ALAN MOORE     Senhor do Caos  /   Lord of Chaos
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Artigos  /  Articles


          O KOAN NAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS AUTORAIS ADULTAS

                                          por Gazy Andraus (gazyandraus@yahoo.com  e/ou gazya@yahoo.com.br

                                                                                   (Clique Aqui para ler nossa Entrevista com o autor)

Resumo
Artigo dividido em duas partes. Na primeira, as histórias em quadrinhos são analisadas enquanto veículos artísticos de comunicação, salientando-se que podem ser comerciais ou autorais e de conteúdo adulto, embora até hoje tenham sido mal interpretadas. Destaca-se que elas podem, também, descrever os percalços 
evolutivos da sociedade humana em todos os setores, principalmente na ciência, refletindo paradigmas ou vaticinando novos conceitos, além de servirem como divulgadoras dos ideários autorais. Aborda-se também questões relativas com o Koan, técnica oriental, utilizada pelos zen-budistas com paralelo na física quântica, a qual a emprega como metáfora para exemplificar suas teorias e novas descobertas, aproximando os questionamentos da ciência ocidental aos conceitos paradoxais da filosofia oriental. Aponta exemplos de utilização do koan na literatura e nas histórias em quadrinhos. A segunda parte do artigo a destaca e analisa vários estudos de casos englobando histórias em quadrinhos autorais que contêm o Koan em suas estruturas narrativas, indicando sua possível importância, presente tanto nesses conceitos como na propagação dos mesmos pelos quadrinhos, para a evolução científico-social dos seres humanos. Especificamente, são 
analisadas histórias em quadrinhos de Grant Morrison, Philippe Caza, Edgar Franco, Gazy Andraus e Henry Jaepelt. 
Palavras-Chave :Histórias em quadrinhos – Arte – Filosofia; Histórias em quadrinhos - Koan 


Abstract 
Article in two parts. In the first part, comics are studied as artistic and communication vehicles, emphasizing that they can be commercial or authoral, and that they also can have adult contents, although they have been misunderstood until today. It is stated that comics can clearly describe the evolutionary paths of human society in every sector, principally in science, mirroring social paradigms and even predicting new concepts, mainly when they communicate the ideals of their authors. Koan, an oriental technique used by zen budhists with a parallel with quantic physics, which uses it as a metaphor to explain its concepts and its new discoveries, approximating occidental science inquires to the paradoxal concepts of the oriental philosophy , is also dealt with in the article. Examples of the use of the Koan concept in literature and comics are given. The second part of the article analyses several case studies of authoral adult comics which contains the Koan concept in their structural narratives, pointing the possible importance of their dissemination through comics, as well as their importance for the scientific and social evolution of the human beings. 
Specifically, comics by Grant Morrison, Philippe Caza, Edgar Franco, Gazy Andraus e Henry Jaepelt are discussed. 
Key-Words :Comics – Art – Phylosophy; Comics - Koan 

Certa vez eu, Chuangtse, sonhei que era uma borboleta, que voejava de um lado para o outro; para todos os efeitos, era uma borboleta, e não tinha consciência da minha individualidade como homem. De repente, acordei, e lá estava eu, novamente eu mesmo. Agora, não sei se eu então era um homem que sonhava ser uma borboleta ou se agora sou uma borboleta, que sonha ser um homem.

Chuangtse, Filósofo taoísta e místico chinês. C.330 A.C. (apud KIELCE, Anton, 1986) 

Há coisas que ainda não são verdadeiras, que, talvez, não tenham o direito de ser verdadeiras, mas que o poderão ser amanhã.C. G. Jung (O pensamento vivo de Jung, 1986.

