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Artigos / Articles
WATCHMEN,
ALAN MOORE, TEORIA DO CINEMA E OS DIRETORES RUSSOS
Se você nunca leu WATCHMEN, este artigo poderá lhe "estragar várias
surpresas"
dessa genial graphic-novel; mas, por outro lado, se você nunca leu WATCHMEN, não
entenderá quase nada das referências mencionadas a seguir e, portanto, ficamos
na mesma – ou seja, você não pode deixar de ler este que é um dos mais
extraordinários trabalhos de narrativa quadrinística já realizados.
ditador
Stalin esmagando as Artes e obrigando a população a chamá-lo de “papai.
Rorschach estava errado,
naturalmente. Existência não é acaso em WATCHMEN, nem sem significado ou
subjetiva. Ela é, isto sim, marcada deliberadamente por uma série de eventos
interconectados e detalhes que seus próprios personagens são incapazes de até
mesmo reconhecer, muito menos, impor.
A estória, pela forma
como é contada, vai ganhando significância paulatinamente. Eu apostaria o
pecado contra a salvação que Alan Moore estava sutilmente atento a este fato
quando ele cunhou a frase acima, a qual empresta igualmente um pouco da mesma
luz do esclarecimento na seguinte (encontrada na mesma página): “ Perscrutei
o céu e Deus não estava lá. As trevas sufocantes e fria são eternas, e nós
estamos sozinhos”.
Embora
não sejam todos os Quadrinhos que usaram tão deliberada e eficientemente esta
técnica de narrativa do cinema quanto WATCHMEN.
O primeiro é mais
simplista, o que talvez explique ser Eisenstein mais popular junto aos diretores
contemporâneos, mas eu discordo.
É tão simples como uma
fórmula matemática corriqueira: Tomada 1 + Tomada 2 = Idéia. Você junta as
duas imagens e obtém uma nova estrutura, uma concepção que é transferida ao
espectador. Auto-suficiente e independente, e que pode ser utilizada para expor,
descrever, contrastar, fazer um paralelismo ou simbolismo, na verdade, quase
todos os efeitos que o diretor aspira.
Sintetizando
novamente: Paredes + Teto = Casa. Duas tomadas destas nos dão a idéia de estar
vendo uma casa mais rápido do que a nossa própria respiração.
É a fórmula básica,
que pode ser explorada à exaustão, emulando
novas perspectivas e até estados de espírito. Outro exemplo: Paredes + Teto +
Logotipo dos “Vingadores “ = “A
Sede dos Vingadores” – fica a
critério do artista o quanto nos “informar” com suas cenas em seqüência.
O som, também, integra
a montagem, daí eu ter escrito “tomada” ao invés de “imagem”. Sei que
ainda é um termo inadequado, mas estou me
restringido ao que os russos nos legaram. Imagine a cara assustada de um homem.
O que ela nos diz? Na verdade, nada. A melhor descrição seria simplesmente “
um homem com a cara de assustado”. Afinal,
não sabemos o quê realmente está a assustá-lo. Todas as nossas evidências
resumem-se num mero rosto
espantado.
Agora acompanhe esta
imagem pelo som do estampido de uma arma de fogo e você automaticamente
“liga” as duas e, bingo!, conclui que o homem está assustado por causa do
tiro, da ameaça que aquilo representa – ao menos que o nosso homem seja “O
Justiceiro”.
Mas esta mesma imagem
acompanhada de outro som, digamos, a voz de um bebê dizendo “Estou com fome,
Surfista”, já transporta-nos do
drama à comédia. Pelo menos para os quadrinhomaníacos, que sabem que a voz de
Galactus soaria tonitroante como a de James Earl Jones.]
Toda essa concepção de
justaposição de imagens gerando um significado, preconizada por Pudovkin, é
largamente empregada em WATCHMEN já na sua primeira página – observem como
ela está altamente conectada tanto com ela própria quanto com toda a estória:
(legenda: nº nº nº = Capítulo/Página/
Quadrinho)
1.1.1.
O diário de Rorschach comenta a “verdadeira face” da cidade, e nós
vemos a “carinha sorridente” no bottom jogado ao chão, “a
verdadeira face” de quase tudo e todo mundo na estória a uma certa altura;
uma mancha cobrindo um olho, ou, mais simbolicamente, uma percepção
obscurecida. Rorschach na verdade não vê a “face real” da cidade ou do
mundo, mas, irônicamente, ele
meramente pensa que vê – como todo mundo na estória. Na verdade, a cara é
igual à sua própria (reporte-se novamente ao livro de Scott McCloud para
entender a universalidade pictográfica de uma “carinha” estilizada, como
nos desenhos infantis). Mas Rorschach não se dá conta disto;
se tivesse esta “consciência”, se realmente soubesse o tanto que ele
pensa que sabe, ele não se
julgaria tão esperto.
