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Artigos / Articles
Literatura
Visual – Influências qualitativas e quantitativas de Moore e Miller no
quadrinho adulto publicado no Brasil, medido através das adaptações da
literatura para as HQs.
RESUMO:
O
presente trabalho levanta os lançamentos de Histórias em Quadrinhos adultos no
Brasil nos trinta últimos anos do segundo milênio, portanto de 1971 ao ano
2000, através das adaptações de obras provenientes da literatura de ficção,
ramo mais aceito e consolidado dos quadrinhos juvenis e adultos.
Este
se designa a ser uma referência para todos aqueles que buscarem adaptações
(traduções intersemióticas) da literatura para as HQs. Trata-se de um
levantamento exploratório-descritivo (porque é a primeira pesquisa do gênero),
que estudou a influência causada pelo lançamento, em meados dos anos 1980, das
obras adultas de quadrinhos de autor, de altíssima qualidade, produzidas
principalmente por Alan Moore e Frank
Miller, com vários outros artistas participantes, determinando o
divisor de águas que representaram em termos qualitativos e quantitativos.
PALAVRAS-CHAVE:
Histórias
em quadrinhos juvenis e adultas – literatura – adaptação intersemiótica.
1.
Introdução
O
termo quadrinho adulto, quando pronunciado no Brasil, costuma se referir
a histórias eróticas. A utilização do termo não está completamente
incorreta, porém reduz um gênero extremamente rico à sua segmentação mais
marginal. Segundo nos explica o escritor sobre o gênero mais conceituado no país,
espécie de guardião nacional das Histórias em Quadrinhos, o professor da
ECA-USP Álvaro de Moya (apud Moura, 1999d), o
quadrinho adulto é aquele que remete à qualidade superior, autoral, complexa,
séria, que exige de seu leitor uma bagagem cultural mínima para sua correta
compreensão: “Quando se fala em quadrinhos de adulto, se pensa
logo em sexo. Não tem nada a ver. Eles estão para os quadrinhos juvenis assim
como Bergman e Fellini para o cinema comercial. Mas
o público brasileiro para este tipo de produção ainda é pequeno”. Esta
definição para o termo quadrinho adulto é a adotada nesta pesquisa. A
opinião (apud Moura, 1999d) do autor da primeira tese de doutorado feita em HQ
e defendida no Departamento de História da USP, sobre a Guerra do Paraguai,
André Toral (1999), também é relevante para esta variável: “O Brasil está
na pré-história dos quadrinhos. O público principal ainda é o
infanto-juvenil. O mercado para quadrinhos de autor, sérios, ainda ocupa um gueto”.
Devido
à complexidade de uma eventual discussão do que seria um quadrinho adulto,
estudando caso a caso as publicações já lançadas no Brasil, opta-se nesta
por analisar a produção de uma fatia deste ramo já conhecida e bem
estabelecida, a tradução intersemiótica entre literatura e HQ, posto
que esta obedece já reconhecidamente a estes requisitos (autoral, complexa, séria,
exigindo uma bagagem cultural mínima).
Assim,
este estudo demonstrará os livros e álbuns de HQs publicados desde janeiro de
1971 até dezembro de 2000 no Brasil e encontráveis, contanto que se constituam
em adaptação de literatura de ficção (romances, novelas, contos e crônicas),
concluindo a influência do lançamento das obras a serem citadas na cronologia
dos quadrinhos juvenis/adultos, representados pelas adaptações provenientes da
ficção literária.
A
pesquisa pretende ser uma referência para quem quiser localizar os álbuns
citados, quer para pesquisas acadêmicas ou não, constituindo-se quiçá a
primeira entre muitas, que venham a mapear todo o mercado no Brasil, e possam
ser acrescidas no futuro. O pesquisador em hqs hoje iniciante pode não ter
vivido alguns dos momentos mais relevantes da história recente do quadrinho
adulto, que são demonstradas nesta. E o pesquisador experiente, que já
vivenciou tais mudanças, pode na mesma ver o que até então somente sentia ser
transformado em números comprobatórios.
As
adaptações de textos ficcionais para as HQs são um significativo exemplo do
uso da linguagem verboicônica para a difusão da cultura mais
consolidada. Desta forma, trata-se do melhor exemplo de quadrinho voltado para o
público mais velho, no mínimo adolescente, pois requer certa bagagem cultural
mínima, além de facilitar a definição exata de história juvenil/adulta pois
se baseia em fato absoluto e empírico: uma história ou é adaptada de outra ou
não é. Seu estudo proporciona a observação da variação de mercado para o
quadrinho adulto.