1 – INTRODUÇÃO

As histórias em quadrinhos são um veículo artístico e de comunicação, que aliam a literatura à imagem, criando numa síntese das duas, uma terceira forma de comunicação. Elas também refletem o ideário do autor que concebe a história, e por tal autor estar inserido num contexto social e cultural, acabam por refletir todas as idiossincrasias inerentes aos habitantes e a refletir, concomitantemente, as descobertas e progressos da tecnologia e ciência, da sociedade da qual faz parte. Partindo-se deste pressuposto, a nova mentalidade científica que vai refletir em todas as áreas humanas também será refletida nos quadrinhos. 
A física quântica, por ser uma nova abordagem de conceitos que difere da física clássica antiga, substituindo esta no que se refere, por exemplo, aos conceitos de tempo: não há passado, presente ou futuro, o que há são intersecções concomitantes dos três tempos; acresce-se a isso, ainda, o fato da descoberta de que os elétrons não se portam como se espera: a prática constatou que o elétron se posiciona de acordo com o observador, mais ou menos como a brincadeira da criança que supõe a mãe ter sumido, ao lhe fechar os olhos (vide CAPRA, 1983). 
Estes fatos levaram a novas concepções de nossas vidas em relação a tudo que nos rodeia. Até mesmo a matemática tem sua contraparte, que é a lógica paradoxal, defendida no Brasil por Newton C. A. da Costa. E, ainda, mesmo no mundo acadêmico Paul Feyerabend (1924-1994), gritou contra toda a metodologia asfixiante das academias universitárias, com seu livro “Contra o método”, revelando que a criatividade estava dando lugar ao conformismo rígido, tal qual ou pior que na Idade Média, quando a religião era utilizada como gólgota aos supostos pecadores (leia-se: de espíritos libertários, anárquicos). (apud TAMAYO, 1993, cap. 8). 
Este artigo não pretende ser um compêndio científico de física ou de defesa sociológica do anarquismo, mas pretende demonstrar que o Koan, palavra que significa mais ou menos uma questão insolúvel, e utilizada como metáfora para elucidar explicações de cientistas, sociólogos ou filósofos também pode ser usado da mesma forma para demonstrar novos caminhos nas histórias em quadrinhos que, tal como similares meios de comunicação contemporâneos, acabam por refletir todos os paradigmas da sociedade vigente. (vide CAPRA, 1983; ECO, 1971) 

Embora as histórias em quadrinhos tenham sido muito estudadas por alguns pensadores contemporâneos como Umberto Eco (1971) e Claude Moliterni (vide GUBERN, 1979), seu valor real como veículo artístico e literário continua sendo obliterado pelas investidas inconseqüentes de pedagogos ou psicólogos de formação inadequada e desconectados com os avanços e transformações atuais de nossa Ciência, que não reconhecem os quadrinhos como importante veículo cultural 
e didático, muitas vezes até de caráter vaticinador.
Artistas do calibre de Pablo Picasso ou do cineasta Federico Fellini já enveredaram pelas histórias em quadrinhos, tecendo os mais fervorosos (porém lúcidos) elogios a elas. Neste artigo não se ficará defendendo esta forma de narrativa seqüencial, pois espera-se que a própria proposta que irá se elucidando demonstrará seu valor potencial. No entanto, antes de adentrar-se ao bojo do trabalho, deve-se esclarecer-se as categorias de gêneros e idades a que se destinam os quadrinhos, a título de informar e embasar o leitor não familiarizado com eles, visto que raramente vêem-se tais distinções nas divulgações que se fazem a respeito dos quadrinhos pelo jornalismo ou publicidade ou ainda no meio literário.

