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Artigos / Articles
Joyce e a construção do romance moderno
por Ramiro Teixeira
Alguns conceitos sobre a arte, o escritor e sobre o romance.
Qual a origem motivadora da arte, isto é, porque razão,
na circunstância, escreve o romancista romances?
A questão não é tão fácil como parece. Se à arte
dedicamos as forças e os impulsos mais puros, bem
poderíamos deduzir que a arte é um elemento essencial à
vida humana. Todavia, a atividade humana é dirigida
pelas necessidades primárias e imediatas – a salvaguarda
da existência no meio que a cerca. Agimos, deste modo,
para prover a nossa subsistência. Logo, a arte seria
assim como uma forma de excrescência, uma manifestação
extemporânea de energia, já que as impressões que dela
recebemos não desempenham qualquer função vital nos
órgãos essenciais à conservação da vida.
Acontece, porém, que o homem, e nisso se diferencia ele
dos animais, aceitando embora a «alma mater» da natureza
e o desafio para que ela permanentemente o convoca, dela
se dissocia, engendrando, constante e ininterruptamente
um outro mundo, inteiramente paralelo ao mundo primário
que o rodeia.
A explicação criativa deste mundo anti-quotidiano pode
ser encarada como uma forma penosa de inferioridade, e,
simultaneamente, de superioridade, resultando daqui o
incentivo para as mais altas realizações.
Neste esquema, a arte seria assim como uma fuga perante
os fantasmas e os demónios que habitam a nossa
imaginação e, consequentemente, uma purificação. O homem
quando preso da emoção das forças que o delimitam, geme,
sofre, debatendo-se em estertor contínuo. Se este
sofrimento não for controlado, só a dor pode resultar
dele, mas se o homem controlar este sentimento, se
dissecar os fenómenos que o afetam, então estará a
aplicar um meio curativo, só possível de realizar
através do controlo total do seu corpo ou mente, a criar
uma disciplina, a isolar os fenómenos, com vista a uma
descoberta que bem se pode afirmar científica porque
interpretativa desses mesmos fenomenos. Mas, a ser
assim, teríamos de deduzir que a arte seria, antes do
mais, conhecimento. Todavia, parece-nos, a função do
artista é produzir, criar, e não conhecer, embora seja
pelo conhecimento que ele seguramente atinja o ato
criador. Um cientista só porque tem conhecimentos não é
um artista. Desta forma, julgamos que o objetivo da
arte é a criação.
Meditando um pouco sobre esta afirmação, teremos, ainda,
que o artista, no ato genésico, procura ultrapassar a
sua condição humana, pelo que vem a estabelecer na obra
que produz uma energia criadora paralela à própria
essência de Deus. Disto não temos que nos admirar, pois
foi a religião que gerou a primeira manifestação
artística. O homem quando sentiu a necessidade de fugir
ao seu destino e libertar-se da miséria humana, que
afinal faz a sua grandeza, passou a exprimir a sua
concepção do sobrenatural, do invisível, do
desconhecido. Doravante, a sua expressão artística será
profundamente marcada pelo fantástico, pela imaginação,
génese de todo o ato criador, ao invés da realidade que
se lhe depara – a reprodução de cenas de caça, os
animais ou o seu semelhante. Todavia, esta sua primeira
excursão ao domínio do absurdo impõe-lhe uma feição
humana no relato de toda a mitologia que estabelece.
Cria, então, um Olimpo de humanos. Deuses e homens são
iguais, apenas se diferenciando nos poderes que a
imaginação atribui aos primeiros. Surgem, assim, desta
forma, os poemas, os dramas, os romances e toda a
fantasia fabuladora.
Esta autêntica manifestação criadora pode ter várias
formas e está sempre presente, de forma integral, na
atividade humana. No plano profissional, por ex., desde
o simples empregado de escritório, catalogador de
correspondência, até ao mais perfeito artífice, pode e
coexiste o sentido artístico e o ato de criação. É que
a arte não traduz apenas o conceito criador de qualquer
objeto, mas também o cunho pessoal, a forma
individualizada, impressa, na atividade quotidiana. É
todavia evidente que esta afirmação pressupõe o gosto e
o estudo pela tarefa que se elabora. O trabalhador ou o
executante tipo mercenário, que encara a sua
atividade
como um mal necessário à sua existência, naturalmente,
porque não têm em si a plena concordância entre o que
sente e o que executa ou produz, não pode nunca
integrar-se no que agora afirmamos. È interessante
anotar, no entanto, que, quando tal acontece, por norma,
esta individualidade procura num «hobby» qualquer a
concretização do sentido estético que consigo coabita.