O
enfoque é dado apenas às adaptações intencionais, ou seja, aquelas compostas
pelos personagens em seus enredos aproximados dos originais. Não serão
abordados personagens de origem literária, quando suas aparições nas HQs
foram independentes das ações e enredos das obras originais. Também não são
abordadas as quadrinizações de obras cinematográficas, mesmo quando
provenientes de uma obra de literatura, por dois motivos: primeiramente, estas
obras já passaram pelo filtro de uma tradução intermidiática antes de
outra, guardando portanto menos de seu original. E também porque sua publicação
se deve ao oportunismo da divulgação provocada pela exibição do filme. Ainda
são excluídas as adaptações de literatura predominantemente infantil como os
chamados “contos de fada”, primeiramente porque estes não atendem o
requisito inicial de quadrinho adulto ou pelo menos juvenil, prejudicando a
observação quantitativa, e posteriormente porque geralmente
foram adaptados e transformados várias vezes até a versão final publicada.
Também são excluídas adaptações da chamada literatura oral, ou seja, de
lendas, pois não é possível verificar sua fidelidade ao original, e publicações
alternativas, como os fanzines, não porque se desconheça exemplos, o que seria
uma inverdade. Um excelente (em ambos os sentidos) exemplo foi a adaptação
d’A Metamorfose de Kafka pelo Barata
(ironia) de Flávio Calazans.
As
obras publicadas em forma de quadrinhos no Brasil jamais foram catalogadas, e
desta forma não existem delimitações precisas de sua existência. Muitas
editoras pequenas, de tiragens mínimas, aparecem e desaparecem do mercado em
questão de meses, dificultando muito sua localização. Pretende-se, portanto,
pesquisar as editoras que tradicionalmente publicam ou já publicaram histórias
em quadrinhos no Brasil nos últimos trinta anos, de forma comercial e de
tiragem representativa, e, entre as muito pequenas ou de pouca tradição,
aquelas dentre as quais ao menos uma obra em especial tenha se destacado, seja
conhecida, localizável, esteja contida no acervo das editoras e coleções
pesquisadas ou ainda registrada na Biblioteca Nacional.
Com
os resultados, pretende-se demonstrar quantitativamente a queda das mesmas, para
posteriormente explicar a ascensão do quadrinho adulto disassociado de adaptações.
A tabela abaixo mostra, dentre as 125 adaptações encontradas, a diferença na
média do número de páginas por edição.
Período
|
1 |
2 |
Total |
Corte
temporal
|
1971
- 1985 |
1986
- 2000 |
|
Total
de adaptações
|
77 |
48 |
125 |
Média de páginas por edição
|
41,2 |
60,5 |
|
|
|
|
|
|
Para
que não haja dúvidas quanto ao critério de qualidade gráfica utilizado,
analisemos também a capa das edições:
Vejamos
portanto os resultados: das 125 adaptações encontradas, 77 foram no primeiro
período, e apenas 48 no segundo. Além desta queda quantitativa, pode-se
observar um claro aumento qualitativo se considerarmos ambos os quesitos: no
primeiro corte cronológico, as adaptações possuiam em média pouco mais de 40
páginas, e aproximadamente 50% das mesmas eram publicadas com capa
plastificada, números que no segundo período saltam para mais de 60 pg/edição,
e um esmagador índice de 98% de publicações com capa plastificada.
Analisando
com delimitações menores, no caso de cinco anos, pode-se verificar a constante
queda quantitativa, ao mesmo tempo que estável ascensão no quesito oposto, o
qualitativo.
Concluímos
então, com base nos números descritos nas tabelas logo abaixo que, por volta
de 1985, houve no Brasil um salto de qualidade na edição das adaptações da
literatura para as Histórias em Quadrinhos e, por extensão, de todo o
quadrinho adulto mesmo que disassociado dessas. Esta afirmação fica, portanto,
provada, enquanto o quesito de qualidade do roteiro, devendo ser submetido à análise
de conteúdo, fica devido ao pequeno espaço para uma próxima oportunidade. Por
ser irrelevante, fiemo-nos por hora na palavra dos colecionadores que o afirmam.