2. Histórias em Quadrinhos: Distinções 

2.1 Histórias em quadrinhos, charge, cartum e caricatura
Laerte
Importa, primeiramente, frisar a diferença entre as histórias em quadrinhos, as charges e os cartuns. 
Cartum vem da palavra inglesa cartoon e significa literalmente cartão, que é o suporte onde eram feitos desenhos ingênuos e descompromissados de humor, para serem inseridos nos jornais, em seus primórdios. O cartum geralmente constitui-se de um só desenho. Já a charge, que é uma palavra do francês, e significa “ataque” ou “carregar” no figurativo; também se constitui de um só desenho, diferindo do cartum, no sentido de que é sempre um desenho de caráter crítico, em geral à situação política, e preso a determinada época ou fato importante. Por sua vez, a palavra caricatura vem do italiano caricari e significa “carregar”, “exagerar”, e embora em nosso país esteja muito ligada aos desenhos que satirizam rostos, pode estar presente também como a caricaturização de alguma cena ou fato (por isto, na verdade a caricatura pode existir em qualquer uma das modalidades anteriores). 
As histórias em quadrinhos são constituídas de no mínimo dois desenhos, sendo que o segundo é uma continuação do primeiro: (Alan Moore by Bill Sienkiewicz)
Enquanto a charge tem que transmitir a sua mensagem, geralmente de conteúdo humorístico, em uma única imagem, a história em quadrinhos é uma seqüência de acontecimentos ilustrados. É uma narrativa visual que pode ou não usar textos, em balões ou em legendas. (FEIJÓ, 1997, p.13) 

2.2 Terminologias

Os quadrinhos também carregam várias terminologias, dependendo dos países onde são publicados: no Brasil são chamadas de histórias em quadrinhos (ou, simplesmente, HQs) e as revistas que as publicam são alcunhadas de gibis (gibi é um menino de cor negra e, talvez a isto possa atribuir-se o fato de se associar estas publicações geralmente à leitura infantil.). 
Já na França, chamam-se bandes dessinées, o que significa, literalmente, bandas desenhadas, termo também adotado em Portugal (que também as reconhece como histórias aos quadradinhos). Na Espanha, tal como ocorreu no Brasil, elas ganharam uma denominação que originalmente representava o título de uma revista, Tebeos (a revista chamava-se T.B.O.). Na Itália utiliza-se o termo fumetti (fumacinhas, uma alusão aos balões de fala das personagens); manga, no Japão; historieta, na Argentina e comics nos Estados Unidos (comic strips, quando referindo-se às tiras em quadrinhos dos jornais). Nos EUA, as histórias em quadrinhos chamavam-se inicialmente Funnies (sinônimo de comics, engraçado), graças às denominações dadas às revistas: “a primeira revista em quadrinhos editada no Ocidente para ser vendida e gerar lucro foi Famous Funnies, em 1934, 
reunindo tiras já publicadas em jornais”. (FEIJÓ, 1997, p. 36) 
De acordo com Henrique Magalhães em seu livro "O que é fanzine," o termo que mais se aproxima da verdade é o nosso. No entanto, ainda cremos que a palavra quadrinhos tem um tom pejorativo, o que pode enfraquecer o conceito real da nona arte. O fato do desenho, como forma de expressão humana, estar atrelado à tenra infância, época em que a criança parte de garatujas até chegar ao rudimento da figura de um ser humano, casas e natureza, cedendo, aos poucos, lugar à escrita (a qual também evoluiu da forma simplória de desenhos esquemáticos representando, por exemplo, uma cabeça de boi, a qual dá origem à letra “A”, que em verdade não passa de um desenho padronizado..) acaba por estigmatizar qualquer forma de desenho como algo irrelevante. Infelizmente, nossa cultura, tomando como fator de comunicação preponderante a linguagem da escrita - racionalizada, porém muitas vezes limitante -, acabou por desprezar a linguagem do desenho, não mantendo uma continuidade de seu desenvolvimento nas escolas, o que, na realidade, acarretou um grave preconceito com tudo relativo ao desenho, considerando-o como uma rudimentar forma de expressão exclusivamente infantil; tudo isso leva, por esta linha de raciocínio, a considerar também infantil qualquer história em quadrinhos, mesmo quando seu texto seja de temática exclusivamente adulta e seus desenhos destinados ao mesmo público maduro. 
Enfim, não se pode negar que, somadas as designações histórias[3] em quadrinhos;[4] e gibi [5], principalmente por ser uma leitura que une a língua escrita com os “desenhos” (estes últimos sempre associados com a infância, vide a literatura infantil, que quase sempre traz desenhos como um suporte atrativo ilustrando os textos...), perfazem estes três termos (histórias, quadrinhos e gibis) um reforço que amplia a pecha e o preconceito de que, enfim, a - como também a chamam os europeus -, literatura da imagem, seja destinada unicamente ao público infantil, ou, com ressalvas, ao infanto- juvenil. Isso é um grave erro que acarretou uma mentalidade nacional altamente preconceituosa, principalmente contra os que tentam ou querem se profissionalizar na área das histórias em 
quadrinhos, destinadas exclusivamente ao público adulto, público este que também erroneamente apregoa serem histórias em quadrinhos adultas somente as de temática pornográfica, esquecendo-se que os quadrinhos têm gêneros distintos, e também, como qualquer outra forma de literatura incursionam igualmente pelo gênero erótico, distinto do pornográfico (vide CALAZANS, 1998, p. 54). 
Scott McCloud, em seu livro "Desvendando os Quadrinhos", tenta se aproximar o máximo possível de uma nomenclatura mais condizente com os quadrinhos (lembrando que o termo nos EUA significa literalmente “Cômico”, e, justamente por isto, o autor tenta tirar o conceito genérico, que excluiria as histórias em quadrinhos de temática séria ou crítica - e não, exclusivamente, cômica): “Imagens pictóricas e outras justapostas em seqüência deliberada destinadas a transmitir informações e/ou a produzir uma resposta no espectador.” (1995, p.9) 
Foi dessa forma que McCloud concluiu a designação das histórias em quadrinhos. 
Mas ele acaba por reutilizar o termo Arte Seqüencial, criado por Will Eisner, que é o mais simples e direto, apesar de, segundo a própria análise de McCloud, também ser passível de designar os filmes de cinema, desenhos animados ou mesmo textos, tanto literários e/ou ilustrados. De todo modo, o impasse do nome continua, a menos que o termo de Will Eisner passe a ser largamente usado no Brasil, designando ao menos as histórias em quadrinhos adultas autorais. 