Não é, pois, em vão, que, na vulgar apreciação popular,
a expressão: «Fulano é um artista!», seja aplicada como
forma enaltecedora às mais simples realizações; nem é
tão pouco por acaso que, no mundo moderno, se
estabelecem técnicas psíquicas – psicotécnicas – como
meio de integração do trabalhador nos elementos ou
sectores mais afins à sua aptidão criadora.
A arte, todavia, na sua expressão mais refinada,
estabelece outras condicionantes e opta por outras
expressões mais complexas.
Destas, a mais completa é o romance.
Dizemos mais completa e não mais pura, porque entendemos
que a arte será tanto mais completa quanto mais
elementos traduzir, influenciar, dissecar. Ora, sendo
embora incontroverso que a arte, nesta sua expressão
mais complexa, longe de atingir a massa total da
humanidade, apenas se torna apercebível por uma escassa
minoria ou elite, embora por razões que lhe são alheias,
a verdade é que, entre as expressões artísticas de
forma, de cor ou de sons, é a da escrita que maior
amplitude alcança. E compreende-se; a linguagem da
humanidade é a palavra e não a escultura, a pintura ou a
música, embora, naturalmente, também estas expressões
sejam susceptíveis de diálogo comum.
Por outro lado, nenhuma atividade criadora, como o
romance, reúne sem si tantos elementos diversificados,
tão complexos como os da vida humana e nenhuma, como
ele, é um documento vivo. E vivo porque não só nos dá o
relato da história das ideias e dos sentimentos, como,
também, a análise dessas mesmas ideias e sentimentos sob
a forma de criação artística; e, finalmente, porque,
ainda quando enquadrado numa certa corrente literária
nela se subjuga apenas nos aspectos exteriores,. Assim,
por ex., falar em naturalismo, realismo ou neo-realismo,
na base do que caracteriza estas correntes, isto é, nos
aspectos concernentes à escolha dos temas, nos tipos
decalcados das suas personagens ou nos esquemas
aplicados na construção fabuladora, não é, seguramente,
falar dos seus autores e dessas mesmas obras em termos
derradeiros e acabados. Garrett, sendo um romântico, não
traduz exclusivamente o romantismo, assim como Eça,
sendo um realista, não traduz exclusivamente o realismo.
O escritor, como todo o artista em geral, «só é grande
quando se desclassifica», quando transcende ou
ultrapassa os limites e os princípios que acionaram a
sua obra. Nuns casos – autores – como noutros – obras –
existe sempre algo de perene, comum a todas as épocas e
expressões, que ultrapassa a crítica e a definição mais
profunda ou a simples documentação social de uma época.
O dizer-se que determinado romance não interessa, só
porque está situado numa corrente literária
ultrapassada, é um erro crasso e grosseiro. Um bom
romance, de uma qualquer corrente literária, por mais
caduca que esta se situe no espaço e no tempo, ainda
hoje nos pode dizer muito e, certamente, o dirá no
futuro, quer demonstrando potencialidades ignoradas,
quer inflectindo para tendências e problemas mais
atualizados. De resto, acaso assim não fosse, nenhuma
literatura possuiria os seus clássicos, os seus «grandes
livros».
Aqui, aliás, reside um dos pontos fracos das teorias
marxistas que determinam a arte como uma ideologia sob
certa forma artística, dando-a, assim, como dependente e
prisioneira de uma «consciência social». Ora, esta
definição, aparentemente correta, não corresponde
inteiramente à verdade. E não corresponde porque a
verdadeira obra de arte ultrapassa e transcende os
limites ideológicos, proporcionando, ainda, a descoberta
de razões que a ideologia esconde.
Continuando, uma segunda dificuldade se nos depara : o
que é, afinal, o romance? Uma história?!
Numa primeira análise, poder-se-á dizer que o romance é
a captação da realidade sob a forma de escrita, segundo
regras e normas específicas.
Esta captação, sendo embora comum a todos os homens,
como já vimos, é para o escritor e para o artista em
geral a essência fundamental do seu trabalho, da sua
missão.
Todavia, sendo a realidade uma teia de múltiplos e
facetados aspectos, aparentemente desordenados e
diversificados, não bastará ao escritor a simples e
apriorística enunciação destes fatores, na medida em
que da escrita meramente descritiva, não resultará nunca
qualquer sentido estético, nem tão pouco qualquer
ciência.