|
Período |
1A |
1B |
1C |
|
|||||
|
Corte
temporal |
1971
- 1975 |
1976
- 1980 |
1981
- 1985 |
1971
- 1995 |
|||||
|
Não plastificada |
12 |
33% |
25 |
75% |
2 |
25% |
39 |
50% |
|
|
Plastificada |
24 |
67% |
8 |
25% |
6 |
75% |
38 |
50% |
|
|
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Total |
36 |
|
33 |
|
8 |
|
77 |
|
|
Tabela
2 - Proporção de tipo de capa no período 1 e sub-períodos 1A, 1B e 1C
|
Período |
2A |
2B |
2C |
2 |
||||
|
Corte
temporal |
1986
- 1990 |
1991
- 1995 |
1996
- 2000 |
1986
- 2000 |
||||
|
Não plastificada |
1 |
5% |
- |
|
- |
|
1 |
2% |
|
Plastificada |
20 |
95% |
18 |
100% |
9 |
100% |
47 |
98% |
|
Total |
21 |
|
18 |
|
9 |
|
48 |
|
Tabela
3 - Proporção de tipo de capa no período 2 e sub-períodos 2A, 2B e 2C

Mas
qual acontecimento tão marcante poderia ter causado tal fenômeno, verdadeiro
divisor de águas, que pode ser considerado ponto máximo delineador de uma tendência,
crista de ascendência? Bem, por volta da citada data, na Europa e nos Eua, com
eco sobre o Brasil nos anos imediatamente posteriores, foram crescentemente lançadas
várias séries adultas de altíssima qualidade editorial (Miller &
Sienkiewicz 1986, Miller 1988, 1989, Miller & Mazzucchelli
1989, Miller & Gibbons 1991, Moore & Bolland 1988, Moore &
Lloyd 1989).
A
boa experiência trazida pela receptividade dada pelo mercado a estes lançamentos
levou ao estabelecimento de selos e editoras especificamente voltadas para o
quadrinho adulto no Brasil e no mundo, além da promoção das linhas adultas em
geral a lançamentos constantes e de melhor qualidade, ainda ao crescimento numérico
das republicações e manutenções em catálogo, levando as adaptações da ficção
literária para as HQ a sofrerem uma queda e se tornarem sazonais, uma vez que o
mercado estava preparado e receptivo para roteiros adultos de qualidade já
disassociados da literatura por não mais necessitar de credibilidade
“importada” de outro meio.
Em
seu surgimento, as histórias em quadrinhos eram um meio de público-alvo dúbio,
que não demonstrava ser voltado para adultos, mas assim o era, devido a questões
como o poder aquisitivo, acesso e veículos em que eram publicados. No século
XIX, as poucas edições existentes eram o equivalente para a época de um
sucesso de crítica, com opiniões favoráveis praticamente unânimes quanto ao
surgimento deste novo tipo de arte que enxertava o texto na ilustração ou
vice-versa de forma siamesa. Porém, é inegável seu apelo ao jovem pelo estímulo
visual que torna a leitura mais digestiva, embora os desenhos também constituam
em um elemento a mais ao leitor, muitas vezes exigindo atenção redobrada para
que detalhes de suas histórias não se percam entre as figuras principais.
A
utilização da ilustração como parte do próprio roteiro trata-se de um
elemento intrínseco à própria linguagem da história em quadrinhos, sendo
mesmo o que a diferencia dos livros ilustrados, cuja força veio aumentando a
partir da década de 1960, com a afirmação do movimento hippie e da
contracultura, conforme já visto. A produção e publicação de novas histórias
adultas em quantidade que suprisse a demanda levaria ainda algum tempo para se
estabelecer, principalmente nos EUA, recuperando-se da ausência de incentivo do
período anterior. Observando-se os movimentos de subida e descida mercadológica
do quadrinho adulto, é possivel estabelecer para o mesmo três eras,
evidentemente aproximadas, assim dadas (não confundir com as eras de ouro e
prata das histórias em quadrinhos em geral, definição clássica):
AS
TRÊS ERAS DO QUADRINHO ADULTO
|
|
|
Nascimento
das HQs (já voltadas para adultos e jovens) |
1860 |
|
Ostracismo |
1920
a 1965 |
|
Renascimento |
1965
aos dias atuais |
Assim,
podemos sentir a presença mais intensificada do quadrinho adulto já
desvencilhado das noções de obrigatoriedade em ser psicodélico ou undergound
a partir do final dos anos 1960. No período de ostracismo, grande parte dos
quadrinhos passaram por processos de “suavização”, uma diluição de seus
conteúdos, passando a ser considerados infantis e até bobos e escondendo
(através de guetos de publicação e entrelinhas nas revistas seriadas) o
verdadeiro subtexto voltado para uma audiência mais qualificada, por décadas.