3.3 Histórias em quadrinhos autorais e comerciais

Se na literatura e no cinema temos produções de caráter exclusivamente comercial, é verdade que também as temos como obras artísticas (mais apuradas e que requerem uma bagagem cultural maior do usuário). As histórias em quadrinhos autorais geralmente são criações de autoria pessoal, onde o ideário de um autor é passado para o roteiro das histórias. Às vezes a autoria se divide entre dois criadores, que têm idéias em comum, não influenciando negativamente no processo.
Fato inverso ocorre normalmente nas histórias em quadrinhos de caráter mais comercial, criadas como linha de montagem e nas quais a autoria se perde entre quase uma dezena de profissionais dividindo as tarefas da consecução de uma história, sob a direção de um editor, cuja função é de direcionar as histórias em quadrinhos de determinado personagem, indiferente à manifestação do ideário autoral, mas atento aos gráficos de venda da revista, geralmente mensal, e não uma ou duas edições anuais, como costuma ser a característica da história em quadrinhos autoral, principalmente a européia. 

2.4 Histórias em quadrinhos para idades e públicos distintos

Outra característica existente nesta arte é a destinada às várias idades físicas do ser humano. Existem histórias em quadrinhos que são exclusivamente destinadas ao público infantil, bem como para o público juvenil, e, embora não se faça tal distinção às claras no Brasil, existem temáticas estritamente adultas. No Japão, existem mangás para todos os segmentos e idades, tais como histórias em quadrinhos só para meninas, ou só para garotas adolescentes, ou ainda para garotos fãs de esportes, e até para adultos executivos. 

2.5. Os diferentes gêneros das histórias em quadrinhos

Outro ponto importante a se apontar é a incursão das histórias em quadrinhos em vários gêneros literários, dentre os quais o romance histórico ou ficcional, o documentário, o erótico, o ficcional científico e fantástico, o poético, o terror e até o filosófico. Neste último podemos situar as histórias em quadrinhos analisadas na segunda parte deste artigo, as quais podem ter elementos que sejam definíveis como Koânicos. 