É pois necessário que o escritor atue no duplo aspecto
da realidade que recebe, que nos dê na sua obra o
reflexo do material acumulado no seu íntimo, quer pelos
fatores conscientes do meio que o rodeia, definindo os
sentidos e a sua essência, quer pelos fatores
inconscientes que lhe dão uma outra existência: a
existência imaginária.
Desta forma, o escritor tem de ser autêntico e
simultaneamente imaginativo, na medida em que exprime a
autenticidade através da sua imaginação.
Palavra e ideia, forma e conteúdo. Eis o material de que
o escritor se serve. Num e noutro caso tem de procurar a
perfeição suprema: a simplicidade.
Simplicidade de forma, de palavra ou de escrita,
certamente que não é o desconhecimento da sua composição
gramatical. O culto do idioma, pela pesquisa e pelo uso
constante, nada tem a ver com o culto da palavra, em si
mesma, quando pomposa, barroca, rendilhada, plena de
ambiguidades e de equívocos. A palavra, sendo o
instrumento laboral do escritor, só pode ser
compreendida se transmitir a imagem nítida e certa da
ideia ou da emoção a que se refere.
Curiosa e paradoxalmente há exceções. No reescrever
deste período veio-nos à ideia o caso do sapateiro de
Trancoso, nas conhecidas profecias de Bandarra. Este
homem, sapateiro de profissão, como é conhecido,
escreveu, por alturas do reinado de D. João III, umas
trovas de estilo messiânico que até hoje ninguém
entendeu. E como ninguém entendeu, ainda hoje são elas
fruto de interpretações diversas e de leitura. Também,
curiosamente, não falta quem nos dias atuais procure
estabelecer certos paralelismos entre uma época e outra
e, nestas trovas, procure uma doutrina. Como quer que
seja, a verdade é que a obra perdura. A que se deve tal
fato? Certamente que não é pelos fatores estéticos,
sejam estes de forma ou de conteúdo. Não cremos que o
sapateiro fosse além da chinela. O inegável, porém, é
que este homem baralhou de tal forma os seus escritos,
as suas ideias, que, como dissemos, ainda hoje não falta
quem nelas veja um sentir e uma expressão de alto valor.
E aqui sempre vamos adiantando: é o que muitos pensam de
Joyce.
Mas voltemos ao nosso trabalho.
A pretensa ideia de que o conhecimento específico da
palavra traduz originalidade é um erro. A especialização
linguística, quando natural, isto é, quando não
rebuscada, apenas identifica o seu cultor como prosador
de mérito se acaso não possuir outros dotes. Neste
contexto, recordamos a leitura de um dos «Diário»(s) de
Miguel Torga, onde este autor nos dá as suas impressões
sobre o valor estético de Manuel Teixeira-Gomes, mais ou
menos da seguinte forma: «...A sua obra faz lembrar um
manjerico: espremida, só dá cheiro...».
Acontece, porém, que muitos escritores – e então os
críticos nem se fala! – adquiriram uma tal
especialização da palavra que, quem os lê, não os
entende. Ora, se a literatura tem como função ligar os
homens, identificá-los perante si próprios e perante a
coletividade, se estabelece obstáculos entre os que
escrevem e os que lêem, conduz-se a si própria a um beco
sem saída, por mais original que se auto-proclame.
Se fazemos esta referência, é porque não falta quem, a
pretexto de uma experiência formal ou de uma complexa
teia verbalista, sem qualquer sentido, pretenda fazer
crer ter alcançado um certo estilo ou sentido de
originalidade. Ora a originalidade, tal como o estilo, é
como uma medalha de duas faces, tanto pode refletir um
sentido estético, inédito, como um artifício. Há pois
que analisar a obra em função das suas intenções e
razões, já que só no campo teórico se pode separar o
pensamento ou conteúdo da forma porque ele é expresso.
Uma e outra expressões, muitas vezes confundidas no
mesmo sinónimo, longe de apenas traduzirem estilos de
composição, harmonia vocabular, ou as combinações
linguísticas que são próprias da cada escritor, devem,
essencialmente, refletir um grau de expressividade
perfeito dentro de uma certa filosofia revolucionária. O
fim último desta revolução é a procura da verdade.