O mercado de então desconhecia o filão. Apenas posteriormente redescobriu sua
vocação de meio literário, que utiliza um recurso a mais para transmitir suas
mensagens.
As
tendências de revalorização dos quadrinhos adultos através da contracultura,
do underground e da pop art estabelecidas durante a década de 60
tiveram seu ápice nos anos 70, em cujo final, adquirindo credibilidade aos
poucos, com o custo de muitas obras de grande qualidade como as adaptações da
literatura, o quadrinho adulto finalmente deslancha disassociado da imagem de
psicodélico, também no Brasil nos anos 80. Séries de roteiro mais profundo,
psicológico e intrincado surgem na Europa e EUA, dando uma opção para os não-apreciadores
de super-heróis, e os que até não são contra eles, mas ao menos gostam de
variar sua leitura ocasionalmente.
Assim,
a narração iconográfica adulta muito deve a dois autores, em meados da década
de 80: o inglês Alan Moore e o americano Frank Miller. Miller começou
trabalhando junto a David Mazzucchelli com o super-herói Daredevil (no
Brasil, Demolidor), em 1979, e virou a história ao avesso. Criou para o
protagonista uma personalidade, que poderia ser de fato reconhecida pelo leitor,
diferenciando-o dos demais, e introduzindo a personagem Elektra
(nome de personagem mitológica grega, que também define o complexo psicológico
feminino de paixão pelo próprio pai, equivalente ao Édipo masculino), uma
ninja perturbada com sua condição feminina, dividida entre o amor e seu
treinamento para ser assassina. Mas é em 1983 que emplaca o primeiro sucesso
mais autoral, a obra Ronin (Miller, 1988) de quase 300 páginas, na qual
traz sua paixão pelas histórias medievais japonesas de temática samurai e sua
influência de leitor de mangá para as HQs ocidentais, com uma trama que
trazia o espírito de um samurai sem mestre para o século XXI. Seu estilo gráfico
(Miller também desenha), todo baseado nas rachuras, com traço “sujo”
(praticamente sem espaços em branco), começou sua revolução no mercado. A
obra foi citada por um dos mais reconhecidos quadrinistas de todos os tempos,
Will Eisner (apud Goida, 1990, p.239) comum uma das melhores da atualidade, e o Demolidor
reformulado como exemplo de quadrinhos de super-herói.
Em
1986 é lançada sua obra (Miller & Sienkiewicz,
1986) Elektra Assassina, com a impressionante arte de Bill Sienkiewicz,
pintada a óleo e guache quadrinho por quadrinho, outra obra de mais de 200 páginas.
Já em 1987 (no Brasil, Miller, 1989) lança a obra que, se não foi sua melhor
até hoje, é sem dúvida sua mais lembrada: Batman, o Cavaleiro das Trevas,
responsável pelo reavivamento do
personagem e o novo fôlego tomado após 50 anos de sucesso. A história, de
desenhos e colorização totalmente inovadores para a época, mostra um Batman
envelhecido, aposentado após a morte do segundo Robin nas mãos do Coringa,
voltando à atividade em um tempo no qual os super-heróis foram proibidos, as
gangues tomaram conta de tudo, principalmente Gothan City, e o Super-Homem
é um mero serviçal do presidente americano (resultando aliás em uma das mais
clássicas lutas nas HQs de todos os tempos, entre os dois heróis de ideologias
opostas), com cenas memoráveis de Batman comandando gangues de
justiceiros em um batmóvel adaptado à situação, ou seja, um enorme tanque de
guerra, e posteriormente à cavalo, seguido de uma nova Robin (uma
adolescente).
