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Artigos / Articles
Os que
“voltam”falam das sensações agradáveis envolvendo experiências luminosas
fora do corpo
No famoso trecho de Hamlet em que Shakespeare fala do “ser ou não
ser”, ele define a morte, talvez o mais teimoso dos mistérios da vida como
“o país desconhecido cuja
fronteira nenhum viajante jamais atravessou”.
Mais certo que isso é só o fato de que o homem desejou conhecer o que existe
além dessa fronteira que é o seu limite, não apenas porque é próprio da
natureza humana vencer desafios e decifrar enigmas, como porque a morte é muito
importante uma vez que é única coisa certa
no futuro de todo homem vivo.
Alguns raros santos, heróis e poetas falaram
de uma viagem rápida para além da vida até jardins e paisagens abençoadas,
ou a um certo lugar sombrio que chamam “o mundo dos mortos”, como Maomé e
Dante. Após sua morte na cruz, Jesus Cristo teria descido ao Inferno nos três
dias que seguiram à Paixão, antes de aparecer a alguns discípulos e de subir
para junto do Pai. Em vida, segundo os Evangelhos, ressuscitou um homem morto
havia quatro dias, Lázaro, que viveu depois uma longa vida.
São Paulo descreve, em sua segunda Epístola aos Corínthios, uma visita
que lhe foi dada fazer ao que chamou de “terceiro céu”, onde ouviu
“palavras inefáveis, como ao homem não é dado a dizer”. De um modo
diferente, entre os gregos lendários, Orfeu conseguiu chegar ao
mundo dos mortos e de lá trazer a mulher amada que morrera da picada de
uma serpente, e que afinal perdera novamente porque não soube trazê-la de
volta ao mundo dos vivos da forma como lhe havia recomendado Hades, guardião do
Inferno. Hércules não fez por menos, quando para realizar um dos seus célebres
12 trabalhos entrou à força no reino infernal e de lá voltou são e salvo.
Imagem invertida
Nos estudos que fez sobre os xamãs da Sibéria, principalmente os de
grupos altaicos, goldes e iuraques, para os quais o outro mundo é uma imagem
invertida deste, Mircea Eliade deteve-se longamente nos êxtases dos exorcistas
que diziam visitar as placas celestiais e infernais. Quando voltaram a si
afirmavam estar ressuscitando, depois de ter percorrido longos corredores, planícies
e pastagens, observado terríveis tempestades e ter falado com pessoas já
mortas.
Eliade detalha os transes durante os quais xamãs da Ásia Central, do
Alasca e da Colúmbia Britânica no Canadá, afirmavam estar visitando o mundo
dos mortos. Durante essas sessões, os reflexos do sacerdote pareciam cessar
completamente.
Neles não eram notados sinais de vida, como respiração ou pulsação,
durante o tempo em que permaneciam inconscientes. Entre os axumauí e os altai,
o xamã afirma que desce ao Inferno para buscar a alma do doente às portas da
morte, percorrendo o “itinerário subterrâneo dos defuntos”, como dizem os
xamãs das tribos iumas. Certos êxtases descrevem estados e reações em tudo
semelhantes ao que a medicina moderna ocidental chama de coma e morte clínica.
Os siberianos e norte-americanos daquelas culturas afirmam que esse
estado difere totalmente da morte e o chamam de “mutação”.
Na Malásia e na antiga Indonésia, a “barca dos mortos” é um
elemento da mitologia funerária. Alguns exorcistas conseguem navegar nela e
voltar à margem do rio onde estão os vivos. Na Melanésia o xamã dorme ao
lado do morto para guiá-lo pelos caminhos do outro mundo e, ao acordar, conta
como o finado foi recebido no Além pelos que morreram antes dele. Esses mitos
de acompanhamento e os da barca sobreviveram hoje em culturas diferentes como as
do Bornéu e do norte do Japão.
O Rig Veda, um dos quatro livros sagrados fundamentais do
Bramanismo, fala de “viagens celestes” feitas por homens que na aparência
morreram e que depois retornaram à vida para dar conselhos e transmitir fé e
esperança aos vivos.
O papa Gregório Magno, santo da Igreja, colecionou no século 6 todos os
relatos que pôde encontrar de pessoas que morreram ou pensaram ter morrido e
por qualquer circunstância milagrosa retornaram à vida, como quem acorda de um
sonho. Em nosso tempo, Carol Zaleski, teólogo de Harvard, encontrou depoimentos
semelhantes entre povos antigos e os reuniu em seu livro Outherworld Journeys.
