ALAN MOORE     Senhor do Caos  /   Lord of Chaos
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Artigos  /  Articles


                       BATMAN – A PIADA MORTAL

                                    UMA ANALISE DE FÁBIO CACOSSI  PICARELLI

             Sem duvida esse é um dos grandes trabalhos já feitos com o personagem de Batman, mas na verdade essa é a obra-prima de um dos mais fascinantes inimigos do morcego: o Coringa. Nunca ela foi tão desenvolvido quanto nessa obra em que aparece sua historia.

            Alan Moore conseguiu dar uma sensação de ritmo, encadeamento e significação para os elementos dos quadrinhos que dificilmente se vê. Sob sua orientação Brian Bolland conseguiu realizar uma de suas maiores obras, com seu desenho cheio de detalhes que chegam 'a perfeição no estilo comics atingindo  uma nova valorizaçao , já que cada elemento tem uma interpretaçao  além do belo desenho, dos detalhes, das sombras e das cores. Mesmo cada encadeamento entre os planos, tudo aqui está a serviço da historia, não é apenas mais um desenho bonito e vazio como estamos acostumados a ver. Aparecem aqui uma transposição entre as seqüências muito hábil, uma utilização do "virar de páginas" que surpreende, e certas cenas mudas bem expressivas, algo muito difícil de se encontrar nos quadrinhos, que serão analisadas mais profundamente adiante. O domínio que Moore apresenta sobre a narrativa em quadrinhos  atinge a perfeição, é uma obra completamente redonda e  não se percebe erros ou exageros em sua narrativa.

O INÍCIO

         O primeiro quadro da historia é um plano detalhe de pingos de chuva caindo na água empoçada na rua , que já contém a premissa de como será a obra.

           Desde Shakespeare aprendemos a ver na chuva a exteriorização dos sentimentos dos personagens, na qual  a natureza parece se compadecer com eles - nesse caso a relação tempestuosa que sempre caracterizou a ligaçao entre  Batman e Coringa. A chuva estará bastante presente ao longo de toda a obra. As duas primeiras páginas apresentam 9 quadros idênticos cada e são feitas em silencio, nenhum diálogo, nenhum recordatório ou mesmo nenhum som. É a entrada triunfal de Batman no Asilo Arkham carregado de mistérios.

            Os três primeiros quadros apresentam um pequeno movimento, suave, como um plano seqüência de cinema. Ao plano da poça se segue um que vemos um pedaço da parede junto com um reflexo de luz na água, o terceiro quadro se movimenta lateralmente um pouco mais e apresenta a silhueta do batmovel com os faróis acessos, ele é reconhecido imediatamente pelos dois pequenos "olhos brancos" com os quais ja´ estamos acostumados. No quarto quadro o batmovel freia em frente à placa do Asilo Arkham. No sexto a figura de Batman atravessa o portão de forma grandiosa, vemos através de um plano geral sua silhueta e a grande sombra que faz no chão.

             Já no sétimo  vemos a figura de Gordon de longe, no oitavo ele e´visto  de perto. Batman simplesmente passa por ele e entra no Asilo, Gordon está correndo atrás tentando alcança-lo, mas sempre em desvantagem. O terceiro quadro da segunda página é exemplar, visto por um ângulo baixo, Gordon  se encontra entre as pernas de Batman, claramente em desvantagem, enquanto Batman continua seu caminho inabalável. Veja como no segundo quadro, Gordon cumprimenta a secretaria, enquanto Batman simplesmente segue reto, parece que ele não precisa falar nada, o quadro anterior vemos apenas a sua figura grande e a secretaria assustada apontando algo. Na segunda pagina, no segundo quadro lemos na mesa da secretaria “não é preciso ser louco p/ trabalhar aqui... mas isso ajuda”, esse tema será retomada no dialogo final entre Batman e Coringa em que ele fala que talvez ele tenha estado do lado da loucura alguma vez. Alan Moore muda o enfoque considerando  Batman tao louco quanto o Coringa, os dois passaram por situações dramáticas e a única coisa que os diferencia é como eles responderam a esse trauma. Outro elemento sobre isso é a piada final contada pelo Coringa.