Posteriormente
o autor lança Batman, Ano Um (Miller & Mazzucchelli, 1989) em
parceria com seu
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Assim
como Miller, Alan Moore provou logo no começo da carreira seu excepcional
talento para o roteiro, mesmo trabalhando com as desgastadas histórias de
super-herói, no caso Marvelman, o retorno a um dos primeiros
super-humanos ingleses, publicado nos EUA como Miracleman por
problemas de copyright do nome inicial, dando ao personagem uma característica
muito mais surreal e transcedental, com argumentos intrincados. Em seguida
assumiu o personagem da DC Swamp Thing (no Brasil, Monstro do Pântano),
tornando-o de inexpressivo ao melhor da época na editora. O monstro, uma
criatura que até então era um ser humano modificado por compostos bioquímicos
que o tornaram literalmente uma planta ambulante, teve sua origem modificada, e
se tornou o elemental-guardião da Terra, ganhando a capacidade de deslocar
apenas sua alma para qualquer lugar do universo e fazer um novo corpo a partir
de qualquer composto vegetal, ainda que microscópico ou alienígena. As histórias
assumiram um tom esotérico e existencial, pois o maior drama do personagem era
justamente não ter mais nada de humano e sinceramente não ligar muito para
isso, e ainda assim possuir uma namorada humana. Em suas páginas nasceu ainda o
personagem John Constantine, talvez o personagem de HQ adulta mais
popular nos dias de hoje, que é um mago inglês similar fisicamente (de propósito,
já assumiu Moore), ao cantor Sting, fumante inveterado, mulherengo, beberrão,
cínico, sarcástico e indiferente, que já enganou ao diabo em pessoa por mais
de uma vez.
Ainda
como Miller, também Moore criou uma história para o Batman que marcou
época: A Piada Mortal, conto extremamente cru e realista na vida de um
herói sem poderes na luta contra um psicopata assassino absolutamente genial, o
Coringa (verdadeiro protagonista da história), que termina por colocar
em dúvida a loucura deste personagem: (seria ele brilhante e calculista demais
para ser considerado assim?) e pôr em xeque a sanidade do herói, que se mostra
muito mais Batman (identidade real) do que Bruce Wayne (identidade
falsa, mantida apenas pelas aparências – não seria ele obsessivo e esquizofrênico
demais para ser considerado são?). No roteiro, Batman parece perceber
que jamais conseguirá sobrepujar seu nêmesis, enquanto o Coringa dá mostras
de que parece adorar de forma quase homossexual (em outra história, Asilo
Arkham, ele de fato sugere que Batman “o coma” e protagoniza uma
cena de bolinação em uma situação em que Batman não poderia se
defender para não provocar a morte de reféns) este jogo de gato-e-rato que o
leva a ser preso, ir para o manicômio, fugir, matar e matar, ser preso de novo,
e assim por diante, ad infinitum. Nesta última fuga, rapta a Batgirl
(ou Batmoça), filha do Comissário Gordon, talvez o único verdadeiro
amigo do herói, a espanca até quebrar sua coluna (a personagem ficou paralítica
e abandonou sua carreira de heroína para sempre) e tira fotos dela nua,
amarrada e cheia de hematomas, tudo por diversão. A cena final é sintomática:
o vilão e seu eterno oponente terminam a história gargalhando juntos, de forma
absolutamente doente, de uma piada assumidamente horrível contada pelo próprio
Coringa.
V
for Vendetta (V
de Vingança) foi o segundo lançamento mais importante da carreira de Moore.
A história se passa na França do século XXI, com um personagem incógnito que
usa uma máscara teatral para praticar atos de terrorismo anarquista e doutrinar
uma seguidora. Sozinho, ele derruba o governo e provoca a segunda Revolução
Francesa. Esta obra de mais de 300 páginas foi, de fato, o que levou a DC a
notar seu talento e conceder a ele a história com Batman.
Mas
a obra-prima de Moore, e da HQ mundial em todos os tempos, viria posteriormente,
com a história Watchmen (380 páginas), desenhada por David Gibbons. O
autor da Enciclopédia dos Quadrinhos (1990, p. 243), Goida, disse
textualmente na obra que Watchmen está para os quadrinhos como Ulisses,
de James Joyce, está para a literatura.
O
que mais atrai o leitor de Watchmen é a questão de como pode uma obra
ser tão realista, tão vívida que os personagens são sentidos como reais, e
ao mesmo tempo se tratar de uma história de super-herói? Bem, todas as edições
são acompanhadas de artigos, capítulos de livros, documentos extraídos de
arquivos de hospitais psiquiátricos ou secretos do governo, entrevistas tipo Playboy,
etc, tudo saído exclusivamente da imaginação de Moore, mas que ao se cercar
todos os fatos se torna tão real que é quase palpável, lembrando o movimento
da literatura, naturalismo, que contou entre outros com Machado de Assis,
deixando marcas de como se fazer uma história realista que perdura até hoje. A
história discute como realmente poderia ser o mundo caso de fato existissem heróis.