Nele descobre-se que gregos, romanos, egípcios e orientais não somente
afirmaram ter morrido e em seguida retornado à vida, como garantem que depois
dessa experiência deixaram de temer a morte como antes. Para eles, e ainda hoje
essa convicção sobrevive no Oriente, a morte seria uma viagem que teria por
fim a recuperação da “verdadeira natureza” do viajante.
Em 1975, o psiquiatra Raymond Moody Jr. reuniu em livro experiências de
pessoas que tendo cruzado os umbrais da morte por alguns instantes – a verdade
é que foram consideradas mortas pelos que as assistiam, médicos e enfermeiros
experimentados – tiveram depois reavivadas suas funções vitais e puderam dar
um depoimento sobre o que acontecera com elas naqueles instantes em que se supôs
estivessem mortas. A orientação do médico que colheu seu depoimento foi para
que não tirassem conclusões mas apenas relatassem.
Quase-morte
O livro de Moody Jr. Vida depois da Vida, despertou enorme
interesse do grande público e de parte dos médicos. Foi a partir dele que se
passou a falar em “near death experience” (NDE), experiência de
quase-morte. A NDE não deve ser confundida com fenômenos paranormais como os
descritos por outros autores, inclusive por Shirley MacLaine em seu livro mais
famoso Out on a Limb. Tratava-se, no caso da quase-morte, do estudo
experimental de fenômenos que ocorriam com algumas raras pessoas na iminência
da morte, ou segundo certos autores imediatamente após ela, e que mais tarde
eram relatados pelos próprios sobreviventes.
O que sempre pareceu extraordinário nessas experiências é que alguns
dos seus sintomas se repetiam com uma insistência desconcertante desde que começaram
a ser recolhidos em depoimentos e registros por observadores, fossem eles médicos
ou não. Praticamente todos falavam na sensação do desprendimento do próprio
corpo descrita pelo agonizante ou pelo quase-morto. Também comum era um zumbido
que cada depoente descrevia a seu modo, e a referência inevitável de um túnel
escuro ao fim do qual havia uma luz brilhante.
Mais tarde, o médico Melvin Morse também reuniu em livro uma sucessão
de depoimentos do mesmo tipo, Closer to the Light – Learning from the
Children (Mais Perto da Luz – Aprendendo com as Crianças), então
recolhidos entre os pequeninos que escaparam de acidentes ou de enfermidades
graves.
A espontaneidade das narrativas e a forma cautelosa com
que foram conduzidas as entrevistas, com o apoio e a assistência de médicos e
psicólogos de crianças, deram grande peso aos resultados obtidos pelo dr.
Morse.
Katie foi encontrada boiando de rosto para baixo numa piscina da Associação
Cristã de Moços, em sua cidade. Ninguém sabe quanto tempo ela ficou
inconsciente, nem se teria batido na borda da piscina. Sem reflexos, o Dr. Morse
conseguiu trazê-la de volta à vida, após cateterização arterial. O pai da
menina sugeriu uma roda de orações em torno do seu leito. Duas enfermeiras e
um terapeuta permaneceram à sua cabeceira.
Três dias depois, os testes neurológicos da menina indicavam uma
recuperação plena. Quando interrogada, na presença de sua mãe e de outras
pessoas, Katie identificou os médicos e auxiliares que cuidaram dela nos
primeiros momentos, quando ainda estava inconsciente. Mas o que causou espanto
foi o que contou a seguir: depois de “voar” por dentro de um túnel, uma
jovem alta e bela que ela “soube” chamar-se Elizabeth veio ao seu encontro e
com ela visitou sua casa na vida real, onde estavam seus irmãos e a sua mãe,
nos momentos que precederam a comunicação do acidente.
Katie descreveu um dos irmãos estudando e a mãe na cozinha, preparando
o almoço, deu detalhes de como se vestiam e dos movimentos que fizeram então
dentro de casa. Tudo foi confirmado depois por eles.
“As crianças não mentem’, diz Raymond Moody Jr. que fez o prefácio
dessa obra de Morse. “E elas contam quase todas as mesmas coisas quando morreram.”
“A morte é uma província do médico”, continua ele, “mas os médicos não
se sentem a vontade com o assunto porque ele supõe, às vezes o fracasso da sua
ciência. Muitos médicos acham também que uma vez que as experiências de
quase-morte mereceram muita publicidade na mídia, não devem ser comentadas sob
pena de comprometerem os profissionais que falarem a respeito”.