Todavia, se cada momento histórico tem a sua verdade,
bem poderemos afirmar que esta se procura e se disputa
no meio de outras verdades, isto é, no debate filosófico
e intelectual. Mais contritamente, diremos que todo o
artista perfilha uma filosofia. Assim, sendo a
personalidade em causa primeiro filosófica e só depois
artística, há que ter em conta o seu grau de sinceridade
e a prova científica daquilo que proclama. Por norma,
todos os inovadores falham numa destas questões,
resultando daqui uma atitude subordinar-se a outra. Há,
pois, um desajustamento inicial, caracterizado pela
oposição entre o conteúdo e a forma ou vice-versa. Só
quando esta osmose é perfeita, isto é, quando o conteúdo
e a forma se fundem no fim artístico, é que a obra de
arte resulta. Se tal não suceder é porque o escritor se
colocou especificamente ao serviço de uma ideia, ou de
uma forma, perdendo assim a originalidade.
Entretanto, um outro problema se põe ao escritor: o da
liberdade. Na sua forma mais imediata a liberdade do
escritor é um mito. Primeiro e antes de tudo, o escritor
está, como dissemos, ao serviço de uma ideia, de uma
certa concepção ou teoria da vida, depois, sendo um
artífice, produz uma mercadoria, a qual pode ser ou não
consumida conforme o gosto do mercado: do público ou do
poder. Um como outro podem influenciar negativamente a
atividade criadora. O primeiro por falta de cultura
artística e de perspectivas muitas vezes lesivas aos
seus próprios interesses; o segundo pela coação que
exerce no ambiente social. Não vamos dar exemplos, eles
sobejam, por demais, na história de qualquer país e de
qualquer literatura.
De qualquer forma, o importante é que a obra resultante,
tarde ou cedo, e venha a ser reconhecida como um valor
humano em qualquer latitude, na América como na Europa,
no Oriente como no Ocidente.
Se analisarmos as composições formais ligadas ao
romantismo, naturalismo, realismo, etc., necessariamente
que encontramos diferenças nítidas. Tais diferenças,
como já explicamos, não são mais do que a
correspondência formal ao conteúdo. A passagem de uma
para outra, destas correntes literárias, foi não só um
ato de originalidade, como, também, um ato de
liberdade, na medida em que dela resultou a conquista, a
tomada de uma outra realidade. Diga-se, aliás, não menos
dolorosa e pesquisada que essa outra liberdade, de que
todas as correntes estéticas são reflexos, que é a
próprias liberdade do homem face às forças sociais que o
delimitam no conhecimento e na justiça social.
Da mesma forma, pode-se perguntar em que medida um
escritor é um verdadeiro inovador. Perante esta questão
quase diremos, em nenhum! A novidade artística não
traduz mais do que a reformulação cíclica da vida, isto
é, a renovação do que está em vias de apodrecimento. Se
o artista tem como obrigação primeira respeitar o real,
de forma alguma pode ser o seu inventor. Contudo, bem
vistas as coisas, pode ser o seu profeta. Daí que, em
tais circunstâncias, quando exerça a sua
atividade,
esteja a transmitir o novo em determinada fase, isto é,
a sentir antes dos outros. Este dom profético, este
poder de antecipação aos acontecimentos, chama-se
sensibilidade artística – quase diríamos social ou
histórica, na medida em que reflete um novo processo
histórico.
Nada é novo, nada se cria, tudo se transforma. O mesmo
acontece com a obra de arte, no caso, com o romance. A
história da literatura, como a da humanidade em geral, é
uma construção levantada sobre várias e diversificadas
camadas de componentes, perfeitamente adaptadas umas às
outras. As ideias não morrem, mas alteram-se de acordo
com a realidade, a qual está em mudança permanente.
Assim, o artista inovador é aquele que se apercebe
destas mudanças e as acompanha. Esclarecemos melhor,
inovador e não inconformista. A inconformidade com o
dominante, isto é, a insatisfação perante as normas
vigentes e os poderes estabelecidos, pode não levar a
coisa nenhuma senão fizer prova capaz de sustentar os
valores novos que experimentalmente proclama.
Recordamos, não adianta vestir o velho com roupagens
novas. O velho será sempre velho, além de que, pela
mudança, até pode tornar-se ridículo. Tão pouco
adiantará renegar integralmente certa fase artística,
porquanto, sendo ela elemento real durante uma época,
necessariamente, faz parte da vida. Não adianta, pois,
renegar a juventude ou a velhice só porque se é já velho
ou ainda jovem. O fim de uma escala de valores não é o
términus de um conceito valorimétrico, mas apenas o
começo de uma nova escala.
Esta verdade, mais do que
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artística, está sempre presente na literatura porque
nela subsistem as melhores condições para ampliar os
efeitos coletivos das relações reais da sociedade.