             Depois eles passam em frente à cela do Duas-Caras, com uma placa com seu nome Dent H. - o Duas-Caras é um inimigo tradicional do Batman sobre quem conhece muito, eles já foram amigos antes do acidente que transformou Harvey Dent no criminoso Duas-Caras.   Um guarda abre a porta de uma cela identificada por uma placa de "nome desconhecido"; na próxima pagina vemos Batman entrando nela, o uso da luz faz um contraponto entre a claridade de fora , aonde estão Gordon e o guarda, seguros, livres  da escuridão do desconhecido e da loucura. O plano se afasta e vemos duas mãos brancas jogando paciência e as expectativas de que estas mãos podem ser do Coringa aumentam; o próximo quadro enquadra a mesa do jogo e  vemos uma carta de justo de um  coringa. Depois,  em um quadro que equivale no tamanho a seis dos que até agora vinham sendo comentados, reforçando dramaticamente a cena e mostrando sua intensidade, já  mostra alguém que só pode ser o Coringa. A confirmação do prisioneiro de nome desconhecido é revelado e em contraponto com a porta do Duas-Caras percebemos que não conhecemos nada da vida do Coringa, que é o que a obra se propõe a corrigir.. Lemos entre aspas “tinha dois caras no hospício...” que demonstra como o Batman também vai ser tratado, a utilização de uma fala futura no quadro serve para fechar a apresentação dos dois personagens e de sua relação.

Veja como é feita a introdução da historia nessas três primeiras páginas, vemos apenas pequenos detalhes que vão nos informando pouco a pouco alguma coisa sobre o que esta´ por vir, que está envolta em mistérios. Revelando  apenas o necessário Alan Moore prende nossa atenção na historia que vai se desenvolver pelo resto da obra. Essa seqüência é totalmente estilizada e, portanto, anti-natural, Batman nos é apresentado como a figura misteriosa, noturna e muito seria ( note-se que , mesmo após 3 paginas, não vimos o rosto de Batman) e no final teremos uma diferença nessa imagem que é intensificada pela maneira que ela é tratada aqui. Alan Moore soube retratar muito bem a idéia de lenda que foi criada sobre Batman pelos outros habitantes de Gothan City, como o  comissário Gordon.

Na página 6¹, enquanto Batman tenta conversar com o Coringa, por si algo já  bastante incomum na historia dos dois, uma tentativa de conversa, este nao desvia sua atençao do jogo, desconsiderando o homem morcego; no primeiro quadro, do rosto do Batman vemos apenas os olhos; no segundo , um contra plano do primeiro, vemos as formas do rosto do Coringa, mas não seus olhos; contrariamente as suas características habituais ele está calado e concentrado, para alguém que costuma sempre estar falando muito e fazendo muitas piadas é um comportamento estranho. Nessa página Batman faz um discurso inflamado que será retomado em recordatorios quando ele encontrar o verdadeiro Coringa, já que quando ele pega na mão dele percebe que sai tinta branca em sua mão.

Na quinta pagina ele pega o Coringa e passando a mão em seu rosto percebe que é maquiagem e que ele não é o Coringa, é interessante notar que apenas nesse momento vemos as feições de Batman, todo o tempo ele foi mostrado apenas entre as sombras, reforçando seu caráter mítico de cavaleiro das trevas. Quando Batman pega o falso Coringa pela gola, muda-se o foco da narrativa para o de Gordon que ouve os gritos do lado de fora da sela;  quando ele entra acha que Batman está maltratando o Coringa e daí partimos para onde se encontra o verdadeiro Coringa.

Apresentação da historia

            Essa estrutura que está presente no inicio percorre toda a obra, Alan Moore nos vai mostrando apenas pequenas partes, as necessárias para entendermos a historia ate o momento, mas que reserva mistérios que só serão revelados ao final, jogando pequenas “pistas” que irão ser retomadas, com isso ele prende nossa atenção e faz com nos envolvemos com a estoria. A mudança dos focos narrativos é que permite essa estrutura, similar a romances como Guerra e Paz ;  acompanhamos cada hora algum personagem da historia que se interliga, os espaços narrativos que surgem não tem importância pois pegamos a totalidade dos fatos que interessam, o que não vimos é retomado adiante, o cuidado para que essa estrutura se torne interessante e que não apresente lacunas deve ser grande e aqui é realizada com maestria. Vamos analisar mais intensamente alguns deles.