Ao contrário, ele
afirma seu descaso pela falsa “verdadeira face”, não
reconhecendo a “carinha risonha” como a única “face verdadeira”
tanto da cidade, quanto do mundo e de si próprio.
1.1.2. Rorschach,
comentando poeticamente o “pecado encoberto” da cidade está correto:
“os bueiros ’ realmente ESTÃO cheios de sangue. Muito sangue.
1.1.4.
Ele diz: “ acompanhando as pegadas” e as pegadas sanguinolentas
aparecem.
É outro brinquedo de
Pudovkin com o qual Alan Moore obtém “alguma diversão”: a noção de
simultaneidade. A exposição (ou descrição)
intercalada de dois eventos, quase sempre coincidentes, na qual o efeito
de um depende do efeito do outro.
Nas cenas na Antarctica,
no final da série, nós “presenciamos” eventos sob três perspectiva
diferentes e simultâneas que eventualmente se conectam. Moore joga com esta
sincronicidade ao colocar Dr. Manhattan – para quem o Tempo é unificado (ele
tem a visão de tudo como num “eterno e sólido
presente”) - dizendo a
mesma coisa duas vezes, num espaço de 90 segundos, enquanto os seus “eus”
se dividem para dar atenção (simultânea) tanto a Silk Spectre quanto à
Rorschach.
Dessa forma, tendo reduzido Pudovkin ao essencial, mostrando minimamente a sua presença em WATCHMEN, distorcendo suas teorias e “embriagando” seus leitores, o nosso autor retorna à sua Fortaleza da Solidão, para tomar cerveja crua e “refazer-se” para seu sinistro retorno, esmiuçando a titânica influência de Sergei Einsestein sobre o Cinema, a Montagem e, em WATCHMEN.
“ Uma
imagem pode confrontar-se irônicamente com o texto, ou pode ser usada para calçá-lo,
ou até mesmo não ter nenhuma relação com ele – o que força o leitor a ver
a cena com outros olhos. De certa forma você pode obter efeito similar no
cinema, em termos de jogar com justaposições interessantes entre o que é
mostrado e o que é a intenção das personagens em cena, mas nunca com a mesma
eficiência com a qual você pode fazer isto nas HQs. Nelas, o leitor pode
interromper a bel-prazer a leitura, observar cautelosamente e por mais tempo uma
única página ou quadrinho, e até encontrar ali um significado “per si”
– enquanto no filme estes “quadros” lhe são atirados a uma velocidade de
24 por segundo.”
Alan
Moore, em entrevista.
Passemos então à
teoria de Eisenstein para a Montagem, que costuma suplantar Pudovkin e é um
pouco mais difícil.
Só para recapitular;
Tomada + Tomada = Idéia.
Eisenstein afirma que a
Montagem origina-se, não como uma estrutura “construida
tijolo-a-tijolo”, mas justamente na oposição de duas tomadas. Elas
podem ser similares ou dissimilares, mas o conceito da Montagem sobrevém
justamente deste “conflito”.
Se a Montagem de
Pudovkin são as velas de um motor de carro funcionando lado-a-lado
sinergicamente, a de Eisenstein seria a faísca liberada num curto-circuito
entre elas.
Tornando mais claro é
como se, para Pudovkin, a forma resultante da combinação de duas outras, compõe
a idéia que ele deseja expor ao seu espectador.
Para Eisenstein, não.
Para ele, o objetivo não
é a nova estrutura obtida após um par de imagens; o significado não está nas
tomadas em si, ou no que elas se combinam para formar; mas, sim, NO ESPAÇO
VAZIO DENTRO DA NOVA TOMADA.
O que isto quer dizer é
que, mesmo que ambos os diretores se valham das mesmas tomadas para expressar
uma idéia, eles confrontam-se radicalmente na forma de explicar como a mente
vem a perceber aquela idéia.
Mas você, como eu, não
está nem aí para o cinema russo e quer saber mesmo é dos Quadrinhos que,
enquanto utilizam as mesmas técnicas narrativas, nos brinda com muita ação,
sangue e sexo. Ok. Um exemplo perfeito da teoria eisensteiniana é encontrada em
WATCHMEN, capítulo VI, página 21, quadrinhos 2 ao 5. Acompanhem comigo, vamos
descrever juntos o que vemos, primeiro, quadro a quadro e depois de
quadro para quadro (HÀ uma diferença).