3 - Sobre o koan 

Umberto Eco (1971, p.213) descreve o koan da seguinte maneira, ao referir-se a uma atuação irreverente do músico John Cage que teve como resultado um sentido de ilogicidade no público: “assim como o mestre Zen obriga o discípulo a refletir sobre o koan, o enigma sem solução do qual deverá surgir a derrota da inteligência, e a iluminação”. 
Já Albert Low (1997, p. 9), em seu livro "A vaca de ferro do zen", descreve um koan como um dito ou frase proferida por um mestre zen, que busca uma resposta intangível racionalmente. Na verdade o koan seria, assim, apenas um desafio aos arraigados hábitos da mente, de seu modo de pensar e então agir. 
Vejamos agora um dito, provavelmente o mais conhecido e/ou divulgado sobre o Koan, que também está presente no livro de Low (1997, p162): “Qual é o som de uma das mãos ao bater das palmas?” 
Em verdade, nossa mente racional poderia talvez levantar indefinidas hipóteses como resposta, mas, provavelmente, se analisarmos friamente a questão, vemos que ela é impossível de ser respondida pelos padrões em que nossa mente funciona. Se uma mão dá de encontro à outra, o som provém do impacto de ambas: como subtrair, ou melhor, abstrair o som de uma palma apenas, no impacto? Poderia o som ser reduzido à sua metade? 

(Mão direita + Mão esquerda) = ? 
_____________________________ 



Na verdade a resposta torna-se impossível, pois a questão não se completa se não houver junção das mãos. Então, só resta ao ser humano imaginar como seria o som, mas mesmo isto não se torna claro para ele.
Embora o material acerca do koan seja limitado, alguns autores, tanto da literatura como das histórias em quadrinhos já o mencionaram ou utilizaram, consciente ou inconscientemente. Pablo Neruda, por exemplo, teve um livro póstumo publicado, com poesias absurdas, ou, para ser mais preciso, que podem ser categorizadas como poesias em forma de koan, ou ainda poesias koânicas: 

Sofre mais o que espera sempre que aquele que nunca esperou ninguém?; 
A gota viva do mercúrio corre para baixo ou para sempre?;
Quantas abelhas tem o dia?
(NERUDA, 1980) 

O koan, então, é uma pergunta em forma de enigma, indecifrável pelos padrões lógicos racionais vigentes. 
Scott McCloud (1995, p.9) classifica os quadrinhos em seis categorias, que são:momento-pra-momento, ação-pra-ação, tema-pra-tema, cena-pra-cena, 
aspecto-pra-aspecto e non-sequitur. Na sexta categoria, non-sequitur, o quadrinho seguinte ao anterior não parece ter lógica ou coerência, aparentando ser a história uma não-história, ou seja, uma história em quadrinhos cujo roteiro parece não existir, ou ter qualquer lógica. Mas McCloud não lhe dá outro nome específico além do termo non-sequitur. Eu mesmo chego a identificar nesta categoria, em alguns casos, algo que pode ser intitulado de quadrinhos poético-filosóficos. Mas, em verdade, torna-se complicado fazer estas classificações. Alguns autores se utilizam muito deste recurso, principalmente os japoneses nos mangás, em geral no meio de uma aventura como uma ação decupada em vários quadros aparentemente sem ordem cronológica de leitura, retratando,  por exemplo, uma cena específica, como um personagem almoçando, enquanto o dia se apresenta ensolarado; mas tal enfoque não surge, no entanto, como o ponto principal da história, e sim como um apêndice necessário (?) ao roteiro. No Brasil, o mais próximo deste tipo de roteiro aparentemente ilógico, ou lógico-paradoxal é o tipo de estrutura narrativa do quadrinhista Henry Jaepelt. 
O koan está presente também em livros científicos como "O Tao da Física," de Fritjof Capra, que traça um paralelo da filosofia oriental com os novos percursos da física quântica e nos dá uma visão do que são os koans: 
Os zen-budistas possuem um talento especial para mudar em virtude as inconsistências geradas pela comunicação verbal; e, com o sistema Koan, desenvolveram uma modalidade única, inteiramente não-verbal, de transmissão de seus ensinamentos. Os koans são enigmas absurdos, cuidadosamente preparados com o fito de fazer com que o estudante do Zen se aperceba, do modo mais dramático, das limitações da lógica e do raciocínio. o palavreado irracional e o conteúdo paradoxal desses enigmas torna impossível sua resolução através do pensamento. (CAPRA, 1983, p. 44). 