Na página 12 vemos o Coringa, ele volta a conversar com o vendedor do circo, ele aperta a mão dele no segundo quadro, no terceiro vemos que ele tinha uma agulha em sua mão e continua falando com ele enquanto se afasta, no sexto e ultimo quadro vemos a cara do vendedor retorcida em um terrível sorriso ; essas falas servem para preparar os leitores do que está por vir, sabemos que ele planeja alguma coisa nesse circo, mas não o que exatamente.

Depois, na pagina 17 , em que o Coringa ataca Gordon e sua filha Bárbara , ele começa a se despir e fala que  quer provar alguma coisa, o que nós não sabemos, assim como o que ele quer fazer com Gordon e para onde o está levando. Nas paginas 20 e 21, mais elementos nos são apresentados, o fato que o Coringa tirou fotos de Bárbara, e ela termina a cena fazendo a mesma  pergunta que nós, o que ele vai fazer com Gordon.

            Nas paginas 18 e 19 de novo temos uma estrutura de quadros iguais, os três primeiros mostram um movimento que vai abrindo o plano. No primeiro quadro vemos apenas o Coringa, ele está falando sobre algo que ainda não sabemos; no segundo  vemos que ele está acompanhado por dois homens na mesa e no terceiro o Coringa revela que eles estão planejando um crime e também o tipo do local em que se encontra - um homem está caído em cima da mesa, demonstrando que o local é de baixo nível. Quando é repreendido pelo homem no terceiro quadro, o plano volta a se focar unicamente na mesa dele.

            Da pagina 22 ate a 24 vemos Gordon no meio de personagens bizarros, preso por eles no mesmo circo que já tinha aparecido; Coringa fala sobre o passado e sobre sanidade/loucura;  Gordon então é posto em um carrinho de trem fantasma e some por uma porta fechada.

            A resolução

            A partir da pagina 27 (metade da obra) começam a surgir todas as respostas as questoes que Alan Moore tão habilmente plantou em nós. Cantando uma musica , percebemos que todo o plano do Coringa  foi tentar fazer com que Gordon ficasse louco, para provar sua teoria de que qualquer um que tivesse uma experiência traumática muito forte, como ele, sofreria a mesma consequencia. As fotos de Barbara, o circo, porque ele raptou Gordon, tudo é então respondido.

           O passado do Coringa

            Paralelo a essa historia presente do rapto, também temos o passado do Coringa, como ele veio a se tornar o vilao, intercalado aos poucos durante toda a narrativa. Porem vale lembrar, como o próprio Coringa revela,  que as vezes ele lembra seu passado de um jeito as vezes de outro. Só por se tratar de memórias lembradas pelo próprio personagem,  elas já não seriam confiáveis, são narrativas contadas por alguém que estava participando delas e que portanto as distorcem segundo seu ponto de vista; alem do mais estamos falando de um louco e que portanto não devem ser encaradas como fatos objetivos e 100 por cento verdadeiros, alguns elementos nos permitem perceber essas distorções.

            A historia começa na pagina 10, e em contraste com a narrativa presente as cores são mais escuras, ficando nos tons negro, cinza e amarelo. A cena é excessivamente dramática, exagerada, o rosto do Coringa esta muito alterado pelas expressões que ele faz. Ai é mostrada as dificuldades em que ele esta vivendo e que será a razão para que tente cometer o crime.

            Já nas paginas 18 e 19 temos o bar, que já foi citado acima, os dois comparsas são muito caricaturados, notando o contraste dessas duas paginas com as paginas 25 e 26, que ocorre no mesmo local, aqui não vemos mais o resto do bar, como vimos na seqüência anterior, tudo esta mais nebuloso, mais sofrido, pela noticia que ira monopolizar a atenção na seqüência, a morte da esposa do Coringa. Quando o guarda vem a mesa para falar com ele, seus comparsas tentam se esconder de maneira cômica, irreal, escondendo o rosto com o chapéu ou a mão. Quando a noticia é anunciada temos três planos fixos, o guarda fala da morte da esposa, e o Coringa fica um breve momento calado, que é o segundo quadro ( o tempo de se levar o isqueiro do bolso ate a boca), o impacto da noticia é muito grande, inacreditável, ai o silencio desse quadro, o sofrimento dele é capturado por um quadro, exatamente o momento em que a noticia o atinge. Note bem a utilização desses planos fixos, que se assemelham muito a câmera parada cinematográfica;  escolhendo uma posição privilegiada, ela permite ao plano capturar todos os elementos importantes sem se mover , deixando a interação dos elementos agir e criar todo o clima da seqüência, sem a “câmera” intervir. O ultimo quadro da seqüência é ele se contorcendo, escondendo a cabeça com as mãos e duas pessoas estão rindo dele; veja como ate agora não tinha aparecido outras pessoas no bar e ele lembra o momento com pessoas rindo cruelmente de sua perda;  pela posição em que ele está ele nunca teria visto as pessoas, mas é assim que sua mente lembra.