Primeiro nós vemos
Rorschach segurando uma machadinha de açougueiro, caminhando em direção aos
cachorros. Depois vemos a mão dele segurando firmemente a machadinha. Em
seguida, os cães, parecendo felizes. Finalmente, o braço levantado de
Rorschach brandindo o machado.
Agora vamos ver o que
acontece de quadrinho para quadrinho, como se fosse uma leitura real e se ela já
se iniciasse por esta página: vemos Rorschach e os cachorros próximos uns dos
outros; Focamos na mão de Rorschach empunhando a machadinha; Observamos os cães
felizes e ignorantes, como se estivessem a fazer festa em seu dono. Vemos então
o braço elevado, pronto para liquidar com os cães.
Captou o lance? Você
poderia contar que Rorschach usou a machadinha contra os cachorros. Mas a sua
mente não está ciente disto ao acompanhar cada quadrinho
isoladamente, por si próprio. É a conexão que a mente faz entre as imagens
que cria a percepção do acontecimento. Sua mente não
tem uma compreensão final ou percebe o significado de um quadrinho
isolado, até que ele é inserido num contexto, junto com os outros. Pense sobre
isto.
Legal, não é? Vamos
ver como isto acontece:
-- Primeiro nós vemos
Rorschach e os cachorros nas proximidades.
-- Agora focamos na sua
mão empunhando a machadinha. Já sabíamos que ele tinha uma machadinha. Mas
agora nossa atenção é dirigida, guiada à mesma, para nos mostrar que ela tem (terá) um “significado”. A
descrição se altera de ver para focar.
--
Observamos então os cães, ignorantes e felizes, como se na iminência de fazer
festa ao seu dono que chega. Este
é o ponto-chave! A nossa atenção se dirige da machadinha para os cachorros,
ou “instrumento para picar carne” para “carne viva”. O foco da
machadinha está nos cachorros. Mesmo que falhemos em percebê-lo, Moore e
Gibbons conduzem nos: o olhar feliz dos cães transmite-nos a sensação de que
eles não podem sequer imaginar nenhuma ameaça vinda do homem com o machado.
Eles são ignorantes. E esta sua inabilidade de perceber o significado é um
sinal ao leitor de que, ele, como um ser consciente, tem de fazê-lo. Os autores
não nos apresentam somente uma montagem, eles nos contam o que estão a fazer.
-- Vemos agora o braço
de Rorschach elevado, pronto para desferir o golpe mortal nos cães. E o que
isto implica então se torna claro, indubitável. Ele vai atacá-los como o próximo
quadro efetivamente mostra.
Esta
série de imagens carreia, com muito mais propriedade e não menos impacto, o
que uma única cena de Rorschach partindo ao meio a cabeça de um cachorro só
alcançaria parcialmente. Sem o grand
guignon, o horror melindroso que arrefeceria o horror verdadeiro e cru que a
cena vem a revelar, seria depreciado sensivelmente.
T.S.Eliot,
poeta e crítico, acreditava que para realmente se compreender um
movimento literário, mister se faz conhecer todos os que o antecederam. E mais.
Ele asseverava que também era necessário se compreender os que o precederam.
Nosso entendimento do
Iluminismo, Romantismo e literatura vitoriana foram definitivamente ampliados
pelo que sabemos do Modernismo, não é verdade? O que você pode fazer somente
com os quadrinhos isolados? Tendo lido a página inteira, você jamais enxergará
com os mesmos olhos Rorschach em frente aos cães, como da primeira vez.
Você agora conhece não somente o passado ou o presente, mas também,
“o futuro”. 
Isto é Montagem, isto
é Eisenstein e isto explica porque WATCHMEN
e o cinema russo são bacanas. Será que Pudovkin, embasado na sua
teoria, poderia obter esta mesma epifania usando a mesma sequência de
quadrinhos para contar a mesma estória?
Certamente. Mas de forma superficial se levarmos em consideração a
complexidade psicológica da percepção humana, a qual permite uma manipulação
mais delicada e elaborada de nosso entendimento através de nossos sentidos. Uau!
O que quero explicitar
é que WATCHMEN sendo a obra formal que é, toma uma direção muito mais
voltada à filosofia da Montagem einsensteniana do que a
simplista “sempre-avante” pudovkiana. Pudovkin arranjava as tomadas,
“tijolo-por-tijolo”, até construir um edifício. Mas você não pode
aplicar esta metáfora na Montagem
de Eisenstein, cuja teoria permite a desconstrução ou a construção em
paralelo. Ambas chegam a uma estrutura completa, mas somente Eisenstein rejeita
restrições lineares.. Tijolos podem flutuar pois, logo depois, terão a base
formada por outros tijolos para continuarem a construir. Metade dos números de
WATCHMEN usam extensivamente os flashbacks e ações coincidentes,
imagens, palavras e temas dominam a novela-gráfica. Com grande força.