No caso, são todos vigilantes, sem poderes, com exceção de um, o Dr.
Manhattan, que é virtualmente onipotente, onisciente e onipresente, o que
traz, por exemplo, a discussão: o que o diferencia de Deus? E neste caso, o que
o faria se importar com a humanidade? Com o auxílio do herói supremo, na
cronologia Watchmen os EUA ganharam fácil a guerra do Vietnã, o que
mantém o presidente Nixon no poder. Porém, se ele desaparece, o país fica
indefeso. Outras questões interessantes: porque um país permitiria que grupos
de pessoas, vestidas com roupas colantes coloridas e malucas saíssem por aí
fazendo justiça com as próprias mãos?
Os
personagens de Watchmen são excelentemente construídos, e suas
personalidades são referências vívidas às HQs e à realidade. Entre os heróis,
Ozimandias é um acrobata bilionário e megalomaníaco, com QI imensurável.
Nite Owl usa um traje que lembra o do Batman, baseando-se em seu
poderio tecnológico, o Comediante é um mercenário violento e
estuprador e Roscharch é um detetive de métodos hiper-violentos e noção
de justiça própria, que usa um tecido especial sobre a face, reproduzindo as
manchas do conhecido teste psicológico homônimo demontrando suas emoções,
sendo que sua ausência de vida pessoal se manifesta fazendo com que ele não
mais aceite sua própria face como real (e, deste modo, similarizando-o a outra
faceta de Batman). Em uma cena ele diz, preso e subtraído
de sua máscara, que estava desprovido de seu rosto. Cabe a eles descobrir quem
é o serial-killer de mascarados e salvar o mundo da 3a Guerra
Mundial, entre outras armadilhas a descobrir. Outras obras tentaram e
conseguiram discutir o impacto que super-heróis teriam sobre a vida real, mas
nunca os colocou em xeque tanto quanto Watchmen. Foram os casos, por
exemplo, de Marvels, pela editora homônima, e Kingdom Come (no
Brasil, O Reino do amanhã), pela DC, ambos publicados na segunda metade
da década de 1990 e pintados pelo grande artista Alex
Ross, que possui o estilo hiper-realista, quase fotográfico.
A
obra de Moore interferiu na questão do espaço mercadológico de duas formas,
uma indireta (o espaço maior dado aos quadrinhos adultos depois do sucesso de
suas HQs de altíssima qualidade) e uma direta: as alterações feitas por ele
no monstro do Pântano e a criação de John Constantine, pois por causa dos
dois personagens, os donos da DC Comics decidem criar um selo exclusivo para as
HQs desta linha, o primeiro do mundo em uma grande editora, chamado Vertigo,
porque aquelas criações não poderiam conviver em harmonia em um universo
dominado por super-heróis. No selo seriam publicados futuramente os maiores
sucessos adultos de todos os tempos: Preacher, um pastor que é o último
descendente de Jesus Cristo, cuja família era composta quase sem exceção por
psicopatas e maníacos e que passa seu tempo procurando Deus, que fugiu do paraíso
e se escondeu na Terra, tendo como melhor amigo um vampiro irlandês; Hellblazer,
a revista-solo de John Constantine; Sandman - the mistery mask (no
Brasil, Sandman, a máscara do mistério), versão renovada com temática
realista para o antigo herói cujas habilidades se resumiam a uma pistola de gás
e uma máscara que o proteje dele; The Books of magic (no Brasil, Os
Livros da magia), um legítimo conto de fadas para adultos, que conta a história
de um garoto de 12 anos que está destinado a se tornar o maior mago da Terra, e
para isso convive com fadas, gnomos, ogres e todo o tipo de criaturas oníricas;
The Invisibles (Os Invisíveis), grupo anarquista muito eclético
(com feiticeiros, pajés, gente comum e até uma travesti brasileira) que tenta
denunciar a conspiração de controle existente em todos os cantos do planeta e
em todas as esferas de poder, e finalmente Sandman, além de muitas
excelentes histórias fechadas. A DC tentou também publicar dois outros selos
exclusivos para adultos, que posteriormente pereceram tendo alguns de seus títulos
cancelados, outros transferidos para o Vertigo. Foram o Verité,
composto de histórias fictícias datadas em momentos quaisquer no passado e Helix,
para histórias de ficção científica. Neste último a publicação mais cérebre
(e que foi continuada) é Transmetropolitan, uma ficção paranóico-niilista-caótica,
de estética cyberpunk, estrelada por um jornalista chamado Spider
(Aranha), sujeito cínico e pessimista que, ainda assim, tenta fazer
alguma diferença no mundo com suas matérias, já que precisa de dinheiro para
sobreviver na grande metrópole/praça de guerra em que vive.