Na ultima seqüência ocorrera´ sua metamorfose em Coringa;  obrigado pelos seus comparsas a realizar o golpe do mesmo jeito, eles são surpreendidos pela policia;  enquanto corre desesperadamente tentando se salvar, ele encontra Batman e salta  nas águas poluídas da fabrica; ele então tira sua mascara e vê em uma possa d`água o que aconteceu em seu rosto;  cai em desespero com as mãos na cabeça e começa a rir desesperadamente, se inteirando da profunda e dramatica ironia do que lhe aconteceu naquele dia;  e surta de vez..

Pela primeira vez entendemos os motivos que levaram o Coringa a ser como ele é; nesse ponto vemos similaridades com outro personagem de Alan Moore, o Comediante da série Watchmen, que apresenta a mesma psicologia; oprmidos pelas ironias cruéis da vida , eles respondem  agindo de forma irracional e com muita violência. Isso é muito bem demonstrado na fala sobre a guerra que explicita que algo banal  gerou a 2ª Guerra Mundial;  é disso que o Coringa ri. Na página 17 , Gordon totalmente atordoado como estado  de sua filha - que teve a espinha quebrada pelo vilao -  parte violenta e cegamente para cima do Coringa,  que se serve uma bebida; enquanto Gordon é espancado por dois capangas, ele bebe de costas para Gordon,  numa impressionante demonstração de frieza cruel, que é reforçada pelo jeito com que fala com Bárbara, com voz e tom permeados de morbida  ironia.

  As seqüências “sem som”

              Fora a primeira, que já foi comentada, outras seqüências são feitas sem som, ou para reforçar o sentimento psicológico de algum personagem ou por ordem narrativa. Uma das melhores é a da página 16. Na anterior assistimos  Bárbara conversando com Gordan, eles falam de assuntos banais, numa típica relação pai-filha;  quando Gordon vê em um recorte a primeira vez que o Batman e o Coringa se enfrentaram (na verdade  é a primeira em que o Coringa é o Coringa como iremos ver mais a frente), Bárbara fala que teve pesadelos quando Gordon contou a ela sobre o Coringa e quando abre a porta em que espera uma amiga. Quando abre a porta, viramos a pagina e com a mesma surpresa que ela vemos a figura de Coringa segurando uma arma.

A cor roxa, o pequeno brilho nos olhos e o sorriso impassível parece realmente saído de um pesadelo e  a isso se segue um plano detalhe da arma e o rosto cheio de medo de Bárbara. Os outros quatro quadros parecem irreais, de mesmo tamanho, são excessivamente lentos, correspondendo a visão de Gordon, que vê, comparando com o cinema em câmera lenta,  Bárbara sendo atingida pelo revolver de Coringa e quebrando uma mesinha de vidro e ficando caindo ao  chão. Com muitas cores fortes de vermelho e laranja e de novo em silencio, tudo  reforça  a  violencia da cena  para Gordon.

Temos mais uma cena nas paginas 29 e 30. Temos aqui duas seqüências distintas, a de Gordon que se mantém nos quadros a esquerda em que portas vão se abrindo (aqui temos som) e Batman procurando desesperadamente pelo Coringa; vemos apenas um quadro para cada pessoa que ele visita, resumindo assim as ações de Batman; esse tipo de montagem da´ uma sensação de simultaneidade entre as duas ações.

            Por fim a seqüência em que Batman finalmente encontra o Coringa e e eles travam uma breve luta ,  numa grandiosa cena - voltaremos a ela depois quando estivermos falando de falas de outras cenas incluídas em recordatorios.