Ainda aqui, porém, há que estar atento ao conceito do
real. Não existem provas físicas de tudo quanto
acontece. Há pois uma outra realidade a ter em conta,
uma realidade «não visível». De forma apressada e
simplista, mas não menos verdadeira, diremos que a
realidade tem duas faces inseparáveis. Aceite este
princípio, diremos ainda que toda a problemática do
romance se equaciona numa destas tendências; o real
visível e o real invisível. Em qualquer destas divisões
não podemos desconhecer a célebre frase de Plékhanov: «A
arte é um reflexo da vida social», sem que
necessariamente dela nos vinculemos aos dogmas
marxistas.
Embora não esteja nas nossas intenções estabelecer
qualquer achega à polémica da «arte pela arte» ou « arte
social», a verdade, porém, é que destas expressões não
podemos distanciar-nos. Digam o que disserem, o homem é
um ser social, produto de determinado meio e cultura,
integrando em si a súmula do conhecimento humano. Logo,
o homem e tudo quanto ele produza ou execute é um
ato
social –mesmo que este repudie a sociedade que o cerca e
se rodeie de uma torre de marfim. A equação do drama de
uma consciência na sociedade e o drama da sociedade numa
consciência individual não alteram os dados fundamentais
desta afirmação. Daqui, que a literatura implique em si
um conceito artístico dúbio, que muitas vezes não tem
sido levado em conta. E se é verdade que a arte em geral
documenta uma relação entre o autor e a sociedade, não
menos certo é caber ao artista, no ato genesíaco, uma
espécie de «endeusamento» ou abstração que o coloca à
margem dos demais.
No fundo, porém, o que está em causa e o que é
importante, é recriar a vida em termos de
verosimilhança, isto é, reconhecermos na obra literária
a mesma magnitude que na natureza reconhecemos em
relação à sua criação, ao seu criador.
Não obstante, o percurso que o romance sofreu durante
uma evolução se séculos é hoje fortemente contestado. É
que, de fato, a tão procurada verosimilhança ou
densidade psicológica e social pode não respeitar o
real.
A característica comum a todos os grandes romancistas
clássicos foi a de se servirem da verosimilhança para
criarem os seus personagens. O que daqui resultou foi a
criação de tipos literários em função de um protocolo.
Assim, «Madame Bovary» é o tipo acabado da burguesinha
provinciana, com a cabeça repleta de fantasias
românticas, crente de ser o centro do universo.
A ninguém, certamente, passará pela cabeça negar a
verosimilhança, o sentido do real, a quase existência
física desta espantosa criação literária. Todavia, se
analisarmos bem, «Madame Bovary» só é real de forma
unilateral. Mas, busquemos outros exemplos – Camilo.
Toda a obra de Camilo assenta estruturalmente nos
efeitos de amores contrariados entre dois amantes.
Naturalmente, toda a contextura da sua obra empolga-nos,
fazendo-nos vibrar com os dramas das suas personagens,
mais ou menos de ficção. E dizemos mais ou menos de
ficção, porque sabemos que muitas delas existiram
fisicamente, que foram afetadas por esses mesmos
dramas. A genialidade de Camilo está na forma como nos
transmitiu esses acontecimentos em termos de
verosimilhança, isto é, na forma como obriga os seus
leitores a «viverem» as vicissitudes das personagens que
reproduz. A partir daqui, contudo, a verdadeira história
de Simão e Teresa, no «Amor de Perdição», por ex., deixa
de ser a real para ser a inventada por Camilo.
Ora, não obstante a adesão e a atração emotiva que o
leitor experimenta na vivência das personagens que
Camilo relata, a verdade é que a autêntica realidade das
suas vidas foi, seguramente, muito mais complexa, muito
mais diversificada, do que aquela que nos é transmitida.
Temos, assim, que a verosimilhança que Camilo nos legou,
respeita muito mais a uma verosimilhança de «ficção», do
que de autêntica vida humana na sua mais ampla
complexidade, ou seja, que o comportamento humano da
suas personagens, fora da planificação da história que
relata, foi excluída por não dizer respeito ao drama que
se historia.
Esta é, de fato, a situação que o romance moderno
denuncia, apondo-se a ela pelo relato integral do
comportamento humano. Ao classicismo do romance «feito»,
a corrente atual determina-o como «fazendo-se» no
ato
em que se escreve.
