele supõe, às vezes o fracasso da sua ciência. Muitos médicos acham também que uma vez que as experiências de quase-morte mereceram muita publicidade na mídia, não devem ser comentadas sob pena de comprometerem os profissionais que falarem a respeito”.

     Por isso, médicos, psicólogos e pesquisadores silenciam mais do que seria de desejar. “Sei de médicos que teriam muito o que dizer sobre as NDEs”, conclui Moody Jr., “mas pelo temor de parecer que estão explorando um assunto explosivo preferem não falar”. No Children’s Hospital, de Seatle, Morse prossegue no seu trabalho, fazendo conferências e juntando mais depoimentos sobre a quase-morte, em cooperação com a Internacional Association Of Near-Death Studios (Iands).

     Kim Klarke é psicóloga e pesquisadora de fenômenos e de suas significativas coincidências nessa mesma associação. Kim trabalhou com um grupo de 121 crianças que estavam gravemente doentes, embora não morrendo, por volta de 1989. Algumas estavam com rins artificiais, outras eram tratadas com narcóticos, tendo outras ainda enfrentado a morte e recuperando-se mais de uma vez. Tinham todas entre 3 e 16 anos de idade. 

     Mesmas experiências

     Todos os depoimentos falavam de experiências semelhantes. Primeiro, a separação do próprio corpo, que viam como se fosse o de um outro. Depois, o longo túnel dentro do qual o depoente se deslocava em velocidade variável, do mais lento ao mais rápido. A luz era descrita como algumas coisas acolhedora e atraente, que não despertava medo. Kim Klark tirou algumas conclusões dos questionários com as 121 crianças que em algum instante foram consideradas quase-mortas, se não realmente mortas. São elas:

     A pessoa (adulta ou criança) precisa estar de fato morrendo para ter uma NDE. Apenas gravemente enferma não é bastante. Nenhuma reação a antidepressivos e remédios para dores proporciona os mesmos efeitos. As crianças ficam “intrigadas”, e não parecem saber de fato o que lhes aconteceu. Finalmente, todos os depoimentos são sempre iguais em alguns pontos fundamentais, e é isso o que mais desafia os estudiosos da NDE, dando a entender que se trata de um fenômeno objetivo.

     O “túnel” não tem paredes mas “sabe-se” que é um túnel. O depoente voa rápido mas não há vento em seu rosto ou pelo corpo. Às vezes há alguém por perto, acompanhando o viajante, mas nem sempre isso fica claro. Diz uma menina: “Não era Jesus, mas era alguém de Jesus”, querendo talvez dizer que era confiável e doce. A certa altura, o depoente é informado de que deve voltar para cumprir um propósito “lá atrás”, isto é, na vida, mas ele nunca se lembra do propósito quando volta a si.

     Kurt (8 anos), June (7 anos), Michelle (8 anos) e Cindy (8 anos) têm trechos dos seus depoimentos destacados pela psicóloga: “De repente, flutuava e via meu corpo embaixo. Dois médicos parecia que me empurravam. Há pouco, sentia enjôo e minha cabeça doía, mas flutuando me senti bem”. Ou “Morri no carro. Estava boiando no ar, vendo os médicos pressionarem meu peito. Passei para um quarto onde estavam meus amigos. Queria falar com eles mas não podia. Meu avô se aproximou e pôs a mão no meu ombro. Ué, ele não estava morto? Tomou minha mão e me mandou voltar para meu corpo, na cama. ‘Você tem o que fazer lá’, falou”.

     Herman Feifel, no seu New Meaning of Death, examina casos de adultos que teriam passado pela morte e pinça também algumas frases expressivas nos seus depoimentos: “Eu queria morrer. Por que voltei? Até hoje não sei, mas me lembro que foi por algum motivo”. Outro: “Não é agradável ser ressuscitado. Eu queria ficar por lá”. Outro ainda: “Depois dessa experiência, não tive mais medo da morte, como antigamente”.

     Uma pesquisa feita por George Gallup em 1982 encontrou cerca de 8 milhões de experiências de quase-morte nos vários países em que foi feita. Esse número espantou até os pesquisadores que trabalhavam com a quase-morte. Para muitos médicos que foram ouvidos, trata-se somente de alucinação de doentes, de pessoas febris, de acidentados. Para outros, esses relatos e coincidências são, na verdade, olhadas rápidas naquele outro mundo para onde todo ser humano vivo mais cedo ou mais tarde irá.

     Luiz Carlos Lisboa é jornalista e escritor

     Artigo publicado originalmente no Caderno 2, O Estado de São Paulo, no dia 14 de abril de 1999 - enviado por nosso Colaborador Rodolfo Polino

(GIF animado por Jose Carlos Neves)