           As transições entre as seqüências

            As transições entre as cenas e entre o passado e o presente é algo marcante nessa obra, na qual autor e artista soberam  utilizar muito bem o virar de paginas para nos surpreender, como por exemplo a seqüência em que Bárbara é baleada, ele liga muito bem a narrativa e nos fornece transições realizadas com suavidade, devido a similaridades entre o ultimo quadro de uma seqüência e o primeiro da outra.

            A primeira transição ocorre quando Batman cm a mao na  cabeça se  pergunta onde o Coringa esta; e o final   dessa pergunta ocorre já na outra pagina em que passamos para o Coringa. No primeiro quadro vemos apenas a luva do Coringa e já temos certeza de se tratar dele, pois simplesmente se está respondendo a pergunta de Batman.

            Uma transição importante ocorre entre as paginas 9 e 10, quando o Coringa fala que nos dias de hoje dinheiro não é mais problema e segura um chapéu as costas; é o que antecede a primeira viagem ao passado;  vemos alguém segurando um chapéu de uma forma quase idêntica, e temos certeza que ele é o Coringa;  depois ele volta ao presente quando sua esposa está sorrindo e ambos estão esticando o braço, enquanto seu reflexo aparece em um espelho;  o quadro seguinte apresenta um palhaço sorrindo, o reflexo seu e o braço que no quadro anterior era de sua esposa agora é o reflexo do seu próprio, só a boca mudou, de um pequeno sorriso feliz para uma cara fechada e melancólica, perdida em lembranças de tempos felizes que não vão voltar.

            Depois duas transições pequenas e eficazes:  a primeira do Coringa se afastando no circo salta para uma carta de coringa naos maos do Batman; e depois , de Batman em sua caverna para uma foto dele segurada por Gordon. No termino dessa seqüência vemos o Coringa falando “Um brinde ao crime”, o plano pega apenas ele e virando a pagina estamos de novo no passado e vemos apenas ele, que como será visto no terceiro quadro dessa pagina está combinando para realizar um crime. Enquanto um homem arranca patas de um camarão no ultimo quadro, passamos, quando se vira a pagina , para um homem segurando as pernas de Bárbara.

            Quando Bárbara segura e abre a capa de Batman que cai sobre seu peito e pergunta o que estão fazendo com Gordon, a resposta vem com o virar da pagina em que pequenos braços abrem a camisa de Gordon estirado no chão. Depois os últimos dois quadros da pagina 24 são ele entrando no trem fantasma e a porta se fechando; já na próxima pagina em que entramos de novo nas memórias do Coringa os dois primeiros quadros são de uma porta fechada e da porta abrindo e alguém entrando, as similaridades dão uma fluidez grande a narrativa que passa de um tempo a outro sem dificuldades.

            Nessa mesma seqüência vemos o final em que o Coringa tenta se esconder com os braços e o próximo quadro é muito parecido só que agora é Gordon que tenta se esconder, aqui não apenas a transição é muito eficiente como também existem características comuns já que o Coringa está tentando enlouquecer Gordon assim como ele ficou louco;  o fato dos dois estarem na mesma posição indica que o Coringa está tendo sucesso nessa sua tentativa.

            Na ultima transição vemos as risadas de um Coringa enlouquecido e passamos para todo mundo rindo de Gordon, as risadas que estão ao fundo dos quadros parecem sons distorcidos e que correspondem a seus ouvintes, no primeiro caso o Coringa e no segundo Gordon.

           OS SONS DE OUTRAS CENAS

         Algumas vezes na obra a fala de algum personagem é usado em outra cena que não a pertence; além de se usar para ajudar a dar pontos de encontro entre as seqüências de modo eficiente , elas também ajudam a dar referencias ao leitor;  a primeira vez que aparece esse elemento já foi citado no O INICIO e a outra vem agora.

         O FINAL

          No final da pagina 36, vemos na última linha três planos fixos, em que o Coringa fala e dois faróis se aproximam, quando eles estão próximos o suficientes, entra de modo triunfal em um quadro maior do que a maioria. Em dois planos gerais, em uma seqüência muda, vemos primeiro Batman e depois o Coringa, é como se cada um se apresentasse ao outro. O outro quadro é a figura sombria de Batman e começa a se repetir a fala que foi enunciada  por Batman na pagina 7;  aqui ele não fala porque não há necessidade; vemos no conflito entre os dois. Virando a pagina vemos a capa de Batman a esquerda e o Coringa a direita, enquanto no meio dos dois está Gordon em uma jaula;  é por ele que os dois lutam, um tentando levar-lo a loucura e o outro tentando salvá-lo. Os próximos dois quadros são primeiros planos dos rostos, primeiro de Coringa e depois de Batman, gerando um contraponto entre os dois.