Por isso, médicos, psicólogos e pesquisadores silenciam mais do que
seria de desejar. “Sei de médicos que teriam muito o que dizer sobre as NDEs”,
conclui Moody Jr., “mas pelo temor de parecer que estão explorando um assunto
explosivo preferem não falar”. No Children’s Hospital, de Seatle, Morse
prossegue no seu trabalho, fazendo conferências e juntando mais depoimentos
sobre a quase-morte, em cooperação com a Internacional Association Of
Near-Death Studios (Iands).
Kim Klarke é psicóloga e pesquisadora de fenômenos e de suas
significativas coincidências nessa mesma associação. Kim trabalhou com um
grupo de 121 crianças que estavam gravemente doentes, embora não morrendo, por
volta de 1989. Algumas estavam com rins artificiais, outras eram tratadas com
narcóticos, tendo outras ainda enfrentado a morte e recuperando-se mais de uma
vez. Tinham todas entre 3 e 16 anos de idade.
Todos os depoimentos falavam de experiências semelhantes. Primeiro, a
separação do próprio corpo, que viam como se fosse o de um outro. Depois, o
longo túnel dentro do qual o depoente se deslocava em velocidade variável, do
mais lento ao mais rápido. A luz era descrita como algumas coisas acolhedora e
atraente, que não despertava medo. Kim Klark tirou algumas conclusões dos
questionários com as 121 crianças que em algum instante foram consideradas
quase-mortas, se não realmente mortas. São elas:
A pessoa (adulta ou criança) precisa estar de fato morrendo para ter uma
NDE. Apenas gravemente enferma não é bastante. Nenhuma reação a
antidepressivos e remédios para dores proporciona os mesmos efeitos. As crianças
ficam “intrigadas”, e não parecem saber de fato o que lhes aconteceu.
Finalmente, todos os depoimentos são sempre iguais em alguns pontos
fundamentais, e é isso o que mais desafia os estudiosos da NDE, dando a
entender que se trata de um fenômeno objetivo.
O “túnel” não tem paredes mas “sabe-se” que é um túnel. O
depoente voa rápido mas não há vento em seu rosto ou pelo corpo. Às vezes há
alguém por perto, acompanhando o viajante, mas nem sempre isso fica claro. Diz
uma menina: “Não era Jesus, mas era alguém de Jesus”, querendo talvez
dizer que era confiável e doce. A certa altura, o depoente é informado de que
deve voltar para cumprir um propósito “lá atrás”, isto é, na vida, mas
ele nunca se lembra do propósito quando volta a si.
Kurt (8 anos), June (7 anos), Michelle (8 anos) e Cindy (8
anos) têm trechos dos seus depoimentos destacados pela psicóloga: “De
repente, flutuava e via meu corpo embaixo. Dois médicos parecia que me
empurravam. Há pouco, sentia enjôo e minha cabeça doía, mas flutuando me
senti bem”. Ou “Morri no carro. Estava boiando no ar, vendo os médicos
pressionarem meu peito. Passei para um quarto onde estavam meus amigos. Queria
falar com eles mas não podia. Meu avô se aproximou e pôs a mão no meu ombro.
Ué, ele não estava morto? Tomou minha mão e me mandou voltar para meu corpo,
na cama. ‘Você tem o que fazer lá’, falou”.
Herman Feifel, no seu New Meaning of Death, examina casos de
adultos que teriam passado pela morte e pinça também algumas frases
expressivas nos seus depoimentos: “Eu queria morrer. Por que voltei? Até hoje
não sei, mas me lembro que foi por algum motivo”. Outro: “Não é agradável
ser ressuscitado. Eu queria ficar por lá”. Outro ainda: “Depois dessa
experiência, não tive mais medo da morte, como antigamente”.
Uma pesquisa feita por George Gallup em 1982 encontrou cerca de 8 milhões
de experiências de quase-morte nos vários países em que foi feita. Esse número
espantou até os pesquisadores que trabalhavam com a quase-morte. Para muitos médicos
que foram ouvidos, trata-se somente de alucinação de doentes, de pessoas
febris, de acidentados. Para outros, esses relatos e coincidências são, na
verdade, olhadas rápidas naquele outro mundo para onde todo ser humano vivo
mais cedo ou mais tarde irá.
Luiz Carlos Lisboa é jornalista e escritor
Artigo publicado originalmente no Caderno 2, O Estado de São Paulo, no dia 14 de abril de 1999 - enviado por nosso Colaborador Rodolfo Polino

(GIF animado por Jose Carlos Neves)