Conclusão 

Uma vez elucidadas as questões iniciais referentes às histórias em quadrinhos e suas principais características, bem como sobre a conceituação de koan segundo os principais autores que a ele se referiram, pode-se identificar e analisar casos específicos das histórias em quadrinhos que o possuem em suas estruturas. 

Referências bibliográficas

ANDRAUS, Gazy. Fantasia-Filosófica. In: CONGRESSO INTERCOM, Recife, 1998. 
________. Histórias em quadrinhos de autor para adultos: Uma abordagem enfocando 
a linha fantasia-filosófica, através de uma obra do artista Edgar Franco. In: GT 
HUMOR E QUADRINHOS, CONGRESSO DE COMUNICAÇÃO DA INTERCOM, 16o., Recife, set. 
1998. Resumos. Recife : UFPE, 1998. p. 45
________. O Koan nas histórias em quadrinhos. In: GT HUMOR E QUADRINHOS, 
Congresso de Comunicação da INTERCOM, 17o. Rio de Janeiro, set. 1999. Resumos. Rio de Janeiro : UGF, 1999. p. 100 
BELLO, Susan. Pintando sua alma: método de desenvolvimento da personalidade criativa. Brasília: Ed. UnB, 1998. 
BRENNAN, Barbara Ann. Mãos de Luz. São Paulo : Pensamento, 1996. 
CAPRA, Fritjof. O Tao da Física. São Paulo : Cultrix, 1983. 
ECO, Umberto. Obra Aberta. São Paulo : Perspectiva, 1971. 
CALAZANS, Flávio. As Histórias em Quadrinhos do gênero Erótico. Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, São Paulo, v.21, n.1, p.54, jan./jun. 1998. 
FEIJÓ, Mário. Quadrinhos em ação: Um século de história. São Paulo : Moderna, 1997. 
GUBERN, Román. Literatura da Imagem. Rio de Janeiro : Salvat, 1979. (Biblioteca Salvat, 57) 
JUNG. O pensamento vivo de Jung. São Paulo : Martin Claret, 1986. 
KIELCE, Anton. O Taoísmo. São Paulo : Martins Fontes, 1986. 
LOW, Albert. A Vaca de Ferro do Zen. Porto Alegre : Bodigaya, 1997. 
MAGALHÃES, Henrique. O que é fanzine. São Paulo: Brasiliense, s.d. 
McCLOUD, Scott. Desvendando os quadrinhos. São Paulo : Makron Books. 1995. 
NERUDA, Pablo. Livro das perguntas (óbra póstuma). Porto Alegre : L&PM, 1980. 
TAMAYO, Ruy Pérez. Existe el método científico? México : El Colegio Nacional; 
Fondo de Cultura Económica, 1993. 
agosto de 2001 
[1] Adaptado do artigo apresentado no GT Humor e Quadrinhos do Intercom no Rio de Janeiro em 1999.
[2] Licenciado em Artes pela FAAP – Fundação Armando Álvares Penteado e Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, em 1999. 
[3] História é um palavra que costuma remeter a um tom irreal - apesar de se apresentar como uma séria disciplina educacional -, logo, direcionada ao imaginário infantil. 
[4] Quadrinhos, como traz o próprio teor de diminuição da palavra, reforça o estigma de algo exclusivamente destinado às crianças. Assim, o diminutivo remete a algo menor, ou inerente à infância, carinhoso, terno, por isso necessário de cuidados fraternos e maternais.
[5] Também infantil, pois gibi é um meninote de cor.