            Quando o Coringa consegue fugir e fechar a porta o som volta, temos um pequeno atraso na luta entre o herói e o vilão, característica básica das historias de super-heróis. Batman então se ocupa de Gordon. Depois volta a segui-lo, e nos o seguimos junto;  vamos ouvindo a voz de Coringa por uma pagina e quando viramos a pagina continuamos ouvindo o Coringa, mas agora também o acompanhamos,; essa mudança é importante para a entrada de Batman na pagina 43;  nas salas dos espelhos vemos figuras distorcidas do Coringa, distorcidas como seu discurso e é a isso que Batman rompe, quebrando o espelho, em um quadro de destaque e sumindo com essas distorções, trazendo um elemento de realidade e acabando com a loucura do Coringa;  na verdade a pagina termina com o Coringa sendo arremessado da sala de espelhos. E a realidade termina de impor ao Coringa quando Batman conta que Gordon está bem, que não ficou louco e que talvez isso seja fraqueza do Coringa, se refugiar na loucura.

            A partir daí temos a tradicional luta entre os dois. Agora é interessante notar o ultimo quadro da pagina 44, em que a cor é substituída no cenário, reforçando o impacto, a violência do golpe do Coringa ; e também os quatro primeiros quadros da pagina 45, que são dois planos fixos de dois quadros cada. Já na pagina  46 temos a visão de Batman, ele se aproxima do primeiro para o segundo quadro e para com a revelação do Coringa segurando um revolver; o plano detalhe do revolver da´ o destaque e a surpresa de Batman nesse momento , confirmada pelo próximo quadro de seu rosto assustado ; esse e o próximo quadro distorcem as cores do fundo para mostrar a emoção da situação vividas por Batman.

            Agora temos outro momento atípico nas historias dos dois;  o Coringa está abatido, triste, melancólico pelas memórias revividas para que pudesse efetuar seu plano e pela realidade que se impôs a ele; Batman também tenta conversar com ele, darlhe uma chance  de  poder mudar. Na verdade nem parece que Coringa é um louco, ele parece alguém totalmente normal agora. O Coringa nega a ajuda, ele não conseguiria encarar a realidade.

            E conta uma piada, uma clara relação com a situação que acabou de viver; Batman e o Coringa são os dois loucos, e é por isso que Batman ri, mesmo tentando segurar sua imagem sombria ele e o  Coringa nos aparecem muito mais humanos agora. Os dois riem juntos enquanto o som de carros de polícia chegam, o barulho se mistura as risadas e a câmera fecha seu foco na poça de água da onde saiu no começo da historia.

           CONCLUSÃO

           Talvez o que mais marca essa obra é que Alan Moore consegui cria-la  atípicamente  valendo-se de elementos tradicionais das historias de super-heróis, com um domínio impressionante sobre a mítica que envolve dois dos personagens mais tradicionais  da DC; ele fez algo tão diferente ao habitual na época , que a revista marca muito. Batman e Coringa são dois personagens que se contrapõem, um sendo  o oposto do outro, não é a toa que o Coringa é um palhaço; como ser mais diferente de alguém sombrio do que um palhaço? Por isso a cena em que ambos riem juntos no final marca muito, a tradicional resolução de super-heróis, a luta, fica aqui em segundo plano, o conflito final é puramente psicológico. Outro elemento estranho é o passado do Coringa que é contado por ele próprio, assim podemos ter uma maior identificação com ele; seu passado é revelado  de forma trágica e melancólica e entendemos, apesar de não precisarmos concordar com eles, suas motivaçoes;  O desenvolvimento psicológico que nos é apresentado é, também, algo incomum. Vemos como essa obra, junto com algumas outras como Watchmen do próprio Moore e Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, possibilitaram diversas outras que surgiram na década de 90 e como ela influenciou diversos criadores que seguiram alguns dos elementos aqui presentes.

NOTA:

¹ Utilizo aqui a versão lançada pela editora Abril, em 1999

O autor esta´ disponivel para contato no e-mail binhocp@terra.com.br