E assim é que, em resultado, quaisquer 60 minutos da
vida de um vulgar cidadão sejam motivo para um romance
de 300 ou 400 páginas, porque a preocupação do escritor,
seu criador, não é mais criar a personagem em função de
uma história, mas, antes, dar liberdade total à sua
personagem, ainda que seja em sacrifício da história.
Ora, sacrificando a história, quer-se dizer que a
dimensão temporal ou o encadeamento necessário para o
avolumar dos conflitos, estrutura fundamental de toda a
arquitetura romanesca, foi pura e simplesmente abolida.
Desta forma, crente da impossibilidade de pelos métodos
clássicos se poder exprimir toda a plenitude dos
fenómenos, o romance moderno procurou e procura a sua
linguagem adequada.
Esta pesquisa, aliás, comum em todas as correntes
literárias, não é fácil e, quanto a nós, ainda não se
concretizou. Para já, ela tem-se afirmado por uma
verdadeira revolução da sintaxe. E compreende-se que
assim seja, porque se o romance moderno não é mais claro
e limpo, antes se caracteriza por uma espécie de
auto-análise progressiva, onde os dados fundamentais,
longe de traduzirem um amadurecimento de atitude ou
evento, se reproduzem como estilhaços de pensamento,
desordenados e aparentemente incoerentes, então, digamos
que a expressão linguística correspondente justifica a
sua complexidade.
Durante quase sete décadas, este querer de representação
humana, na sua totalidade, tornou-se objeto de pesquisa
incessante.
Hoje, porém, este querer, senão está já ultrapassado,
está, pelo menos, consciente da sua limitação: falta de
comunicabilidade com o leitor.
É que, de facto, a reprodução total da vida humana está
para além do humano. De resto, a não ser assim, teríamos
que o romancista seria igual a Deus, como ponderava
François Mauriac.
De qualquer forma, o que está em causa é que o romance
moderno, pela ausência das estruturas tradicionais do
romanesco em favor da multiplicidade dos fios
condutores, tornou-se quase ilegível, estático,
renegando assim as suas origens.
Ora, a origem do romance, é, como se sabe, a epopeia.
Por outro lado, não podemos esquecer que a epopeia era
um género essencialmente oral, para ser contado,
enquanto o romance é um género essencialmente escrito,
para ser lido. Um procurava o encontro com a emoção, a
apologia dos grandes ideais históricos ou
cavalheirescos, sob a forma de aventuras de um ou mais
heróis integrados num mundo total, de certa forma,
mítico; o outro limita-se à narração de um mundo mais ou
menos particular, fortemente individualizado, limitado
ao clã familiar ou a pouco mais. Esta transformação, de
que resultou a depuração dos fatores coletivos,
eclodiu extremísticamente no romance moderno, destruindo
os conceitos de tempo e espaço, e de que foram seus
mentores, em maior ou menor grau, Proust,
Gide, Woolf,
Joyce, Huxley, Faulkner, etc.
De qualquer modo, continuam a subsistir regras
inalteráveis. A estrutura narrativa, por ex., hoje, como
ontem, pressupõe a existência de três métodos: a
narrativa na terceira pessoa, a narrativa na primeira
pessoa e a narrativa decorrente de documentos diversos
(cartas, diários, etc.). Destes, a forma mais valorizada
é a primeira, pois que dela resulta a consciência
analítica ou a posição crítica sobre o que acontece.
Neste caso, cabe ao romancista ou narrador não só a
descrição unilateral do mundo dos personagens que cria,
como, também, o estabelecimento de certa forma
opositória ou concordante ao que se relata, de acordo
com a sua própria concepção do mundo. Existe assim a
vida das personagens e a interpretação independente de
quem as cria: uma não influiu na outra. Por sua vez, a
cronologia da exposição, necessariamente e apesar de
tudo histórico-biográfica, continua a apresentar
variantes como os leit-motivs, enredos laterais,
episódios multiplicados, etc., cabendo ainda ao diálogo
ou ao monólogo a parte indispensável ao romance.
De tudo isto, para finalizar, uma questão única há a
ponderar; saber até que ponto o mundo artisticamente
ordenado e organizado pela imaginação criadora do
romancista encontra similitude na imaginação e
compreensão do leitor.
Se esta concordância é alcançada, então, podemos afirmar
que o romance mantém-se vivo e latente, se o não é,
então, diremos que o romance está em crise e em vias de
extinção.
Ramiro Teixeira, Joyce e a Construção do Romance
Moderno, Porto, 1979,
© 1997-2002, Letras & Letras.Portugal
Com o apoio do Projecto Geira da Universidade do Minho e do Instituto Pedro
Nunes