Mas
de volta a Sandman. O inglês Neil Gaiman, que anteriormente já tinha
alcançado o sucesso por sua minissérie Orquídea Negra, que conta a
vida de um ser elemental que é algo Monstro do Pântano, algo fada, para
o mesmo antigo herói citado, mas que deste aproveitou apenas o nome, diga-se,
pois se trata de um deus ancestral aos outros deuses, responsável por todos os
sonhos e histórias da criação. Entre seus muitos nomes, o principal é Dream
(sonho), fazendo parte de uma linhagem de sete, assim dados por ordem de
nascimento: Destiny, Death, Dream, Destruction, Desperation,
Desire e Delirium (Destino, Morte, Sonho, Destruição,
Desespero, Desejo e Delírio). Destaque-se a personagem Morte
que, em uma visão tremendamente criativa, é uma moça que aparenta seus 20 e
poucos anos, que acolhe aqueles que a ela se apresentam com todo o carinho e os
orienta para o pós-vida com todo o cuidado necessário, fazendo constantemente
o papel de amiga. Esta, de tão carismática, conquistou uma legião de fãs à
parte. Sandman era recheado de referências a todos os tipos de arte, do teatro
à pintura, dos afrescos ao cinema e música, e teve 75 edições antes de ser
abandonada por Gaiman, que fechou o ciclo de histórias, praticamente
impossibilitando a continuidade da abordagem de seus personagens, com os quais só
ele conseguia lidar. Assim, apenas alguns personagens secundários, como Cain e
Abel (os mesmos da Bíblia) continuaram a ser publicados na revista periódica The
Dreaming, que se passa no Reino dos Sonhos, e em ocasiões sazonais.
Com
o estabelecimento do selo Vertigo, estava lançada a situação para que as
editoras em geral acreditassem no lançamento constante de HQ adulta, pois o
mercado estava faminto. E assim foi também no Brasil, onde todas as obras do
selo citadas e muitas outras foram lançadas. Só que mais uma vez o mercado
nacional provou sua fragilidade, talvez provocada por mau gerenciamento, talvez
por altos preços. Assim, a série Sandman levou dez anos para ser
publicada, entre os finais das décadas de 1980 e 1990, pelas editoras Globo,
Devir e Metal Pesado. Todos os outros títulos citados no selo, assim como
dezenas mais, foram lançados pela Metal Pesado, que teve de mudar seu nome por
problemas de copyright (revista Heavy Metal, que traduzida ao pé da
letra significa Metal Pesado) para Tudo em Quadrinhos, que depois foi
incorporada à Fractal, que depois extinguiu sua linha de quadrinhos. Tudo isso
no espaço de dois anos e meio, entre 1997 e 1999.
Hoje
as novatas Via Lettera (de Jotapê Martins), Conrad (de André Forrastieri),
Brainstore e Mithos tentam dar continuidade, ainda que sazonal, junto a uma dúzia
de outras, no lançamento de quadrinhos adultos nacionais e estrangeiros. Muito
eventualmente de adaptações.
CONCLUSÃO
Após
a pesquisa descritiva, fica claro que a quantidade de quadrinhos adultos de
qualidade lançados no Brasil cresceu muito após 1985 e os primeiros lançamentos
deste novo levante, guiados principalmente pelas obras de Miller e Moore. Porém
este crescimento qualitativo nos roteiros e temáticas, acompanhado também
evidentemente por uma evolução gráfica e de impressão, causou o efeito
colateral da queda até o quase sumiço das adaptações da literatura para as
histórias em quadrinhos, no ocaso do milênio, pois os leitores juvenis/adultos
já se sentiam em condições de ter contato com uma razoável quantidade e
periodicidade de material satisfatório à sua leitura. Assim, as adaptações
perderam a maior fatia de seus compradores.
Por
outro lado, também as novas adaptações obedecem a um maior padrão de
qualidade, o que inclui a modernização de seus argumentos e aprofundamento da
personalidade dos protagonistas.
4.
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