Mas não se engane
concluindo que a Montagem não pode existir num só quadro, ou que ela requer
som para “funcionar”. Uma Montagem consideravelmente complexa é encontrada
no Capítulo I, página 18, no 4º quadrinho. Inclusive, foi este quadro que me
alertou para o fato de que Alan Moore deve realmente ter estudado a Montagem
eisensteiniana ou uma de suas disciplinas.
Há uma passagem já clássica
do filme de Eisenstein “O Encouraçado Potemkin”na
qual o maravilhoso exército real russo está atirando nos civis desarmados, na
sua maioria mulheres, crianças e velhos naturalmente, o que torna a cena muito
mais monstruosa. A seguir assistimos, petrificados, ao carrinho com um bebê esgovernado
descambando degraus abaixo meio à saraivada de balas, na famosa cena da
escadaria de Odessa – descaradamente “chupada” em “Os
Intocáveis” – ou, como Rob Liefeld classificaria o fato:
“homenageado”. Nesta famosa seqüência há três tomadas sucessivas de estátuas
de leões – um dormindo, um levantando-se e outro saltando – para simbolizar
o despertar do povo russo contra a tirania czarista.
Como você comprova na página
18, uma cena bastante similar está em WATCHMEN.
Veidt de pé, mãos cruzadas às
costas, assiste humildemente na janela à partida de Rorschach, tendo Nova
Iorque como paisagem. Sobre a mesa atrás dele, estão três bonequinhos
articulados de Ozymandias, em distintas posições. O mais próximo dele, está
desconjuntado e torcido, em decúbito ventral, os membros “esparramados” e a
cabeça torta; O segundo se eleva imponente, levantando uma mão com
grandiosidade, como se a abençoar todo um séqüito; E o último está sentado,
como se num trono, arrogantemente “patrulhando” alguma coisa que estaria bem
abaixo dele.
O que é apresentado
neste quadro são dois lados de duas estórias; temos a boa e a má versão de
Veidt em ambas as pontas do poder; O Veidt verdadeiro se mantém quieto,
imponente, transpirando dignidade e magnificência. O segundo Veidt não-ameaçador,
o primeiro boneco, parece ter sido torturado. Em choque explícito com o modelo
no qual foi inspirado, esta figura não é intimidatória e nunca poderá ser,
mesmo para os seus pares em plástico. O primeiro Veidt apresenta-se
auto-confiante e destemido, ao contrário do segundo, o qual carece de dignidade
e apenas denota impotência. O
terceiro Veidt também expressa poder, mas apenas isto. Seu punho cerrado é
significativo, mas mais ainda, sua mão levantada, benevolente. Este Veidt é
esbelto e alto, bem proporcionado, pronto para entrar em ação, o padrão
idealizado dos heróis. O último Veidt aparenta mais tendência a abusar do que
a usar o poder. Sua posição sentada é lânguida como se a esperar o mundo
dirigir-se à sua pessoa real. Tudo isto nos mostra o potencial de Veidt tanto
para o bem quanto para o mal, ação e passividade, poder e inércia. O tamanho
despadronizado do quadro e o foco nas quatro figuras implica em visível
significância de todos os detalhes.
Então é isto. Agora você entende de Montagem cinematográfica à luz
de alguns de seus
expressivos pioneiros, os dois diretores soviéticos citados, e pode aplicar seus novos conhecimentos para entender melhor
o formalismo de WATCHMEN. Não fará feio também em nenhum encontro com seus
colegas leitores e admiradores da Nona Arte. Mas use seus novos conhecimentos de
maneira centrada pois, como todo leitor de Quadrinhos tem ciência, “todo
poder vem acompanhado de grande responsabilidade”. Ou, dependendo, de grande
arte.
BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA: &nbs
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Wiater, Stanley and Bissette, Stephen R. Comic Book Rebels:
McCloud, Scott. Understanding Comics. Northampaton: Kitchen Sink Press,
1993.
Eisenstein, Sergei. "Film Form: The Cinematographic Principle and
the Ideogram." Film
Theory and Criticism. Ed. Gerald Mast and
Marshall Cohen. Oxford: Oxford University Press, 1985. 90-123
Pudovkin, Vsevolod. "Film Technique." Film Theory and Criticism.
Ed. Gerald Mast and Marshall Cohen. Oxford: Oxford University Press, 1985. 83-89
(Eu não li ainda, mas
este também merece uma atenção:
(matéria publicada por
4-Color Review )