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Artigos / Articles
"ATRÁS DO SORRISO PINTADO "
"BEHIND THE PAINTED SMILE" (Clic HERE to read original Article)
Por João Paulo Ferreira (analisando a famosa Introdução de "V de Vingança" de Alan Moore- Para ver a versão original, clique AQUI)
Aos 22 anos, Moore enviou
ao Concurso de Roteiros da D.C. Thomson os primeiros rascunhos daquela que seria
uma de suas obras mais marcantes: V de Vingança. Inicialmente, o
protagonista não usava uma máscara, mas uma pintura branca sobre o rosto e a
alcunha de “O Boneco”. Este personagem enfrentava um estado totalitário no
final dos anos 80. No entanto, o projeto fora descartado pelos jurados da D.C.
Thomson.
Na década de 1980, o
surgimento da publicação inglesa Warrior abriu espaço para novos
talentos. Dez Skinn, que fora editor-chefe da Marvel UK (braço britânico
da Marvel), chamou os melhores artistas com quem tinha trabalhado anos antes.
Entre eles, David Lloyd, que foi designado para elaborar uma HQ de mistério
passada nos anos trinta.
Apesar de ter muitas idéias
para este projeto, David Lloyd chegou
a conclusão de que não poderia dar conta do trabalho sozinho. Decidiu então,
chamar Moore para ser o roteirista, uma vez que ambos haviam realizado um bom
trabalho em algumas histórias secundárias da revista Doctor Who Monthly.
O projeto começou a tomar
forma quando Moore optou por criar uma nova abordagem para as histórias pulp
dos anos trinta. Criou um personagem chamado Vendetta, que viveria na década
de 30, recriada a partir de profundas pesquisas sobre o período.
No entanto, Lloyd estava
encontrando dificuldades em recriar os anos 30 com total exatidão. Moore, então,
descartou a idéia dos anos 30 e, depois de algum tempo, chegou a conclusão de
que o que tornava os pulps tão interessantes não era o período histórico,
e sim o “ar exótico” das histórias, com seus bares imundos, coberturas
luxuosas repletas de mulheres e coisas do tipo. Assim, foi proposta uma história
baseada num futuro próximo, na qual David Lloyd poderia criar ilustrações
baseadas no presente. Tanto David quanto Skinn aprovaram a idéia.
Com o projeto de
fazer uma ficção ambientada no futuro próximo aprovada, o passo seguinte
foi definir o protagonista e a ambientação. A idéia de ambientar a história
na Inglaterra surgiu rápido, uma vez que ambos concordavam que este trabalho não
iria concorrer com os comics americanos. Além disso, Moore e Lloyd
compartilhavam a mesma visão pessimista sobre o futuro político da terra da
Rainha: desolador e totalitário.
Inevitavelmente, os
rascunhos de “O Boneco” ressurgiram na mente de Moore. O próprio autor
reconhece que “O Boneco” não era grande coisa da forma como estava
elaborada: falava de um mundo hi-tech inspirado em livros como Farenheit
451 ou filmes como Blade Runner, com robôs, tropas de choque, etc.
Entretanto, “O Boneco” apresentava uma espinha dorsal consistente, mais que
precisava ser re-estudada.
Então, Moore redigiu uma
lista de conceitos que poderiam ser abordadas na história: George Orwell (de
"1984"), Aldous Huxley ( de "Admirável Mundo Novo") ,
Thomas Disch, Juiz Dredd, Harlan Ellison, Batman, O Sombra, David Bowie, Robin
Hood, etc.
Enquanto Moore pensava em
um nome definitivo para o personagem, a ambientação da trama tomava forma: no
futuro próximo, o Partido Trabalhista teria chegado ao poder e, desta maneira,
desativou todo o seu arsenal nuclear. Com a III Guerra Mundial, a Inglaterra não
teria se tornado alvo da União Soviética. Apesar disso, a Inglaterra sofre seqüelas
deste conflito, e acaba caindo nas mãos de um regime fascista.
Nesse meio tempo, Dez Skinn
e seu sócio, Graham Marsh, sugeriram o título V de Vingança (V for
Vendetta). O título caira como uma luva para a história que Moore e Lloyd
estavam realizando. Voltando a concepção visual do protagonista, David Lloyd
propôs um personagem que usaria um uniforme policial futurista: uma roupa
negra, com máscara e um grande V na camisa. Moore percebeu que era algo “óbvio”
demais e, portanto, sugeriu a Lloyd que encontrasse outra alternativa.

Drawing Board )
Este seria o visual de V: Ele usaria um traje policial
futurista
Tempo
depois, Lloyd realizou um verdadeiro achado: criou um personagem que usava uma máscara
que lembrara o famoso terrorista inglês Guy Fawlkes, que tentou explodir a Casa
do Parlamento no Séc. XVII. O protagonista de V de Vingança estava pronto.
Com o personagem principal
definido, o processo começou a fluir facilmente. As idéias que estavam meio
que perdidas na cabeça de Moore começaram a se encaixar. De David, surgiu as
idéias de descartarem as onomatopéias (efeitos sonoros no quadrinhos, recurso
aliás que o Moore usa raramente até hoje) e a ausência dos balões de
pensamento.
Com o personagem e a
espinha dorsal da história pronta, Moore começou a desenvolver as sub-tramas
que se encaixariam na trama principal, enquanto Lloyd começou a esboçar os
personagens secundários, baseando-se em anotações do Moore e de sua própria
intuição.
A estrutura básica de V de
Vingança foi dividida em três partes (ou tomos): A Europa Depois do Reino
(que apresenta V e o seu Mundo), Este Vil Cabaré (os personagens secundários
ganham maior destaque) e A Terra do Faça-O-Que-Quiser (cujas diversas linhas
narrativas são reunidas em um brilhante desenlace). Com isto em mente, Moore
estabeleceu o necessário em dado episódio, mantendo vínculo com o capítulo
anterior e
A
cada roteiro pronto, Moore enviava-os ao Lloyd. Semanas depois, Lloyd enviava a
HQs prontas, mas em escala reduzida. Nesse meio tempo, alguns detalhes da trama
costumam ser ajustados afim de obter um melhor resultado final.
Segundo
Alan Moore, o envolvimento de David Lloyd em V de Vingança foi tão intenso que
seria injusto creditar unicamente o roteirista por esta obra-prima dos
quadrinhos. V de Vingança foi fruto de dois talentos ímpares da Nona Arte.
Ilustração de David Lloyd